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sábado, 21 de abril de 2012

Sempre ouvi que a vida é uma causa perdida. Será?


Fonte: Revista Piauí.

Li recentemente uma correspondência publicada no final do ano passado pelo grupo de Cassatella na Nature Immunology. Nela, o grupo ataca de forma contumaz um artigo publicado na mesma revista pelo grupo de Cerundolo em novembro de 2010. O grupo de Cerundolo afirma que a amilóide sérica A1, uma proteína de fase aguda, induz a secreção de grandes quantidades de IL-10 por neutrófilos humanos – de 100 a 400 ng/mL. Em contrapartida, o grupo de Cassatella refuta tal dado, alegando que o mesmo experimento fora feito em quatro laboratórios diferentes espalhados pelo mundo – um no Reino Unido, dois na Itália e um na Alemanha - e que os resultados obtidos são contrários aos do grupo de Cerundolo, mesmo utilizando diversos estímulos, incluindo a própria amilóide sérica A1.
            Num primeiro momento, encarei inepto aqueles resultados. O que me interessava, a priori, era saber se o neutrófilo produz ou não IL-10, já que muitos artigos estão mostrando por aí a presença desse tal neutrófilo regulador; mas, a posteriori, fiquei pensando cá com os meus botões: “teria o grupo de Cerundolo se enganado com os dados publicados? Ou o grupo de Cassatella teria sido intransigente demais, a ponto de levantar o dedo em riste e alegar uma possível farsa? Ou seriam meramente resultados opostos? Ou ainda problemas técnicos durante a detecção de IL-10?” Não cabe a mim analisar o mérito da questão, porém muito me intrigou a forma recriminatória que um grupo comentou o trabalho do outro. Não façamos falso julgamento de ninguém, mas certamente essas questões nos remetem a um assunto recorrente aqui no blog: a falta de idoneidade no mundo da pesquisa.
            Estático, acompanhei mais uma matéria publicada na revista Piauí sobre novas suspeitas de fraude cometidas por pesquisadores brasileiros. A matéria tem como título Os alquimistas, fazendo alusão a químicos brasileiros. O texto – muito bem escrito, por sinal – põe em xeque onze estudos publicados, os quais foram retratados recentemente pela Elsevier. Acompanhe ipsis litteris trechos da matéria: “... Como engenheiro químico, o pesquisador altera a estrutura de materiais que ocorrem espontaneamente na natureza. Ele trabalha principalmente com argilas coletadas por geólogos em trabalhos de campo, sobretudo na Amazônia. ‘O geólogo não tem grande interesse nos materiais com que trabalho, às vezes até os despreza’, explicou. ‘Mas na mão de um engenheiro químico eles podem ser modificados.’ O pesquisador insere moléculas nessas argilas a fim de lhes conferir propriedades de interesse industrial. ‘Esse material, por exemplo, tem esse espaço vazio’, ensina ele, apontando para a imagem de microscópio de uma esmectita na tela de um computador. ‘Aqui dentro posso colocar uma molécula orgânica que a torne mais reativa.’” A técnica de ressonância magnética nuclear é então utilizada para confirmar a inserção de tais moléculas, gerando um espectro. “O objeto das suspeitas de fraude são justamente os resultados desses exames de ressonância magnética nuclear. O autor e os cosignatários do trabalho estão sendo acusados de manipular os espectros: haveria a repetição do padrão de ruídos em vários gráficos – algo impossível para uma medida que deveria ser randômica. Quem chamou a atenção da Elsevier para essas irregularidades foi um pesquisador português da Universidade de Aveiro, mantido no anonimato pela editora.” (leia a matéria completa aqui).   
            Aliás, é inacreditável a disseminação desta prática abominável em todas as esferas institucionais, seja na política, no poder judiciário, ou mesmo nas instituições de ensino superior. É uma espécie de banalização da corrupção. E, nas universidades, isso não está arraigado apenas no ato da publicação, mas também se proliferou como um câncer nos recantos mais sombrios dos próprios laboratórios de pesquisa. Não é novidade alguma ouvirmos casos de processos judiciais, ou de pessoas que prejudicam o andamento do projeto de outrem, ou mesmo de pessoas sem escrúpulos que burlam resultados em artigos científicos. Mas o que torna essa prática cada vez mais frequente no ambiente acadêmico? Certamente toda essa engrenagem é movimentada pelo olhar altaneiro da má fé, que gera resultados rápidos e consequentemente alicerça o arrivismo.           
A vida, meus caros, se esvai como neve ao sol, e seguramente aqueles que se utilizam de interesses vis e escusos para atingir os seus objetivos não conseguiram entendê-la. É certo que não nos interessa a inocuidade generalizada no mundo da pesquisa, mas também não queremos adeptos da idéia maquiavélica de que os fins justificam os meios. Assim como na imunologia, a vida é regida pelo equilíbrio; pena que muitos não conseguiram captar o seu verdadeiro significado.
Post Scriptum: Ah! Sou da opinião de que neutrófilos não produzem IL-10. E, se produzem, não alcançam níveis tão estratosféricos como o anunciado.

Referências:

Davey MS, Tamassia N, Rossato M, Bazzoni F, Calzetti F, Bruderek K, Sironi M, Zimmer L, Bottazzi B, Mantovani A, Brandau S, Moser B, Eberl M, Cassatella MA. Failure to detect production of IL-10 by activated human neutrophils. Nat Immunol. 2011 Oct 19;12(11):1017-8.
De Santo C, Arscott R, Booth S, Karydis I, Jones M, Asher R, Salio M, Middleton M, Cerundolo V. Invariant NKT cells modulate the suppressive activity of IL-10-secreting neutrophils differentiated with serum amyloid A. Nat Immunol. 2010 Nov;11(11):1039-46. Epub 2010 Oct 3.
De Santo C, Salio M, Dong T, Reiter Y, Cerundolo V. Reply to "Failure to detect production of IL-10 by activated human neutrophils". Nat Immunol. 2011 Oct 19;12(11):1018-20.


Post de Tiago Medina (doutorando FMRP – Iba)

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4 comentários:

  1. Elyara FMRP-USP-IBA24 de abril de 2012 00:11

    Sensacional Tiaguito!!Congratulations!

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  2. Parabéns pelo post! Adoro essas questões "práticas" e sombrias do nosso dia a dia. Tomara que "caia a ficha" dos contraventores, e de quem os 'alimentam'. E se isso não ocorrer, que esses assuntos levantados levem as pessoas que detém o poder e capacidade de colocar em prática alguma ação que fiscalize esses erros. Adorei o texto.
    Ps.: seria muito difícil um coordenador de grupo, após se deslumbrar com um gráfico e se rasgar de elogios ao futuro Einstein que o fez, solicitar que outro integrante do lab (não relacionado com o trabalho em pauta obviamente) ou mesmo um técnico, refaça alguns dos experimentos, só para confirmar o dado??? Afinal, vamos combinar que é no mínimo estranho que uma técnica "dê certo" somente na mão de uma, ou pouquíssimas pessoas, né? Será que cada laboratório tem seu "menino do dedo de ouro"? rs

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  3. Tiago, eu gostei imensamente do seu post. Primeiro porque, como iniciante na pesquisa, eu já imaginava que fraudes e a atitudes incoerentes seriam possíveis, só não imaginei que era tão frequente assim. Veja bem, tu mesmo falaste que tem até uma matéria sobre isso, no Brasil, aquela do Piauí. Eu não faço ideia se neutrófilos produzem IL-10 ou não, mas o que me intriga é: dois estudos assim na Nature? Imagine o que isso vai dar ainda... obrigada pelo post, assim, sensacional, rico e muito bom. Parabéns!!

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