BLOG DA SOCIEDADE
BRASILEIRA DE IMUNOLOGIA
Acompanhe-nos:

Translate

quarta-feira, 25 de abril de 2012

E o vento levou

Correntes de ar na atmosfera da Terra podem ser responsáveis pela disseminação de vírus através dos continentes.

Seasonal winds from central Asia could be bringing Kawasaki disease into Japan.

Em 1981 em Denver (Califórnia, EUA), a Dra. Jane Burns atendeu a uma mãe desesperada que deu entrada no hospital pediátrico da Escola de Medicina do Colorado (UCSD) com seu bebê doente, ambos vindos de Wyoming.

A menina apresentava febre alta e inúmeras erupções na pele. Após vários exames, o Dr. Richard Anderson, infectologista da UCSD, suspeitou que poderia ser um caso da doença de Kawasaki, uma misteriosa e incomum doença inflamatória que atinge principalmente crianças com idade inferior a 5 anos.

A doença é caracterizada por inflamação disseminada dos vasos sanguíneos causando uma série de sintomas drásticos (veja quadro abaixo).


A Dra. Burns ficou estupefata com a suspeita do infectologista, uma vez que a doença era pouco comum, mesmo no Japão onde foi descrita pela primeira vez na década de 60. De fato, a Dra. Burns apenas conhecia a doença devido à coincidência de estar no hospital onde, no ano anterior, foram identificados os dois únicos casos já registrados nos EUA. E agora, tudo indicava que ela havia encontrado o terceiro caso da doença.

Infelizmente, em menos de 12 horas após o diagnóstico da doença o bebê faleceu.

Fascinada pela misteriosa doença, Jane participou da autópsia da pequena menina e viu mais uma vez uma das características marcantes da doença, um aneurisma no coração.

“… I'll never forget opening up her chest and looking at her heart and seeing the aneurysms sitting there...”

Desde aquele dia em 1981, a Dra. Burns tem se dedicado ao estudo da doença de Kawasaki, sempre que consegue financiamento, é claro. Entretanto, ela não é a única. Para o Dr. Ian Lipkin, um epidemiologista do Center for Infection and Immunity da Columbia University em Nova York, a doença de Kawasaki é algo que tem fascinado pesquisadores em doenças infecciosas desde a sua descoberta. Segundo Lipking, é impressionante que ainda não fomos capazes de identificar o agente causador da doença.

No entanto, os epidemiologistas agora têm um novo local para investigar: as correntes de ar vindas da Ásia Central.

Na edição de Novembro de 2011 da revista Scientific Reports, uma equipe de médicos e cientistas climáticos, incluindo a Dra. Burns, mostraram que o suposto agente causador da doença de Kawasaki, não só viaja através das correntes de ar vindas da Ásia como também consegue atravessar o oceano Pacífico e infectar crianças no Havaí e no continente norte-americano.

Se a teoria do “Windbourne spread”, assim como chamada, se mostrar verdadeira, a doença de Kawasaki terá a primeira descrição de um patógeno viável capaz de atravessar milhares de quilômetros de oceanos por vias naturais (ao contrário da disseminação através de viajantes em aviões ou navios). E não pára por ai. Os cientistas estão começando a se perguntar se o vírus influenza (causador de vários tipos de gripe) poderia ser disseminado pela mesma forma.

A mais forte evidência que o grupo possui no momento é a observação de que o número de casos da doença de Kawasaki no Japão têm seu pico na estação em que os ventos mudam de direção, soprando da Ásia para o Japão. Quando o vento sopra na direção oposta, o número de casos cai drasticamente.

Como toda nova descoberta que desafia a convenção atual, o estudo tem sido alvo de questionamentos e críticas. Dentre elas, alguns microbiologistas rebatem que nas altitudes em que as correntes de ar se locomovem, a radiação ultravioleta e as temperaturas congelantes eliminariam quaisquer patógenos microbianos antes que estes tivessem uma chance de atravessar os oceanos e infectar alguém. Frente a esse questionamento, o grupo da Dra. Jane Burns se defendeu de forma descontraída e inteligente.

“…My background is molecular virology. When I preserve my viruses in the lab, what do I do? I desiccate them and freeze them at −80°C. Well, hello!!! Those are the conditions up in the troposphere…”

Além disso, as correntes de ar são carregadas de poeira. Se alguém observar um grão de poeira ao microscópio verá que ele pode conter um inteiro microuniverso. O grão de poeira é repleto de crateras, protuberâncias e reentrâncias que poderiam facilmente abrigar patógenos protegendo-os das radiações ultravioleta.

De fato, é perfeitamente aceitável que o vento possa carrear patógenos. Exemplos incluem a Coccidioidomicose, ou febre do vale, uma doença humana causada por fungo que aparece no sudoeste dos EUA após tempestades de areia ou quando terremotos sacodem a poeira (e esporos) do solo. E em distancias maiores, há evidências de que o fungo Aspergillus sydowii pega uma carona em tempestades de areia que se originam no continente africano e causam doenças em turistas nas ilhas do Caribe(1).

Finalmente, foi demonstrado após cultura de poeira capturada a mais de 18 Km de altitude, na estratosfera, que 10 – 20% de sua constituição é composta por microorganismos patogênicos (2).

No momento, o maior problema enfrentado pelo grupo para provar sua teoria é a ausência de um patógeno conhecido, já que o causador da doença de Kawasaki permanece desconhecido.

Para resolver esta questão, em março de 2011 um engenheiro, utilizando uma roupa protetora para prevenir contaminação, foi "acoplado" a um avião (não me pergunte como) e coletou amostras de ar através da rota Ásia-Japão na estação em que os casos da doença de Kawasaki estão em alta. O grupo agora irá realizar experimentos de metagenômica, que consistem em sequenciar todo o DNA encontrado nessas amostras para identificar quais microrganismos estariam presentes. Haja dinheiro.

Enquanto isso, quem será o agente causador da doença de Kawasaki,

"The answer, my friend...

         ...is blowing in the wind"

Comente com o Facebook :

9 comentários:

  1. Caramba. Que notícia, hein... Adorei o post.

    ResponderExcluir
  2. Sensacional esse post!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Frederico,

      Muito obrigado mesmo. É mto gratificante saber q i post lhe foi útil....

      Excluir
  3. Maria Bellio (UFRJ)26 de abril de 2012 13:02

    Muito interessante!

    ResponderExcluir
  4. Muito bom o post. No caso de doenças causadas por vetores, tem alguns estudos bem interessantes sobre furacões e sua associação com alguns surtos em lugares onde os vetores não habitam. No caso de esporas, vírus e bactérias então...

    ResponderExcluir
  5. Fala Fredy. Mto obrigado.

    Interessante isso. De que tipo de vetores estes estudos tratam? Mosquitos?

    Abs...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Td Bom Bernardo? Tem alguns sobre barbeiros, e flebotomos, mas nesses casos trajeto e mas bem curto. Nao lembro bem as referencias mas uma vez fiquei fascinado com um trabalho na PLOS abordando algo parecido. Acho que essas ref tratam o assunto PMID: 19505255; PMC2813165; 16896132 e tem muitos mais. As condicoes de humidade relativa, pluviosidade, etc também poderiam ajudar na preservacao e transporte de patógenos. Porém, provar iso experimentalmente e bem dificil. Mesmo com o que voce comentou da coleta de particulas do ar...

      Excluir

©SBI Sociedade Brasileira de Imunologia. Desenvolvido por: