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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Nada é tão ruim que não possa piorar: Associação da diabetes com tuberculose

Figura do artigo Tuberculosis and diabetes mellitus: convergence of two epidemics (aqui).

Nos últimos 20 anos houve um importante progresso na redução de novos casos de tuberculose (TB) no mundo. Contudo, a TB permanece como um problema serio: um terço da população mundial está infectada pelo Mycobacterium tuberculosis e é a mais importante causa de morte das infecções intracelulares. O aumento da prevalência do diabetes nas áreas endêmicas para TB ameaça complicar as projeções de redução da TB. O diabetes pode estar implicado como causa em 15% dos casos atuais de tuberculose. Vários estudos de coorte demonstraram a relação entre diabetes e tuberculose, com risco três vezes maior de desenvolver TB em indivíduos diabéticos que nos não diabéticos. Os pacientes com TB e diabetes apresentam resposta pior ao tratamento, uma taxa mais elevada de recaída e maior risco de morte. O assunto tem despertado interesse e foi objeto de uma serie do The Lancet Diabetes & Endocrinology (aqui).
A associação diabetes e TB tem um claro componente imunológico. A passagem de uma infecção latente para TB e a destruição tecidual tem uma implicação reconhecida do sistema imune do hospedeiro. A diabetes apresenta um estado crônico de inflamação de baixo perfil, com envolvimento de diversos mediadores. 
Neste tema, Andrade et al publicaram um estudo que avança na descrição da patogênese desta comorbidade. (Heightened Plasma Levels of Heme Oxygenase-1 and Tissue Inhibitor of Metalloproteinase-4 as Well as Elevated Peripheral Neutrophil Counts Are Associated With TB-Diabetes Comorbidity. Chest. 2014;145(6):1244-1254. doi:10.1378/chest.13-1799). (aqui) Eles investigaram vários produtos envolvidos na patogênese da TB e do diabetes e concluem:
“… we also analyzed a variety of other factors known to play a role in either diabetes or TB. We assessed the importance of these multiple markers in discriminating individuals with TB and T2DM from individuals with TB and no T2DM using PCA and cluster analysis. Our results argue that although significant differences exist in other param- eters between the TB with T2DM and TB without T2DM, it is HO-1 in conjunction with TIMP-4 and ANC that provides the most accurate combined parameter of TB and T2DM comorbidity.”
Figura do artigo Chest. 2014;145(6):1244-1254. doi:10.1378/chest.13-1799

Uma revisão recente (Hodgson et. al, Immunological mechanisms contributing to the double burden of diabetes and intracellular bacterial infections. Immunology 2014 Accepted doi: 10.1111/imm.12394 aqui) aqui trata dos aspectos imunológicos desta associação que envolve diversos mecanismos do sistema imune:
"The reduced phagocytic and antibacterial activity of neutrophils and macrophages provides an intracellular niche for the pathogen to replicate. Phagocytic and antibacterial dysfunction may be mediated directly through altered glucose metabolism and oxidative stress. Furthermore, impaired activation of natural killer cells contributes to decreased levels of interferon gamma, required for promoting macrophage antibacterial mechanisms. Together with impaired dendritic cell function, this impedes timely activation of adaptive immune responses. Increased intracellular oxidation of antigen presenting cells in individuals with diabetes alters the cytokine profile generated and the subsequent balance of T cell immunity. The establishment of acute intracellular bacterial infections in the diabetic host is associated with impaired T cell-mediated immune responses. Concomitant to the greater intracellular bacterial burden and potential cumulative effect of chronic inflammatory processes, late hyperinflammatory cytokine responses are often observed in individuals with diabetes, contributing to systemic pathology. The convergence of intracellular bacterial infections and diabetes poses new challenges for immunologists, providing the impetus for multidisciplinary research.“




quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Visões sobre o Curso de Imunologia pré-congresso, pool party by night - Immunobúzios 2014

     O Congresso da SBI de Búzios deste ano foi excelente. Fui selecionado para participar do curso de Imunologia pré-congresso e foi uma experiência incrível, nos dias 17 e 18/10. A intenção deste curso pré-congresso é preparar os participantes com aulas básicas, introdutórias, que seriam aprofundadas ao longo do congresso. Começou com a brilhante palestra do Dr João Marques, da UFMG, sobre "Evolução do sistema imune animal", versando desde os organismos mais remotos e "inferiores" até os vertebrados "superiores" atuais, pontuando em que momento da escala evolutiva surgiram cada um dos componentes da resposta imune, desde moléculas, como os anticorpos, até os macrófagos (amebócitos no caso de esponjas) e linfócitos B e T, ou seja, imunidades inata e adaptativa. Escrevi "inferiores" entre aspas, porque, como brincou o palestrante seguinte, Dr Daniel Mucida, da Rockfeller University, seria um desrespeito chamar Drosophila de seres "inferiores" na frente de alguém (o próprio Dr João Marques) que pesquisa estes insetos, e cujos estudos levaram à descoberta dos Toll-like receptors e ao prêmio Nobel de 2011 a Bruce Beutler e Jules Hoffman. Este, que por sua vez, será o homenageado do próximo congresso da SBI no Guarujá, em 2015.
     Dr Mucida abordou a "Imunologia das mucosas", focando no sistema gastrintestinal, uma vez que as mucosas, em conjunto com o trato respiratório e o geniturinário perfazem o maior órgão linfoide do nosso organismo, e os outros tratos seriam abordados com mais profundidade por outros pesquisadores durante o congresso. Mucida voltaria a palestrar posteriormente sobre "Vigilância imunológica intestinal por linfócitos intraepiteliais", no Simpósio sobre Imunologia das Mucosas, dia 19. Em seguida, Dr Sergei Grivennikov, do Fox Chase Cancer Center, EUA, falou sobre "Imunologia de tumores", enfatizando os "papeis pró- e anti-cancer do sistema imune". Miguel Soares, do Instituto Gulbenkian de Ciências, Portugal, fechou o dia falando sobre "Dano tecidual e reparo na resposta imune", o papel dos DAMPs (padrões moleculares associados a lesão tecidual) nesse processo e abordou principalmente a malária cerebral experimental, que é seu foco de pesquisa, entre outras doenças. Posteriormente, na "Extra Section of Clinical Immunology" do dia 20, Soares falou sobre a importância da "Microbiota intestinal estimulando resposta imune protetora contra a transmissão da malária".
     No dia seguinte, o prestigiado e famoso Dan Littman, da NYU Department of Pathology e Howard Hughes Institute, EUA, deu uma palestra seminal sobre "Comprometimento de linfócitos T aos diversos programas na homeostase ou patogênese", focando nos padrões Th1, Th2 e Th17 e explicando como acontece a regulação transcricional da diferenciação dos linfócitos, nessas diferentes subpopulações funcionais, com diversas funções efetoras. Falou também um pouco sobre redes de sinalização que mantêm a homeostase do sistema imune com a microflora comensal, assunto que voltou a abordar na palestra inaugural do congresso, agora aprofundando um pouco mais na "Influência da microbiota sobre linfócitos inflamatórios e doenças autoimunes".
     Em seguida, falou o jovem e brilhante recém-professor da USP, Dr Helder Nakaya, colaborador da Emory University, onde foi orientado pelo sensacional Bali Pulendran, sobre um assunto que vem cada vez mais ganhando espaço em tempos de internet e biotecnologia de ponta: "Bioinformática na modelagem do sistema imune". Já no dia seguinte, ele foi "chair" do Bali Pulendran, que palestrou brilhantemente sobre "Capacitação de delineamento racional de vacinas com abordagens baseadas em sistemas". Dr Nakaya voltaria a falar depois na "Extra Section of Clinical Immunology - Symposium on Vaccines", sobre "Análise de sistemas da imunidade contra gripe após vacinação no jovem e idoso".
     Por fim, os Drs Gabriel Victora e Angelina Bilate, ambos do Whitehead Institute of Biomedical Research, EUA, fecharam o dia, falando, respectivamente, da dinâmica do "Sistema imune através de imagens de vídeo", ressaltando que "determinadas perguntas devem ser feitas para que se tenha a resposta adequada e que a observação das imagens não é um mero 'brinquedinho' de corar as células do camundongo para se constatar que 'ok: elas se mexem in vivo'". Dra Angelina, por sua vez, falou sobre novos "Avanços técnicos na pesquisa com camundongos", como a geração de novas linhagens de camundongos utilizando a tecnologia de obtenção de células tronco, com apresentação de vídeos, inclusive publicados no JoVe (Journal of Visualized Experiments), bem detalhados sobre a cuidadosa metodologia para obtenção desses camundongos.
     Gostaria de continuar escrevendo com mais detalhes sobre outras palestras que ocorreram ao longo do congresso, mas o tempo e espaço são curtos. Inclusive das palestras a que assisti e ganharam prêmio, como a do Pedro Elias Marques, da UFMG, cujo trabalho "Deposição de DNA hepático dirige a lesão e inflamação induzidas por drogas no fígado" ganhou o prêmio Thereza Kipnis. Infelizmente (por um lado), só vi as 2 primeiras, porque tive que sair pra apresentar a minha "Express Presentation on Immuneregulation" em outra seção/sala (felizmente, por outro lado). Na medida do possível, voltarei com outras visões sobre o congresso. Peço àqueles que tiverem outras impressões e quiserem compartilhá-las, por gentileza, teremos o prazer de recebê-las. 

Meus sinceros agradecimentos por essa oportunidade e experiência únicas!
     
Dr João P. M. Carmo
IPTSP-UFG
(Em nome da Coordenação do SBlogI)
                                          Pool party no cocktail de abertura do congresso
                                                        Liliane Martins, UFMG, blogueira fiel
                                         Lorena Bavia, colega de Doutrado na USP, hoje FIOCRUZ-PR

                                                    IPTSP-UFG, ICB-USP e FIOCRUZ-PR
                                      
 Pesquisadoras do IPSTP-UFG (Goiás bateu recorde: 
4o lugar em número de inscritos, atrás apenas de RJ, SP e MG)
 Minha apresentação oral: "Phenotype and cytokine profile of 
infiltrating cells in autoimmune hepatitis of scurfy mice
                                                                               Unesp-Botucatu e ICB-USP

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Proteínas Modificadas de Células Dendríticas (Isoketais) Ativam Linfócitos T e Promovem Hipertensão


Via proposta para ativação de DC. Estímulo hipertensivo aumenta a produção de ROS e formação de isoketais e adutos isoketais de proteína em DC. Esses adutos aumentam a imunogenicidade de DC e promovem a produção de citocinas por esse tipo celular. Por sua vez, DC ativadas induzem proliferação e produção de citocinas por células T. Células T ativadas se dirigem para o rim e a vasculatura e liberam citocinas como IL-17, TNF-alfa e IFN-gama, que promovem hipertensão. Fonte: Kirabo et al., 2014, J Clin Invest.


Dano oxidativo e inflamação são implicados na gênese da hipertensão. Entretanto, os mecanismos pelos quais esses estímulos promovem hipertensão não estão completamente compreendidos.

Em estudo recente publicado na revista Journal of Clinical Investigation, liderado pelo grupo do Dr. David G. Harrison do Departamento de Bioquímica da Vanderbilt University nos EUA, os autores descreveram uma via em que o estímulo hipertensivo promove ativação de células T via células dendríticas (DC), levando à hipertensão. Utilizando diversos modelos murinos de hipertensão, o estudo mostrou que durante a hipertensão a oxidação de proteínas leva à formação de proteínas modificadas denominadas gama-cetoaldeídos altamente reativos (isoketais) que se acumulam nas DC.

Os isoketais são formados via rearranjo de intermediários H2-isoprostanos na via F2-isoprostano de peroxidação lipídica mediada por radicais livres. Adutos isoketais nas proteínas promovem crosslink extensivo das mesmas, levando à alteração da função proteica. Formação aumentada de adutos de proteínas isoketais é encontrada, por exemplo, em doenças associadas a estresse oxidativo, incluindo, doença hepática induzida por álcool, aterosclerose, asma e doença de Alzheimer.

No estudo publicado, o acúmulo de isoketais estava associado com produção de IL-6, IL-1-beta e IL-23 por DC e um aumento das moléculas co-estimuladoras CD80 e CD86. As DC ativadas desencadeavam ativação de células T, particularmente células CD8+, proliferação, produção de IFN-gama e IL-17A e hipertensão. Compostos que promovem a varredura de isoketais preveniram a ativação de DC e hipertensão experimental. Além disso, F2-isoprostanos plasmáticos que são formados em consonância com isoketais estavam elevados em humanos tratados para hipertensão e estavam muito elevados em pacientes com hipertensão resistente. Isoketais estavam também muito elevados em monócitos circulantes e DC de humanos com hipertensão. O estudo definiu um novo mecanismo de hipertensão e apresentou a redução de isoketais como uma nova abordagem terapêutica potencial para o tratamento da doença.

Referência

Kirabo A, Fontana V, de Faria AP, Loperena R, Galindo CL, Wu J, Bikineyeva AT, Dikalov S, Xiao L, Chen W, Saleh MA, Trott DW, Itani HA, Vinh A, Amarnath V, Amarnath K, Guzik TJ, Bernstein KE, Shen XZ, Shyr Y, Chen SC, Mernaugh RL, Laffer CL, Elijovich F, Davies SS, Moreno H, Madhur MS, Roberts J 2nd, Harrison DG. DC isoketal-modified proteins activate T cells and promote hypertension. J Clin Invest. 2014 Oct 1;124(10):4642-56. doi: 10.1172/JCI74084.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Ebola - Uma nova síndrome de imunodeficiência adquirida?

Estamos vivendo o pior e maior surto de Ebola de todos os tempos, as notícias sobre infecções nos EUA e Europa e as projeções matemáticas realizadas sobre a infecção no oeste africano apontam para expansão geométrica da infecção (http://healthmap.org/ebola/#projection).


A resolução da infecção depende de uma resposta imune antiviral (inata e adaptativa) eficiente e duradoura. Esta orquestração é dependente de três agentes centrais: antígenos (partícula viral reconhecida pelo sistema imune), células apresentadoras de antígenos (ex. células dendríticas) e linfócitos (T CD4+ e CD8+). O reconhecimento dos componentes virais (ex. Antígenos proteicos e material genético) pelas células dendríticas, juntamente com a apresentação de antígenos às células CD4+ e CD8+ citotóxicas, estimulam a produção de inúmeros fatores (citocinas, ex. IFNs) que são responsáveis por potencializar a resposta imune antiviral no microambiente. A capacidade de escapar do sistema de defesa é determinante para o grau de infectividade  e sua importância médica.

Ao entrar no corpo, o vírus do Ebola é capaz de infectar e destruir  as células dendríticas, um dos pilares centrais da resposta imune antiviral. Além do mais, a proteína VP24 do vírus é capaz de impedir a resposta antiviral gerada pelos IFNs (http://www.cell.com/cell-host-microbe/fulltext/S1931-3128(14)00263-7). Com a destruição das células dendríticas e a inibição das vias de ação dos IFNs, as células T não conseguem reconhecer à infecção e eliminá-la. Assim o vírus pode replicar livremente e muito rápido, tornando-o altamente letal.

A porcentagem de óbitos entre infectados com Ebola é alarmante, variando entre 50-90%, porém sua capacidade de contagio (R0) ainda é baixa comparada a outros vírus.




Recentemente, a página da internet “Information is Beautifil” (http://www.informationisbeautiful.net/visualizations/the-microbescope/) publicou um gráfico que demonstra a associação inversa entre a capacidade de contagio dos vírus e sua letalidade.



Contudo, com a disseminação do vírus ao redor do mundo, novas pressões de seleção de mutações aparecerão e consequentemente a razão entre a letalidade e a capacidade de contagio do Ebola pode se inverter. O que podemos esperar de uma infecção crônica pandêmica, que ataca um dos pilares da resposta imune (reconhecimento e apresentação de antígenos)? Devemos considerá-la uma questão de saúde pública similar ao “HIV-1” em um futuro próximo?


Os estudos sobre a epidemiologia do Ebola, assim como o desenvolvimento de uma vacina candidata e/ou terapia eficaz estão apenas começando. Esse mês, o editorial da Science e da Science Translational Medicine lançou uma série de artigos sobre os mais importantes achados na área (http://www.sciencemag.org/content/345/6202/1221.summary). Aconselho a leitura, afinal de contas, quanto mais profissionais envolvidos na solução dessa infecção, mais cedo nos livraremos dela.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

ImunoBúzios 2014 - Chamada para o VIII Simpósio Sul de Imunologia

Panorâmica do Lago Igapó em HDR, Londrina, Paraná, Brasil.  http://www.panoramio.com/photo/93002499l.


A programação do VIII SSI contará com a participação de 24 pesquisadores brasileiros e dois estrangeiros que realizam pesquisa na área de Imunologia, 13 pesquisadores são provenientes dos estados do Sul.
 
Imunologia do amanhã é um espaço especialmente destinado para apresentação dos estudantes de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado. A edição de 2015 também ofereça 4 minicursos com o objetivo de atualização em imunologia e treinamento de estudantes em técnicas gerais de citometria (BD), luminescência (Sistema Luminex – Life), neuroimunologia e imunoestresse. 
 
Com o objetivo de estimular ainda mais as interações científicas e trocas de experiências entre todos os participantes do VIII SSI, teremos durante a apresentação dos posters as mesas tutoriais pesquisador-aluno e lanches com o pesquisador para consolidação do conhecimento e discussões mais aprofundadas com um menor número de indivíduos. Essas duas últimas atividades são um sucesso e marca registrada do evento!
 
Venha que será um barato!




Pesquisadores Participantes dos Tutorias Pesquisador-Aluno confirmados:
Dr. Manuel Barral Neto, Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz, Salvador, Bahia.
Dr. João Santana da Silva, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), São Paulo.
Dr. João Paulo de Biaso Viola, Instituto Nacional de Câncer (INCA), Rio de Janeiro.
Dr. Marcelo T. Bozza, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.
Dr. Felipe Dal Pizzol, Universidade do Extremo Sul Catarinense.
Dr. Dario Zamboni (Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Brasil)
Dr. André Bafica, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.
Dr. Gustavo M. Amarantes, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo.
Dra. Cristina Bonorino, Pontifícia Universidade Católica do RS, PUC/RS.
Dr. Waldiceu Verri Junior, Universidade Estadual de Londrina (UEL), PR.
Dr. Moisés Bauer, Pontifícia Universidade Católica do RS, PUC/RS.
Dr. Anderson de Sá Nunes, Universidade de São Paulo, São Paulo.
Dr. Juliano Bordignon, Instituto Carlos Chagas, ICC/PR.
Dra. Pryscilla Fanini Wowk, Instituto Carlos Chagas, ICC/PR.
Dra. Maria Valdrinez C. Lonardoni, Universidade Estadual de Maringá (UEM), Maringá, PR.
Dr. Wander Rogério Pavanelli, Universidade Estadual de Londrina (UEL), PR.
Dr. Fábio Henrique Kwaswiewski, Universidade Estadual de Londrina (UEL), PR.
Dr. Phileno Pinge Filho,Universidade Estadual de Londrina (UEL), PR.
 
Pesquisadores Palestrantes estrangeiros confirmados:
 
Dr. Isaac Chiu, Harvard University, USA. The role of neuron-bacteria molecular interactions in pain and host defense.
 
Dr. Cory M. Hogaboam, Michigan University, USA.
 
 
Pesquisadores Palestrantes brasileiros confirmados
 
Dra. Karina Bortuluci, USP, SP.
Dra. Pryscilla Fanini Wowk, Instituto Carlos Chagas, ICC/PR.
Dr. José Artur Bogo Chies, UFRS, RS.
Dra. Maria Valdrinez C. Lonardoni, Universidade Estadual de Maringá (UEM), Maringá, PR.
Dra. Andressa Freitas, UEL, PR. Mecanismos envolvidos na eferocitose e implicações na resolução do processo inflamatório
Dr. Felipe Dal Pizzol, Universidade do Extremo Sul Catarinense.
Dr. José Carlos Alves Filho, USP, RP. The role of indoleamine 2,3-dioxygenase (IDO) pathway in sepsis-induced immunosuppression
Dra. Cristina Bonorino, Pontifícia Universidade Católica do RS, PUC/RS.
Dr. Marcelo T. Bozza, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.
 
 
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terça-feira, 21 de outubro de 2014

ImmunoBúzios 2014 (October 21st 2014)

The Pro-Tumorigenic Role of IL-17 by Dr. João Santana Silva (SP)





Inhibition of Non-Canonical Activation of the Inflammasome by Intracellular Pathogens 
by Dr. Dario Zamboni (SP)




Fotos de Renata Baptista-dos-Reis (Mestranda do Programa de Imunologia e Inflamação - UFRJ)

Regulatrix


Como um tema dominante na imunologia atual o significado do verbo “regular” tem sido pouco discutido e, usualmente, o termo imuno-regulação é utilizado sem nenhuma compreensão profunda do que ele significa. 
Nos anos 1950, em palestras de divulgação pelo rádio na BBC, o famoso neurobiólogo britânico J.Z. Young, sumarizou o pensamento medieval sobre os “humores” que determinavam o “temperamento” do indivíduo: a bile negra, a bile amarela, o sangue e o fleugma, ou pituita. O conceito de “regulação” - o equilíbrio entre os humores - era dominante nesta concepção. Assim como o a “regulação” na imunologia moderna; a doença era um desequilíbrio entre as qualidades determinadas pelos humores. Eis aqui um trecho do texto de J.Z.Young: 
Para nós, hoje em dia, é natural falarmos do corpo como algo que tem uma estrutura e funções, como usualmente nos referimos a ele. Para o homem do século XVI, não habituado às máquinas, o corpo era composto dos 4 elementos: terra, ar, fogo e água. Cada um destes elementos colaborava para o temperamento do indivíduo, dando as “qualidades” de umidade, secura, calor e frio. A doença era um desequilíbrio destas qualidades naturais. No corpo, 4 humores representavam as qualidades. A bile negra, ou melancolia era armazenada no baço e equivalia à terra. O sangue era equivalente ao ar, e a bile amarela, ou cólera, ao fígado. O fleugma, ou pituita do nariz, supostamente secretada pelo cérebro, equivalia à água.
O corpo era fabricado por um mecanismo similar ao usado na cozinha. Uma primeira fase, no estômago, transformava o alimento em quilo. Em seguida, o fígado convertia o quilo em sangue. Numa terceira etapa, o sangue era convertido em carne. A alma estava muito mais dispersa neste sistema de humores do que hoje a imaginamos. Cada parte do corpo tinha uma parte da alma e devia a ela suas propriedades e sentimentos capazes, por exemplo, de atrair para ela certos componentes do sangue. Cada uma das mudanças ocorridas no corpo era obra de uma pessoinha como nós - um homúnculo. A vesícula, dizia Jean Fernel - o criador do termo Fisiologia - tem afinidade pela bile amarela, se satisfaz e tem prazer em atraí-la. 
Mais de um século se passou antes que comparações do corpo com máquinas fossem levadas mais a sério. René Descartes, por exemplo, comparava o sistema nervoso a um relógio, mas fez poucas observações pessoais de Biologia. William Harvey é um exemplo mais adequado do emprego de métodos quantitativos (matemáticos) ao estudo do corpo. Seu relato sobre a circulação, comparando o coração a uma bomba, foi publicado em 1628. Para unir as artérias às veias, Harvey teve que inventar o invisível e propor a existência de vasos tão finos que escapavam à visão desarmada - os capilares. Cerca de 30 anos mais tarde, com o aperfeiçoamento do microscópio, Malpighi, na Itália, viu pela primeira vez os capilares.
Hoje em dia estamos assistindo ao colapso da comparação do corpo a uma máquina - pelo menos a uma máquina como usualmente definida, como algo construído por nós, que existe como algo sólido e está ali, pronta para ser usada. Até aqui temos nos aproximado dos seres vivos com a pergunta “O que é isso?” e, com a invasão das idéias dos químicos, quase sempre isto significa “De que isso é feito?”. Agora precisamos perguntar: “Como isso chegou a ser o que é?” e “Como se mantém sendo o que é, quando é tão improvável que isto ocorra?”. (Young, 1960)

A noção de “harmonia”, que o equilíbrio entre os quatro humores nos aponta, é uma noção central no pensamento humano, importante desde a cosmologia até a música e à matemática. Não espanta, portanto, o fascínio que a noção de “regulação” exerce sobre os imunologistas modernos, mesmo sem atentar para suas raízes históricas. No entanto, entender a regulação como a instauração e manutenção da normalidade, é entendê-la como um princípio explicativo que oculta aquilo que supostamente explica. Porque a normalidade é a ausência do estranho, daquilo que desperta nossa atenção, daquilo que efetivamente enxergamos, que enquadramos. Usualmente não atentamos para o que é “normal”; o noticiário ressalta o anormal, o estranho. Nossos mecanismos básicos de distinguir fenômenos e objetos dependem da detecção de diferenças, não no fluir inalterado da normalidade. 
Na melhor das hipóteses, entender a regulação como a recuperação e a manutenção da normalidade é um adiamento do problema de entender a estabilidade dinâmica da atividade imunológica, sua organização, aquilo que ela tem de invariante; entender como se conserva aquilo que se conserva em meio a tudo aquilo que varia na atividade imunológica (Vaz et al., 2011). Na pior das hipóteses, isto nos leva a supor que já entendemos o que se passa e a desviar nossa atenção para ouros problemas.
Bibliografia
Vaz , N. M., et al. (2011). Onde está o organismo? - Derivas e outras histórias na Biologia e na Imunologia. Florianópolis, editora-UFSC.
Young, J.Z.(1960) In “Doubt and Certainty in Science"

Oxford, Oxford Univ Press Pag 145-146.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Keynote Conference - Richard Flavell (ImmunoBúzios 2014 - 20/10/14)


Inflammasomes in Dysbiosis and Disease



Fotos de Renata Baptista-dos-Reis

Macrófagos M2 usam a via lisossomal para mobilizar ácidos graxos




Os macrófagos são essenciais para a imunidade e podem adotar perfis diferentes dependendo do microambiente. A ativação clássica dos macrófagos (M1) depende principalmente do IFNγ em combinação com TNF, e da ativação de STAT 1. Enquanto a ativação alternativa dos macrófagos (M2) depende principalmente de IL-4 e IL-13 e da regulação de STAT 6. Os macrófagos M1 são inflamatórios e possuem um importante papel contra patógenos intracelulares e tumores. Os macrófagos M2 promovem a reparação tecidual, homeostase, prevenção da aterosclerose e são importantes na imunidade a helmintos (1, 2). 
O estudo dos macrófagos M2 foi retratado mês passado neste blog, mostrando que células tumorais polariza-os através da produção do ácido láctico (aqui) e há poucos dias foi demonstrado o espectro de diferenciação dos macrófagos (aqui), e mais uma vez neste blog iremos abordar como sugestão de leitura a polarização dessas células.
A polarização dos macrófagos M2 é dependente da oxidação de ácidos graxos (FAO - fatty acid oxidation), onde estas células utilizam a FAO para o metabolismo oxidativo mitocondrial. A fonte destes ácidos graxos até então não estava clara, até a publicação neste mês na Nature Immunology (3), onde verificaram que a captação de triacilglicerol através de sua lipólise pela lipase ácida lisossomal (LAL) e do receptor scavenger CD36 (Receptor para a endocitose de partículas ricas em triagliceróis como LDL e VLDL; este receptor é induzido em macrófagos pela IL-4), foram essenciais para a ativação dos macrófagos M2. Com isso, aumentou a fosforilação oxidativa, prolongando a sobrevida e expressão de genes destes macrófagos. A inibição da lipólise bloqueou a resposta protetora a parasitos helmínticos (H. polygyrus) no modelo em camundongos C57BL6. Sugerindo que a captação e lipólise dos triacilgliceróis poderiam servir para gerar ácidos graxos pela FAO, facilitar a oxidação destes ácidos e programar a ativação de macrófagos M2.
Estes resultados, como outros que surgiram e estão surgindo, auxiliam na abordagem terapêutica em doenças nas quais macrófagos M2 têm efeitos tanto prejudiciais quanto protetores, inclusive no controle da homeostasia, na proteção contra a obesidade e na resistência à insulina. Recomendo a leitura da revisão de 2011 da Ajay Chawla (4) para entender alguma destas funções dos macrófagos.
Boa leitura a todos
Referências:


Post por Clayson Moura Gomes, Doutorando do PPGMTSP/UFG