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quarta-feira, 30 de julho de 2014

Vacinas em Leishmaniose Visceral: a corrida para o sucesso continua

Compreender a patogênese da infecção por leishmânia e a geração de respostas protetoras nos eventos imunológicos, em conjunto com o sequenciamento do genoma têm traçado novos caminhos para a pesquisa de vacinas na leishmaniose visceral. Contudo, apesar dos esforços, ainda não há um candidato capaz de proporcionar o nível de proteção necessária para um programa de eliminação da doença.
Nessa área, um progresso foi recentemente descrito em um estudo realizado por Guha et al., 2013 [http://stm.sciencemag.org/content/5/202/202ra121.short], utilizando uma vacina de DNA, cujo alvo foi o receptor de hemoglobina do parasito (HbR). Uma revisão publicada por Kumar & Engwerda, 2014 [http://www.nature.com/cti/journal/v3/n3/full/cti20144a.html] esclarece que esse receptor é expresso na superfície da célula do parasito, conservado em várias espécies de leishmânia, sendo importante para a endocitose do grupamento heme necessário para suas diversas atividades metabólicas, tornando-o dependente do hospedeiro. Guha et al., 2013, mostraram que a imunização com o HbR-DNA em BALB/c e hamsters induziu proteção quando desafiadas com L. donovani; e estimulou a produção de citocinas que conferem proteção (IFN-γ, IL-12 e TNF-α), com regulação negativa de IL-10 e IL-4 e geração de células T multifuncionais. Embora o estudo demonstre ser esta uma molécula promissora para vacinação em modelos animais, ainda existe um grande desafio em demonstrar segurança e eficácia em humanos tanto in vitro como em estudos clínicos.

Outra revisão de Gunnavaram et al., 2014 [http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4033241/], identifica estudos empregando antígenos recombinantes, com eficácia protetora na infecção por L. donovani em modelos experimentais.
Uma outra possível vacina mencionada num artigo de revisão em 2014 [http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4050426/] utilizando antígenos de proteína adaptado para a LV, a chamada vacinologia reversa, propõe identificar antígenos que induzam células T CD4 e CD8 relacionadas à proteção.
No entanto, observa-se discrepância entre os bons resultados obtidos em modelos animais e os estudos pré-clínicos in vitro no homem, incluindo a não geração de células T multifuncionais. Uma abordagem promissora no entendimento da resposta sistêmica induzida pelas vacinas candidatas e na seleção das mais promissoras, surge com a chamada “Systems Biology”. Esta nova abordagem traz a possibilidade de analisar em indivíduos com a forma assintomática da infecção por leishmânia e em pacientes curados de LV, de forma mais abrangente, as mudanças que ocorrem em resposta às moléculas candidatas. Assim, seria possível analisar diversos elementos da resposta imune inata, adaptativa, expressão de moléculas solúveis e celulares, utilizando múltiplas ferramentas tecnológicas que avaliam DNA, RNA e proteômica, combinada com análise de bioinformática, em uma abordagem multifuncional, a fim de identificar respostas-chave associadas à proteção no hospedeiro, como ressaltado na revisão de Gannavaram et. al., 2014 [http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4033241/].

Juciene Braz (mestranda), Amelia de Jesus e Roque Almeida


segunda-feira, 28 de julho de 2014

Torre de Babel

Torre de Babel - Lucas van Valckenborch

Por isso se chamou o seu nome Babel, porquanto ali confundiu o Senhor a linguagem de toda a terra, e dali o Senhor os espalhou sobre a face de toda a terra (Gênesis 11:9).
            A ativação de macrófagos tornou-se nos últimos anos um importante tópico na área de imunologia e patologia; cercado de controvérsias e confusão. Como a Torre de Babel da Bíblia, a ativação de macrófagos abrange uma panóplia utilizada para processos que seguem caminhos diferentes. Durante o Congresso Internacional de Imunologia que ocorreu em agosto de 2013 na cidade de Milan, um grupo de pesquisadores que estudam macrófagos decidiram estabelecer um guia inicial com orientações de nomenclatura e para a condução de experimentos. Estas orientações são apresentadas no artigo de Peter Murray e colaboradores, publicado no último dia 17 de julho no periódico “Immunity”. Seguem abaixo as recomendações sugeridas pelo grupo, numa tentativa de estabelecer apenas uma linguagem e uma só maneira de falar, tal como era antes da Torre de Babel.
1-    Macrófagos originados da medula óssea de camundongos ou de monócitos humanos (CD14+), cultivados em CSF-1, permanecem como os sistemas in vitro mais utilizados para gerar macrófagos e devem ser utilizados como referencia (Figura 1A);
2-   Outras fontes comuns utilizadas para obter macrófagos: cavidade peritoneal (macrófagos residentes ou elicitados) e a medula óssea de camundongos (macrófagos cultivados na presença de GM-CSF), neste caso devem levar-se em consideração as condições de cultivo celular para gerar populações denominadas M1 e M2, que podem sofrer perturbações funcionais decorrentes de suas fontes;
3-    Os pesquisadores devem definir o ativador utilizado e adotar uma nomenclatura ligada ao padrão de ativação escolhido, por exemplo, M(IL-4), M(Ig), M(IL-10), M(glicocorticoides), M(IFN-g), M(LPS) e assim por diante;
4-   Evitar o termo “macrófagos reguladores”, já que todos os macrófagos são potencialmente reguladores;
5-    Escolha dos marcadores de ativação: por exemplo, a utilização do marcador Arginase-1 (Arg1) como um marcador para M2, parece não ser a melhor, já que Arg1 também esta presente em M1, a associação de marcadores de ativação e fatores de transcrição pode representar um alternativa para uma boa escolha (Figura 1B);
6-    Uso de mutantes para estudar o estado de ativação de macrófagos (Figura 1C), por exemplo, deleção do fator IRF4  ou KLF6 falha em produzir macrófagos M(IL-4); e PPARy junto com PPAR∂ são requeridos para ampliar macrófagos M(IL-4).


Referência bibliográfica
Murray PJ, Allen JE, Biswas SK, Fisher EA, Gilroy DW, Goerdt S, Gordon S, Hamilton JA, Ivashkiv LB, Lawrence T, Locati M, Mantovani A, Martinez FO, Mege JL, Mosser DM, Natoli G, Saeij JP, Schultze JL, Shirey KA, Sica A, Suttles J, Udalova I, van Ginderachter JA, Vogel SN, Wynn TA. Macrophage Activation and Polarization: Nomenclature and Experimental Guidelines. Immunity. 2014 Jul 17;41(1):14-20. doi: 10.1016/j.immuni.2014.06.008.
Nagela Ghabdan Zanluqui. Mestranda em Biociências e Biotecnologia - Instituto Carlos Chagas – FIOCRUZ, Curitiba, Paraná.
Phileno Pinge-Filho. Laboratório de Imunopatologia Experimental - UEL- Londrina, Paraná.


O que é científico? O que é metodologia científica? (Rubem Alves)

Acredito que aprendemos com nossos erros e acertos do passado. Mesmo na ciência. Não fosse assim, não precisaríamos citar referências ao final de nossas dissertações, teses, livros e artigos científicos, publicados em revistas indexadas de grande e baixo impacto. Reproduzo abaixo texto enviado por um amigo, publicado em 1999 (aqui) pelo saudoso Rubem Alves, no periódico "Psiquiatria Online", parte do International Journal of Psychiatry.

Fica aqui nossa homenagem a esse que foi um dos meus primeiros incentivadores na arte da leitura e escrita.
Agosto de 1999 - Vol.4 - Nº 8
"O que é científico?" (VII)
Há os pianos. Há a música. Ambos são absolutamente reais. Ambos são absolutamente diferentes. Os pianos moram no mundo das quantidades. Deles se diz: "Como são bem feitos!" A música mora no mundo das qualidades. Dela se diz: "Como é bela!"
Dos pianos os mais famosos são os Steinway, preferidos dos grandes pianistas. São eles que se encontram nos palcos dos grandes teatros do mundo, dentre eles o de Campinas... Pianos são máquinas grande precisão. A sua fabricação exige uma ciência rigorosa. Tudo tem de ser medido, pesado, testado. As teclas devem ter o tamanho exato, devem reagir de maneira uniforme à pressão dos dedos, devem ter reação instantânea. E há de se considerar a afinação. O pianista Benedetto Michelangelo, ao iniciar um concerto na cidade de Washington, parou imediatamente após os primeiros acordes: o seu ouvido percebeu que a afinação não estava certa. O concerto foi interrompido para que um afinador desse às cordas a tensão exata para produzir os sons precisos.
Um dos objetivos da ciência exata da fabricação de pianos é a produção de pianos absolutamente iguais. Se não forem iguais, o pianista não conseguirá tocar num piano em que nunca tocou.
Digo que a fabricação de pianos é um ciência porque tudo, no piano, está submetido ao critério da medida: tamanhos, pesos, tensões. Mesmo as afinações, que normalmente requerem ouvidos delicados e precisos, podem prescindir dos ouvidos dos afinadores - o afinador pode ser surdo! - desde que haja um aparelho que meça o número de vibrações das cordas.
A realidade do piano se encontra em suas qualidades físicas, que podem ser ditas e descritas na precisa linguagem científica dos números. É essa linguagem que torna possível fazer pianos iguais uns aos outros. Na ciência, a possibilidade de repetir, de fazer objetos iguais uns aos outros, é um critério de verdade. Coisa de culinária: se digo que uma receita de bolo é boa, todas as vezes que qualquer pessoa fizer a mesma receita, com os mesmos ingredientes, nas medidas exatas, na mesma temperatura de forno, o resultado deverá ser igual. A exatidão dos números torna a repetição possível. Assim é a ciência, essa culinária precisa e útil. Tanto os pianos quanto os objetos da ciência são construidos com o auxílio de um método chamado quantitativo, isso é, que se vale de números. Na ciência e na construção de pianos só é real o que pode ser medido.
Pianos não são fins em si mesmos. Pianos são meios. Existem para serem tocados. A música é tão real quanto os pianos. Mas a realidade da música não é da mesma ordem que a realidade dos pianos. Essa é a razão por que os fabricantes de pianos não se contentam em fabricar pianos: eles vão aos concertos ouvir a música que os pianistas tocam. É certo que a música tem uma realidade física, em si mesma, independente dos sentimentos de quem ouve. A música existe mesmo se o CD está sendo tocado numa sala vazia, sem ninguém que a ouça. Mas isso não é a realidade da música. A realidade da música se encontra no prazer de quem a ouve. O mesmo vale para a comida. As cozinheiras cozinham para dar prazer aos que comem. Os pintores pintam para dar prazer aos que olham. Também os amantes beijam por causa do prazer. O desejo do prazer move o mundo.
O prazer é uma experiência qualitativa. Não pode ser medida. Não há há receitas para a sua repetição. Cada vez é única, irrepetivel. Um pianista não interpreta a mesma música duas vezes de forma igual. O "Concerto Italiano", de Bach, põe em ordem o meu corpo e a minha alma. Uma outra pessoa, ao ouvi-lo, vai dizer: "Que música chata!"
Desde cedo os filósofos naturais ( assim eram chamados os cientistas no passado) perceberam a diferença entre a ordem das quantidades e a ordem das qualidades. E as designaram com as expressões " qualidades primárias" e "qualidades secundárias". As qualidades primárias são aquelas que pertencem ao objeto, independentemente dos nossos sentimentos; elas podem ser ditas em linguagem matemática, tornando possível a repetição. Com elas se faz a ciência. As qualidades secundárias são aquelas que se referem às experiências subjetivas que temos ao "provar" o objeto. O frango-ao-molho pardo tem uma realidade física. Mas o "gosto" só existe na minha boca, na minha lingua e nas minhas memórias de mineiro. Uma outra pessoa, com boca e lingua anatômica e fisiologicamente idênticas às minhas, mas que não participe das mesmas memórias ( uma pessoa de convicções religiosas adventistas, por exemplo), sentirá um "gosto" diferente do meu, possivelmente repulsivo. A experiência do gosto, da beleza, da estética pertence ao mundo humano das "qualidades". Não pertence ao mundo das realidades quantitativas. A linguagem matemática da ciência não dá conta dessa experiência. Não é capaz de dizê-la. Faltam-lhe palavras. Faltam-se sutilezas. Faltam-lhe, sobretudo, interstícios. A ciência conhece as coisas que podem ser ditas quantitativamente. Mas como dizer a beleza de uma sonata? Lenin, ao falar do que sentia ao ouvir a sonata "Appassionata", de Beethoven, usa palavras do vocabulário dos apaixonados. Mas, ao lê-las, eu não fico sabendo como é a beleza da música. Que palavras irei usar para transmitir ao leitor o gosto e o prazer do frango ao molho pardo?
E, no entanto, essa "coisa" indizível é real. A experiência estética, não científica, qualitativa, seapossa do corpo: ruflam os tambores e os soldados homens para a morte. Ouço o Danúbio Azul e tenho vontade de dançar. Ouço a Serenata de Schubert e tenho vontade de chorar. Ouço a "Ave Maria" e a oração surge, expontânea, dentro de mim. Oujço o Clair de Lune, de Debussy, e fico tranquilo. Ouço o estudo op. 10 n. 12, de Chopin, chamado "revolucionário", e fico agitado..
Nada disso é científico, quantitativo. Mas é Real. Move corpos. O que comove os homens e os faz agir é sempre o qualitativo. Inclusive a ciência. Os cientistas, ao fazer ciência, não são movidos por razões quantitativas, científicas. São movidos por curiosidade, prazer, inveja, competição, narcisismo, ambição profissional, dinheiro, fama, autoritarismo.
Havia, certa vez, uma terra distante onde pianos maravilhosos eram fabricados. Os fabricantes de piano, envaidecidos por sua ciência quantitativa precisa, começaram a desprezar os pianistas, que tocavam movidos por razões qualitativas, indizíveis. Concluiram que os pianistas eram seres de segunda classe e terminaram por proibir que eles tocassem. E cunharam a frase clássica: " Fabricar pianos e preciso. Tocar piano não é preciso."
Isso não é ficção. É isso está acontecendo nos meios científicos brasileiros. As pesquisas "qualitativas" são rejeitadas sob a alegação de que seus resultados são imprecisos, não passíveis de serem repetidos, e por não serem aceitos para publicações em revistas internacionais. Todos os cientistas devem adorar diante do altar desse novo ídolo: as revistas interncionais indexadas. E esse ídolo que decide sobre o destino das pesquisas e dos pesquisadores. Na comunidade científica somente se permite a linguagem quantitativa. Tem havido casos de cursos de pós-graduação serem desqualificados pelo fato de seus pesquisas serem feitas no campo do qualitativo. O científico é fabricar pianos. O gostar de música não é científico.
O que leva a soluções científicas ridículas. De que maneira um pianista provaria sua competência, com vistas a um grau de doutor em música? Resposta fácil: dando um concerto. A ciência contesta. A ciência não sabe o que é um concerto. Se o pianista quiser ter o grau de doutor ela terá que escrever uma tese na qual a "qualidade" que ele sabe produzir é transformada num saber quantitativo duvidoso.
Guimarães Rosa profetizou que os homens haveriam de ficar loucos em decorrência da lógica. Já está acontecendo em nossas instituições de pesquisa. "Vivam os pianos! Mas os concertos estão proibidos!"

domingo, 27 de julho de 2014

O microrganismo do câncer


         Figura ilustrativa de extensões fibrosas do protozoário T. vaginalis (em branco) que aderem às mucosa (em róseo). 
                   (Johnson Lab/ UCLA)

           Os pesquisadores da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA) detectaram uma infecção chamada tricomoníase, causada pelo protozoário Trichomonas vaginalis, ao examinarem células de próstata humana.  Esse protozoário naturalmente infecta mulheres mas é transmitida ao homem mediante transmissão sexual. A equipe de Patrícia Johnson identificou uma proteína secretada por T. vaginalis chamada fator de inibição de migração de macrófago (TvMIF), essa proteína tem uma similaridade de 47% com o fator inibidor da migração dos macrófagos humano (HuMIF). A HuMIF está aumentada no câncer de próstata e em processos inflamatórios que promovem a progressão da doença.  De maneira semelhante ao MIF humano, a MIF do protozoário também é capaz de inibir a migração de macrófagos e de exercer um papel pró-inflamatório (1). Curiosamente, TvMIF se liga ao receptor CD74MIF com uma afinidade semelhante a seu ligante natural, HuMIF. Essa ligação desencadeia a sinalização de ERK, Akt e Bcl2 que promove a sobrevivência de células tumorais in vitro. Esses dados foram reforçados pela presença de altos níveis de anti-TvMIF no soro de pacientes com câncer de próstata, infectados com T. vaginalis quando comparados aos pacientes infectados somente com T. vaginalis. Estes dados indicam que nas infecções crônicas por T. vaginalis, TvMIF acelera a proliferação celular e agrava o desenvolvimento do câncer de próstata.
   Em 2009 um estudo da Universidade de Harvard verificou que o 25% dos homens com câncer da próstata apresentavam sinais de tricomoníase e tendiam a ter tumores mais agressivos (2). Segundo as estatísticas estima-se que cerca de 275 milhões de pessoas tenham tricomoníase. Em homens, a infecção causa dor ao urinar e nas mulheres corrimentos vaginais, embora metade dos casos são assintomáticos. Estudos futuros podem utilizar essa proteína como marcador de prognóstico para câncer de próstata. Ainda com um objetivo mais pretensioso, como um marcador de quimioprevenção secundário.

Post de Gretel  Rodríguez Rodríguez e Malena Martínez Pérez (FMRP-USP/IBA)

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Aristóteles

Hoje lhes ofereço um transcrito da palestra da bióloga chilena Claudia Cecchi que, com a colaboração de Jorge Mpodozis, seu marido, discute a herança que recebemos do pensamento de Aristóteles, que muitas vez permanece invisível em nossas teorias.

A Herança Aristotélica no Pensamento Biológico. 

 Claudia Cecchi  
(com a colaboraçãio de Jorge Mpodozis)
Dpto. de Ciencias Ecológicas & Dpto. de Biología
Facultad de Ciencias, Universidad de Chile, Santiago

Nelson me convidou a dizer algo sobre a herança de Aristóteles e do pensamento Aristotélico em Biologia. A herança Aristotélica é muito importante e tem sido importante durante muitos séculos. Não sou especialista nesse tema mas temos feito alguns estudos na literatura Aristotélica, que é muito interessante, porque Aristóteles demonstra muito conhecimento sobre a natureza e a Biologia, diferente de outros filósofos gregos.
Aristóteles é reconhecido como um filósofo realista e naturalista e cerca de vinte por cento de seus textos se referem à zoologia e à biologia. Para um biólogo moderno, é impressionante ver a quantidade de coisas que Aristóteles sabia sobre biologia e particularmente sobre os animais; não tanto sobre plantas. Não obstante, reconhecemos que Aristóteles foi um pensador que teve uma influência muito conservadora na Biologia; apesar de ser um tremendo sábio na zoologia e na biologia, há elementos na biologia Aristotélica que o impedem de avançar na direção de ideias biológicas importantes. Por exemplo, por que Aristóteles não consegue chegar à ideia de que os seres vivos podem transformar-se e evoluir? Ele reuniu um enorme cabedal de conhecimentos que o permitiria dar esse passo, mas não o fez. Dizemos que há três elementos na Biologia de Aristóteles que são importantes em relação a isso. Um deles é que, para ele: "Os seres vivos são seres finitos, que se geram (nascem) e se corrompem (morrem). "A geração e a corrupção são elementos de um processo circular, que se repete infinitamente graça à reprodução. Assim, a reprodução tem um propósito claro (em suas palavras, a "causa final") que é: eternizar o finito, assegurando a imutabilidade da forma, ou seja, que não permite a transformação; é um processo que torna infinito um processo que é finito, que tem começo e fim. Por outro lado, na teoria de evolução orgânica é necessário permitir que a reprodução seja um processo que pode gerar transformações. Portanto, esse é um elemento no pensamento Aristotélicoque impede essa conclusão.
Por outro lado, é muito notável no pensamento Aristotélico o finalismo e o funcionalismo. Isso tem a ver com a doutrina das "causas Aristotélicas". Aristóteles afirma que todos os fenômenos naturais têm 4 causas distintas:
CAUSA FORMAL: Entidade abstrata que instrui a forma
CAUSA EFICIENTE: A gênese, processo, mecanismo de geração
CAUSA MATERIAL: Os elementos ou unidades particulares
CAUSA FINAL: O propósito, justificação ontológica.
Fazendo uma metáfora com uma "casa", Aristóteles diria que a "casa" admite 4 causas:
a) a causa formal, que é a planta (blueprint), o projeto segundo o qual a casa é construída; um desenho, uma entidade de dá a forma (é formal) da casa;
b) a causa eficiente, que é o que hoje em dia entendemos como o mecanismo, o processo pelo qual a casa é construída; as coisas que devem ocorrer para gerar uma casa; o processo de colocar os tijolos, o telhado, ou seja, construir a casa;
c) a causa material, que são os elementos que entram na composição da casa: os tijolos, a madeira, etc: e,
d) a causa final, o propósito ou justificação ontológica da casa, para que é essa casa, para
que serve.

Aristóteles muitas vezes criticou outros filósofos dizendo que não levavam em conta essas 4 causas dos fenômenos naturais, e somente viam a causa eficiente (o mecanismo) mas que sempre é necessário considerar as 4 causas.
Dentro dessa doutrina das 4 causas, na realidade, havia uma certa hierarquia. A "causa eficiente" que, para um pesquisador moderno deveria ser a causa mais importante, para Aristóteles era a causa menos relevante e, claramente, a causa mais relevante era a "causa final" (o propósito). Como a "causa final" é muito importante nas explicações aristotélicas para os fenômenos biológicos, qualquer tentativa de, por exemplo, classificar os animais, ou classificar qualquer tipo de fenômeno natural, se baseia na referência à "causa final" (ao propósito). Portanto, a Biologia de Aristóteles é uma Biologia finalista. Isso significa que as coisas naturais têm um fim, um propósito e compreender esse propósito é o mais importante em seu entendimento. Isso era, portanto, uma linha de pensamento finalista e funcionalista. A preponderância absoluta da "causa final" sobre as demais "causas" transparece nesse texto de Aristóteles:
“… não pelo fato de que um ser se desenvolva de uma certa maneira, por isso é dessa maneira (…), quer dizer, a gênese depende da existência, e não é esta que existe em função da gênese. (…) Pois bem, cada coisa existe para algo, e por esta causa e as restantes se desenvolvem de fato todas as características que estão incluídas na definição de cada ser, e que existem com um fim ou sem um fim…” (Aristóteles, In Reprodução dos animais) “

É interessante notar que uma das consequencias importantes que isso tem é a classificação da diversidade dos animais proposta por Aristóteles. Embora os especialistas em Aristóteles afirmem que ele não tinha uma intenção taxonômica, várias vezes nos deparamos com suas classificações dos animais. Essas classificações são muito heterogêneas se apóiam em critérios muito heterogêneos e funcionais ("a existência determina a gênese"). O resultado são classificações com categorias que se sobrepõem e, portanto, de pouca utilidade. Aristóteles termina dizendo que "os organismos bípedes podem às vezes ser sanguíneos", ou seja, não há uma classificação que diga: esse organismo pertence a esse grupo e não a outro; um mesmo organismo pode pertencer a mais de um grupo.
Isso é diferente da taxonomia proposta dor Linneo, na qual cada organismo pertence a um grupo e esse grupo pode pertencer a outro, mas a identidade taxonômica de cada organismo é única. Essa é uma taxonomia muito mais poderosa que a Aristotélica. O próprio Aristóteles dizia que não havia sentido na taxonomia e que era necessário olhar cada animal em sua particularidade.
A taxonomia de Linneo foi uma subversão da doutrina Aristotélica e isso foi um pouco paradoxal porque Linneo e seus sucessores que, por assim dizer, fundaram a taxonomia e a sistemática biológica, são pensadores conservadores, fixistas. Não obstante, eles geraram um método de classificação dos organismos que teve e tem muita importância no desenvolvimento da evolução orgânica posteriormente, mais precisamente, no século XIX.
O “Systema Naturae” (Carl Linné 1758), propõe uma ordenação em uma estrutura ramificada, de grupos inclusivos. A maneira de proceder nesta classificação requer um novo critério de comparação, que se sustenta nas semelhanças estruturais de estruturas homólogas e não em características funcionais. Esse é o sistema que utilizamos até hoje para classificar todos os seres vivos. Todos os seres vivos podem ser classificados em um sistema ramificado e, como esses são ramos que se dividem um outros ramos, temos grupos inclusivos, isto é, grupos dentro de grupos.
Essa idéia é uma idéia que sugere fortemente um origem comum e uma origem comum é a idéia central da evolução orgânica. Linneo não enxerga isso; Cuvier, tampouco o enxerga; Darwin, porém. enxerga isso claramente. A maneira de proceder nesta classificação é importante. Como devo proceder para criar uma classificação que é ramificada e inclusiva? Em que tenho que fixar minha atenção? Que caracteres tenho que notar para conseguir uma classificação que seja ramificada e inclusiva?
A maneira de proceder requer critérios que não são funcionais: requer um critério de comparação que se apóia em comparações estruturais e não nas semelhanças funcionais, um critério de identificação daquilo que hoje chamamos "estruturas homólogas". Quer dizer, uma classificação feita com base em critérios funcionais, não gera uma classificação inclusiva e ramificada. Essa é, portanto, uma subversão às idéias aristotélicas de finalismo. Ou seja, a gênese não ocorre em função da existência, mas sim, ao contrário, a existência é o resultado  de uma gênese, porque há dois critérios importantes para saber se duas estruturas são homólogas: 
a disposição estrutural, que revela se o critério se mantém; e 
o critério da origem embriológica. 
Isso mostra que a gênese produz a (resulta na) existência, e não ao contrário. O critério para estabelecer a homologia é a constâncias das relações estruturais, ou, a origem embrionária dessas estruturas.
Isso equivale a considerar que, ao menos para o estudo da taxonomia, a gênese (a geração dos seres vivos) tem primazia sobre o propósito - se é que esse propósito existe, ele não é o critério central. E quase cem anos após o desenvolvimento da taxonomia Lineana, há um grande marco na teoria da evolução orgânica, que é atribuída a Darwin. Há outros pensadores evolucionistas, anteriores a Darwin, mas Darwin teve o mérito de fazer da teoria da evolução uma teoria que demorou muito pouco tem a ganhar adeptos em toda a comunidade científica européia, pelo menos.
Quando falo da teoria da evolução orgânica de Darwin, me refiro ao aspecto (que trata) da teoria da evolução e não à teoria da seleção natural. Darwin escreveu um livro chamado 'Teoria da Evolução das Espécies por meio da Seleção Natural", mas aí há dois elementos: os elementos da teoria de evolução orgânica e o processo  da seleção natural, que, em realidade não tem tanta relevância na origem das espécies, nas primeiras versões desse livro. Quero, portanto que compreendam que estou falando da teoria da evolução, não da teoria de seleção natural. 
E a teoria da evolução orgânica, basicamente, propõe: 
a) uma origem comum e comunidades de descendência, isto é, que os organismos têm uma origem comum, dois organismos sempre têm um ancestral comum, mais próximo ou mais distante, e.
b) os grupos de organismos representam comunidades de descendência. 

Darwin diz coisas belas ao se referir à classificação Lineana como um ponto de apoio para a evolução orgânica, quase como uma evidência de que essa evolução ocorreu. Na "Origem das Espécies", Darwin escreve:
“Expressões tão famosas como as de Linneo, às quais geralmente encontramos em uma forma mais ou menos encoberta, ou seja, que os caracteres não criam o gênero mas sim que o gênero fornece os caracteres, parece implicar que algum vínculo profundo está incluído em nossa classificação, mais que a mera semelhança. Creio que este é o caso, e que a comunidade de descendência - única causa conhecida da semelhança nos seres vivos - é o vínculo, no qual, em que vários graus de modificação observada, é parcialmente revelada por nossa classificação” (Darwin, A Origem das Espécies, 1872)

Ou seja, Darwin considera que os grupos mostrados pela classificação Linneana são comunidades de descendência e que portanto essa classificação pode ser tomada como uma evidência de origem comum, de evolução.
Outra coisa importante em Darwin, que deveria ser lembrada pelos neo-Darwinistas, ou pelas correntes mais adaptacionistas modernas, é que Darwin enfatiza que os padrões de semelhança só podem ser devidos à comunidade de descendência, e em nenhum  caso a um projeto do criador ou a uma "causa final" (propósito ou função):
“…nada pode ser mais inútil que tentar explicar padrões de semelhança entre membros da mesma classe por alusão à utilidade ou a uma doutrina de causas final” (Darwin, The origin of species, 1872 p. 387)

arwin e os modernos biólogos evolutivos explicitamente renunciaram à causa final como um argumento legítimo na explicação dos fenômenos biológicos. A "causa formal" (a “planta”, o “projeto”) que ainda aparece no pensamento biológico são resquícios do pensamento aristotélico.
Qual é a outra explicação possível? É a explicação religiosa, como a dada por de Cuvier, segundo a qual dois organismos são parecidos porque fazem parte de um mesmo plano, e esse plano é gerado por uma entidade externa, um Criador. Portanto, temos que tomar a decisão sobre o tipo de explicação que vamos aceitar. Se não aceitamos as explicações religiosas, por não estarem no domínio das experiências humanas, então, deveríamos aceitar que, de fato, a semelhança entre organismos revela uma origem comum e que não podemos argumentar que essas semelhanças se devem às funções ou utilidades, ou seja, à doutrina das "causas finais". Ou seja, o tema da evolução orgânica pareceria dar cabo da idéia de causas finais. Isso fizeram Darwin e os evolucionistas, abandonando as causas finais como argumento legítimo na explicação de fenômenos biológicos.
No entanto, até nossos dias, com certa frequência escutamos argumentos que são resquícios das causas finais. A idéia de que os organismos estão adaptados  para alguma coisa, por exemplo, tem um certo sabor a "finalismo"; os biólogos evolutivos sabem disso e se defendem muito dessa situação e afirmam todo o tempo que não são "finalistas". Nas teorias de evolução orgânica e de seleção natural não há finalismo, não há propósitos, apenas mecanismos. 
Embora seja comum escutar pessoas falando como se os caracteres tivessem uma certa finalidade, podemos considerar que a Biologia moderna está livre das causas finais aristotélicas, como propósito legítimo dos fenômenos naturais. Mas há ainda a considerar um aspecto muito importante do pensamento aristotélico que permanece e acho mesmo que é a isso que se refere principalmente o título dessa palestra, ou seja, é preciso considerar no que se transformaram as "causas formais"   (a “planta”, o “projeto”) de Aristóteles. Na Biologia moderna, a "causa formal" tem ainda muito do pensamento aristotélico, que se expressam em diferentes aspectos de diferentes disciplinas da Biologia.
Há uma observação de Cuvier, que diz que os organismos são conjuntos de partes, mas que estas partes não são independentes umas das outras; estão organizadas de uma forma particular que resulta na formação de um todo, que é harmônico e interage de uma certa forma com seu ambiente. Pareceria, portanto, que s partes estão articuladas com uma finalidade, que é gerar um todo. Para Cuvier, esta arrumação particular das partes ao todo representa a condição de existência  (ou causa final) dos organismos de um certo grupo. Cuvier, portanto, respeita a idéia de "causa final" aristotélica, apenas lhe muda o nome para "condição de existência" de organismos de um certo grupo. Assim, as "condições de existência" são aquilo que faz com que todas as partes reconhecidas - os órgãos, os tecidos - estejam todas ordenadas para formar um todo e uma certa interação desse todo com o ambiente.
Como surge um organismo de tal forma que as partes se organizam em relação ao todo? Isso é equivalente à pergunta moderna sobre a adaptação: Como é que os organismos estão feitos de maneiras tão apropriadas para ser o que são e para interagir com o mundo da maneira que o fazem? O que se passa no surgimento desse ajuste tão perfeito com o mundo em que vivem?
Essa pergunta é válida e temos que respondê-la de alguma maneira. E há várias maneiras de respondê-la. Cuvier a respondia dizendo que isso se deve a um plano gerado por um Criador. A teoria da evolução orgânica propõe uma explicação para entender as similaridades entre os seres vivos que, explicitamente, não é finalista. No entanto, a Teoria Sintética - e aqui separo a Teoria Sintética (o neo-Darwinismo) da teoria de evolução orgânica original, porque há uma diferença muito fundamental. A teoria neo- Darwinista, ou Teoria Sintética da evolução introduz o conhecimento sobre a genética, que se desenvolve a partir do começo do século XX, que é a genética mendeliana, particulada, e a incorpora como os elementos da herança. E os elementos da herança variam e são selecionados no processo da evolução. A Teoria Sintética afirma que os genes são a base da geração dos caracteres porque os determinam e são a base dos estados desses caracteres. Essa é uma explicação diferente, que diz que os organismos são como são e suas partes estão ordenadas dessa maneira, porque há genes que determinam a forma. Portanto, são estes genes que instruem que as partes devem ser de certa maneira e não de outra. Portanto, o discurso que se impõe é que os genes contêm a informação  para determinar as partes.
Aqui, portanto, o interessante é que aparece uma palavra - a informação - que tem tudo a ver com a "causa formal" aristotélica. A palavra informação  aparece em muitas explicações biológicas, não apenas os genes contêm informação ; os neurônios transmitem informação; o sistema nervoso processa informação; os animais se comunicam e essa comunicação é a transferência de informação. Assim, a palavra informação tem uma relevância enorme no discurso biológico que nunca é questionada e que além disso ninguém compreende perfeitamente.
A que se refere a informação ? Quando se diz que dois neurônios trocam informação, ou que a informação  é processada no cérebro, essa é uma descrição que não vai adiante, termina aí (como se alguma coisa estivesse explicada); mas a maioria das pessoas aceita essa informação e ademais sabem que em certas parte do cérebro processam certos tipos de informação. E seguimos falando de informação como uma palavra dada e sobre a qual não indagamos o significado estruturalmente.
Dizemos que o genoma contém a informação  que determina a forma: representa uma causa formal de como são os organismos. A informação  é uma "causa formal" abstrata, é uma enteléquia que instrui a forma, é um plano que diz como deve ser a forma de algo. Na metáfora da casa, que mencionamos ao começar, a "causa formal" é a planta, o projeto da casa, um desenho em papel que diz como deve ser construída a casa. Em Biologia, portanto, aceitamos que os genes são como um plano, no qual, de uma certa maneira, está dito como devem ser as formas de um organismo. É uma entidade abstrata que instrui a forma que "in-forma", ou seja,"dá-forma" instruindo a forma das partes e suas relações, ou seja, a maneira pela qual se relaciona com as outras partes. Tudo isso contido em uma estrutura, que são os genes.
É importante entender que a informação não são os genes: os genes contêm informação . Os genes são algo estrutural; a informação  não, é algo mais abstrato, que se diz estar escrito de alguma maneira nos genes. A "causa formal" atua sobre uma matéria prima informe, transformando-a. No entanto, a "causa formal" não sofre transformação alguma neste processo de instruir como deve ser algo, já que é uma enteléquia sem existência estrutural. A matéria sobre a qual a informação atua, essa sim, se transforma, mas ela, em si, não se transforma. A informação não tem existência estrutural, é uma
abstração de algo que aceitamos como um doador de forma.
A "metáfora informativa”na biologia está presente na explicação de vários outros fenômenos: os genes contêm informação; o sistema nervoso, transmite, integra e processa informação; a comunicação animal é um processo de transferência de informação.

Informação e comunicação animal
E aqui, perdoem-me, minha formação é na ecologia condutual, trabalho com a conduta animal e particularmente com o que tem a ver com a comunicação animal intraespecífica, entre animais da mesma espécie. E a comunicação animal é um elemento central da etologia. Na biologia da conduta, a comunicação é um elemento central. É o cimento das sociedades, tem grande relevância em momentos cruciais da vida dos animais, por exemplo, no momento do pareamento sexual, na educação dos filhotes. A comunicação animal é um tema central na ecologia do comportamento e na biologia e é muito interessante porque no estudo da comunicação animal, sempre se se está falando da transferência de informações entre os animais. Por isso, no pouco que me resta desta palestra, queria lhes falar um pouco da informação que está totalmente embebida no tema da comunicação animal e de como isso tem dificultado entender a origem e a evolução da comunicação animal.
Há duas definições muito famosas da comunicação animal. Ambas são definições"informativas". Cada autor tem sua definição de comunicação animal. No entanto, em sua esmagadora maioria, a explicam em termos da transferência de informação:
a) "Processo que envolve a transferência de informação, através de um "sinal" desde um emissor a um receptor, o qual “responde” de alguma forma" (Bradbury &Vehrencamp 1998)
Então há dois elementos na comunicação animal: um emissor e um receptor, e também um sinal que trafega entre os dois. Há outra definição, mais complexa, de Marler:
b) "Transferência de informação não acidental, produzido porque existe um
benefício para o emissor em alterar a conduta do receptor e também um benefício para o receptor em alterar sua conduta de acordo com o sinal do emissor "Comunicación Verdadera (Marler 1977, Dusenburry 1992)
Esta definição inclui um propósito do organismo de produzir uma certa conduta no outro organismo. O importante é que, em ambos os casos, falamos de comunicação em termos da transferência de informação. Essas definições são muito utilizadas e são suficientes para a grande maioria dos ecólogos condutuais. Essas definições geralmente incluem um desenho onde está mostrado um emissor, um receptor e uma flecha indicada como "informação" que indica a transferência como se ocorresse através de um tubo - Reddy fala de uma “metáfora do tubo” da comunicação
 - um tubo pelo qual trafega certa coisa, que é a informação. Depois, o receptor responde e decide de uma certa maneira.
Nesse caso, as características da causa formal voltam a se repetir, ou seja, a informação: é produzida pelos emissores; adquirida pelos receptores; é “algo” que viaja com os "sinais"; portanto é “imaterial”, não tem estrutura; e, é independente do receptor sobre o qual tem a capacidade de instruir uma conduta. Portanto, a informação não é o "sinal", mas algo que viaja com o sinal. A informação permanece inalterada, como não tem estrutura, não pode sofrer mudança alguma.
Há vários tipos de problemas que podemos notar em um definição informativa:
a) Não é uma definição operativa; como saber que há transferência de informação? Quando vou ao campo e quero ver se dois animais estão se comunicando, essa definição não me diz o que tenho que testemunhar para assegurar-me de que houve comunicação, não é fenomenológica; como saber se dois animais estão transferindo informação? Necessitamos algo mais, não é suficiente dizer que houve transferência de informação. E o que efetivamente vemos, quando vemos que ocorreu a comunicação entre dois animais? Basicamente, o que vemos são condutas, condutas às quais chamamos comunicação. O que vemos é uma coordenação de condutas, mais ou menos previsíveis. E isto não está contido nessa definição que diz que dois organismos se comunicam quando transferem informação um ao outro
b) Não é sistêmica (a informação é independente, pelo menos, do receptor) ou seja, a informação não faz parte, é separada do emissor, ou, ao menos é separada do receptor.
c)  Ao não possuir estrutura, torna-se difícil imaginar um mecanismo para a transmissão; é preciso dizer algo mais sobre o mecanismo dessa transmissão
d) Igualmente, torna-se difícil entender como se origina a comunicação (tanto ontogenética como filogenéticamente). Como é que dois organismos de uma mesma espécie começam a comunicar-se; trata-se de entender tanto como aparece a comunicação em organismos que não a tinham; como ocorre isso? Como corre isso na origem das espécies, e como ocorre isso no transcurso da vida de um organismo individual? Não nos ajuda nada dizer que a comunicação é umatransferência de informação.
O que se requer é uma teoria da comunicação que tenha dois elementos centrais. 
Primeiro, queremos que seja sistêmica. O que queremos dizer com isso? Por que deveria ser "sistêmica" Porque, na realidade, os sinais não são independentes da estrutura dos organismos que os emitem e tampouco tem relação com a estrutura dos organismos que os recebem. Quer dizer, há uma insistência em colocar a atenção sobre o "sinal". Mas, na realidade, o que é o "sinal"? É uma coisa que tem estrutura: pode ser uma característica do animal, pode ser uma conduta, pode ser um som, pode ser qualquer elemento da corporalidade de um animal. Esse "sinal" é parte do fenotipo desse organismo, portanto, não pode surgir de maneira independente e tampouco pode surgir de maneira independente daquilo que desencadeia no receptor. Portanto, temos necessariamente que considerar que emissor, receptor e os "sinais", são na realidade um sistema que a evolução coordenou sistemicamente, isto é, em conjunto. Essa situação é radicalmente diferente de entender a origem da comunicação como resultado de três coisas distintas: emissor, receptor e informação que flui; é diferente de entender um todo que integra emissor, receptor e "sinais" em uma visão que é sistêmica e também "histórica".
Porque (esta teoria) deveria ser (também)  "histórica"? Porque, em algum ponto, há uma história comum dos organismo que participam da relação comunicativa; emissor, receptor e "sinais" não evoluíram independentemente uns dos outros. Essa relação comum permite compreender a origem da comunicação.
Portanto a idéia de comunicação animal deveria ser operativa e simples e resgatar, pelo menos, esse dois elementos que deve ter a comunicação, que permitiriam entender melhor qual foi a história evolutiva da comunicação. Uma aproximação mais adequada será uma que resgate a natureza sistêmica e histórica, ou seja, passar de um esquema no qual o emissor manda informação a um receptor, e esse receptor dá uma resposta que pode, ou não, ter influência sobre o emissor; a uma situação na qual o emissor e os sinais têm um certa conexão histórica, e os receptores e os sinais têm uma conexão histórica através da conexão histórica entre emissores e receptores. Quer dizer, esses três elementos estiveram sempre juntos, têm uma história comum.
Portanto, quando buscamos uma definição que resgate todos os elementos da comunicação, chegamos a uma situação que é muito simples e muito operativa e que, de alguma maneira, também resgata essas duas coisas: frente a uma conduta que é dada por um organismo, outro organismo adota recorrentemente outra conduta, outra resposta. O que existe aí em realidade e é central nessa visão é uma coordenação condutual: a comunicação é uma coordenação condutual entre dois organismos e portanto, há uma correspondência estrutural especial entre receptores e emissores.
Na "Árvore do Conhecimento", Maturana e Varela dizem algo muito similar: 
"Como observadores, designamos como comunicativas as condutas que se dão no acoplamento
social, e como comunicação, a coordenação condutual que observamos como resultado dela
(Maturana & Varela, El Arbol del conocimiento, 1984)

Que querem dizer eles por "acoplamento social": a interação de organismos da mesma espécie no âmbito de espectros que isso envolve. E como comunicação, querem dizer a coordenação condutual que observamos em organismos que têm algum nível de acoplamento social, de história social. A comunicação, portanto, não está restrita apenas aos organismos sociais, porque todos os organismos têm algum elemento de coordenação social, alguns não permanentemente, mas sim em alguns momentos da vida.
Portanto o importante na comunicação não é a transferência de informação, mas sim a coordenação condutual e isso imediatamente resgata o fato de emissores e receptores são parte de uma história comum e constituem um sistema. Essa é uma abordagem na qual é muito mais fácil entender a história da comunicação, do que a abordagem que a vê como a transferência de algo imaterial, como a informação.
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Em resumo, o que quis lhes mostrar foi uma mudança na perspectiva aristotélica que, na Biologia, envolveu uma negação das "causas finais" e a afirmar explicitamente que nós, biólogos modernos não somos finalistas. No entanto, prosseguimos muito apegados às "causas formais" e nisso tem uma preponderância central a idéia de "informação". Usamos o conceito de informação na linguagem cotidiana todo o tempo; não obstante, não perguntamos qual é o substrato estrutural da informação nem o que ela significa, ou o que ocorre quando dizemos que duas coisas estão transferindo informação. Inclusive, na vida cotidiana, dizemos que o cartão de crédito contém informação; quando vamos ao terminal bancário sacar dinheiro, dizemos que o cartão transfere informação ao  terminal. Na realidade, não temos idéia do que se passa nessas circunstâncias.E realmente, na linguagem cotidiana, recorremos ao termo informação quando não sabemos quais são as alterações estruturais envolvidas.
É isso o que lhes queria dizer.
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João Francisco Botelho:
Cláudia, pergunto se seríamos de todo justos a Aristóteles atribuindo a ele a culpa por esse "formacionismo". Ernst Mayr no livro "O desenvolvimento do pensamento biológico" diz: "Somente quando foi entendida a natureza dual dos organismos vivos é que se percebeu, nos nossos dias, que a matriz do desenvolvimento da atividade, o programa genético, representa o princípio formativo que Aristóteles havia postulado." Então, ele compara explicitamente o programa genético com as "causas formais" de Aristóteles.
Seria justo isso? Porque em Aristóteles, a forma não preexistia na "causa formal"; no programa genético, de certa forma, a forma preexiste representada. Para Aristóteles, a "causa formal" era só penitencial; potência, a possibilidade para a forma, não sua preexistência. Uma rocha, uma pedra, tinha potência para se tornar uma escultura, mas essa escultura precisava ser efetivada pelas outras causas. No programa genético, isso é muito mais forte; a idéia de que a forma preexiste, um preexistencialismo.
Claudia Cecchi:
Talvez os biólogos modernos sejam "mais reais que o rei". Talvez , no caso do desenvolvimento biológico, Aristóteles tivesse uma noção mais epigenética que a de Mayr e outros biólogos neo-Darwinistas. Pode não ser justo com Aristóteles, mas a "causa formal" é afinal uma invenção dele.
Dina Czeresnia
Gostaria de perguntar como a autopoiese, a capacidade do ser vivo se auto-produzir, se relacionaria com essas quatro causas aristotélicas.
Claudia Cecchi
Boa pergunta. Não sei. Se fosse pressionada, eu diria que a autopoiese poderia estar relacionada à "causa eficiente" (a gênese, o processo, o mecanismo de geração), no sentido de aludir a um mecanismo. Os mecanismos gerativos são o que buscamos hoje em dia, e a autopoiese, de alguma maneira, embora nã totalmente, é um mecanismo gerativo.
Miriam Graciano
Eu não vejo bem assim porque creio que a idéia de causalidade é totalmente incompatível com a teoria, ou o pensamento de Maturana. A teoria da causalidade implica necessariamente a exterioridade de algo que vai desencadear (o que se passa); Maturana é obviamente dialético e os dialéticos não usam essa exterioridade; se você for lá em Hegel, há a auto-causação ; em Spinoza, está a causa suis; que é esta auto-determinação que existe. Quando você fala em causalidade... Em Aristóteles, você tem a questão do ato e da potência. Você só é em ato o que pode ser em potência, e nessa hierarquia toda das
causas, ele coloca o primeiro motor, que é o imóvel, e no final, tudo caminha para lá. São Tomaz de Aquino, quando faz a leitura cristã de Aristóteles, diz que Deus está no começo e tudo retorna a Deus. Spinoza, por sua vez, fecha o ciclo: se o fim é o começo, vocês cortaram o ciclo arbitrariamente e esticaram a linha resultante, mas o ser a si se determina; ele se emana, ele se faz. E a idéia que eu vejo no conceito de autopoiese é essa idéia de um fazer criativo; ele não é auto-praxicus, ele é auto-poiético, é criativo, se inventa, se refaz; encima de quê? de sua história pregressa. Então, ao mesmo tempo que
ele é determinado, ele é imanente; essa imanência, essa determinação, é interna e não externa. Então não cabe teoria causal nenhuma. Para mim não tem sentido algum.
Claudia Cecchi

Na visão moderna, o "mecanismo" não é uma causa, mas se parece a uma causa. E, em Aristóteles, o mais parecido a um processo, é a "causa eficiente".