BLOG DA SOCIEDADE
BRASILEIRA DE IMUNOLOGIA
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sexta-feira, 30 de abril de 2010


Apesar do grande avanço observado em diversas áreas biomédicas, a região Sul do país apresenta apenas pouquíssimos grupos consolidados em imunologia. Nesta área, estamos muito longe do eixo SP-MG-RJ-BA. Reagentes fundamentais não chegam, equipamentos deixam de receber manutenção apropriada, FAPs literalmente não funcionam. Em vários locais, o imunologista, quando existe, é o docente que sabe dosar citocinas por ELISA.

Nesta realidade, em 2007, nasceu o Simpósio Sul de Imunologia (SSI), com os objetivos de i) estimular o despertar para a pesquisa básica e aplicada em imunologia e ii) fomentar ativamente as interações entre pesquisadores e estudantes de graduação e pós-graduação das Universidades e Centros de pesquisas na região Sul do País.

No I SSI, em Florianópolis, organizado pelos Drs. Aguinaldo Pinto e André Báfica da UFSC, estiveram presentes mais de 150 estudantes e 14 palestrantes (http://www.ssi.ufsc.br/issi.html). Lembro que naquela ocasião realizamos o evento com alguns míseros reais no bolso (repassados a muito custo pela FAP local). Foi difícil, mas foi um passo importante e não desistimos. Mais de um ano se passou até a realização do II SSI, novamente na bela capital catarinense, em maio de 2009, e com ótima participação discente (próximo a 200 inscritos) e 16 conferencistas (http://www.ssi.ufsc.br/iissi.html), sendo 3 deles estudantes de pós-graduação. Este evento foi organizado com cerca de 20 mil reais (muito melhor quando comparado com o #1). Nos dois eventos, promovemos de maneira decisiva a interação discente-docente, pedra angular incentivada quando criamos o SSI. Ainda, diversas empresas parceiras como B&D, Ambriex, LGC, etc tiveram um bom volume de negócios através da venda de equipamentos, reagentes (da ordem de milhões - nada mal!).

Durante o II SSI, se juntaram a bordo outros colegas muito otimistas: Drs. Moisés Bauer e Cristina Bonorino da PUC/RS e Drs. Juliano Bordignon/ICC-Fiocruz-PR e Phileno P. Filho/UEL-PR. Ficou acordado então com os colegas paranaenses e gaúchos que o SSI teria periodicidade anual e ocorreria de forma itinerante entre os estados da região Sul, juntando-se ao já tradicional Encontro Gaúcho de imunologia realizado há mais de 10 anos no RS por Bauer e Bonorino.

Em 2010, o III SSI, será realizado na cidade de Curitiba, conhecida por seus inúmeros parques e feiras de artesanato. O evento está sendo organizado por Bordignon, Filho e Báfica, conta com 23 palestrantes, apoio da CAPES, CNPq, BD, Ambriex, Lonza, Interprise, Induslab e BioAmerica e terá 3 dias de duração (26-28 de maio de 2010, www.ssi.ufsc.br). O programa do dia 26/05 conta com mini-cursos, que abordarão temas de interesse para os estudantes como imunossenecência, imunobiologia do óxido nítrico, desenvolvimento de vacinas e diagnóstico de doenças auto-imunes, seguido da conferência de abertura proferida pelo Prof. Manoel Barral-Netto/CPqGM-Fiocruz-BA. Nos dias 27 e 28, serão abordados vários assuntos em mesas-redondas e conferências, como vacinas anti-HIV, imunologia de infecções fúngicas, imunologia do câncer, inflamação, migração de linfócitos, entre outros de relevância na área. A palestra de encerramento do III SSI será realizada pelo Dr. Marcello Barcinski/USP-SP. Mais uma vez, com o intuito de incentivar o interesse pela imunologia teremos uma mesa de short talks de estudantes de pós-graduação. Até este momento, já se inscreveram mais que 100 pessoas, provenientes de 4 estados do Brasil, e 14 cidades diferentes.

Com este clima de serenidade, os pesquisadores da área de imunologia da região Sul do país, vivem um momento especial com a organização do III SSI e ImunoTchê (http://www.imuno2010.com.br/), e esperamos atender as expectativas dos colegas dos demais estados e estrangeiros, e ainda contribuir para reduzir as assimetrias intra- e inter-regionais da área.


Grande abraço,

André Báfica e Juliano Bordginon


quinta-feira, 29 de abril de 2010

Dia da Imunologia

Post a pedido de Grace Kelly (FMRP-USP):

"Federação Europeia das Sociedades de Imunologia - 28 sociedades afiliadas que totalizam mais de 17000 sócios - deram início ao Dia da Imunologia em 29 de Abril de 2005. Nessa data, vai ser lançada uma campanha para aumentar a percepção da importância da Imunologia junto de decisores políticos, científicos e do público em geral por toda a Europa."

Mais informações: Day of Immunology 2010

Pergunta aos blogueiros - será que podemos tomar iniciativa semelhante aqui no Brasil?

Será que só dinheiro resolve?

Lembro-me da frase que o Prof. Jorge Kalil usava quando nós, alunos de doutorado do InCor/USP, reclamávamos da falta de reagentes: “Dinheiro não é problema, é a solução”. E ele estava certo. Certamente recursos fartos é parte da solução dos problemas da ciência brasileira. Mas será que só dinheiro resolve?

A matéria publicada na Nature na última terça-feira (27) conta como a Rússia está agindo para melhorar a ciência nesse país (http://www.nature.com/news/2010/100427/full/4641257a.html ). A Rússia, assim como o Brasil, decidiu investir sério em ciência e tecnologia para voltar a ser a potência que uma vez foi. O governo russo agora aposta nas universidades e promete investir, ao longo dos próximos anos, três bilhões de dólares em educação superior e pesquisa orientada para o mercado. Tudo isso somado ao 0,6 bilhão já investido anualmente. Mas, assim como o Brasil, a Rússia também sofre da hegemonia de instituições engessadas, como disse Marcelo Bozza em seu post aqui no SBIlogI (http://blogdasbi.blogspot.com/2010/04/o-que-e-necessario-para-fazermos-uma.html ) ao comentar sobre a situação das nossas instituições.

Pegando carona no post do Marcelo e no comentário do Barral, pergunto: será que só dinheiro é a solução? Acho que a maioria de nós concorda que precisamos de uma reforma geral nas nossas instituições de pesquisa para nos tornarmos competitivos com nossos pares internacionais. Por exemplo, não adianta aumentar a verba para reagentes se temos de esperar 3-6 meses por eles ou pagar o dobro do preço pelos mesmos reagentes “nacionalizados”. Mais exemplos incluem não só aumentar o número de doutores, mas melhorar as condições desses doutores para fazer pesquisa. Investir no treinamento e contratação de pessoal qualificado para operar as máquinas de última geração é um objetivo a ser perseguido também. Esses são apenas alguns exemplos. Compartilhe conosco outras idéias. Vamos colaborar com essa empreitada!

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Interferons do tipo I e tuberculose


Post de Ricardo Khouri
Mais uma vez, os laços científicos estabelecidos entre o excelente imunologista Dr. Alan Sher e pesquisadores brasileiros trouxeram bons frutos (veja post). Recentemente, a Dra. Lis Antonelli, após um período de dois anos como Visiting Fellow no NIAID Laboratory of Parasitic Diseases, publicou um interessante trabalho sobre o papel dos IFNs do Tipo I (IFN-alfa/beta) endógenos no modelo experimental murino infectado com Mycobacterium (M.) tuberculosis in vivo (Intranasal Poly-IC treatment exacerbates tuberculosis in mice through the pulmonary recruitment of a pathogen-permissive monocyte/macrophage population. J Clin Invest. 2010).
Depois de algumas décadas sendo descritos simplesmente como citocinas antivirais, os IFNs do tipo I (IFN-alpha/beta) ganharam, nos últimos anos, uma atenção considerável como imunomoduladores em doenças infecciosas causadas por agentes como bactérias, fungos e protozoários. No entanto, não há na literatura nenhum papel protetor ou deletério estabelecido nos diferentes modelos experimentais usados para estudar tais doenças infecciosas, apresentando frequentemente efeitos contrastantes quando usados em diferentes doses e/ou regimes de tratamento. 
No estudo realizado por Antonelli et al., camundongos selvagens C57BL/6 foram expostos a concentrações baixas de M. tuberculosis (H37Rv), através de aerosois, e foram tratados por quatro semanas com doses intranasais de Poli ICLC (Poli I:C associado a poli-L-lisina e carboximetilcelulose). O uso de Poli IC associado a poli-L-lisina e carboximetilcelulose prolonga a indução de IFNs do Tipo I in vivo. O tratamento foi iniciado nos grupos animais no primeiro dia (fase aguda) ou no quarto mês após a infecção (fase crônica) e foi capaz de induzir altas concentrações de IFNs do tipo I nos pulmões dos camundongos. O uso do Poli ICLC na fase aguda exacerbou a infecção em 2-log e induziu extensas áreas de necrose nos orgãos pulmonares dos animais. O uso do Poli ICLC na fase crônica da infecção determinou a morte dos animais já no dia 17 após inicio do tratamento. Estes efeitos deletérios não foram observados quando camundongos C57BL/6 depletados do receptor para IFN do tipo I (ifnabr) infectados com M. tuberculosis foram tratados com Poli ICLC.
Interessante, o efeito maléfico do Poli ICLC não estava associado a uma redução na resposta imune do tipo Th1 entre os camundongos tratados ou não. Em ambos os grupos dos camundongos infectados foram detectados as mesmas quantidades de células CD4+CD44+ e CD4+T-bet+ no infiltrado pulmonar e a mesma capacidade dessas células produzirem IFN-gama/TNF-alfa após estimulo in vitro
O papel prejudicial dos IFNs do tipo I foi explicado pelo recrutamento preferencial de uma população macrofágica (CD11b+Gr1int) permissiva a infecção por M. tuberculosis. Antonelli et al., mostraram que a indução da expressão de grandes quantidades da quimiocina CCL2 após o tratamento com Poli ICLC atraía os macrófagos CD11b+Gr1int para o sítio da infecção. Ademais, a permissividade dessas células foi exacerbada pelo tratamento com IFNs do tipo I exógeno in vitro reduzindo a expressão de MHC II e aumentando significativamente a carga parasitária nestes macrófagos.
De acordo com os resultados apresentados neste trabalho, os efeitos deletérios dos IFNs do tipo I, já foram mostrados anteriomente no modelo experimental de leishmaniose humana. Nosso grupo demonstrou que o IFN-beta exógeno era capaz de induzir um aumento significante da carga parasitária dos macrófagos infectados in vitro (Khouri et al., 2009; www.jimmunol.org/cgi/doi/10.4049/jimmunol.0802860). Este aumento foi reflexo da redução na geração de superóxido pelos macrófagos tratados, causado pelo aumento da indução da enzima antioxidante superóxido dismutase 1 (SOD1). 
Assim, a inibição da atividade leishmanicida e bactericida de macrófagos humanos in vitro revela uma semelhança notável do IFN tipo I com o TGF-β, a principal citocina responsável pela desativação de macrófagos. Dessa maneira, os resultados deste trabalho alertam para o uso de adjuvantes para potencialização dos efeitos protetores de vacinas contra microorganismos intracelulares. Como sabemos, muitos dos adjuvantes, assim como o Poli ICLC, utilizam os PRRs (Pathogens Recognition Receptors) para induzir sua ação imunomoduladora e produzir entre muitos fatores, IFNs do tipo I (veja o post Janeway e os PRRs).

Um mês do SBlogI

‘Stamos em pleno mar…. Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Não ‘stamos num navio negreiro, mas singramos mares nunca d’antes navegados, por nós. O blog da SBI, um blog de Sociedade científica, é um caminho novo para todos nós. Chegamos a um mês da aventura, contada da saída de Palos, ou seja, quando João lançou-nos na aventura do SBlogI.
Tivemos posts bastante variados e fomos recompensados por um bom número de visitas. Agradecemos a quem nos segue no blog, no Facebook e no Twitter (@SBlogI).
Como está a nossa navegação? Disto pouco sabemos. Comenta-se pouco, ficamos sem rumo.
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.


O Navio Negreiro de Antonio de Castro Alves.
Extracto de Proverbios y cantares (XXIX) de Antonio Machado.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Misturando imunologia e neurociências

Sempre gostei de misturar neurociências e imunologia, desde os tempos de iniciação. O estudo de como interagem os sistemas nervoso e imune ainda hoje é o que predomina nas linhas de pesquisa que me interessam. Arriscaria dizer que essa é uma combinação bem pouco comum entre os imunologistas e que de quando em quando levanta coisas curiosas. O post de hoje é exatamente sobre isso, um artigo publicado na última edição da nature medicine que descreve a participação de receptores do tipo Toll (TLR) na epilepsia. Quase sempre pensamos nos TLR no contexto da sua ativação pelos padrões moleculares associados a patógenos, no entanto, cada vez mais, surgem evidências de que ligantes endógenos também ativam os TLR. Neste caso, os TLR4 parecem ser ativados por HMGB1, uma proteina nuclear que faz parte da composição da cromatina e é liberada por neurônios e células da glia em processo de morte celular. Os dados do trabalho indicam que essa ativação aumentou a frequência e a duração das convulsões em modelos experimentais de epilepsia. Antagonistas de HMGB1 e de TLR4 revertem o fenômeno, o qual também não é observado em camundongos C3H/HeJ (que não sinalizam via TLR4). Curiosamente, o artigo também descreve que a expressão de TLR4 e de HMGB1 está aumentada no hipocampo de pacientes com epilepsia do lobo temporal. Os autores terminam por sugerir uma nova estratégia para o tratamento de determinadas epilepsias. Se isto vai acontecer, o tempo dirá. De qualquer modo, parece uma leitura interessante para os que também gostam de misturar imunologia e neurociências.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Que tal o exercício de explicar sua linha de pesquisa em cinco minutos?

Imagine o seguinte cenário: sexta-feira à noite, pessoas relaxadamente sentadas em sofás vermelhos espalhados por um amplo saguão, discutindo... ciência. Isso mesmo! Tal evento, Big Ideas for Busy People, aconteceu na última sexta-feira (23), como parte do Festival de Ciência de Cambridge, nos Estados Unidos. Embora descontraído, o clima estava também acelerado, pois os dez cientistas presentes tinham a árdua tarefa de explicar suas pesquisas em apenas cinco minutos, para um público diversificado, e a plateia tinha outros cinco minutos para fazer perguntas. Foi muito interessante e divertido, e serviu também para despertar a curiosidade sobre diversificadas áreas da ciência.


Universo paralelo, dimensões espaciais extra, lixo atômico, vida sintética, neurobiologia do comportamento foram alguns dos temas apresentados. Discutiu-se também sobre psicopatas, cérebro como computadores, redes sociais, entre outros. Mas o que quero destacar aqui, por conta do interesse dos leitores do blog, é a fala de Pardis Sabeti, professora da Universidade de Harvard e pesquisadora do Instituto Broad (MIT/Harvard).

Sabeti estuda a seleção natural positiva no genoma humano, procurando por regiões que estão sofrendo mutações e tentando determinar há quanto tempo tais mutações apareceram. A última contribuição do grupo da médica pesquisadora, que é também rock star, foi combinar diferentes tecnologias do estudo do genoma, propondo o que ela chamou de CMS (Composite of Multiple Signals). Utilizando o CMS, os pesquisadores conseguiram identificar regiões menores do genoma que estão sob pressão seletiva, ao contrário de metodologias anteriores que identificaram regiões enormes, contendo vários genes e milhares de polimorfismos, segundo os autores. Recomendo a leitura do paper publicado este ano na Science, que explica os detalhes metodológicos de maneira acessível para quem não é da área.

Além de regiões relacionadas à percepção sensorial, metabolismo (tolerância a lactose) e pigmentação da pele, Sabeti identificou também vários genes relacionados a resistência a infecções (apareceu na lista IL-21, receptor de vitamina D, entre outros). Mas pelo seu entusiasmo, ficou evidente que o principal interesse atual de Sabeti é o estudo da resistência à infecção ao vírus Lassa em africanos, especificamente na Nigéria. Vamos ficar atentos a tais pesquisas.

Confesso que achei o modelo do evento muito interessante e aproveito para propor o desafio: você consegue explicar sua pesquisa em cinco minutos para pessoas não envolvidas com ciência?

domingo, 25 de abril de 2010

"Science, Language, and Literacy"


Uberlândia (tarda, mas não falha...) - Este é o título da edição especial da revista Science desta semana. Há textos excelentes sobre o uso de literatura acadêmica no ensino e como esta prática pode afetar profundamente o nível de ciência gerado em uma instituição, país ou continente. Sinceramente, acho que este é um 'costume' pouco difundido em no Brasil e que certamente influi no resultado da pesquisa aqui gerada. Acredito que se esta prática fosse mais usual em nossas instituições de ensino (principalmente na graduação), os alunos sairiam muito mais 'prontos' para a vida profissional e possível pós-graduação. Contudo, a nossa realidade hoje mostra que os graduandos preferem ficar alheios a ciência, enquanto os pós-graduandos relutam em realizar leituras de periódicos de vanguarda, preferindo o 'feijão com arroz'...

E quanto a você amigo blogueiro, concorda em difundir a leitura científica avançada em nossas instituições?

Existe uma hierarquia das ciências?


A física está no topo da hierarquia científica, as ciências sociais na base e as ciências biológicas em posição intermediária. Esta idéia é “assumida” por muita gente, inclusive cientistas. Os físicos dizem que ela é “intuitiva” e está refletida em vários aspectos da vida acadêmica. Muitas vezes dita na forma que as ciências físicas são mais duras. 
A “dureza” das ciências é assumida pelo grau com que os seus resultados são determinados por dados e teorias no lugar por fatores não cognitivos. Lembre que a idéia de medicina baseada em evidências não é muito antiga, ainda há quem faça medicina mais como arte. 
Mas, qual o embasamento científico da afirmativa desta hierarquia científica. Os resultados e teorias da física são mesmo mais baseados em dados sólidos? Um artigo recente na PLoS ONE, provocativamente intitulado “Positive” Results Increase Down the Hierarchy of the Sciences, analisa esta questão. O estudo analisou 2.434 trabalhos de várias disciplinas que declaravam haver testado uma hipótese e determinaram quantos trabalhos haviam chegado a resultados “positivos” ou “negativos” para confirmação da hipótese. Eles assumiram que se a hierarquia científica estiver correta os pesquisadores de ciências menos “duras”, por terem menos restrições aos seus vieses conscientes ou inconscientes terão mais resultados positivos.
Os dados mostrados confirmaram a hipótese, para disciplinas, campos científicos e metodologias. Há vários elementos que foram considerados na análise, como as diferenças entre disciplinas puras e aplicadas, teste de mais de uma hipótese. 
O quadro geral (Figura 1 do trabalho e reproduzida acima) por disciplina indica diferenças interessantes:
the odds of reporting a positive result were around 5 times higher among papers in the disciplines of Psychology and Psychiatry and Economics and Business compared to Space Science …. In all comparisons, biological studies had intermediate values.”
Eles concluem que a natureza das hipóteses testadas e a lógica e o rigor empregado para testá-las variam de forma sistemática entre disciplinas e campos científicos e que há uma hierarquia sim.
O que acham da posição da imunologia?

Fanelli, D. (2010). “Positive” Results Increase Down the Hierarchy of the Sciences PLoS ONE, 5 (4) DOI: 10.1371/journal.pone.0010068

sábado, 24 de abril de 2010

SBI na Rede




Confira o SBI na Rede de Abril de 2010.

Ano 9, mais de 80 números... Parabéns a SBI e a todos que participaram.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O que é necessário para fazermos uma ciência (imunologia) de excelência?

Nas próximas semanas irei escrever textos em nosso blog fazendo algumas reflexões sobre os aspectos que constituem dificuldades para realizarmos uma imunologia de excelência no Brasil. Esse é um tema recorrente em nossas discussões cotidianas e me parece fundamental que seja mesmo. De fato, acho importante que esta discussão seja intensificada e a proposta é que vocês participem com suas opiniões e experiências.

A própria idéia de excelência deve ser o marco inicial desta discussão e será o objeto do próximo texto. O que devemos levar em conta na aferição da qualidade? Aqui nos deparamos com uma gama de critérios objetivos e subjetivos como o índice de impacto das revistas, o número de citações dos artigos que publicamos, os temas abordados, as técnicas utilizadas, a qualidade do texto, a qualidade dos recursos humanos que estamos formando, a qualidade das teses de nossos alunos, como nossas instituições são avaliadas no Brasil e no exterior. Há ainda aspectos mais subjetivos, mas não menos relevantes, como a satisfação que nos dá os artigos que publicamos, como vemos o desenvolvimento de nossas carreiras científicas, o reconhecimento de nosso trabalho pelos pares ou ainda o quanto o nosso trabalho interfere com a transformação da sociedade.

Aqui vai uma tentativa inicial de elencar alguns dos problemas que interferem com a ciência que fazemos e que me parecem recorrentes: instituições engessadas e burocráticas; a (falta de) qualidade dos animais de experimentação; a dificuldade de importação de reagentes; a infra estrutura dos laboratórios; a falta ou ineficiência de setores multiusuários nas instituições; o tempo que nós perdemos com burocracia; o número ainda pequeno de bolsas de pós doutorado; a inexistência de programas de financiamento individual com valores substanciais e de maior duração; a endogenia nas contrações e a falta de mobilidade dos cientistas que uma vez contratados jamais perdem seus empregos; cidades grandes e violentas que dificultam o deslocamento e a ida ao laboratório em horários “alternativos”. Estes e outros pontos serão discutidos nos próximos textos.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A Tuberculose e o Brasil


No Brasil, perto de 100 mil casos de tuberculose são notificados anualmente, sendo que, em 2008 foram notificados 68.147 casos novos da doença, dos quais 56.172 foram formas pulmonares bacilíferas e 9.712 extrapulmonares. A mortalidade atinge cerca de 6 mil pacientes e os principais fatores que contribuem para a manutenção e agravamento do problema são a pobreza e a ocorrência da AIDS nos grandes centros. O aumento da ocorrência da resistência medicamentosa e da multidroga-resistencia (MDR) é outra preocupação não só do Ministério da Saúde, mas também do programa Stop TB da Organização Mundial da Saúde (OMS) em parceria com outras organizações internacionais.

De acordo com recentes informações da OMS mais de 500.000 de casos de tuberculose multidroga-resistente (MDR) ocorrem anualmente no mundo – incluindo 50.000 casos de tuberculose onde o bacilo é resistente à maioria das drogas disponíveis (XDR). Situação extremamente preocupante para os 22 países que respondem por 80% dos casos da tuberculose.

A resistência a droga é normalmente ocasionada pelo mal uso dos fármacos como administração irregular e, principalmente, pelo abandono do tratamento. O paciente normalmente apresenta baciloscopia positiva mesmo após o 4º mês de tratamento e pode apresentar os sinais e sintomas sugestivos de tuberculose pulmonar ou extrapulmonar. O diagnóstico deve ser feito através de cultura com teste de sensibilidade do bacilo ainda presente no paciente. No Brasil, a situação de resistência a droga existe, mas de acordo com o Ministério da Saúde ainda não é crítica. Aparentemente a principal maneira de prevenir que o Brasil caminhe em direção à realidades encontradas em alguns países do leste europeu e Ásia é promover a aderência do paciente ao tratamento, diminuindo cada vez mais o abandono e assegurando assim a cura. Atualmente o Brasil apresenta uma baixa proporção de casos de MDR. Isto se deve não só ao uso da apresentação de antibióticos combinados em uma única cápsula, mas principalmente à não disponibilização destas drogas em farmácias comerciais e a implantação dos DOTS (Estratégia de Tratamento Diretamente Observado). O controle e a distribuição adequada dos antibióticos no nosso país, onde o tratamento da tuberculose é em bem público, tem sido o ponto mais importante para evitar a resistência às drogas. Talvez esta seja a melhor explicação para o fato de, segundo o Ministério da Saúde, o Brasil, que já forneceu aproximadamente 2 milhões de tratamentos contendo rifampicina e isoniazida, apresentar uma proporção de MDR até 10 vezes menor do que países que pouco ou nunca fizeram uso desta combinação de drogas em seus programas de controle.

Recentemente, o Comitê Técnico Assessor do Programa Nacional de Controle da Tuberculose recomendou a inclusão do etambutol, no esquema de tratamento para adultos e adolescentes. Desse modo, está recomendado o uso de rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol na primeira fase do tratamento durante dois meses, seguidos de rifampicina e isoniazida durante quatro meses. O regime pode variar em condições especiais de acordo com a recomendação do Ministério da Saúde.

Apesar do regime de tratamento estar aparentemente funcionando, a dificuldade e demora encontrados no diagnóstico e a falta de uma vacina eficaz sinalizam para uma ainda longa convivência com a tuberculose no Brasil e no mundo.

Um comentário na Nature Medicine deste mês, sobre a falta de dados nacionais na Índia e outros países em desenvolvimento sobre tuberculose MDR e XDR me chamou a atenção para este tópico. Infelizmente vou ficar devendo algumas infromacoes mais precisas a vocês blogueiros e leitores do SBlogI. Enquanto estava escrevendo este post não consegui encontrar informações importantes para a construção de um cenário real da tuberculose no Brasil, como por exemplo o próprio número de casos atuais de MDR e XDR. Espero que alguém nos ajude com estas e outras informações complementando este Post. Abraços a todos!

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Prêmio
 Prof. Wroclawski 
2010, para publicações


A revista einstein, publicação científica oficial do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, premiará artigos científicos originais na área da saúde, submetidos à revista, no período de 16/08/2009 até 31/07/2010.
Objetivo:
Fomento e divulgação de estudos nacionais nas categorias de Ciências Básicas e Medicina Experimental, Medicina Clínica, Medicina Cirúrgica e Saúde Multiprofissional.
Regulamento:
Os trabalhos deverão ser completos e originais, formatados como artigo científico conforme instruções descritas no site da einstein.

Maiores detalhes no site do Prêmio. 

Mark Davis e a Imunologia Humana




Recentemente fui a uma palestra do imunologista Mark Davis, da universidade de Stanford, California no Memorial Sloan Kettering em Nova York. Davis ficou conhecido por ter clonado o gene do receptor de células T, e fez várias contribuições importantes na área da biofísica da sinalização pelo TCR, amaioria das quais veio de estudos com camundongos. Portanto, fiquei surpreso quando, ao invés de restringir-se a estudos animais, Davis dedicou grande parte da palestra à imunologia humana e a como esse deveria passar a ser o enfoque da imunologia em um futuro próximo. Dando tom à palestra, Davis começou com a frase: “To the mice in the audience, I have good news”. Alguns dos principais tópicos levantados por Davis, que parece estar embarcando numa cruzada rumo à humanização da imuno:
- Apesar do grande sucesso no entendimento dos principais mecanismos pelos quais o sistema imune opera, a imunologia, centrada no modelo do camundongo, ainda está devendo muito em termos de intervenções terapêuticas em humanos;
- Estamos investigando um sistema regulado por polimorfismos e interações com microorganismos em animais geneticamente idênticos e cada vez mais limpos;
- A maioria dos modelos animais de doenças só são considerados modelos por conveniência (porque os cientistas querem que estes sejam modelos);
- O sistema imune é um dos poucos sistemas do organismo que não tem niveis de referência de “normalidade” – podemos perguntar a um médico como anda nosso colesterol ou nossa função renal e hepática, mas ainda não temos bons parametros para avaliar o estado do nosso sistema imune;
- Por outro lado, a imunologia é uma das poucas áreas em “experimentos” com humanos (vacinação) são rotina. Apesar disso, raramente analisamos os resultados desses “experimentos” de forma sistemática;
- E, finalmente, enquanto áreas como a genética se beneficiaram enormemente de projetos de grande escala (como o genoma humano) na transição de organismos modelo para o estudo de humanos, tais projetos não existem na imunologia, que continua sendo feita por laboratórios individuais.
Essa discussão serviu como introdução para o projeto de imunologia humana que Davis está desenvolvendo em colaboração com diversos laboratórios espalhados pelos EUA. Esse projeto visa investigar exaustivamente um grande número de amostras de sangue humano em várias condições fisiológicas ou patológicas (como por exemplo, antes e depois da vacinação contra a gripe), usando diferentes abordagens, desde as mais comuns, como medição de respostas de anticorpos e de citocinas no soro, até técnicas mais avançadas como microarray de expressão gênica em leucócitos, sequenciamento do repertório de TCR e BCR e single-cell PCR para expressão gênica combinatória em células únicas.
E vocês o que acham? Estamos prontos para deixar de lado os camundongos e embarcar na imunologia humana? Comentem, queremos saber a sua opinião!

terça-feira, 20 de abril de 2010

Off topic

Uberlândia (feriado, nem acredito...) - Dando um tempo na Imunologia para discutirmos outro assunto relevante: depois de ver esse gráfico, fiquei em dúvida sobre quem é o verdadeiro vilão da história...

Inflammation and Diseases




Essa figura foi retirada de uma apresentação do nosso querido Marcelo Bozza. Mas já vi a mesma figura em palestras de vários dos nossos ilustres Farmacologistas e Imunologistas.

A realidade é que o tempo passa, alguns tópicos entram na moda, outros saem da moda, outros retornam à moda, mas Inflamação parece que está sempre na crista da onda.

Esse ano, a Cell Press (Cell Symposia) está organizando um Simpósio de Inflamação e Doenças, em Lisboa, de 26 a 28 de Setembro.

Para os que se interessam, vale a pena conferir.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Você já ouviu falar em sistema imune biônico?

Enquanto a plateia se preparava, seguindo a perigosa tradição de comer pizza antes de palestras, a imagem abaixo estampava a tela:


Fiquei pensando, curiosa: como assim sistema imune biônico? Meu pensamento vagante foi interrompido quando um aluno do MIT anunciou que o jovem professor Darrell Irvine iria começar sua fala, que aconteceu na última quarta-feira (14), como parte das Lunch N Lectures organizadas pelo Departamento de Ciências de Materiais da mesma instituição.

Aliando terapia celular com nanotecnologia, Irvine e seu grupo conseguiram, em modelo experimental de melanoma, eliminar o agressivo tumor eficientemente. Em um claro exemplo de engenharia de células, nanopartículas contendo IL-15 e IL-21 foram presas à superfície de linfócitos T e, em seguida, injetadas nos animais com melanoma. A terapia com nanopartículas potencializou o efeito local das citocinas, uma vez que o grupo que recebeu células +IL-21+IL-15 - não encapsuladas nas nanopartículas - continuou com o tumor.

A ideia de tal estratégia é tentar vencer dois obstáculos conhecidos da imunoterapia do câncer: 1) a baixa frequência de células T tumor-específicas e 2) a baixa sobrevivência e persistência das funções efetoras de células T utilizadas em terapia celular. Segundo Irvine, o paper de Steven A. Rosenberg publicado na Science em 2006 mostrou que com engenharia genética é possível obter um número suficiente de linfócitos T tumor-específicos para utilização em terapia celular. E agora com a estratégia de decorar linfócitos T (também tumor-específicos) com nanopartículas contendo citocinas que potencializam as funções celulares efetoras, Irvine acredita este seja um promissor caminho da entrega local de drogas para tratamento dos mais variados tipos de câncer.

Daí o termo biônico. Potencializando o lado armamentista do sistema imune, aumentando o desempenho biológico da terapia celular por meio da... engenharia.

Irvine falou muito mais, especialmente sobre o desenvolvimento de materiais eficientes para drug delivery, hidrogel, entre outros. Vamos ficar de olho em suas pesquisas.

domingo, 18 de abril de 2010

Imunidade de mucosa e subpopulações de células não convencionais

Finalmente o último post sobre as novidades do congresso de imunoregulação.

Fiona Powrie falou sobre o modelo de colite inata induzida pela infecção por Helicobacter hepaticus e o papel da IL-23 nessa doença inflamatória. O seu grupo já sabia da importância da IL-23 na colite inata (induzida pela infecção por H. Hepaticus em animais deficientes de RAG) e adaptativa (induzida pela transferência de células T “naive” em animais deficientes de RAG) (ver Hue et al, 2006 JEM 203: 2473-2483 e Izcue et al, 2008 Immunity 28:559-70). Eles agoram identificaram a população de células da lamina própria que estão involvidas na indução da colite inata (acabou de ser publicado na Nature dia 14 de abril – ver Buonocore et al, 2010). Essas células são parecidas com as Lti (lymphoid tissue inducer cells) presentes no intestino, elas expressam Thy1 e Sca1 e são Lin- (B220-GR1-CD11b-CD3-). Após a infecção com H. Hepaticus, ocorre expansão dessas células na lâmina própria, e quando isoladas e cultivadas na presença de IL-23, elas produzem IFN-gama, IL-17 e IL-22. Para mostrar a importância dessas células na colite inata, eles a depletaram com anticorpo anti-Thy1 e observaram completa inibição de doença após infecção. Será que as LTi sinergizam ou antagonizam com as células T durante a colite? Isso poderia ajudar a entender os mecanismos operantes na doença inflamatória intestinal.

O brasileiro Daniel Mucida falou sobre seu novo trabalho sobre a caracterização de células T CD4+CD8alfa+ alfa+ no intestino. Utilizando o modelo de colite induzido por células T CD4 “naive” (Powrie et al, 1995), eles observaram que as células T CD4 transferidas para recipientes deficientes de RAG adquirem expressão de CD8alfa no intestino mas não nos linfonodos mesentéricos ou baço. As células T CD4+CD8+ encontradas no intestino expressam genes também expressos por células T CD8 citotóxicas e perdem a expressão do fator de transcrição ThPOK, indispensável para diferenciação de linfócitos T CD4 no timo, sugerindo conversão de células T CD4 maduras em CD8. Em seguida, eles transferiram células T CD4 de animais que não são capazes de re-expressar CD8 em células maduras para animais deficientes de RAG e verificaram que as células transferidas que migraram para o intestino expressavam níveis bastante reduzidos de CD8alfa e aumentados da citocina IL-17, crucial para o desenvolvimento de colite. Além disso, os recipientes dessas células desenvolveram colite mais grave, sugerindo que a aquisição de um fenótipo CD8 pode ser benéfico para o controle da colite. Daniel e colaboradores definiram um novo subtipo de células T CD4 efetoras com plasticidade suficiente para conversão em um fenótipo de células T CD8 citotóxicas mas que preserva a via de apresentação de antígenos por MHC classe II e é capaz de inibir resposta inflamatória induzida por células Th17. Essses resultados e outros mais devem ser publicados em breve.

Microarranjo de proteinas para avaliação de anticorpos na malária.



Postado por Bruno Andrade



Um trabalho recente no PNAS (A prospective analysis of the Ab response to Plasmodium falciparum before and after a malaria season by protein microarray; PNAS 107:6958-6963, 2010 ; doi: 10.1073/pnas.1001323107) avalia, através de metodologia de alto desempenho, os possíveis alvos de anticorpos protetores na malaria por P. falciparum.

Há bastante tempo se sabe que o desenvolvimento de anticorpos anti-parasita na malária ocorre somente alguns anos após a exposição ao parasita. Também não é recente o reconhecimento da importância dos anticorpos na imunidade da malaria, contudo pouco se sabe dos alvos dos anticorpos, em especial aqueles com papel protetor. O trabalho contribui de forma importante para a compreensão do problema ao realizar um microarranjo com cerca de 23% do proteoma do P. falciparum testado em soro de 220 indivíduos.

É promissor que 49 proteínas do P. falciparum, medidas antes e depois do período da malária, aumentem em em crianças infectadas que não desenvolveram doença em relação a crianças que ficaram doentes. Seriam estas proteínas candidatas para uso em imunoproteção? Muito cedo ainda para concluir isto. Os autores reconhecem que são necessários mais estudos, inclusive em outras áreas endêmicas, para uma melhor compreensão da imunidade humoral protetora na malária falciparum.

Veja o resumo do artigo:

“Abs are central to malaria immunity, which is only acquired after years of exposure to Plasmodium falciparum (Pf). Despite the enormous worldwide burden of malaria, the targets of protective Abs and the basis of their inefficient acquisition are unknown. Addressing these knowledge gaps could accelerate malaria vaccine development. To this end, we developed a protein microarray containing 23% of the Pf 5,400-protein proteome and used this array to probe plasma from 220 individuals between the ages of 2–10 years and 18– 25 years in Mali before and after the 6-month malaria season. Episodes of malaria were detected by passive surveillance over the 8- month study period. Ab reactivity to Pf proteins rose dramatically in children during the malaria season; however, most of this response appeared to be short-lived based on cross-sectional analysis before the malaria season, which revealed only modest incremental increases in Ab reactivity with age. Ab reactivities to 49 Pf proteins measured before the malaria season were significantly higher in 8– 10-year-old children who were infected with Pf during the malaria season but did not experience malaria (n = 12) vs. those who experienced malaria (n = 29). This analysis also provided insight into patterns of Ab reactivity against Pf proteins based on the life cycle stage at which proteins are expressed, subcellular location, and other proteomic features. This approach, if validated in larger studies and in other epidemiological settings, could prove to be a useful strategy for better understanding fundamental properties of the human immune response to Pf and for identifying previously unde- scribed vaccine targets.”

Você acha que esta metodologia é promissora?

Você investiria tempo/dinheiro na validação desta abordagem para a malária ou outras patologias?

Imagem: Richard J. Pleass and Anthony A. Holder. Antibody-based therapies for malaria. Nature Reviews Microbiology 2005 3, 893-899 doi:10.1038/nrmicro126

sábado, 17 de abril de 2010

Temos o dever ético de eliminar a poliomielite?


Um artigo recente do The Lancet levanta esta questão (Is there an ethical obligation to complete polio eradication? doi:10.1016/S0140-6736(10)60565-X).
Claudia Emerson e Peter Singer comentam sobre o debate entre as posições de erradicação e de “controle efetivo”. Vários grupos têm se posicionado contra a erradicação. Seus argumentos são baseados em análise de risco e benefício, o equilibrio entre o bem individual e o coletivo, o consentimento esclarecido etc.
Quais os argumentos éticos a favor da erradicação? Segundo os autores, eles têm sido pouco divulgados e eles propõem:
  • A falta de erradicação resulta em dano e é uma obrigação moral evitar o dano prevenível;
  • A completa erradicação poupa as futuras gerações dos danos  associados à poliomielite;
  • Já há um compromisso moral reconhecido de expandir a saúde pública como um bem público global.
O texto expande nestes tópicos e traz muitos pontos relevantes. Vale a pena a leitura. Afinal, vacina é um dos grandes avanços resultantes do conhecimento imunológico. Discutir o tema de vacina pressupõe algo para além do estímulo do sistema imune.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Tolerância, células T reguladoras e mastócitos

Mais um pouco das novidades do congresso de imunoregulação em Davos ocorrido em Março.

Mike Dustin falou do trabalho recentemente publicado na science sobre o papel da proteina quinase C- Theta (PKC-theta) na atividade supressora das células T reguladoras (ver Zanin-Zhorov et al, 2010 Science). O grupo já sabia que o recrutamento de PKC-theta para a sinapse imunológica é necessário para completa ativação de células T efetoras. Entretanto, a PKC-theta é sequestrada para fora da sinapse imunológica das Tregs. Em seguida, verificaram que o bloqueio de PKC-theta aumenta a atividade supressora das Treg. Esses resultados podem abrir caminhos interessantes para o desenho de novas terapias usando as famosas células T reguladoras.

Randolph Noelle falou sobre a atividade supressora de mastócitos. Se você achava que os mastócitos só participavam da alergia liberando seus grânulos, veja também como eles colaboram com as Treg para induzir tolerância. Inicialmente, o grupo de Noelle observou uma grande infiltração de mastócitos em aloenxertos de animais tolerizados. Em seguida, observaram que animais deficientes de mastócitos não são passíveis de se induzir tolerância ao aloenxerto, mas após transferência de mastóctios, a tolerância era restaurada (ver Lu et al, 2006 Nature 442: 997-1002). O que ainda não está publicado é como os mastócitos auxiliam na manutenção da tolerância ao aloenxerto. Análise de microarranjos de mastócitos obtidos dos aloenxertos mostrou elevada expressão de uma enzima do metabolismo de triptofano – triptofano hidroxilase (TPH). Animais deficientes em TPH também não são passíveis de serem tolerizados. Para provar que a produção de TPH por mastócitos era necessário para indução de tolerância, eles transferiram mastóctios de animais TPH+/+ para animais TPH-/- e então conseguiram restaurar tolerância ao aloenxerto. Dessa maneira, Noelle e seu grupo relacionaram o metabolismo de triptofano pelos mastócitos com a indução/manutenção de tolerância. Mais uma peça para o quebra-cabeça dos mecanismos de tolerância.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Perguntas de biruta...

Bom dia a todos. Hoje postarei algo um pouco diferente.

Tenho trabalhado há algum tempo com experimentos envolvendo interação microorganismos-células primárias (não de linhagens) e algumas situações corriqueiras no trabalho de laboratório durante estes anos sempre me deixaram com a curiosidade à flor da pele. Gostaria de compartilhar algumas neste blog.

1 - Quais receptores envolvidos na adesão de macrófagos ao plástico? Isto sempre me deixou louco, pois destacar macrófagos (especialmente humanos) de placas, frascos, ou qualquer cumbuca é uma tarefa árdua. Sempre há uma população de células que não destaca, independente da tripsina, do gelo ou o famoso rodinho.

2 - A entrada de parasitas como Leishmania ou Trypanosoma em macrófagos sempre envolve vias dependentes de receptores? É possível haver entrada de patógenos, por exemplo, através de interação direta (e entrada) com a bicamada lipídica? Dados sólidos neste tópico serão bem-vindos.

3 - Após a infecção in vitro de macrófagos (ou outras células) com "parasitos", o acompanhamento da cultura revela que existem poucas células com inúmeros parasitos e outras muitas células que não se encontram infectadas. Apesar do uso de suspensões bem homogeneizadas do inóculum, isso acontece em doses baixas como por exemplo o,1 ou 1 parasito por célula, ou até mesmo doses mais elevadas. Dados sólidos explicando este fenômeno serão bem-vindos. (o germânico prof. Steindel acabou de passar por aqui na minha sala, leu este tópico e me chamou a atenção dizendo que homogêneo é um conceito teórico e em Biologia não existe isso). Ok. Mas ainda sim, não explica o porquê.


Caso você tenha respostas para estas perguntas, favor comentar, opniar, enviar literatura.

Outra coisa: E você? Tem alguma pergunta que te persegue há muito tempo que gostaria de compartilhar?

Abraços, André.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Cell Symposia - Influenza: Translating basic insights



A nova pandemia de gripe reacendeu, como há muito tempo não se via, o interesse de todos em saber mais sobre Influenza vírus, especialmente o Influenza A. O interesse é não só da comunidade científica, mas principalmente, é claro, da sociedade em geral. O vírus que agora circula é do subtipo H1N1, o mesmo responsável pela gripe espanhola em 1918, uma pandemia que matou dezenas ou centenas de milhões de pessoas no mundo todo.
Em breve, os membros da comunidade científica e também os interessados em geral terão uma ótima oportunidade de conhecer mais sobre como o conhecimento nesta área tem avançado.
Os editores de dois dos periódicos científicos editados pela Cell (Cell Host & Microbe e Immunity) estão entre os organizadores de um Simpósio a ser realizado em Washington D.C. que promete preencher esta lacuna e trazer as mais recentes informações sobre o tema.

Olha o nosso Lattes aí, gente...


Uberlândia (por essa eu não esperava...) - E não é que o nosso país não é feito só de praias e samba? Aparentemente, aqui também se faz ciência e os 'países desenvolvidos' começam a nos dar os devidos méritos...

A revista Nature fez grandes elogios a Plataforma Lattes em uma de suas últimas edições (Lane J. Let's make science metrics more scientific. Nature, v. 464, n. 7288, p. 488-489, 2010)? Os 'gringos' julgam que a base de dados implementada pelo CNPq é um exemplo a ser seguido para distribuição governamental de recursos. A reportagem diz que os sistemas atuais de mensuração da relevância científica dos pesquisadores, como número de citações e índice H, não apresentam a exigida acurácia para os processos de distribuição de recursos governamentais. Abaixo, segue o trecho do texto em que o nosso Lattes é elogiado:

"The Brazilian experience with the Lattes Database (http://lattes.cnpq.br/english) is a powerful example of good practice. This provides high-quality data on about 1.6 million researchers and about 4,000 institutions. Brazil’s national funding agency recognized in the late 1990s that it needed a new approach to assessing the credentials of researchers. First, it developed a ‘virtual community’ of federal agencies and researchers to design and develop the Lattes infrastructure. Second, it created appropriate incentives for researchers and academic institutions to use the database: the data are referred to by the federal agency when making funding decisions, and by universities in deciding tenure and promotion. Third, it established a unique researcher identification system to ensure that people with similar names are credited correctly. The result is one of the cleanest researcher databases in existence."

E para você, amigo blogueiro, o Lattes funciona? O que deveria ser melhorado? Opine, comente...

terça-feira, 13 de abril de 2010

Um novo membro para a turma da resposta inata?

A IL-13 é uma citocina chave na resposta imune alérgica e na resposta do hospedeiro frente à infecção por helmintos. Através de um estudo elegante para determinar as células da resposta imune inata envolvidas na produção precoce de IL-13 durante a infecção por helmintos, o grupo liderado por Andrew Mckenzie do MRC Lab of Molecular Biology/UK descreveu uma nova população leucocitária envolvida na resposta inata efetora batizada de nuocytes (Neil et al., Nature advance online publication, doi:10.1038/nature08900). Os nuócitos foram identificados como as principais células produtoras de IL-13 quando camundongos expressando a proteína IL-13 GFP foram infectados com Nippostrongylus brasiliensis. Os nuócitos não expressam marcadores de superfície característicos de nenhuma linhagem leucocitária conhecida incluindo linfócitos T e B, NK, células dendríticas, neutrófilos, eosinófilos, mastócitos, basófilos ou macrófagos. Os nuócitos expandem rapidamente em resposta a infecção por helmintos principalmente na mucosa intestinal, e essa proliferação pode ser mimetizada pela estimulação com IL-25 e IL-33 tanto in vitro quanto in vivo.

A IL-13 é essencial para o killing e expulsão de
N. brasiliensis. De maneira interessante, a transferência de nuócitos de animais selvagem para camundongos deficientes em IL-4-/- e IL-13-/- foi capaz de restaurar a capacidade desses animais em controlar a infecção e expulsar o verme, demonstrando um papel importante para esse tipo celular na infecção helmíntica. Estudos futuros serão necessários para melhor caracterizar esse tipo celular e determinar a sua função em outras respostas imunológicas incluindo a asma.

Distinguished Lecture de Alan Sher no Congresso da AAI.


Alan Sher, com forte ligação com a imunologia do Brasil, fará uma das Distinguished Lectures do Congresso da AAI.


Veja o programa completo do Congresso da AAI.

Bancos de dados e predição de epitopos

Pesquisadores do Immune Epitope Database and Analysis Resource publicaram uma revisão muito interessante intitulada Design and utilization of epitope-based databases and predictive tools (doi 10.1007/s00251-010-0435-2). 
O blog Mystery Rays from Outer Space comentou o artigo no post Immune databases and hypotheses: “If you have a particular need, this is an excellent starting point for choosing the appropriate starting point”.
Veja o resumo:
“In the last decade, significant progress has been made in expanding the scope and depth of publicly available immunological databases and online analysis resources, which have become an integral part of the repertoire of tools available to the scientific community for basic and applied research. Herein, we present a general overview of different resources and databases currently available. Because of our association with the Immune Epitope Database and Analysis Resource, this resource is reviewed in more detail. Our review includes aspects such as the development of formal ontologies and the type and breadth of analytical tools available to predict epitopes and analyze immune epitope data. A common feature of immunological databases is the requirement to host large amounts of data extracted from disparate sources. Accordingly, we discuss and review processes to curate the immunological literature, as well as examples of how the curated data can be used to generate a meta-analysis of the epitope knowledge currently available for diseases of worldwide concern, such as influenza and malaria. Finally, we review the impact of immunological databases, by analyzing their usage and citations, and by categorizing the type of citations. Taken together, the results highlight the growing impact and utility of immunological databases for the scientific community.”
artigo está em acesso livre.

Salimi, N., Fleri, W., Peters, B., & Sette, A. (2010). Design and utilization of epitope-based databases and predictive tools Immunogenetics, 62 (4), 185-196 DOI: 10.1007/s00251-010-0435-2
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