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quarta-feira, 11 de julho de 2012

Gut Immune Maturation Depends on Colonization with a Host-Specific Microbiota


Mais um artigo bem interessante seguindo a onda dos estudos envolvendo a importância da microbiota para a resposta imune:

Gut Immune Maturation Depends on Colonization with a Host-Specific Microbiota
Hachung Chung, Sunje J. Pamp, Jonathan A. Hill, Neeraj K. Surana, Sanna M. Edelman, Erin B. Troy, Nicola C. Reading, Eduardo J. Villablanca, Sen Wang, Jorge R. Mora, Yoshinori Umesaki, Diane Mathis, Christophe Benoist, David A. Relman, and Dennis L. Kasper
Cell, Volume 149, Issue 7, 1578-1593, 22 June 2012

Highlights

- Mouse and human microbiota differ in bacterial species, primarily within Firmicutes
- Human microbiota (HMb) colonized mice have a global immunodeficiency like GF mice
- HMb induced less T cell proliferation and activation than mouse microbiota (MMb)
- HMb mice are more susceptible to enteric and disseminated infection than MMb mice

Summary
Gut microbial induction of host immune maturation exemplifies host-microbe mutualism. We colonized germ-free (GF) mice with mouse microbiota (MMb) or human microbiota (HMb) to determine whether small intestinal immune maturation depends on a coevolved host-specific microbiota. Gut bacterial numbers and phylum abundance were similar in MMb and HMb mice, but bacterial species differed, especially the Firmicutes. HMb mouse intestines had low levels of CD4+ and CD8+ T cells, few proliferating T cells, few dendritic cells, and low antimicrobial peptide expression—all characteristics of GF mice. Rat microbiota also failed to fully expand intestinal T cell numbers in mice. Colonizing GF or HMb mice with mouse-segmented filamentous bacteria (SFB) partially restored T cell numbers, suggesting that SFB and other MMb organisms are required for full immune maturation in mice. Importantly, MMb conferred better protection against Salmonella infection than HMb. A host-specific microbiota appears to be critical for a healthy immune system.


An Overview of the Regulation of the Mouse Small Intestinal Immune System by MMb versus HMb, Related to Table S3 Microbiota: In both MMb and HMb mice, Bacteroidetes were the most dominant phyla followed by Firmicutes, and Proteobacteria in the gut. Within the Bac- teroidetes phyla, 34% of OTU (or bacterial species) were shared by both MMb and HMb. Among the OTUs within the Firmicutes, only 1.5% were shared by both MMb and HMb. SFB - a commensal bacterium and member of the Firmicutes - was detected in MMb, but not HMb - exemplifying host specificity within the Firmicutes phyla. PP, MLN: Compared to MMb mice, HMb mice PP/MLN contains lower absolute numbers of DCs and T cells. The lower rate of T cell proliferation observed in HMb mice could contribute to the lower absolute number of small intestinal T cells in HMb mice. In both MMb and HMb mice, proliferating T cells in PP/MLN upregulate the intestinal homing receptors a4b7 and CCR9. LP: Proliferating T cells in the PP/MLN empty into the thoracic duct, enter the blood stream, and exit into the gut mucosa through intestinal venules in the small intestinal LP where MAdCAM and CCL25—ligands of a4b7 and CCR9, respectively—are expressed. No differences were observed in the expression of MAdCAM and CCL25 between MMb and HMb mice. Due to low numbers of proliferating T cells originating from the HMb mice PP/MLN, the HMb mice small intestinal LP have lower numbers of T cells compared to MMb mice LP. A lower number of secretory IgA+ cells were observed in the LP of HMb mice compared to the same compartment in MMb mice. Epithelium: Low number of T cells in the small intestinal LP of HMb mice can lead to lower numbers of IELs embedded in the HMb mice epithelium, compared to the MMb epithelium. MMb mice epithelial cells, but not HMb epithelial cells, upregulate RegIIIg an antimicrobial peptide. The expression of chemokines CCL20, CCL28, and CXCL9 are induced by MMb, but not HMb.




terça-feira, 10 de julho de 2012

Focus on Asthma



Imagem de microscopia eletrônica de transmissão de pulmão de camundongo. Capa da Nature Medicine, 18, 2012. Cortesia de Thomas Deerinck and Mark Ellisman, NCMIR, University of California–San Diego.

Eu como amante que sou da inflamação eosinofílica, e por consequência, da asma, destaco hoje o editorial que saiu na Nature Medicine em maio. O editorial traz uma revisão bem bacana do  Stephen Holgate onde são ressaltados os mais recentes achados sobre como receptores da imunidade inata e citocinas modulam a resposa imune na alergia e de como novos subsets de células T são capazes de nortear a inflamação crônica das vias aéreas (Nature Medicine, 18, 673, 2012).  Bart Lambrecht e colaboradores (Nature Medicine, 18, 684, 2012) revisam o papel das células epiteliais na ativação de células dendríticas e outras células mediante o contato com o alergeno, bem como seu papel na perpetuação da resposta inflamatória. Além disso,  Stephen Galli traz o mastócito para o foco de discussão. Aspectos clínicos também são discutidos. Para os amantes do assunto (sobretudo!!!!), vale a pena dar uma olhada.


segunda-feira, 9 de julho de 2012

Granuloma: vilão da tuberculose

Um dos conceitos mais tradicionais da imunologia – de que o granuloma tem um papel protetor contra a tuberculose – foi destruído por uma série de pesquisas elegantes da Dra. Lalita Ramakrishnan, de Seattle, USA. A visão tradicional era de que o granuloma serve para “emparedar” as bactérias, constituindo uma barreira contra a infecção. O novo conceito que emergiu é de que, ao contrário, o granuloma é formado por instrução do próprio Mycobacterium tuberculosis; no seu interior, a morte e fagocitose de macrófagos infectados são utilizadas como uma fábrica de novas bactérias, e fonte de disseminação da infecção.

   

Dra. Lalita Ramakrishnan, University of Washington, Seattle, USA

Os estudos recentes utilizaram os tecidos transparentes de larvas do peixe-zebra - que permitem a visualização microscópica da formação do granuloma ao vivo – e também granulomas hepáticos no camundongo. Com surpresa, foi verificado que a entrada de macrófagos no granuloma é inteiramente controlada pelas bactérias, e não pelo sistema imune. Bactérias virulentas expressam produtos do locus RD1, um sistema de secreção do tipo VII, incluindo a proteína ESAT6. ESAT6 é liberada de micobactérias extracelulares, e também de macrófagos infectados através da formação de poros. ESAT6 induz a produção de MMP9 (metaloproteinase de matriz-9) pelo epitélio. MMP9 é o principal agente recrutador de novos macrófagos pelo granuloma (ver Figura). Macrófagos recrutados entram nos granulomas e permanecem altamente móveis e emitindo membranas, até encontrar e fagocitar vesículas de macrófagos infectados que morreram por apoptose. Estes restos contêm bactérias viáveis, e as bactérias vão crescer nestes novos macrófagos, amplificando a infecção. A fagocitose de corpos apoptóticos inativa as funções microbicidas do macrófago, tornando-o uma “incubadora” de bactérias. Embora a infecção cause necrose e apoptose de macrófagos através de ESAT6, a necrose tem um efeito ainda mais deletério para o hospedeiro. Isto é porque a necrose vai liberar bactérias no meio extracelular e, ao contrário do que se pensava, micobactérias crescem de forma exuberante no meio extracelular, sendo fagocitadas e amplificando mais a infecção.



Figura. Mecanismo de recrutamento de macrófagos para granulomas através da indução de MMP9 em células epiteliais. A proteina de M. tuberculosis ESAT6 pode ser liberada de bactérias extracelulares (consequência de necrose de macrófagos infectados) ou de macrófagos infectados íntegros, através do sistema ESX-1 de formação de poros, que é codificado pelo locus de virulência RD1. ESAT6 induz secreção de MMP9 por células epiteliais, que por sua vez induz motilidade exacerbada e recrutamento de novos macrófagos por um mecanismo não totalmente esclarecido (retirado da referencia 1).

Outro dogma derrubado foi de que o TNF seria responsável pela formação do granuloma, e que na ausência de TNF, os granulomas não se formam e a infecção é mais grave. Os novos estudos mostraram que, na ausência de TNF, os granulomas são formados de forma mais acelerada (referência 4). No entanto, as bactérias proliferam mais, e levam os macrófagos à necrose. O excesso de necrose é que destrói a estrutura dos granulomas, dando a impressão de que eles não haviam sido formados.     

Os estudos com o peixe-zebra confirmaram que a disseminação da infecção se dá pela emigração de macrófagos infectados do granuloma primário e estabelecimento de granulomas à distância. Portanto, através dos produtos do locus RD1, as micobactérias exploram processos que normalmente são protetores para o hospedeiro - como apoptose, quimiotaxia de macrófagos e fagocitose de células apoptóticas – para aumentar o seu número e consolidar a infecção.

Referências:

1. Ramakrishnan L. Revisiting the role of the granuloma in tuberculosis. Nat Rev Immunol. 12: 352-366, 2012.
2. Volkman HE, Pozos TC, Zheng J, Davis JM, Rawls JF, Ramakrishnan L. Tuberculous granuloma induction via interaction of a bacterial secreted protein with host epithelium. Science. 327: 466-469, 2010.
3. Davis JM, Ramakrishnan L. The role of the granuloma in expansion and dissemination of early tuberculous infection. Cell. 136: 37-49, 2009.

4. Clay H, Volkman HE, Ramakrishnan L. Tumor necrosis factor signaling mediates resistance to mycobacteria by inhibiting bacterial growth and macrophage death. Immunity. 29: 283-294, 2008.


Post de George A. DosReis

sábado, 7 de julho de 2012

Manifestação conjunta ABC e SBPC sobre o PL 180/2008 que obriga a adoção de quotas para ingresso em universidades públicas e proíbe a realização de exames vestibulares


A ABC e a SBPC, preocupadas com o teor do PL180/2008 que tramita no Senado Federal solicita aos senhores Senadores que não aprovem o referido instrumento, pelas razões enunciadas a seguir.

O PL determina a reserva de 50% das vagas em IFES para estudantes oriundos do ensino médio em escolas públicas. Adicionalmente, em seu Artigo 2º, proíbe a realização de exames vestibulares ou o uso do ENEM, obrigando que o processo seletivo adote exclusivamente a média das notas obtidas pelos candidatos nas disciplinas cursadas no ensino médio, tornando assim o ingresso no ensino superior dependente dos critérios de avaliação de cada escola.Ainda,o Artigo 3º determina que essas vagas, em cada curso e turno,sejam destinadas a candidatos autodeclarados negros, pardos e indígenas, no mínimo  igual à proporção de negros, pardos e indígenas, na população da unidade da Federação  onde está instalada a instituição.

Consideramos que ao mesmo tempo em que o Brasil precisa criar condições mais inclusivas para o acesso à universidade, o país também precisa aumentar a qualidade dos cursos de ensino superior oferecidos em instituições públicas e privadas. A ABC e a SBPC reiteram que o acesso dos brasileiros à educação superior é tão importante quanto o grau de excelência desta educação.  A oferta de oportunidades educacionais de qualidade é a garantia da cidadania e do desenvolvimento sócio econômico do país.

Um dos mais importantes instrumentos para se atingir estes objetivos no ensino superior é a “autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial universitária”, garantida pelo Artigo 207 da Carta Magna brasileira. Faz parte da autonomia didático-científica a definição pela universidade da sistemática para a seleção dos estudantes ingressantes, lembrando que a  Constituição brasileira dispõe no Artigo 208 o seguinte: “O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de (inciso V): acesso aos níveis mais elevados de ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um.”

A atitude das instituições de ensino superior públicas brasileiras quanto às ações afirmativas tem demonstrado o enorme interesse e a criatividade destas organizações no tratamento do importante desafio da inclusão. Diferentes propostas de ações afirmativas, adequadas a cada cultura institucional e regional têm sido adotadas e é nosso entender que não se deve ceifar este movimento com uma obrigação uniforme e atentatória à autonomia universitária.

São Paulo/Rio de Janeiro, 4 de julho de 2012

Atenciosamente,


HELENA BONCIANI NADER
Presidente da SBPC

JACOB PALIS
Presidente da ABC

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Journal Citation Reports, IF 2011 de algumas revistas "Open Access"

A mais recente edição do JCR foi publicada na semana passada.

A pesar de não parecerem ser mais citados os artigos publicados em revistas de livre acesso -será mesmo?-, e que tal vez a área das biológicas seja um pouco mais resistente a estas iniciativas, (os autores um pouco mais desconfiados ou tradicionalistas (...), e as revistas precisam de um bom tempo para demostrar que tem bons critérios e publicam pesquisas originais e relevantes), nesta ultima edição da JCR fica claro que algumas revistas das biológicas com livre acesso aos seus artigos, estão conseguindo um destaque importante. Diversos fatores contribuem para a difusão de revistas de livre acesso e sua aceitação nas comunidades ao redor do mundo. O Tiago publicou um post no ano passado aqui sobre as potenciais vantagens do sistema Open Access.

Para termos uma boa ideia do que será o futuro das publicações cientificas tal vez seja bom ver a evolução que as revistas da PLOS têm tido. A PLOS Medicine, está no quinto lugar na categoria Medicine. Na mesma categoria, a BMC Medicine ocupa o nono lugar com 6.35. Não é coincidência que as casas editoriais tradicionais (como Nature, Springer, ScienceDirect, etc) tenham entrado na onda do Open Access (à sua maneira cada uma, é claro).

Além da PLOS, no entanto, tem outras casas editoriais (muitas!) de Livre Acesso. Fiquei impressionado com o nível de IF alcançado por algumas revistas, e seu incremento em relação ao índice do ano passado (a Genome Biology, por exemplo, passou de 6.89 para 9.04 nesse ano. Passando da posição 17 para a 10, acima da PLOS Genetics. Acha citações para mudar de colocação!). Isso e só um exemplo de uma das casas editoriais do sistema Open Access. A Biomed Central tem o maior numero de revistas indexadas (117), bem mais do que a PLOS (7), e a Frontiers In (5, Falta esperar bastante ainda para ver o IF da Frontiers In Immunology).

Outro caso interessante é o da revista Retrovirology, que ocupa o nada desprezível quarto lugar na categoria Virology, com IF de 6.47 (e crescendo). Categoria, alias, na qual a Plos Pathogens ocupa o segundo lugar com IF de 9.12.

A revista Mediators of Inflammation da Hindawi, está no Q2 da categoria Immunology com IF de 3.263, aumentando consideravelmente desde o 2010 (quando estava com IF de 2.59). Esta revista parece estar tendo um destaque importante na categoria, pulando 35 lugares no ranking no ultimo ano!.

Então, se publicarmos nosso trabalho numa revista de Livre Acesso, ele será mais citado? Pode ser que dependa da subárea da pesquisa. Com certeza será mais lido. Vale a pena analisar. No final de contas, tem revistas novas ai para considerar. É claro que são diversos os fatores que influenciam na escolha da revista. Más, e vocês, vão mandar os seus manuscritos para uma revista de subscrição paga do mesmo IF?

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Evolução Experimental da Patogênese: Intelligent (PI) design?



Hoje em dia sequenciar o genoma de um organismo ficou muito mais fácil e barato.
Enquanto em meados da década de 90 sequenciar um genoma bacteriano demorava mais de 1 ano com custo de cerca de 1 milhão, hoje é possível fazê-lo em um dia com custo de U$ 500 dólares por genoma.

OK, mas quais são as aplicações?

Esses dias discutimos um artigo que soube aplicar muitíssimo bem essa tecnologia. 

O processo evolutivo a tempos fascina os biologistas e o público leigo em geral. No entanto, para quem estuda evolução o grande desafio é a ausência de formas intermediárias ente as espécies que temos hoje versus as espécies ancestrais.  É verdade que os fósseis ajudam, mais ainda assim a disponibilidade de espécies ancestrais é muito limitada.

Para contornar a indisponibilidade de formas ancestrais, alguns cientistas desenvolveram sistemas de evolução experimental, nos quais é possível ter acesso as formas ancestrais, a todos as intermediárias e as finais.

Ai que chega o “next generation” sequencing na hitrória:

O grupo do Ralph Isberg (Tufts University, Boston, EUA), montou um modelo fantástico de evolução experimental de Legionella pneumophila em macrófagos (veja o artigo aqui). Vale ressaltar que na natureza essas bactérias se replicam em amebas e sofrem pressão seletiva apenas no interior desses protozoários unicelulares, que não tem vias requintadas de imunidade e inata como os nossos macrófagos.

Eles acompanharam durante um ano, quatro populações bacterianas independentes que foram continuamente replicando em macrófagos (centenas de gerações).  De tempos em tempos o genoma dessas quatro populações foi sequenciado e as modificações genotípicas foram avaliadas. Conforme esperado, os dados mostram que as bactérias desenvolvem alterações genéticas e passam a se replicar melhor nos macrófagos. Algumas mutações aparecem e depois desaparecem, enquanto outras aparecem e se estabelecem na população...  

O que eu achei mais legal é que entre as quatro populações algumas desenvolvem mutações que não são verificadas nas outras...  Isso é muito legal porque prova experimentalmente aquela idéia do Stephen Jay Gould que a evolução ocorre segundo pressões seletivas direcionais, mas ao acaso (o que desafia a idéia de criacionismo e “Intelligent Design”) . Ou seja, se pudéssemos voltar na história desde a origem da vida e evoluir tudo de novo certamente as formas de vida existentes seriam muito diferentes das que temos hoje... 

Para quem gosta de ler e discutir evolução é um prato cheio! 


quarta-feira, 4 de julho de 2012

Será que pode mudar?


Então, me atrasei no Universal porque parei no meio do projeto hipnotizada por um filme que estava começando na TV e tinha o atraente titulo de Einstein e Eddington. Sempre olho alguma coisa que diga Einstein. Não sabia quem era o Eddington.  Esse cara era tido em Cambridge no inicio do século XX como The Best Measuring Man in England, era um astrônomo prático, Newtoniano da gema, que tinha um modelo do sistema solar em casa.  Logo antes de começar a primeira guerra pediram pra ele, que falava alemão, que traduzisse o trabalho de um físico que parecia estava desafiando os paradigmas ingleses – um cara chamado Einstein. O Eddington foi na biblioteca de Cambridge. Pediu o paper da relatividade do Einstein, leu, traduziu, decifrou os símbolos de matemática - parece que o Einstein escrevia numa linguagem matemática diferente de todo mundo – e pensou – Se este cara estiver certo, o Newton e toda a física que conhecemos está incorreta.  O Universo não é o que a gente pensa que ele é, não estamos trabalhando direito.

Em vez de largar o paper, o Eddington não descansou enquanto não testou a teoria do Einstein. Passou anos, inclusive durante a guerra – em que alemães e ingleses não podiam se falar -  se comunicando com o Einstein e sugerindo a ele como testar previsões da sua hipótese. Até que provou – foi para a África medir a luz das estrelas no pico de uma montanha no meio de um eclipse solar, pra mostrar que a proximidade do sol conseguia influenciar a trajetória da luz das estrelas – bum, o espaço era curvo. Mudou tudo. O Universo não era mais o mesmo.

Que loucura! Na imunologia, a coisa mais difícil que existe é mudar um paradigma. As pessoas tem uma resistência incrível a pensar em testar idéias novas,  olha, essa coisa das T regs é o exemplo mais recente disso – o tempão que se levou pra se aceitar que essas células estavam lá! E nós com internet e multifoton confocal e não precisa traduzir matemática nem viajar pra África.

Hoje de manhã abro o NY times o os físicos do CERN estão super felizes por terem descoberto uma partícula nova subatômica, que procuram há décadas . Por que essa felicidade toda, perguntam os repórteres? Porque essa partícula pode nos mostrar que a realidade como a gente conhece não está correta – provavelmente existem mais dessas partículas e isso significaria que há muito mais diversidade na Natureza do que jamais imaginamos. Bum. Pode mudar tudo.

Os físicos tem uma coisa que eu tenho invejinha – eles sabem o segredo de fazer previsões que se confirmam – mas isso, pra mim, passa por uma tradição de estar sempre duvidando que as coisas são assim mesmo. E não tem como avançar na ciência sem considerar essa possibilidade.Na hora de escrever ou analisar um projeto, não deveria ser nossa obrigação, ou pelo menos tradição, pesar sempre a possibilidade de que a própria coisa que estamos propondo pode não ser assim? E termos espaço pra escrever isso, vontade de ler isso, e saber apreciar os pensadores que conseguem sair dos moldes e nos mostrar um vislumbre do que pode ser?

O Universo e o Universal ainda parecem estar longe um do outro. Mas sou otimista: acho que pode mudar!

terça-feira, 3 de julho de 2012

O “supercluster” biotecnológico de Massachusetts

No mês passado participei da 2012 BIO International Convention, conferência de biotecnologia que levou 16 mil pessoas de 65 países ao centro de convenções de Boston.


A conferência é enorme e frequentada principalmente por líderes de empresas de biotecnologia e de indústrias farmacêuticas, e por representantes governamentais.


Durante o painel “Brazilian Innovation Model”, tanto Nelson Fujimoto, Secretário de Inovação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, quanto Fernando Kreutz, Diretor Presidente da Fk Biotecnologia S A., e Presidente da Associação Brasileira de Biotecnologia, disseram que existem atualmente no Brasil 250 empresas de biotecnologia (aqui). As áreas de atuação dessas empresas são saúde humana (39,7%), saúde animal (14,3%), reagentes (13,1%), agricultura (9,7%) e meio ambiente/bioenergia (14,8%). 


Fiquei curiosa querendo conhecer melhor o ambiente biotecnológico brasileiro, e entendi que obter os números de quais são e onde estão as empresas não é fácil. Biotecnologia é uma área diversificada e são muitos os atores envolvidos. Talvez o número citado acima seja uma estimativa conservadora. 


Enquanto busco por informações sobre o Brasil, resolvi descrever o “supercluster” biotecnológico aqui no Estado de Massachusetts (MA). Vamos aos números.

  • há mais de mil empresas de biotecnologia/ciências da vida em MA, segundo o MassBio  
  • só em Kendall Square, o cluster biotecnológico que rodeia o MIT, são 95 empresas de biotecnologia, incluindo Genzyme/Sanofi, Novartis, Alnylam, Biogen Idec, Millennium Pharmaceuticals, Vertex, segundo o famoso estudo do Prof Ed Roberts
  • no ano passado, a Nova Inglaterra foi a região dos Estados Unidos que mais recebeu investimento de capital de risco (USD1.57 bilhões) e de capital de inovação (USD3,18 bilhões) para biotecnologia, segundo relatório da Ernst&Young lançado durante o evento
  • os cinco hospitais que mais receberam financiamento do NIH em 2011 estão todos localizados em Boston: Massachusetts General Hospital (USD324.620.848), Brigham and Women’s Hospital (USD288.436.449), Beth Israel Deaconess Medical Center (USD131.304.171), Dana-Farber Cancer Institute (USD130.136.550) e Children’s Hospital Boston (USD118.512.044), segundo a MassBio
  • as cinco universidades de Massachusetts que mais receberam recursos do NIH em 2010 foram: Universidade de Harvard (USD393 milhões), Universidade de Massachusetts (USD196 milhões), Boston University (USD163 milhões), MIT (USD158 milhões) e Tufts University (USD136 milhões), segundo a MassBio
  • há cerca de 50 mil pessoas trabalhando em ciências da vida no Estado, segundo a MassBio
  • as indústrias farmacêuticas do Estado que mais empregam são Genzyme/Sanofi (4.356), Pfizer (2.600), Biogen Idec (2.300), Novartis (2.100), Thermo Fisher Scientific (1.700), Shire (1.500), Vertex (1.310), EMD Millipore (1.237), Parexel International (1.200) e Millennium: Takeda Oncology (1.050), segundo a MassBio 
Um analista disse ao Jornal Boston Globe, em reportagem publicada no dia 17 de junho, que o “supercluster” biotecnológico da região se formou e tem se mantido por conta do amálgama de cérebros, dinheiro e risco.




segunda-feira, 2 de julho de 2012

Foco na Focis


Entre 19 e 23 de junho estive no congresso da Focis (Federation of Clinical Immunology Society). Já estive em várias Focis, e sempre fica uma impressão um pouco estranha. A idéia é ser um congresso “translacional”, mas a minha impressão e de que fica assim, meio no ar… Não que não tenha palestras excelentes, mas não existe realmente uma unidade de tema(s), e ao final do programa, fica a pergunta: mas qual foi a mensagem do congresso mesmo?

Imagino que é difícil mesmo fazer um congresso sobre a transição bancada/tratamento, em qualquer área. Mas acho que um dos problemas da Focis é que tenta ser muito para todos, e acaba não trazendo muito para ninguém. Afinal, é transição em autoimunidade, alergia, cancêr, reumatologia, doenças infecciosas, transplantes? E óbvio que não se pode cobrir todas estas áreas, mas acabamos tendo palestras em todas elas. De certa forma, até que é interessante, porque dá uma geral em várias áreas que não acompanho de perto. Mas o problema é que, se fosse realmente sobre transição, haveria até uma unidade entre as áreas diferentes. Mas a maioria das pessoas dá a sua apresentação de sempre, e mesmo sendo uma palestra excelente, acaba sendo assim, coisas que você poderia ter no congresso de imunologia, ou de reumatologia, ou alergia, e num contexto muito mais rico.

É pena, porque um dos aspectos que eu gosto da Focis é que é um congresso menor e com poucas sessões plenárias em paralelo, assim dá para assistir quase tudo. Enfim, talvez estou sendo muito crítica, mas na última vez que estive no Focis foi em 2007, e agora, 2012, parece que não mudou. E conversando com outras pessoas o sentimento parece ser mútuo.

Mas enfim, o congresso foi em Vancouver, Canadá, foram 3 dias lindos, depois choveu mas por pouco tempo. E Vancouver é maravilhosa, visitem se puder.

E apesar das tentações, assisti as palestras direitinho para poder contar para vocês. Como sempre na Focis, as células Treg foram as estrelas. Várias palestras sobre o potential de uso como imunoterapia (Kathryn Wood, Maria-Grazia Roncarolo, Kevan Herold). A da Maria-Grazia foi a mais interessante,  discutindo a indução das Treg 1 in vitro para terapia. Ela mencionou que apesar da terapia com Tregs (em transplante de medula óssea com doador haploidêntico) ter se mostrado segura, o problema tem sido obter células suficientes in vitro para a terapia.  Os protocolos de expansão que o grupo dela usa resulta em uma alta contaminação (~ 80%) de células efetoras, e ela disse que não existem marcadores efetivos para diferenciar células Treg1 de outras células como as T efetoras. Assim, o grupo dela partiu para um estudo de expressão gênica para identificar os marcadores (achei estranho que isto só esta sendo feito agora, depois de tanto tempo, mas enfim…). Em colaboração com o Richard Flavell, eles descobriram que usando CD49b e LAG3, tanto em gente quanto em bicho (camundongo), é possível se identificar Treg1 in vitro.

Houve também várias palestras sobre os diferentes ‘subtipos’ de Treg, as chamadas Th1-Treg, Th2-Treg, Th17-Treg etc, e de como estes subtipos teriam uma regulação preferencial para cada resposta, quer dizer, a Th1-Treg agiria preferencialmente sobre células Th1, etc. Enfim, Treg para todos os gostos.


E teve uma palestra ótima do Shimon Sakaguchi sobre FoxP3 e metilação em Tregs. Basicamente, ele falou sobre qual é o papel do FoxP3 em estabelecer o fenótipo da Treg, porque as células  inseridas com FoxP3 não são tão imunossupresoras quanto as Treg “naturais”, não-induzidas (nTreg). Como diferenciar entre funções independente e dependentes do FoxP3? O grupo dele descobriu que as nTreg são hipometiladas em genes associados com a função Treg, e estas mudanças epigenéticas são independentes de FoxP3. Se estas regiões são metiladas a supressão das Tregs diminui. Ele citou que a instabilidade dos marcadores Treg em Treg induzidas pode estar relacionada ao padrão epigenético destas iTreg. Ele não sabe exatamente o que induz as mudancas epigenéticas nas nTreg, mas ele disse que a ativação crônica do receptor de célula T induz parcialmente estas mudanças epigenéticas. O papel da IL-2 também não está claro. Ele concluiu dizendo que Foxp3 contribui para a intensidade, e as mudancas epigenéticas, para a duração, do fenótipo das nTreg.

Outro ponto interessante foi uma palestra da Raphaela Goldbach-Mansky sobre doenças autoinflamatórias monogênicas (as mais conhecidas são provavelmente  a Febre Familial Mediterrânea (FMF), com mutações na pyrin (pirina?), e a NOMID, com mutações no inflamasoma NLRP3), incluindo novas descobertas como a DIRA, com mutações no IL-1receptor antagonista (IL1ra), e a  DITRA, mutações na IL-36, parte da família da IL-1, e que estimula DCs e células T. Tem também a CAMPS, psoríase associada à CARD14/CARMA2, e que responde a anticorpos anti-p40 (parte da IL-12 e IL-23), e a PRAAS/CANDLE, associada com mutações em PSMB8, um dos componentes do proteasoma, e que não responde a terapia anti-IL1. Vamos descobrir relações que nem imaginávamos…

Também se falou sobre a polarização dos macrófagos/monócitos (M1, M2 e derivados), com o Alberto Mantovani falando sobre o receptor de quimiocinas atípico D6, e de que camundongos D6-/- tem um aumento de monocitos inflamatórios (Salvino et al, 2012). Outro tema que está aparecendo são as Myeloid Derived Suppressor Cells (MDSC), que talvez se tornem as Treg do futuro.

Tak Mak deu uma palestra divertida, sobre os últimos transgênicos do seu lab, mas que não teve muito de transição. Mas como ele é provavelmente o imunologista canadense mais famoso, claro que não podia faltar.

Acho que estes foram os destaques. Talvez o resumo poderia ser, a dificuldade de se levar a pesquisa da bancada para o tratamento…

domingo, 1 de julho de 2012

Journal Club-Iba: CITRULINAÇÃO, AUTOFAGIA E HLA: como estes fatores podem ser determinantes na autoimunidade?

           Modificações pós-traducionais são processos biológicos comuns que alteram partes específicas da proteína após sua síntese. Uma modificação que tem chamado atenção dos pesquisadores é a conversão de arginina em citrulina, processo chamado citrulinação ou deiminação. Esse processo é catalizado pela família de enzimas ativadas por cálcio, as pepitilarginina deiminases (PAD). Atualmente estão descritos cinco membros dessa família (PAD1, 2, 3, 4 e 6), que estão distribuídos em diferentes tecidos e células. A citrulina não é um aminoácido codificado naturalmente pelo DNA, e a introdução dela na proteína modifica sua estrutura e função, além de determinar novos antígenos. A citrulinação está relacionada com eventos fisiológicos e patológicos. Os eventos fisiológicos compreendem diferenciação epitelial, regulação da expressão gênica, descondensação de cromatina para formação de armadilhas extracelulares (NETs) por neutrófilos e apoptose. Por outro lado, a citrulinação está envolvida em doenças inflamatórias como esclerose múltipla, doença de Alzheimer e Artrite reumatóide (AR).
A relação de citrulinação com AR foi bem estabelecida por Hill e colaboradores (2008). Nesse trabalho, os autores demonstraram a indução de artrite em camundongos C57BL/6 transgênicos para o alelo do HLA humano DRB1*0401, imunizados com o fibrinogênio humano citrulinado (CithFib).  Essa proteína é comumente encontrada no tecido sinovial inflamado e é também um alvo frequente de anticorpos em pacientes com AR. No estudo, animais transgênicos e selvagens foram imunizados com o fibrinogênio humano, citrulinado ou não modificado. Os autores demonstraram que apenas animais transgênicos imunizados com o CithFib desenvolveram artrite. Estes animais apresentaram uma resposta mais pronunciada de células T, caracterizada por maior proliferação celular e níveis elevados de IFN-γ, além de maior produção de anticorpos, que foram reativos contra diversos peptídeos implicados na patogênese da artrite, citrulinados ou não.  Este trabalho corresponde à primeira descrição de artrite dependente de citrulinação em camundongos, e apesar de suas imperfeições, o modelo representa um protótipo fidedigno da AR, contrastando com os modelos prévios – como a artrite induzida por colágeno, mais representativos de artrite inflamatória em geral.
Por outro lado, Ireland & Unanue (2011 e 2012) esclareceram o mecanismo pelo qual células apresentadoras de antígeno (APCs) apresentam peptídeos citrulinados às células T CD4. Inicialmente, eles demonstram que macrófagos e células dendríticas, fisiologicamente, ao processar peptídeos próprios, têm a capacidade de citruliná-los para que sejam apresentados a células T. Em contraste, células B necessitam de um estímulo adicional para que a citrulinação aconteça, seja ele desencadeado por stress ou pela ativação via BCR. A descoberta chave do estudo foi demonstrar que a citrulinação de peptídeos pelas APCs é dependente do processo de autofagia e a enzima PAD apresenta atividade dentro de vesículas autofágicas. Além disso, a citrulinação pelas APCs é bloqueada pelo 3MA, um inibidor de autofagia. No entanto, o processo de citrulinação pelas células dendríticas e macrófagos difere das células B (Figura 1). Nas primeiras, após a ligação da proteína à membrana, há a formação de uma vesícula endossomal inicial e, a partir dela, a proteína pode seguir dois caminhos. Ela pode ser levada a vesículas tardias e processada em peptídeos, que são apresentados por moléculas de MHC de classe II em sua forma não modificada. Alternativamente, a proteína pode ser levada a vesículas autofágicas, onde é processada em peptídeos, os quais sofrem citrulinação e são apresentados na superfície da célula como peptídeos citrulinados. De forma diferente, nas células B, apenas após a ativação do BCR, via antígeno específico ou via anti-imunoglobulina, há ativação da autofagia. O complexo proteína-BCR endocitado é direcionado a vesículas autofágicas, onde a proteína é processada e citrulinada. Caso não haja essa ativação, a proteína endocitada é levada a vesículas endocíticas e processada para ser apresentada como peptídeo não modificado.


Modelo de citrulinação de pepídeos dependente de autofagia. A) Citrulinação em células dendríticas e macrófagos; B) Linfócitos B. (HEL - hen egg-white  lysozyme)


A descoberta de que a autofagia está diretamente relacionada à geração de peptídeos citrulinados por APCs tem fundamental importância no que diz respeito à autoimunidade. Em certas doenças como na AR, mudanças no microambiente tecidual, podem induzir autofagia em APCs e com isso, citrulinação. Peptídeos citrulinados, em combinação com alelos que predispõem à doença, constituem condições propícias à auto-reatividade de células T, levando à iniciação ou aumento do processo patológico. Além disso, a ativação da autofagia nas células B por auto-anticorpos, como os que compõem o fator reumatóide, é outro evento determinante na produção de peptídeos citrulinados, e dessa forma, na exacerbação da doença.

Post de Mariana Benício, Milena Espíndola e Thaís Bertolini
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