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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Na rota para uma ferramenta de predição de reatividade cruzada

Autor: Dinler Antunes, pós-doutorando no Departamento de Ciências da Computação da Rice University, no Texas/EUA.


Em posts anteriores eu apresentei trabalhos desenvolvidos pelo Núcleo de Bioinformática do Laboratório de Imunogenética (NBLI/UFRGS), com foco na análise estrutural de complexos peptídeo:MHC (pMHC) e na predição de reatividade cruzada de linfócitos T (imunologia in silico, imunidade heteróloga). O grupo continua desenvolvendo esta linha de pesquisa, aprimorando uma metodologia para agrupar alvos virais com base na similaridade estrutural no contexto do MHC. Complexos pMHC estruturalmente semelhantes, apresentam maior probabilidade de ativar uma mesma população de linfócitos e, por outro lado, esta probabilidade é muito baixa para complexos muito diferentes. 
Em sua publicação mais recente (Mendes et. al, 2015), o grupo descreve uma versão aprimorada desta metodologia. Inicialmente, a estrutura dos alvos de interesse é predita, no contexto do MHC, utilizando uma metodologia baseada em ancoramento molecular (docking). Avaliando cristais de complexos TCRpMHC, o grupo identificou uma série de resíduos frequentemente envolvidos no reconhecimento dos alvos de linfócitos T, informação que foi utilizada para guiar a análise dos complexos modelados. Estes resíduos conservados, ou "regiões de interesse", foram utilizados para extrair dados estruturais, como área de acessibilidade ao solvente e potencial eletrostático na superfície molecular. Uma vez extraídos, estes dados foram utilizados em uma análise de agrupamento hierárquico (HCA, do inglês Hierarchical Cluster Analysis), revelando os complexos mais semelhantes. Outra inovação neste trabalho, diz respeito ao uso do pacote pvclust (linguagem R) para a geração do HCA. Além de realizar o agrupamento, este pacote fornece duas medidas de confiabilidade (bootstrap) para cada nó da árvore, permitindo a fácil identificação dos agrupamentos mais confiáveis. 
Neste estudo piloto, foram avaliados um conjunto de alvos do vírus da Dengue e um grupo de epitopos de HCV.  Este conjunto de HCV já havia sido abordado em trabalhos anteriores, permitindo a comparação direta com a nova metodologia. O resultados são coerentes com dados experimentais e oferecem uma forma inovadora de prospectar candidatos a reatividade cruzada (Figura 1), com implicações diretas para o desenvolvimento de vacinas. 
A etapa de modelagem dos complexos demanda maiores recursos computacionais e é realizada utilizando um protocolo próprio, mas o grupo está nas etapas finais de desenvolvimento de uma ferramenta automatizada e gratuita. O desafio seguinte diz respeito a aplicação desta técnica em larga escala, para modelagem e análise de redes de reatividade cruzada previamente descritas em trabalhos experimentais. Estes resultados serão utilizados para refinar a técnica de agrupamento baseado em estrutura e permitir o futuro desenvolvimento de uma ferramenta de predição de reatividade cruzada.


Figura 1. Agrupamento hierárquico de alvos virais no contexto do MHC humano HLA-A*02:01. Este conjunto inclui 8 alvos de Dengue e 28 alvos de HCV. No caso da Dengue, reatividade cruzada foi confirmada entre alvos da proteína NS4b. No caso do HCV, reatividade cruzada foi observada entre o tipo selvagem (G1.01) e variantes dos genótipos 4, 5 e 6 (ex.: G4.21, G5.22 e G6.28). De acordo com dados experimentais, o genótipo 1 incluía alguns indivíduos que não apresentavam reatividade cruzada com o tipo selvagem (ex.: G1.04). Modificado de Mendes et. al, 2015.


terça-feira, 3 de julho de 2012

O “supercluster” biotecnológico de Massachusetts

No mês passado participei da 2012 BIO International Convention, conferência de biotecnologia que levou 16 mil pessoas de 65 países ao centro de convenções de Boston.


A conferência é enorme e frequentada principalmente por líderes de empresas de biotecnologia e de indústrias farmacêuticas, e por representantes governamentais.


Durante o painel “Brazilian Innovation Model”, tanto Nelson Fujimoto, Secretário de Inovação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, quanto Fernando Kreutz, Diretor Presidente da Fk Biotecnologia S A., e Presidente da Associação Brasileira de Biotecnologia, disseram que existem atualmente no Brasil 250 empresas de biotecnologia (aqui). As áreas de atuação dessas empresas são saúde humana (39,7%), saúde animal (14,3%), reagentes (13,1%), agricultura (9,7%) e meio ambiente/bioenergia (14,8%). 


Fiquei curiosa querendo conhecer melhor o ambiente biotecnológico brasileiro, e entendi que obter os números de quais são e onde estão as empresas não é fácil. Biotecnologia é uma área diversificada e são muitos os atores envolvidos. Talvez o número citado acima seja uma estimativa conservadora. 


Enquanto busco por informações sobre o Brasil, resolvi descrever o “supercluster” biotecnológico aqui no Estado de Massachusetts (MA). Vamos aos números.

  • há mais de mil empresas de biotecnologia/ciências da vida em MA, segundo o MassBio  
  • só em Kendall Square, o cluster biotecnológico que rodeia o MIT, são 95 empresas de biotecnologia, incluindo Genzyme/Sanofi, Novartis, Alnylam, Biogen Idec, Millennium Pharmaceuticals, Vertex, segundo o famoso estudo do Prof Ed Roberts
  • no ano passado, a Nova Inglaterra foi a região dos Estados Unidos que mais recebeu investimento de capital de risco (USD1.57 bilhões) e de capital de inovação (USD3,18 bilhões) para biotecnologia, segundo relatório da Ernst&Young lançado durante o evento
  • os cinco hospitais que mais receberam financiamento do NIH em 2011 estão todos localizados em Boston: Massachusetts General Hospital (USD324.620.848), Brigham and Women’s Hospital (USD288.436.449), Beth Israel Deaconess Medical Center (USD131.304.171), Dana-Farber Cancer Institute (USD130.136.550) e Children’s Hospital Boston (USD118.512.044), segundo a MassBio
  • as cinco universidades de Massachusetts que mais receberam recursos do NIH em 2010 foram: Universidade de Harvard (USD393 milhões), Universidade de Massachusetts (USD196 milhões), Boston University (USD163 milhões), MIT (USD158 milhões) e Tufts University (USD136 milhões), segundo a MassBio
  • há cerca de 50 mil pessoas trabalhando em ciências da vida no Estado, segundo a MassBio
  • as indústrias farmacêuticas do Estado que mais empregam são Genzyme/Sanofi (4.356), Pfizer (2.600), Biogen Idec (2.300), Novartis (2.100), Thermo Fisher Scientific (1.700), Shire (1.500), Vertex (1.310), EMD Millipore (1.237), Parexel International (1.200) e Millennium: Takeda Oncology (1.050), segundo a MassBio 
Um analista disse ao Jornal Boston Globe, em reportagem publicada no dia 17 de junho, que o “supercluster” biotecnológico da região se formou e tem se mantido por conta do amálgama de cérebros, dinheiro e risco.




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