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terça-feira, 3 de julho de 2012

O “supercluster” biotecnológico de Massachusetts

No mês passado participei da 2012 BIO International Convention, conferência de biotecnologia que levou 16 mil pessoas de 65 países ao centro de convenções de Boston.


A conferência é enorme e frequentada principalmente por líderes de empresas de biotecnologia e de indústrias farmacêuticas, e por representantes governamentais.


Durante o painel “Brazilian Innovation Model”, tanto Nelson Fujimoto, Secretário de Inovação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, quanto Fernando Kreutz, Diretor Presidente da Fk Biotecnologia S A., e Presidente da Associação Brasileira de Biotecnologia, disseram que existem atualmente no Brasil 250 empresas de biotecnologia (aqui). As áreas de atuação dessas empresas são saúde humana (39,7%), saúde animal (14,3%), reagentes (13,1%), agricultura (9,7%) e meio ambiente/bioenergia (14,8%). 


Fiquei curiosa querendo conhecer melhor o ambiente biotecnológico brasileiro, e entendi que obter os números de quais são e onde estão as empresas não é fácil. Biotecnologia é uma área diversificada e são muitos os atores envolvidos. Talvez o número citado acima seja uma estimativa conservadora. 


Enquanto busco por informações sobre o Brasil, resolvi descrever o “supercluster” biotecnológico aqui no Estado de Massachusetts (MA). Vamos aos números.

  • há mais de mil empresas de biotecnologia/ciências da vida em MA, segundo o MassBio  
  • só em Kendall Square, o cluster biotecnológico que rodeia o MIT, são 95 empresas de biotecnologia, incluindo Genzyme/Sanofi, Novartis, Alnylam, Biogen Idec, Millennium Pharmaceuticals, Vertex, segundo o famoso estudo do Prof Ed Roberts
  • no ano passado, a Nova Inglaterra foi a região dos Estados Unidos que mais recebeu investimento de capital de risco (USD1.57 bilhões) e de capital de inovação (USD3,18 bilhões) para biotecnologia, segundo relatório da Ernst&Young lançado durante o evento
  • os cinco hospitais que mais receberam financiamento do NIH em 2011 estão todos localizados em Boston: Massachusetts General Hospital (USD324.620.848), Brigham and Women’s Hospital (USD288.436.449), Beth Israel Deaconess Medical Center (USD131.304.171), Dana-Farber Cancer Institute (USD130.136.550) e Children’s Hospital Boston (USD118.512.044), segundo a MassBio
  • as cinco universidades de Massachusetts que mais receberam recursos do NIH em 2010 foram: Universidade de Harvard (USD393 milhões), Universidade de Massachusetts (USD196 milhões), Boston University (USD163 milhões), MIT (USD158 milhões) e Tufts University (USD136 milhões), segundo a MassBio
  • há cerca de 50 mil pessoas trabalhando em ciências da vida no Estado, segundo a MassBio
  • as indústrias farmacêuticas do Estado que mais empregam são Genzyme/Sanofi (4.356), Pfizer (2.600), Biogen Idec (2.300), Novartis (2.100), Thermo Fisher Scientific (1.700), Shire (1.500), Vertex (1.310), EMD Millipore (1.237), Parexel International (1.200) e Millennium: Takeda Oncology (1.050), segundo a MassBio 
Um analista disse ao Jornal Boston Globe, em reportagem publicada no dia 17 de junho, que o “supercluster” biotecnológico da região se formou e tem se mantido por conta do amálgama de cérebros, dinheiro e risco.




quarta-feira, 20 de julho de 2011

Fiquem ligados: perspectivas de negócios em Biotecnologia




Hoje vamos escrever algo diferente. Nada de regulação da resposta imune. Essa idéia veio quando do “post” da Cristina Bonorino, na última quarta-feira. Segundo a Cristina, na BIO2011, nós brasileiros tínhamos um estande gigante, que mostrou a um grupo de interessados uma espécie de mapa dos parques tecnológicos e ce
ntros de biotecnologia do país. A minha questão é um pouco mais primitiva: como fazemos para chegar lá? Eu sei que a maioria já sabe como, mas muitos nem imaginam. Nesse sentido, teremos uma mesa redonda no nosso congresso de Foz do Iguaçu (para o qual todos estão convidados), com representantes do CNPq, Butantãn e Fiocruz.
Pois é! Como nasce uma empresa de inovação tecnológica e amadurece até chegar na Bio International Convention ou simplesmente se estabelece aqui no país? Lembre-se, inovação é resultado de um complexo processo de aprendizado organizacional e demanda, dentre outros elementos, com novas estruturas organizacionais, recursos humanos altamente qualificados, oferta de tecnologia, financiamento diferenciado, espaços com características específicas e serviços técnicos e tecnológicos de apoio.
Primeiro precisamos ter resultados gerados de pesquisas que imaginamos ter potencial de aplicação, que sejam inovadores e possam resultar em produtos ou serviços novos ou melhorados. Há de se ter também a percepção (feeling) para reconhecer a oportunidade de negócio e a capacidade empreendedora necessária para desenvolver tal idéia. Deixamos passar a grande maioria das idéias, por muitas razões, entre elas a inexperiência e a falta de estímulo do governo. Eu diria que essa última é desculpa, mas há uma quantidade enorme de entraves que dificultam tais iniciativas, como regulamentação, a questão das patentes, a ANVISA (já viram as regras?), a CTNBio, financiamento para star-ups, capital de risco que não aceita risco, a transferência de tecnologia da Universidade para a empresa... ..., etc. De fato, simplesmente publicar é mais fácil.
São vários os caminhos existentes para que a pesquisa básica possa se transformar em pesquisa aplicada e depois em desenvolvimento que culmine com um produto ou serviço de interesse do mercado. Um destes caminhos é demonstrado na figura abaixo, onde, depois da Universidade, entra o papel da Incubadora de Empresas. Isso mesmo! Incubadora de empresas!!!


O Processo mostrado na figura acima é o da SUPERA, nossa Incubadora de Base Tecnológica, gerida pela FIPASE – Fundação Instituto Pólo Avançado da Saúde, daqui de Ribeirão Preto. A SUPERA foi considerada a melhor incubadora da região Sudeste do Brasil pela ANPROTEC (2010) e atualmente conta com 24 empresas em vários estágios de incubação.
No diagrama, pode-se observar que o fruto do trabalho universitário pode receber apoio do “Hotel de Projetos”, que auxilia na estruturação do Plano de Negócios, numa fase em que o futuro empreendedor está desenvolvendo seu produto, precisando ainda realizar testes e acabar o protótipo. Já com espaço, ainda que pequeno (pois a empresa passa a ter um espaço individualizado somente na incubação), para levar o projeto adiante, o empreendedor pode receber apoio na “Pré-Incubação”. A partir do domínio da tecnologia e/ou do processo de produção, a oportunidade pode entrar para “incubação” e se constituir definitivamente em empresa, em negócio!!!
Na “incubação”, a empresa tem acesso a espaço físico e serviços compartilhados, que diminuem o custo nos primeiros anos de vida, na fase mais vulnerável do negócio, e recebe consultorias em gestão e auxílio na busca por fomento em órgãos como FINEP, FAPs, CNPq e BNDES. São razoavelmente abundantes as verbas nessa fase, mas os assessores (os que julgam o projeto nessa área) precisam melhorar (assunto para outro post).
A empresa, depois de deixar a incubadora, pode se manter associada a esta, recebendo apoio e mantendo o networking, importante no processo de inovação. O resultado desse processo, em conjunto, culmina com o desenvolvimento local e o retorno para a sociedade, na forma de geração de renda e empregos qualificados. A oportunidade de negócios é da ordem de US$ 353 bilhões para as empresas que utilizam a biotecnologia como ferramenta para obtenção de seus produtos. Abram os olhos!!!!!
A Fundação Biominas, em 2007, enumerou as poucas empresas de bases tecnológicas no Brasil (abaixo). De fato poucas para fazer frente as do exterior (China, Índia, Japão, USA, ...etc) e para dividir o enorme bolo.


Em seguida, vem uma parte também interessante. Em ambientes com caldo de cultura tecnológica (esse que vivemos), governos e organizações (aqueles que pensam, o que é raro), visando o desenvolvimento regional, resolveram promover a catalisação do processo, estabeleceram políticas de apoio e fomentaram a implantação de instrumentos como os Parques Tecnológicos. Estes têm estruturas físicas e serviços que suportam o processo de inovação empresarial, com espaço para instalação de empresas e serviços de apoio, organização gestora, com responsabilidade de cuidar da “alma” do parque, que é o apoio ao processo de inovação, por meio do oferecimento de serviços e da promoção da interação intra e extramuros.
Terminamos dizendo que a riqueza gerada em um parque tecnológico é imensa. Tão grande quanto é pequena a cabeça dos políticos que se imaginam gestores de alguns desses parques no país. Mas vale a pena lutar, embora a insensatez de políticos seja do tamanho do benefício que estão deixando de transbordar para o povo. Depois eu conto essa parte (é estarrecedora!).

Aline Figlioli e eu.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Colocando em perspectiva a comercialização da inovação


Então, ocorreu em Washington DC de 27 a 30 de junho a Bio2011, a maior feira internacional de biotechnology businness, e, coisas do destino, a PUCRS me mandou nesse evento.
Foi muito interessante vivenciar esse momento em que a ciência deixa de vez o laboratório e chega na negociação com as big empresas. A feira tem sessões sobre os mais diversos assuntos, mas a gente passa o tempo inteiro conhecendo pessoas, conversando, trocando impressões. Serve pras grandes companhias basicamente sentirem firmeza ou não em você, seu Instituto, sua pequena empresa, seu país... E muita gente negociando, o tempo todo. Cerca de 20 mil pessoas estavam inscritas.
O governo brasileiro mostrou interesse no jogo, montando um estande gigante, que não deixou nada a dever pro da Italia ou da França – O Brasil foi o único país latinoamericano com participação marcante. Houve visitação intensa, assim como no da India e China. O Brasil ainda arranjou uma apresentação em que o Fortec, uma agremiação de gestores de inovação e transferência de tecnologia, e o Brbiotec, associação brasileira de biotecnologia, mostraram a um grupo de interessados uma espécie de mapa dos parques tecnológicos e centros de biotecnologia do país – concentrados em São Paulo, Minas, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul(!) – ói nóis. Estavam lá os grandes Insitutos brasileiros como Fiocruz, Butantã (Dr. Jorge Kalil), etc, e também o pessoal das pequenas e medias empresas de biotec.

Tava tudo muito bom mas eu fiquei pensando que não adianta, caro governo, apenas representar. A representação estava excelente, mas falta ainda o verdadeiro apoio para o cientista brasileiro inovar de maneira a atrair o tão desejado capital externo– os recursos, recursos pesados. Pegando emprestada uma fala do Doug Williams, VP executivo da Biogen, inovacão não se planeja – ela acontece porque a ciência está madura. E que outra forma de amadurecer a ciência em uma determinada area do que investir muito, gerar excelência, e deixar bons cientistas fazerem o que fazem de melhor.
E a propósito, o que é que fazemos de melhor no Brasil? Ainda semana passada meu amigo Roger Chammas lembrava bem que se vamos ser um país que quebra patentes – que eu apoiei e apoio naquele caso – temos de andar um bom caminho pra convencer investidores que querem patentes e lucro. Nós somos muito bons, acho eu, em desenvolver processos, mas a industria quer produtos. Vi muita procura por biocombustivel no estande do Brasil, mas fora isso, não sei.
Veja bem, nåo estou defendendo que tudo o que fazemos temos que patentear e visar lucro. Mas estou sempre atrås de recursos pro laboratório e tento entender o que eles querem pra ver se tem alguma intersecção.
Uma coisa que os nossos politicos podiam aprender com os governos de cidades do tipo Tampa na Florida, é que decidiram dar uma série de isenções e incentivos pra empresas e institutos fazerem medicina personalizada. Eles estão criando um pólo, vão colocar Tampa no mapa – daqui a alguns anos quando se falar em medicina personalizada, vai se falar Tampa. Este é um exemplo de criação direcionada de um pólo estabelecendo uma vocação pra uma cidade que antes não era conhecida por nada em especial.


Finalmente, desanimei um pouco com a falta de vontade da industria em patrocinar pesquisa básica. Mesmo eles admitindo que não dá pra inovar em lupus porque ninguem sabe o que é afinal, lupus – e isso vale pra outras doenças. Falei pra muita gente que eles bem podiam aplicar um dinheiro na academia, já que claramente ninguém tem recurso pra fazer toda a sua pesquisa básica sobre tudo.
Mas acho difícil a indústria investir na gente. Pena, porque passamos por tantos editais de prospecção, mas eles sempre querem tudo pronto, principalmente as indústrias brasileiras, falta a visão de parceria. O que reforça a idéia de que o nosso grande investidor precisa ser o governo brasileiro, neste momento. Já existe incentivo para formação de pequenas empresas de biotec, mas falta recurso pra pesquisa básica em saúde, acho eu, se queremos ser competitivos de verdade. Se os recursos forem garantidos, a inovação vem como bônus garantido. E com ela, os investidores de fora virão também.
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