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segunda-feira, 14 de junho de 2010

Reflexões sobre a Ciência, Tecnologia e Inovação no Brasil

Caros, segue mais um Post com intuito de fomentar a discussão acerca da qualidade da Ciência feita no Brasil e sugestões para melhorá-la. Foi escrito pelo Prof. Dr. Mauricio Rodrigues, UNIFESP, que participou da 4ª Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia e Inovação, em Brasília.
Vale ressaltar que esse blog é da comunidade: Comente! Sugestões comentários e criticas construtivas são sempre bem vindas.



Post de Mauricio Rodrigues

Em recente discussão sobre a ciência básica que ocorreu por ocasião da 4ª Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia e Inovação (Maio/2010), o Prof. Dr. Sérgio D. Pena (UFMG) expressou os pensamentos que transcrevo abaixo e os quais trago para discussão por considerá-los úteis para o debate sobre a ciência no Brasil e o papel da pós-graduação.

Transcrito: Sergio Danilo J. Pena, professor da Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG), destacou que o Brasil chegou ao 13º lugar em número de
publicações - tendo ultrapassado recentemente a Holanda e a Rússia -,
mas está apenas em 24º no ranking de citações. Segundo ele, vários
fatores explicam o descompasso entre a força da ciência nacional e sua
influência no cenário internacional.

"Um desses fatores é que a nossa pesquisa está baseada na pós-graduação. O aluno precisa partir de um projeto, com um fim já em mente e com um prazo imposto para terminar. A pesquisa resultante é muito conservadora, desprovida de inovação", disse.

Outro desafio a ser enfrentado seria repensar o tipo de demanda feito pelas agências de fomento, que exigem projetos com começo, meio e fim perceptíveis para os avaliadores.

"Chamo isso de demanda criacionista, porque parte do pressuposto de que a ciência tem um 'design inteligente'. A metodologia da ciência não é um desenho, ela ocorre naturalmente, por seleção natural de idéias. Precisamos ser evolucionistas nesse sentido", disse.

Pena citou o cientista Linus Pauling, que dava a receita para a concepção de boas idéias: ter muitas idéias e jogar fora as ruins. "Para identificar as idéias ruins, é preciso ter experimentação e, para isso, é preciso ter recursos. Na pesquisa de risco, é preciso apostar de vez em quando em idéias inovadoras e não apenas naquilo que já se mostra bom a priori. A solução adequada seria voltar o foco, pelo menos em alguns casos, para a trajetória do pesquisador e não exclusivamente para o projeto", disse.

Eu estendo o que o Prof. Sergio mencionou também para os projetos de pós-doutoramento assim como para os projetos de pesquisas da maioria das agências financiadoras. Esta mentalidade que se incutiu na ciência brasileira nos últimos 25 anos tem que ser analisada sobre o prisma de seus benefícios e desvantagens assim como no seu tempo. O fato do pesquisador e estudante terem que solicitar recursos de pesquisa e bolsas para algo que já se mostre factível e bom a priori certamente traz uma série de garantias às agências financiadoras e também a credibilidade do sistema de pós-graduação. Graças a esta estratégia, a maioria das teses são “executadas” e “terminadas” e geram títulos e resultados.
Possivelmente esta estratégia foi importante num determinado momento para que a ciência saísse do patamar muito baixo em que se encontrava e, mesmo com recursos limitados, fosse para um patamar médio que se encontra hoje. Neste sentido esta estratégia foi importante e deve ser aplaudida. O problema é que se colocar no patamar médio não é o suficiente no mundo de hoje. O objetivo da ciência assim como das demais atividades humanas não deve ser o de alcançar à média (mediocridade), deve sim buscar fronteiras impensáveis até pouco tempo atrás (inovação). Neste momento, o modelo de projetos atuais passa a não ser tão útil. Pelo contrário passa a ser um fardo que nos impede de progredir como mencionado pelo Prof. Sergio.
Admito que a ciência brasileira progrediu graças em grande parte à organização da pós-graduação. Entretanto, agora o que eu vejo é que a ciência está impedida de continuar a progredir por estar demasiado atrelada a ela. É muito difícil ver que a ciência brasileira será um dia um exemplo de ciência de ponta com a estrutura baseada em estudantes de 23 a 27 anos que estão tendo seu primeiro contato com a ciência na vida. Se fosse possível fazer isto, outros países já o teriam feito. O que se vê em países que de fato fazem a ciência de ponta, é outro quadro. Nestes países, o programa de pós-graduação é universitário. Ou seja, serve para o ensino. Não visa sustentar a produção científica e muito menos a produção científica de ponta. Com base nesta premissa, a tarefa principal do estudante de PhD é o de estudar e aprender os conceitos científicos na prática. Este estudo o prepara para o desafio posterior, muito maior, que é o de produzir a ciência de ponta que nós, em geral, infelizmente, somente lemos nos periódicos mais conceituados. Este indivíduo já tem PhD e está no programa de pós-doutoramento. Sua idade média é na faixa de mais de 30 anos. Nos bons laboratórios de pesquisa onde se faz pesquisa de ponta, os estudantes de pós-doutorados trabalham por no mínimo 3 anos. Em vários casos este tempo até dobra para 6 anos. Não é também incomum ver pós-docs que já estejam no seu segundo ou terceiro pós-doc, portanto podendo chegar a até mais de 9 anos. Este grupo de pesquisadores dá uma característica importante e são os responsáveis pela ciência de ponta no mundo. Infelizmente, esta população de cientista está faltando no Brasil e certamente nos impede de subir além de um medíocre 24º no ranking de citações.
Bem neste cenário quais seriam as soluções para sairmos deste medíocre 240 lugar no ranking das citações e tentar se mover adiante rumo a uma ciência de ponta?
Infelizmente, nem eu, nem ninguém, tem um coelho dentro da cartola que acho que vai resolver este problema de uma só vez ou num tempo menor que 10 anos. Assim acho que deveríamos tentar buscar soluções com o maior numero de pessoas possíveis e discuti-las o mais rapidamente possível. Neste sentido as Sociedades Científicas como a SBI teriam um papel fundamental neste processo para agilizar e difundir o debate em busca das soluções.
Infelizmente vejo pouca mobilização neste sentido, pois a luta diária para conseguir recursos mínimos para pesquisa serve como uma inércia enorme. Ou seja, vale o pensamento “antes um diabo conhecido que um anjo desconhecido”.

Como mencionado acima pelo Prof. Sergio “A solução adequada seria voltar o foco, pelo menos em alguns casos, para a trajetória do pesquisador e não exclusivamente para o projeto". Esta solução é possível, mas certamente também polêmica, pois divergiriam estes fundos aos pesquisadores mais velhos que já tem “trajetórias”. Assim os mais novos seriam denominados “sem trajetórias” e poderiam iniciar um “movimento dos sem trajetórias (MST) em busca de espaço intelectual.
Eu pessoalmente preferiria levar estes fundos para os pesquisadores com alto impacto de citações. Estes indivíduos seriam identificados pelo número de citações por trabalho o que daria valores independentes da idade. Este grupo certamente elevaria o Brasil nos ranking das citações o que pode ser um dos objetivos tangíveis da ciência brasileira. Outra proposta seria o de dar auxílios proporcionais ao desempenho. Estes prêmios poderiam ser dados por ocasião de trabalhos publicados em revistas de alto impacto assim como após o trabalho ter atingido determinado número de citações num determinado período de tempo. Também proporia um auxílio emergencial para que os pesquisadores com dados muito promissores recebessem alguns recursos rápidos para terminar uma publicação visando uma revista de alto impacto. Por último investir num programa de pós-doutoramento de longo prazo com bolsas de 3 a 6 anos certamente teria um impacto na melhora do desempenho da ciência brasileira.
Certamente outras soluções podem ser sugeridas ao longo de um debate ágil e civilizado em busca de objetivos tangíveis e mensuráveis que não apavorariam os burocratas da ciência brasileira.

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6 comentários:

  1. Fernando de Queiroz Cunha15 de junho de 2010 10:36

    A discussão acima é muito importante. Não há dúvida que para melhorarmos a qualidade de nossas publicações as sociedades científicas necessitam iniciar discussões objetivando a preparação de um documento conciso com sugestões claras que, na visão dos cientistas, irão melhorar nossa situação. Os pontos discutidos acima são muito relevantes. Certamente existem outros como: a) dificuldades para termos acesso em tempo razoável a reagentes, animais geneticamente modificados, material radioativo etc; b) formação de grupos de pesquisa sólidos. Além da curta duração dos Pos-Doc como mencionado acima, penso que os concursos para docente, na maioria das vezes, não visão o fortalecimento dos grupos de pesquisa. Como os editais não são direcionados para temas específicos desenvolvidos pelos grupos existentes, as contratações acabam abrindo novas linhas de pesquisa, em vez de consolidar os grupos existentes; c) Financiamento: Embora os recursos alocados para pesquisa sejam significativos, necessitamos discutir em profundidade como eles estão sendo utilizados. A discussão é longa, deixo algumas perguntas: Alguém consegue ver racionalidade na preparação dos editais (temas, exigências, contrapartidas)? Eles estão financiando corretamente os grupos sólidos?

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  2. Apesar do ótimo crescimento no financiamento e organização da pós-graduação, estamos vivemos num viés profundo quando o assunto envolve qualquer atividade da cadeia científica deste país - vai do IC até o docente/pesquisador concursado.

    Devemos discutir este assunto profunda e corriqueiramente. A partir das palavras dos profs. Maurício e S. Pena, observa-se que chegamos ao topo em relação aos números medíocres calculados e colocados em gráfico de metas para, muitas vezes, enaltecer burocratas (13o/24o).

    Podemos mais. Podemos muito mais.

    Elevar a qualidade da ciência (entende-se inovação) demanda tempo para pensar, discutir, executar os experimentos; pensar de novo, discutir de novo e assim sucessivamente. Todos os que não estão cegos, podem observar que a média dos alunos de PG não completam este ciclo, o qual ocupa uma importância fundamental na qualificação do trabalho e aprendizado de um cientista de fogo-sagrado.

    Dos gargalos citados acima, acredito que um dos principais é o de atrair pós-docs comprometidos com a ciência e sua carreira. Como atrair estes indivíduos, se a atividade acadêmica/docente atualmente é perto de deplorável? Ou seja, além de investir nos gargalos, devemos investir também na careira de pesquisador, que leva em conta, os concursos direcionados, o fortalecimento de áreas existentes, melhores salários, dentre outros.

    Devo parar por aqui, mas como o grande amigo e prof. Fernando disse, essa discussão é longa.

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  3. Prof. Mauricio Martins Rodrigues15 de junho de 2010 23:25

    Agradeço ao Profs. Fernando e André por dedicarem seu tempo a discutir o texto original. Algumas das propostas levantadas por estes eu certamente divido. 1) por que não contratar pessoas para fortalecer grupos de pesquisa e depois cobrar destes pela contratação de pessoal? 2) o que vale voce ter um pós-doc bom esperando um reagentes 2-3 meses para fazer um experimento como muitas vezes acontece? 3) Por que fazer pós-doc no Brasil e ficar recebendo do CNPq ou da CAPES menos dinheiro e com menos condições de trabalho do que se estivesse no exterior como bolsista destes mesmos orgãos? 4) Pra que serve tanto aluno de pós-graduação que mal sabem ler e escrever? 5) Por que o valor das bolsas de produtividade científica do CNPq sobem muito menos do que os salários dos professores universitários dos quais a maioria nem sequer faz pesquisa? 6) Por que a maioria dos editais te obrigam a dizer o que voce vai encontrar como resultado no final?
    Estas são apenas algumas das perguntas que precisamos responder para ir adiante. Por último gostaria discordar de ambos sobre o tempo da discussão, não acho que a discussão seja longa. Acho que a inércia é que é grande e acho também que "mais vale errar rápido do que acertar lentamente". Precisamos sim de menos inércia, mais agilidade, e mudança nesta área.

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  4. Julio Scharfstein16 de junho de 2010 07:42

    Mauricio, envie este teu artigo para Aragão, atual presidente do CNPq. Aragão deve ter conhecimento do diagnostico do Sérgio Pena, mas talvez não tenha lido as tuas considerações. Para mudar esta cultura, a politica de financiamento deveria sofrer profundas mudanças. Gasta-se $$ excessivo nos Institutos Nacionais-financiando uma estrutura de pirâmide. Os Institutos são em geral conduzidos por expoentes da nossa ciência, mas é inegável que a base da pirâmide contem um numero significativo de pesquisadores pouco criativos, que jamais são avaliados individualmente pelo seu desempenho. Os programas tipo RO-1 NIH (incluindo direito a contratação de 1-2 pos docs) durante 4 anos (ainda que fossem 3) nos dariam mais estabilidade, e chance de correr mais risco, através da atuação dos nossos jovens pós docs. O problema é que o peso de numero de publicações também está influenciando as pontuações nos concursos públicos- isso também acaba inibindo ousadia dos pós docs, a não ser que o candidato tenha tido uma vivência altamente produtiva no exterior (isso continua sendo um fator diferencial nos concursos, e não pode ser diferente!). Assim sendo, entre outras iniciativas, seria preciso ter um programa especial de fomento para apoiar apenas projetos de risco, exclusivamente realizados por estes jovens pós docs, e com duração nunca inferior a 3 anos. Os financiamentos só deveriam ser renovados mediante avaliação meticulosa do que foi efetivamente alcançado no período anterior (isso raramente ocorre, no esquema atual). Acho que existe um problema adicional: a massa critica cresceu, mas convenhamos, ainda é MUITO limitada, logo, o CA sempre acabará julgando os projetos do mesmo pool de pesquisadores conhecidos. A avaliação de quem tenta ou não alçar vôos maiores vai ser muito complicada. Na Europa e USA, os cientistas volta e meia se estrangulam, mas pelo menos eles constituem um universo de milhares de pesquisadores (jovens e competentes) competindo. A gente ainda não chegou na fase 2 deste processo, nem entre os competidores, nem entre os avaliadores (o CA não pode fazer milagre, lendo todos os projetos... ). Para fazer esta análise com profundidade, e de modo imparcial, precisamos ter pareceres Ad Hocs (na média) de altíssima qualidade. Não temos massa crítica suficiente (ainda) para fazer este trabalho de avaliação tão bem feito. Seja como for, isso vai ser resolvido com o tempo, quando os atuais pós docs estiverem fechando o seu ciclo, daqui há 30 anos.
    Julio Scharfstein

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  5. Mauricio Martins Rodrigues16 de junho de 2010 14:49

    Oi Júlio,

    Obrigado pelo apoio. São poucos os pesquisadores que me apoiaram. O motivo deve ser o que eu mencionei. A inércia de buscar algo melhor: "melhor um diabo conhecido que um anjo desconhecido".

    Acho que a discussão não é tão complicada como alguns dizem. Já existem sistemas que funcionam melhor, assim seria mais fácil seguí-los que reinventar a roda.

    Acho importante a discussão primeiro.

    Mas tenho propostas como a de poucas e compreensíveis etapas, e sem nada mirabolante:

    Etapa 0: Iniciação científica (idade: - até 23 anos)

    Etapa 1: Doutorado de 5 anos com avaliação a cada 2 anos (para expelir os alunos que não
    trabalham). (idade 23-28 anos)

    Etapa 2a: Pós doutorado de 4 anos com avaliação no meio para expelir os alunos que não trabalham. (28-32 anos)

    Etapa 2b: Segundo pós-doc de 3 anos. (32-35 anos)

    Etapa 3: Grant Jovem Pesquisador (salário opcional e grant de equipamento dentro para
    início do laboratório) de 4-5 anos. (35-40 anos)

    Etapa 4a: Grant regular de 4-5 anos com bolsa(s) de pós-doc dentro. (40-45 anos)

    Etapa 4b: Grant regular de 4-5 anos com bolsa(s) de pós-doc dentro. (45-50 anos)

    Etapa 4c: Grant regular de 4-5 anos com bolsa(s) de pós-doc dentro (opcional).

    Etapa 5: Grant senior 5 + 5 anos (50-60 anos)

    Etapa 5b: Grant senior 5 + 5 anos (60-70 anos)

    Aposentadoria compulsória 70 anos e uns poucos grants para os chamados "gênios idosos"
    (70-80 anos).

    Não precisa ser nenhum gênio para ver que isto funcionaria a contento.

    Me dê sua opinião.

    Abraços,

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  6. É preciso também acabar com alguns dogmas sobre a participação do serviço público em Ciência & Tecnologia. O debate sobre um modelo público-privado nas universidades e em C&T deve ser estendido e sustentado nessas discussões.

    O ensino de qualidade e a pesquisa de ponta desenvolvidos nas universidades públicas são bens públicos, devem ser prioridade e de responsabilidade do estado. Toda carreira envolvida na atividade intelectual (professores, pesquisadores, alunos e etc) deve ser subsidiada pelo estado, através de agências e concursos públicos. Abertura para capital privado nessas atividades deveria ser incentivada pelo governo (descontos fiscais?).

    Contudo, o imenso corpo técnico, na maioria das vezes defasado e despreparado, hoje bancado pelas contas públicas, deveria ser total ou parcialmente terceirizado. O serviço técnico é essencial em C&T mas atrelá-lo ao serviço público parece ser contraproducente.

    O modelo das "facilities" ou plataformas técnicas (genômica, microscopia e etc) com staff misto são boas alternativas e potencializariam muito a pesquisa nacional.

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