Caros, segue mais um Post com intuito de fomentar a discussão acerca da qualidade da Ciência feita no Brasil e sugestões para melhorá-la. Foi escrito pelo Prof. Dr. Mauricio Rodrigues, UNIFESP, que participou da 4ª Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia e Inovação, em Brasília.
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Post de
Mauricio RodriguesEm recente discussão sobre a ciência básica que ocorreu por ocasião da 4ª Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia e Inovação (Maio/2010), o Prof. Dr. Sérgio D. Pena (UFMG) expressou os pensamentos que transcrevo abaixo e os quais trago para discussão por considerá-los úteis para o debate sobre a ciência no Brasil e o papel da pós-graduação.
Transcrito: Sergio Danilo J. Pena, professor da Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG), destacou que o Brasil chegou ao 13º lugar em número de
publicações - tendo ultrapassado recentemente a Holanda e a Rússia -,
mas está apenas em 24º no ranking de citações. Segundo ele, vários
fatores explicam o descompasso entre a força da ciência nacional e sua
influência no cenário internacional.
"Um desses fatores é que a nossa pesquisa está baseada na pós-graduação. O aluno precisa partir de um projeto, com um fim já em mente e com um prazo imposto para terminar. A pesquisa resultante é muito conservadora, desprovida de inovação", disse.
Outro desafio a ser enfrentado seria repensar o tipo de demanda feito pelas agências de fomento, que exigem projetos com começo, meio e fim perceptíveis para os avaliadores.
"Chamo isso de demanda criacionista, porque parte do pressuposto de que a ciência tem um 'design inteligente'. A metodologia da ciência não é um desenho, ela ocorre naturalmente, por seleção natural de idéias. Precisamos ser evolucionistas nesse sentido", disse.
Pena citou o cientista Linus Pauling, que dava a receita para a concepção de boas idéias: ter muitas idéias e jogar fora as ruins. "Para identificar as idéias ruins, é preciso ter experimentação e, para isso, é preciso ter recursos. Na pesquisa de risco, é preciso apostar de vez em quando em idéias inovadoras e não apenas naquilo que já se mostra bom a priori. A solução adequada seria voltar o foco, pelo menos em alguns casos, para a trajetória do pesquisador e não exclusivamente para o projeto", disse.
Eu estendo o que o Prof. Sergio mencionou também para os projetos de pós-doutoramento assim como para os projetos de pesquisas da maioria das agências financiadoras. Esta mentalidade que se incutiu na ciência brasileira nos últimos 25 anos tem que ser analisada sobre o prisma de seus benefícios e desvantagens assim como no seu tempo. O fato do pesquisador e estudante terem que solicitar recursos de pesquisa e bolsas para algo que já se mostre factível e bom a priori certamente traz uma série de garantias às agências financiadoras e também a credibilidade do sistema de pós-graduação. Graças a esta estratégia, a maioria das teses são “executadas” e “terminadas” e geram títulos e resultados.
Possivelmente esta estratégia foi importante num determinado momento para que a ciência saísse do patamar muito baixo em que se encontrava e, mesmo com recursos limitados, fosse para um patamar médio que se encontra hoje. Neste sentido esta estratégia foi importante e deve ser aplaudida. O problema é que se colocar no patamar médio não é o suficiente no mundo de hoje. O objetivo da ciência assim como das demais atividades humanas não deve ser o de alcançar à média (mediocridade), deve sim buscar fronteiras impensáveis até pouco tempo atrás (inovação). Neste momento, o modelo de projetos atuais passa a não ser tão útil. Pelo contrário passa a ser um fardo que nos impede de progredir como mencionado pelo Prof. Sergio.
Admito que a ciência brasileira progrediu graças em grande parte à organização da pós-graduação. Entretanto, agora o que eu vejo é que a ciência está impedida de continuar a progredir por estar demasiado atrelada a ela. É muito difícil ver que a ciência brasileira será um dia um exemplo de ciência de ponta com a estrutura baseada em estudantes de 23 a 27 anos que estão tendo seu primeiro contato com a ciência na vida. Se fosse possível fazer isto, outros países já o teriam feito. O que se vê em países que de fato fazem a ciência de ponta, é outro quadro. Nestes países, o programa de pós-graduação é universitário. Ou seja, serve para o ensino. Não visa sustentar a produção científica e muito menos a produção científica de ponta. Com base nesta premissa, a tarefa principal do estudante de PhD é o de estudar e aprender os conceitos científicos na prática. Este estudo o prepara para o desafio posterior, muito maior, que é o de produzir a ciência de ponta que nós, em geral, infelizmente, somente lemos nos periódicos mais conceituados. Este indivíduo já tem PhD e está no programa de pós-doutoramento. Sua idade média é na faixa de mais de 30 anos. Nos bons laboratórios de pesquisa onde se faz pesquisa de ponta, os estudantes de pós-doutorados trabalham por no mínimo 3 anos. Em vários casos este tempo até dobra para 6 anos. Não é também incomum ver pós-docs que já estejam no seu segundo ou terceiro pós-doc, portanto podendo chegar a até mais de 9 anos. Este grupo de pesquisadores dá uma característica importante e são os responsáveis pela ciência de ponta no mundo. Infelizmente, esta população de cientista está faltando no Brasil e certamente nos impede de subir além de um medíocre 24º no ranking de citações.
Bem neste cenário quais seriam as soluções para sairmos deste medíocre 240 lugar no ranking das citações e tentar se mover adiante rumo a uma ciência de ponta?
Infelizmente, nem eu, nem ninguém, tem um coelho dentro da cartola que acho que vai resolver este problema de uma só vez ou num tempo menor que 10 anos. Assim acho que deveríamos tentar buscar soluções com o maior numero de pessoas possíveis e discuti-las o mais rapidamente possível. Neste sentido as Sociedades Científicas como a SBI teriam um papel fundamental neste processo para agilizar e difundir o debate em busca das soluções.
Infelizmente vejo pouca mobilização neste sentido, pois a luta diária para conseguir recursos mínimos para pesquisa serve como uma inércia enorme. Ou seja, vale o pensamento “antes um diabo conhecido que um anjo desconhecido”.
Como mencionado acima pelo Prof. Sergio “A solução adequada seria voltar o foco, pelo menos em alguns casos, para a trajetória do pesquisador e não exclusivamente para o projeto". Esta solução é possível, mas certamente também polêmica, pois divergiriam estes fundos aos pesquisadores mais velhos que já tem “trajetórias”. Assim os mais novos seriam denominados “sem trajetórias” e poderiam iniciar um “movimento dos sem trajetórias (MST) em busca de espaço intelectual.
Eu pessoalmente preferiria levar estes fundos para os pesquisadores com alto impacto de citações. Estes indivíduos seriam identificados pelo número de citações por trabalho o que daria valores independentes da idade. Este grupo certamente elevaria o Brasil nos ranking das citações o que pode ser um dos objetivos tangíveis da ciência brasileira. Outra proposta seria o de dar auxílios proporcionais ao desempenho. Estes prêmios poderiam ser dados por ocasião de trabalhos publicados em revistas de alto impacto assim como após o trabalho ter atingido determinado número de citações num determinado período de tempo. Também proporia um auxílio emergencial para que os pesquisadores com dados muito promissores recebessem alguns recursos rápidos para terminar uma publicação visando uma revista de alto impacto. Por último investir num programa de pós-doutoramento de longo prazo com bolsas de 3 a 6 anos certamente teria um impacto na melhora do desempenho da ciência brasileira.
Certamente outras soluções podem ser sugeridas ao longo de um debate ágil e civilizado em busca de objetivos tangíveis e mensuráveis que não apavorariam os burocratas da ciência brasileira.