segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Agrupando MHCs em supertipos
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Papel do MHC de classe II na imunidade inata
Uma das maneiras que os patógenos desenvolveram para evadir a resposta imunológica é a capacidade de diminuir os níveis de expressão do MHC II na superfície de suas células hospedeiras, limitando assim a sua exposição e consequentemente seu reconhecimento pelas células T CD4. Já foi descrito que a deficiência de MHC II diminui a produção de TNF-alfa por monócitos e macrófagos, quando estes são estimulados com o agonista do receptor do tipo toll (TLR) 4. No entanto, até agora, o mecanismo relacionando o MHC II e os TLRs no desencadeamento da resposta imune inata ainda não tinha sido desvendado.
Em um artigo recém saído do forno, Xinggang Liu e colaboradores descreveram uma função dita não clássica para o MHC II. O estudo mostra que animais deficientes em MHC II são mais resistentes ao choque endotóxico, induzido por doses letais de LPS ou pela infecção por bactérias Gram-negativas. Estes camundongos produzem in vivo menores níveis de citocinas proinflamatórias, incluindo IFN do tipo I. Mas, como isto acontece?
Aparentemente, quando estão no interior das células, mais especificamente nos endossomos, as moléculas de MHC II interagem com a tirosina quinase Btk via moléculas de CD40 e tornam a ativação de Btk mais estável. Uma vez ativada, esta tirosina interage com as moléculas adaptadoras MyD88 e TRIF, promovendo completa ativação da via de sinalização dos TLRs. Sendo assim, moléculas de MHC II podem agir como adaptadoras promovendo uma eficiente ativação da resposta imune inata desencadeada pela dos TLRs e seus ligantes.
Em um comentário sobre o artigo, publicado no mesmo volume do JEM, Hassan e Mourad incorporam os novos achados aos já publicados na figura abaixo propondo a sinalização do MHC II.
Vale a pena se aprofundar um pouco mais na leitura:
- Piani A et al. Expression of MHC class II molecules contributes to lipopolysaccharide responsiveness. Eur J Immunol. 2000 Nov;30(11):3140-6.
- Liu X et al. Intracellular MHC class II molecules promote TLR-triggered innate immune responses by maintaining activation of the kinase Btk. Nat Immunol. 2011 May;12(5):416-24.
- Hassan & Mourad. An unexpected role for MHC class II. Nat Immunol. 2011 May;12(5):375-6.
quinta-feira, 8 de maio de 2014
Imunologia molecular In silico – Parte II
domingo, 26 de junho de 2011
Journal Club - IBA: Apresentação antigênica via Cross-dressing
A apresentação de antígeno via cross-dressing já foi tema de um post neste blog em abril passado. Voltamos hoje a abordar este tema pois o artigo publicado na Nature de março deste ano foi tema do Journal Club do nosso departamento esta semana.quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Clássicos e não-clássicos e o MHC classe II
segunda-feira, 14 de dezembro de 2015
Predição da estabilidade dos complexos peptídeo:MHC e o "desprendimento" do ligante
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Figura 1. Ilustração de Eric Reits para representar a rota
de apresentação de peptídeos endógenos. Uma amostra das proteínas intracelulares é processada e apresentada na superfície celular no contexto do MHC-I, permitindo seu reconhecimento pelos linfócitos T (Yewdell et al., 2003). |
Embora intuitivamente possamos imaginar que a estabilidade de um dado pMHC será um reflexo da afinidade de ligação do complexo, de modo que apenas pMHCs estáveis serão formados no retículo endoplasmático e consequentemente apresentados na superfície, esta relação nem sempre é observada. Na verdade, os dados sugerem que a estabilidade do pMHC é inclusive um melhor preditor da imunogenicidade do peptídeo do que a própria afinidade de ligação (van der Burg at al., 1996; Harndahl et al., 2012; Jorgensen et al. 2014). Embora os já conhecidos "resíduos âncoras" sejam primariamente envolvidos na afinidade do complexo, as cadeias laterais de outros resíduos secundários podem influenciar positivamente ou negativamente na manutenção do modo de ligação mais favorável, o que pode levar a instabilidade do complexo (Jorgensen et al. 2014). Isso acaba tendo impacto direto na possível estimulação de linfócitos, sobretudo considerando que uma diversidade de peptídeos está sendo apresentada ao mesmo tempo e que estes diferentes complexos pMHC estão competindo pela interação com o TCR; complexos mais numerosos e mais estáveis tem maior chance de serem reconhecidos (dependendo também dos fatores envolvidos na reatividade).
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| Figura 2. Visualização dos dados obtidos de uma dinâmica molecular de um complexo pMHC não estável. Os cones verdes indicam a direção e a intensidade das forças observadas em determinados resíduos. Neste exemplo, elas indicam uma forte tendência de desprendimento da porção C-terminal do ligante. Estes dados diferem daqueles observados para um ligante controle. Modificado da Tese de Doutorado de Maurício M. Rigo (2015). |
A dinâmica molecular é a ferramenta de bioinformática estrutural com a maior precisão em termos da correta descrição das forças envolvidas e das trajetórias moleculares preditas para um dado sistema. No entanto, esta precisão acarreta um elevado custo computacional que em muitos casos inviabiliza a análise de sistemas muito grandes, ou a observação de eventos que ocorrem em escalas de tempo superiores a centenas de microssegundos. O trabalho descrito acima corrobora o potencial preditivo da dinâmica molecular quanto a instabilidade do complexo, mas nestas simulações curtas (20 ns) não é possível observar o completo "desprendimento" do ligante. Na verdade, um trabalho recente demonstrou que o desprendimento completo pode não ser observado mesmo em uma dinâmica molecular de 1000 ns (1 µs), a mais longa simulação de um complexo pMHC já publicada (full-atom MD) (Knapp et al., 2015). Para conseguir observar este evento em nível molecular, os autores implementaram uma estratégia alternativa. Em primeiro lugar, ao invés de considerar a descrição atômica das moléculas envolvidas, eles utilizaram uma representação simplificada dos resíduos (coarse-grained 3-point model). Em segundo lugar, eles utilizaram um método de segmentação hierárquica da proteína para restringir a flexibilidade de grupos de resíduos, o que também melhora a performance (reduz graus de liberdade) e previne a perda do correto enovelamento da proteína (unfolding). Os movimentos neste sistema foram então explorados através do método de Monte Carlo. Finalmente, eles realizaram repetidas etapas de simulated annealing para permitir uma rápida exploração do espaço conformacional sem ficar restrito a mínimos locais de energia. Esta abordagem permitiu observar o completo desprendimento da fenda em um tempo computacionalmente viável (Figura 3) e foi capaz de discriminar entre ligantes e não ligantes (AROC = 0,85). Esta é a primeira vez em que são descritas conformações intermediárias do ligante durante o processo de desprendimento do MHC, possibilitando novos insights e revelando outros detalhes moleculares importantes para o desencadeamento de uma resposta imunológica celular. A capacidade de predizer dados experimentais corrobora a hipótese de que as simplificações realizadas não prejudicaram a correta descrição das moléculas simuladas, mas futuros experimentos serão necessários para determinar a real acurácia e a potencial generalização dos resultados observados.
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| Figura 3. Simulação do processo de desprendimento de um peptídeo da fenda do MHC utilizando (A) uma nova metodologia baseada em coarse-grained Monte Carlo e simulated annealing (HNMMC) ou (B) dinâmica molecular. O peptídeo utilizado (AAAKTPVIV) foi previamente descrito como não ligante de HLA-A*0201, alelo utilizado nestes experimentos. A técnica HNMMC foi capaz de descrever um completo desprendimento da fenda, em um tempo muito inferior ao da dinâmica molecular (C). Figura publicada em Knapp et al., 2015. |
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
O Sabre de Luz do Jedi
Quando eu era estudante no National Jewish, uma das minhas aulas favoritas era a do John Kappler. Quimico de formação, ele apresentava de forma tão fascinante as interações moleculares, e em especial sua favorita, a do TCR com o MHC, que estrutura parecia fácil. Ainda hoje, quando estrutura me parece uma coisa espinhosa, tento lembrar daquelas aulas, onde aprendi o quanto a estrutura pode nos dizer sobre a função.
Na última Immunity, o casal Kappler-Marrack mostra que um mesmo TCR pode reconhecer moleculas de MHC classe I e MHC classe II, cada uma com um ligante peptídico diferente. Para isso, existe uma flexibilidade da molecula, que se adapta ao ligante diferente, mesmo tendo sido selecionada no timo para ser restrita a uma determinada molecula de MHC. Basicamente, parece que os dominios de um mesmo TCR que interagem com os aminoacidos conservados do MHC – e que se acredita terem evoluido para interagir com o MHC – permanecem na mesma orientação quando ligados em MHC classe I ou II. Contudo, a molécula pode rearranjar os domínios que interagem com o antigeno (!). A região J do dominio variavel gira o CDR1 e o CDR2 pra fora, afastando eles dos CDRs da outra cadeia. O TCR fica mais abertinho, e podem ocorrer tanto no V alfa como no V beta domain. Os residuos da pontinha dos CDRs se mexem.
Mesmo quem não curte estrutura, é legal dar uma passeada pelo artigo. Reatividade cruzada é um conceito que todo mundo usa, mas aqui estão mostrando como ela acontece na prática. E enquanto a reatividade cruzada pode ser vantajosa numa resposta immune, tambem sabemos que pode dar zebra. Nas minhas aulas, os alunos aprendem que se o linfócito T é o cavaleiro Jedi, o TCR é o seu sabre de luz, algo que ele só obtém após um árduo processo de educação e seleção. E um instrumento poderoso que confere a grande maioria das suas espantosas habilidades. O trabalho do grupo de Kappler nos mostra que o sabre de luz é mais versátil do que imaginávamos. Futuros estudos podem nos ajudar a entender se isso constitui um dos mecanismos pelos quais ele passa para o lado negro da força.
Immunity. 2011 Jul 22;35(1):23-33. Epub 2011 Jun 16. A Single T Cell Receptor Bound to Major Histocompatibility Complex Class I and Class II Glycoproteins Reveals Switchable TCR Conformers. Yin, L., Huseby E, Scott-Browne J, Rubtsova K, Pinilla C, Crawford F, Marrack P, Dai S, Kappler JW.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Sistemas Imunes I: O MHC dos Baskervilles
"So, the naturalists observe, the flea,
Hath smaller fleas that on him prey;
And these have smaller still to bite 'em;
And so proceed, ad infinitum”
Jonathan Swift
Com o post de hoje vamos inaugurar no blog da SBI uma coluna mensal dedicada a examinar a imunologia a luz da evolução. Não tem erro no título, vamos mesmo falar de sistemas imunes, no plural. Passearemos pelas diversas células e estruturas que participam de respostas imunes nos 34 (dependendo de quem está contando) filos do reino animal, e mais o ocasional fait divers do mundo das plantas, protozoários e outras criaturas esquisitas. Alguns destes componentes serão homólogos dos nossos velhos conhecidos do sistema imune dos vertebrados com mandíbula, outros serão análogos facilmente reconhecíveis, soluções convergentes para problemas comuns, e ocasionalmente veremos ainda moléculas e mecanismos completamente únicos.
Para começar, vamos ficar no nosso pequeno raminho da árvore da vida, o sub-filo Vertebrata, filo Chordata, ali no graveto dos peixes ósseos. Mais especificamente começaremos com Gadus morhua, também conhecido (e consumido) como bacalhau.
Kjetill Jakobsen, da Universidade de Oslo, e vários colegas (como o paper é de genômica, põe et al nisso) decidiram sequenciar o genoma do bacalhau com objetivos principalmente comerciais. Até ai, tudo bem, a Noruega vive em grande parte da pesca do Gadus morhua, e enfrenta vários desafios importantes, desde o declínio acentuado dos estoques naturais (sim, este declínio tem muito a ver com o fato da Noruega e outros dependerem da pesca do bacalhau, mas adiante…), até uma difícil transição para a piscicultura. Estes dois pontos já obrigariam a equipe a prestar uma atenção especial às sequências ligadas ao sistema imune do bicho no seu genoma. Mas a esta altura, genomas sequenciados já não são novidade. Por que então encontramos Kjetill e seus colegas nas páginas da Nature*, com destaque em várias outras revistas, depois de passar meros 830 milhões de pares de base pela plataforma 454 da Roche?
O genoma do bacalhau revelou muitas das idiossincrasias esperadas de sistemas biológicos, adaptações interessantes as suas condições peculiares de vida. Lá esta por exemplo, uma modificação curiosa da hemoglobina, talvez uma solução para problemas decorrentes das baixas temperaturas que enfrenta este peixe. Mas a grande surpresa veio por conta do que não estava lá.
Nosso amigo da mesa Natalina (era a especialidade da minha avó) vive muito bem obrigado tendo perdido todos os genes do MHC classe II, bem como a cadeia invariante. Provavelmente como consequência disto, o gene CD4 também não é funcional no bacalhau, embora neste caso pelo menos encontramos o seu fóssil, na forma de um pseudogene truncado. Ou seja, o bacalhau perdeu completamente a resposta T helper tradicional- o que explica uma observação que intriga a (pequena, e muito escandinava) comunidade dos imunobacalhólogos desde pelo menos 2005: o bacalhau faz uma resposta clássica de anticorpos muito fraca a seguir a imunização. Não sabemos ainda como funciona o sistema imune do bacalhau, mas estão no genoma muitas pistas interessantes: genes da família toll extremamente diversificados, expansões de algumas famílias de citocinas, e uma muito intrigante diversificação dos genes do MHC classe I. Os autores falam em 100 locos (não alelos, isso seria banal para o MHC, locos) identificados de MHC I, o que os leva a propor uma hipertrofiada via de cross-presentation como possível alternativa. O que os autores não discutem é que pela teoria clássica de evolução da diversidade do MHC (que prevê muitos alelos e poucos, muito poucos, locos), este arranjo levaria normalmente à deleção de quase todos os linfócitos CD8 durante o desenvolvimento no timo. Perceber a seleção de células T no timo do bacalhau de repente tornou-se um problema fascinante.
Vale aqui adicionar alguns detalhes sobre o bacalhau. No mar ele atinge até 2 metros de comprimento e pode pesar 96 quilos ou mais. A maturidade sexual chega entre os 2 e 4 anos de idade, e ele vive 13 anos ou mais. Se adicionamos a isto uma dieta omnívora, e muitos (e muito diversos) parasitas (Perdiguero-Alonso et al, Parasites & Vectors, 2008, 1:23), temos a receita para um vertebrado com bons incentivos para ter uma imunidade eficiente. Além da resposta de anticorpos fraca que mencionamos acima, o bacalhau também apresenta um elevado número de neutrófilos em circulação, e uma alta concentração de IgM no soro.
Um modesto projeto ligado a piscicultura nos trouxe então a um ponto muito interessante, que remete a uma das motivações iniciais do estudo da evolução do sistema imune: a de que alargando o número de espécies sobre as quais conhecíamos algo a respeito do sistema imune, cedo ou tarde conseguiríamos deduzir a sequência evolutiva mais lógica para o surgimento do sistema imune dos vertebrados. As hipóteses foram se sucedendo ao longo dos anos 70 e 80. A immunoglobulina seria mais próxima da molécula primitiva, por se ligar diretamente aos antígenos. Não, seria o receptor de célula T, por ter apenas uma forma, presa a membrana. O proto-linfócito e seu receptor seriam parecidos com as células gama delta modernas (este argumento ia frequentemente buscar apoio em Haeckel). Enfim, eram hipóteses a gosto do freguês.
E ai veio a descoberta do Big Bang: era tudo ou nada. Na evolução do sistema imune dos vertebrados, apareciam juntos, nos peixes cartilaginosos, todos os seus principais componentes. Lá estavam, no tubarão, perfeitamente reconhecíveis, as imunoglobulinas, os receptores T (alfa beta e gama delta), CD4, CD8, MHC I e II. A sequência que nos interessava no melhor dos casos sumiu com a extinção dos placodermes, os assustadores peixes com armadura que dominavam os mares do Siluriano. Agora, pela via da perda de um ramo crucial do sistema imune, podemos investigar como se vive sem um componente fundamental da nossa imunidade.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Entrevistas ImunoFoz 2011 - Koichi Kobayachi
Dr. Koichi S. KobayashiHarvard Medical School, EUA
Palestrante da mesa-redonda 'Innate Immune Receptors in Pathogen Recognition and Inflammation' (16/10/2011)
Kobayashi, K.S. - CIITA, another NLR protein, has been known as an MHC class II transactivator. We have identified NLRC5 as the transactivator of MHC class I.
Kobayashi, K.S. - NLRC5 was proposed to be an inhibitor of TLR and RLR signaling by interacting with IKK and RIG-I. Our and other groups’ data did not support it.









