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terça-feira, 7 de junho de 2011

La capra, o linfático, e o boné

Estava em Viena, num congresso. Acordei e vi um papel que o hotel tinha enfiado por baixo da porta (naquela era geológica, o hotel botava a conta por baixo da porta pra facilitar o check out). Pensei, peraí, tem alguma coisa errada, eu não vou embora hoje não, vou embora amanhã…Levantei e fui ver a tal conta. Sim senhor, eles estavam esperando que eu me picasse naquela manhã…Putz, e agora? Tinha que procurar outro hotel… Putz#2: Se confundi a data do hotel devo tambem ter confundido a data do vôo…Fui ver. Deu na cabeça centena e milhar: o vôo ia sair dali a duas horas…E eu ali, no hotel…Putaqueopariu…

Vou confessar: pertenço ao seleto grupo de pessoas que chega ao aeroporto 8 horas antes do vôo sair. Uma derrapada dessa so tinha acontecido uma vez antes na minha vida. Eu ia pra Budapeste, e ao chegar ao JFK a moça do balcão me disse que meu vôo tinha saído no dia anterior...Isso mesmo, Ontem da Silva Xavier…Senti o sangue descer cinammon abaixo. Tinha que viajar naquele dia, tinha compromisso, tinha que… E agora? Valei-me nossa senhora da imibiribeira…No desespero, recorri a toda sedução possível. Pra começar disse que vinha da Budapeste do Capibaribe… Segui com: Puskas dava de 10 a zero em Pelé…E arrematei com aquele poema que fala dos olhos da amada de Vinícius de Moraes….Tiro e queda….

Depois de infligir a minha própria mãe e a mim próprio palavras não tão doces quanto as que dediquei aquela saudosa comissária no JFK, respirei fundo e procurei me convencer que não estava preparado psicologicamente pra sair de Viena naquele momento. Liguei pro meu amigo Silvano Sozzani, com quem tinha marcado um café-da-manhã, e disse no meu italiano de google: "Sostiene le corna che ha dato una capra (sustenta as pontas que deu bode)".

Fiz as contas e vi que podia ficar mais tempo em Viena. Liguei pro hotel e pedi um dia mais. Deu certo. Loguei no site da companhia area e mudei meu vôo. Que alívio… Em seguida liguei pra Silvano e fomos tomar café. Ali sentado com Silvano, rindo da minha leseira, e satisfeito com as soluções, decidi matar sem piedade as sessões chatosas do congresso.

Bom, e o que fazer? Já conhecia Viena de outros carnavais (acho que o único lugar que não conheço lá até hoje é o apartamento do Dr. Freud, e ele deve explicar porque). Mas tinha um lugar que eu queria ir. Não, não era o museu de história natural (outra confissão: detesto museu de história natural. Devo ser o caso raro de biólogo que não gosta). Aliás tinha ido ao museu de história natural na noite anterior, não pra ver dinossauro, mas para um jantar oferecido pelo congresso. Depois do jantar, enquanto esperava na fila para ver a Venus de Willendorf, escutei um imunologista de alto coturno descascar sem piedade um concorrente (não tem jeito, no fim das contas somos todos humanos com espírito de porco. A merrequinha de espírito humano que tínhamos ficou no teto da capela Sistina).

E pra onde ir? Bom, o lugar que eu estava pensando em ir há um certo tempo era o museu do Instituto da história da medicina. Tinha lido que eles tinham uns modelos anatomicos em cera que eram espetaculares. Perguntei a Silvano se ele topava. Disse que as peças eram cópias de modelos que existiam em Florença. Ele topou.

Pegamos o bonde e paramos em frente a um edifício nada glamuroso, com uma austriaca de meia idade e inteira mau humor (pra imitar a sintaxe deles) na portaria. Andamos por uns corredores escuros e finalmente chegamos ao centro do museu. Companheiros, o lugar era tenebroso. Ali, dentro de umas caixas do mais refinado rosewood (não traduzo por pudor), com uns vidros de Murano, estavam modelos altamente perfeitos de seres humanos, dissecados, em total exposição. Era um madame Tussaud sem roupa. Eu nunca fui fã de anatomia morta. Lembro com horror os cadáveres cortados ao meio e o aroma (bota aroma) de formalina no primeiro ano de medicina. De modo que aquilo ali estava me dando o mesmo grau tesão que o dedo mindinho do T rex…Só que no meio do festival de horrores eu descubro um negócio espetacular…O anatomista tinha se dado ao trabalho de representar a anatomia do sistema linfático. Eu nunca tinha visto nada igual...Eu tenho uma quedinha pelo o sistema linfático, esse nosso primo pobre. Ele era, e continua sendo, um buraco negro na imunolgia. É fascinante ver que a gente sabe mais da piscineta da grampola da célula dendrítica do que como funciona o sistema linfático. E ali estava. Uma coisa gloriosa… Eu nunca tinha visto preparações tão perfeitas.

Fui atrás de como e que aquilo tinha sido feito. A história é a seguinte; em 1780, José Segundo, imperador da Austria, foi visitar seu irmão Leopoldo, grão-duque da Toscana (que boquinha…). Leopoldo levou o bruder pra dar um passeio no museu que ele tinha fundado, chamado La Specola, em Florença. José ficou de queixo caido com o que viu. Ali estava sendo exibida uma espetacular coleção anatomica em cera. José disse: quero uma também. José era o cara, Mozart e Beethoven trabalharam pra ele… Fez e desfez e conseguiu convencer o irmão a mandar fazer uma duplicata. Contratou uns experts em anatomia e um grande artesão chamado Clemente Susini. Esse cara era craque. O obituário dele registra que “ele dava beleza as coisas mais horrorosas”. Um Pitanguy-Tissaud, digamos...Quatro anos depois, quando os modelos ficaram prontos, José pediu um empréstimo ao BNDES, e mandou a Odebrecht transportar a coleção, primeiro de mula pelos Alpes, e depois de navio, pelo Danúbio, até Viena (a menção as gloriosas instituições tupiniquims é apropriada porque o butim do transporte foi das arábias).

Os modelos são fantásticos, vejam aqui.

Viram? Todas as vezes que voces escutarem esse blablablá de imunização, pensem nisso: pra resposta imune acontecer o antígeno tem que ser transportado, livre ou não, por esses vasos. Pensem que tem célula de tudo que é tipo dentro desses vasos, não só celula dendrítica, e que não existe uma ramificação única entrando e saindo em cada nódulo. Depois pensem que o que passa por um nódulo pode passar por outro, não vai direto pro ducto torácico. E fiquem bestas que ainda não sabemos nada sobre o que acontece nesse passeios pelos outros nódulos linfáticos. Que não sabemos nada do que acontece com as células T, as células dendríticas, as células B, depois da primeira noite. Será que se condicionam, dividem, regulam, quando passam pelos nodulos adjacentes? E pensem que estamos na era da pedra na biologia dos terminais linfáticos nos tecidos… E que tem espaco pra explorar essa biologia; que a imunologia não acaba em PAMP, Th17, quimiocina, Treg, e inflamasoma. E que ainda tem muita coisa pra voces descobrirem.

Bom, vamos acabar com essa conversa mole aqui....Tava indo tudo muito bem, eu satisfeito que tinha achado um assunto pro blog da SBI, etc, quando quase quase provoco uma tragédia. Resolvi tirar "aquela" foto perfeita e botei a camera em cima do vidro de um dos sarcófagos (pra não tremer). Me afastei com cara de Michelangelo e deixei a camera trabalhar...Silvano viu que o vidro estava abaulando e me deu o troco, gritando em pernambuques castiço: “Essa merda vai virar boné, tira essa merda daí…” Dei um salto e, mais rápido que deputado brasileiro, roubei a camera dali. Quase quase o vidro quebra, a camera espatifa o modelo, e eu paro no xilindró aus Wien. Mas dei sorte, não quebrou nada, tirei as fotos, e a estória acabou ali. E aqui.

Até a próxima!

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6 comentários:

  1. Sérgio, brilhante como sempre!

    Achei os modelos em cera realmente muito bem feitos, ainda mais pela 'idade' dos mesmos.

    Quanto ao desconhecimento sobre o sistema linfático, concordo com você... isso também sempre me intrigou.

    Dentro do meu modelo de estudo, tem uma pesquisadora escocesa que bolou um sistema genial para isso - ela implanta uma cânula em um dos ductos mais superficiais de ovinos e literalmente faz uma "drenagem linfática" dos animais... ela consegue manter o sistema intacto por até 01 mês, sendo possível acompanhar 'real time' as células que passam por ali, bem como os mediadores solúveis secretados! Quem dera conseguíssimos isso em nossos amigos murinos, não?

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  2. cristina bonorino7 de junho de 2011 11:27

    Esses dias falei pra Patricia Bozza - a gente sabe que o post é do Lira na primeira linha - não precisa scroll até o fim. Sérgio, vc sempre teve esse talento pra escrever? Amei!

    Lá no Jenkins tínhamos conversas intermináveis sobre o sistema linfático - ele estuda isso como algumas pessoas estudam a Guerra Civil Americana - então aproveitei. Sem dúvida, pra entender afinal de contas o que tá acontecendo neste bendito sistema, a gente tem que pensar mais nisso. O fundo cego dos vasos, o sistema de pequenas válvulas que drena dos tecidos... um mundo. Valeu.

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  3. Elyara FMRP-USP-IBA7 de junho de 2011 22:46

    Simplesmente sensacional!

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  4. Op pessoal, obrigado pelos comentarios.

    Meu lab tem feito alguma coisa em relacao ao sistema linfatico (linfangiogenese inflamatoria)
    Algumas referencias...

    Marinkovic T, Garin A, Yokota Y, Fu Y-X, Ruddle NH, Furtado GC, Lira SA. Interaction of mature CD3+CD4+ T cells with dendritic cells triggers the development of tertiary lymphoid structures in the thyroid. J Clin Invest 2006;116:2622-2632.

    Furtado GC, Marinkovic T, Martin AP, Garin A, Hoch B, Hubner W, Chen BK, Genden E, Skobe M, Lira SA. Lymphotoxin beta receptor signaling is required for inflammatory lymphangiogenesis in the thyroid. Proc Natl Acad Sci USA 2007;104:5026-5031.

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  5. kkkkkk... pense numa imunologia divertida contada pelo Profº Lira. Maravilhosos modelos fotografados. Post delicioso de ler, parabéns!!!

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  6. Caro Sergio,
    Sem dúvida seus textos são sempre divertidos e bem escritos, e este era mais um, mas quando fui ver o link p/as fotos: Noooossssaa!!!!!!!!

    Eu não fiz medicina, nunca vi um gânglio linfático humano (nem modelo de) e fiquei de "bocca aperta".
    Ainda bem q vc trocou a data do vôo.

    Obrigada !

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