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BRASILEIRA DE IMUNOLOGIA
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domingo, 24 de junho de 2012

Journal Club-IBA: O lado negro das células de Langerhans


Os tecidos epiteliais, incluindo a pele, estão situados em locais onde são constantemente expostos a diversas substâncias tóxicas presentes no ambiente. As células dendríticas residentes na pele surgem como vigilantes imunológicos e, em cooperação com as células de Langerhans (LCs) da epiderme, tem papel importante na ativação das reações imunológicas deste tecido.
Recentemente foram demonstrados novos papéis exercidos por estas células, sendo um deles essencial para regulação da hipersensibilidade de contato (CHS), uma resposta mediada por células T CD8+ e induzida por agentes químicos conhecidos como haptenos, que podem estar presentes em fragrâncias, metais, preservativos e drogas. Nesse sentido, Agüero e colaboradores (2012) utilizaram um modelo de indução de tolerância à haptenos para demonstrar in vivo que as LCs capturam haptenos “fracos” (DNTB), migram para o linfonodo e apresentam para linfócitos T CD8+ e T CD4+ Foxp3+ via MHC I e MHC II respectivamente, tendo a capacidade de suprimir a resposta citotóxica de células T CD8+ efetoras, tornando-as anérgicas, além de induzir a proliferação e ativação de células T reguladoras (aqui). Esta capacidade de tolerizar esta resposta imune é benéfica, pois protege contra a hipersensibilidade de contato.
As LCs também apresentam função inata, importante na remoção e processamento de impurezas presentes na epiderme. E, diante do conhecimento que hidrocarbonetos poliaromáticos (PAH) (agentes com potencial carcinogênico) estão presentes na atmosfera e há a possibilidade de contato da epiderme com tais compostos, foi feito um questionamento sobre quais seriam as consequências da captação de tais compostos pelas LCs, visto que em 2008, Strid e colaboradores observaram que camundongos sem células de Langerhans são resistentes ao carcinoma de pele induzido pelo PAH denominado 7,12-dimethylbenz[a]anthracene (DMBA) (aqui).
Com o objetivo de investigar porque camundongos desprovidos de células de Langerhans são resistentes ao carcinoma de pele induzido por DMBA, Modi e colaboradores (2012) descrevem um novo atributo das LCs, porém com consequências desfavoráveis ao hospedeiro, mostrando um lado “negro” destas células nunca antes visto (aqui).  Os autores descobriram que para que o câncer se desenvolvesse, este composto aromático deveria ser metabolizado pelas LCs e o produto gerado por elas (3,4-DMBA diol) seria captado pelos queratinócitos adjacentes, que por sua vez transformariam 3,4-DMBA diol em DMBADE, um metabólito genotóxico e oncogênico. Na ausência das LCs essa sequência de eventos metabólicos não é completa e a doença não se desenvolve. Elas estariam entregando ao “próximo”, algo que se processado é carcinogênico! Muy amiga, né?!
Diante destes novos conhecimentos sobre a biologia das LCs e suas funções, seja ela agindo como uma célula apresentadora de antígenos ou como processadora de compostos que podem derivar metabólitos ainda mais tóxicos, as possibilidades estão abertas para entendermos de forma cada vez mais surpreendente como elas atuam na saúde e na doença.
Post de Luiz Gustavo Gardinassi, Éverton Padilha e Rafael Prado

sábado, 23 de junho de 2012

O que é o baço?

Fonte: Revista Pesquisa Fapesp

O que é, o que é, por Ana Maria Caetano de Faria (UFMG).

 Vídeo, com participação especial do Momtchillo Russo (USP).


 

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Sonhando com o Pinguim


Post por Sérgio Lira


Sexta feira passada, estava com uma passagem New York-Hong Kong na mão. Primeira perna num roteiro mixto-quente (bota quente nisso) que incluía Singapura e Guangzhou, na China. Acordei com uma gripe federal e tentei mudar a passagem. Poder podia, mais ia me custar o olho da cara... Então, o que fazer? Viajar... Já tinha me prometido não fazer dessas bobagens. Uma vez viajei doente e fiquei muito mal. Estava em Amsterdam, acordei sem ar, procurei meus amigos e acabamos batendo numa farmácia, onde cabiam no máximo 5 pessoas. Enquanto aviávamos a receita entra Johann Cruyff, ele mesmo. Só que eu tava tão mal que nem reconheci, e se reconhecesse não ia adiantar nada. Podia ter entrado a Camila Pitanga (peraí, não exagere). Fiz uma viagem do cão e fui pra casa embalar uma bronquite asmática que só curou no corticoide. Jurei que nunca mais. Mesmo. Jurei mais que político.... Vocês verão aí embaixo que o sujeito aqui é insensato e meio. Se der algum bode comigo podem escrever na tumba: a carne era fraca, o miolo idem...

A salvação é que viajei por cortesia dos novos donos do mundo, como gente, não como gado. Mesmo assim o ar seco acabou com a minha graça e ao descer em Hong Kong, apesar de todos os desentupidores, pastilhas e tal, deu uma dor no ouvido de lascar....Pior: depois de 16 horas de voo, tossindo, com febre, descobri que minha conexão pra Singapura estava 6 horas atrasada. Ou seja,  26 horas de viagem, sem cuspe. Quem mandou?

Vim a Singapura para visitar a Singapore Immunology Network, onde trabalha minha querida amiga Maria Lafaille. Maria que estava naquela foto que postei aqui no blog, e sobre a qual estou escrevendo um artigo.  Maria é uma das pessoas que conheço que saíram dos Estados Unidos em função de melhores ofertas fora. Sim, isso existe. Acabou o tempo que os EUA eram o paraíso na terra. Aqui também trabalha Florent Ginhoux, star postdoc da minha colega Miriam Merad, que veio pra cá atraído por melhores condições de trabalho.

Encontrei com Maria, fomos almoçar num mall na frente do hotel. Tem mall de dar na canela. Fomos comer num thai e depois tomar sorvete de lichee com manga. Sim, o lugar é tropical.... Voltei pro hotel, e tentei dormi. Que nada... Gripe com jetlag, que inferno.  Como é que essa imunologia da gente não resolver um troço banal feito infecção por rinovírus?

No outro dia fui dar o talk.  A Biopolis, onde fica o SIgN, é um Weizmão. Tem muitos institutos, supermodernos. Singapura está fazendo um mega investimento em ciência. 3.5 % do GDP by 2015.  Uma cidade estado, um dos paises mais ricos do mundo. Porto, finanças, refinarias de petróleo, e agora jogatina. O lugar é supermoderno, não tem corrupção, e avaliado como o melhor lugar para fazer negócios no mundo. Mas apesar dessas maravilhas, tem, como a China, suas incongruências (embora não tão dramáticas).  Aqui por exemplo, o homossexualismo é contra lei.

Bom, voltemos. A imunologia foi estabelecida em 2006. É dirigida pela Paola Castagnoli, com quem conversei. Ela montou uma estrutura híbrida, quase uma biotech, com a missão de fazer imunologia humana. Com uma clara ambição de vender serviços, criar companhias. Tem claro, pesquisadores em camundongos, como Maria, que trabalha em asma. Olha, pro tempo de vida, o departamento esta muito bem. Varias pessoas publicando bem, a infra super bem montada. Do ponto de vista de equipamento, está melhor montada do que a gente no Sinai. Tem um nanostring e tem um CyTOF, muitos sorters, uma bioinformatica com 15 pessoas, e um grupo de techs calibrados. Pagam bem e parecem harmônicos, embora, suspeito que existam issues. Um dos issues é que os donos da bola, os sings, podem mudar as regras do jogo overnite. Fizeram isso com o instituto de genomica, um dos primeiros que montaram. Resultado: êxodo de varias rapaziadas. Os grupos são grandes (os seniors tem 10 pessoas, os júnior 5) embora Paola insista que esse numeros sao pequenos. Quase sugeri que ela desse um passeio nos labs americanos. Na terra de Barack, 10 pessoas já é sobrepeso. Maria me diz que o povo não trabalha duro. Viaja, vai pra Bali, Angkor Vat... Eu, se tivesse lá, também viajaria.... Aliás, com certeza não estaria lá.  Fugi do calor estoporento de Recife. Agora imagine esse dito calor, 86 horas longe de sua mãe, sem praia... Nem a pau. É, claro, no centro da Ásia, um mega hub. Tudo é luxo. As condições são espetaculares. Mas suspeito que os sings não estão atrás de estabelecer um polo de ciência. O game plan deles e treinar pessoas pro mercado de trabalho, criar companhias de biotech. Isso pessoalmente não me atrai, porque a estratégia é o negócio, em vez do conhecimento. Tô fora.  Embora existam poucos lugares pra trabalhar no momento que te ofereçam tantas condições assim, suspeito que a maioria das pessoas que vieram pra cá, vieram passar uma chuva (o que tem aqui em abundância, lembrem-se que Singapura está 134 km ao norte do Equador).

Dito e feito, tô indo embora, 68 horas depois que cheguei. Muito pouco tempo pra avaliar direito. E por cima, a gripe não ajudou. Mil obrigados a Maria pelo carinho, e por ter me convidado. Depois da China meu próximo destino é Ribeirão Preto. Depois de tanto calor, vamos ver se o Pinguim refresca....

quinta-feira, 21 de junho de 2012

OPORTUNIDADE


Postdoctoral Research Fellow or Research Associate – Cancer Epigenetics (2 Posts)
The Ontario Cancer Institute (OCI) at Princess Margaret Hospital - a teaching hospital of the University of Toronto - ranks in the top 5 cancer research centers in the world. Its research activities are concentrated on epigenomics, cancer immunotherapy, cancer stem cells, image-guided therapeutics, patient survivorship, and personalized medicine. The University of Toronto and its affiliated hospital research institutes comprise one of the largest and most productive centers of biomedical research in North America while the City of Toronto is ranked fourth in the Economist’s list of World’s Most Liveable Cities, and second in PriceWaterhouseCooper’s Cities of Opportunity in 2011.
For more information about the institute: http://www.uhntrainees.ca/
Computational Biology
A bioinformatics Postdoctoral Fellow or Research Associate position is available immediately within the group of Daniel D. De Carvalho, Ph.D. Our lab focuses on understanding the mechanisms driving cancer-specific epigenetic alterations, with the ultimate goal of allowing target-specific epigenetic interventions. To achieve this goal, we perform functional genomic screening, combined with systems biology and a variety of genome-wide profiling of epigenetic modifications, using next-generation sequencing (NGS) and microarray technologies. We are specifically seeking individuals with strong computational, bioinformatics, and/or statistical backgrounds to be involved in NGS data analysis. Applicants must be highly motivated and able to communicate effectively in English.
Molecular Biology/Immunology
A postdoctoral Fellow or Research Associate position is available immediately within the group of Daniel D. De Carvalho, Ph.D. We are seeking individuals with a solid background in Molecular biology and/or immunology to lead the investigation into the mechanisms of epigenetic therapy as a primer for cancer immune-therapy. Applicants must be familiar with some of the following techniques: quantitative qPCR, mammalian cell culture, cloning, RNAi, shRNA library, ChIP, western blot, flow cytometry and luminex. Applicants must be highly motivated and able to communicate effectively in English.
For more information about our work, prospective applicants are encouraged to refer to the following papers: Cancer Cell. 2012 May 25;21(5):655-67 (PMID: 22624715);
Cell. 2011 Dec 9;147(6):1283-94 (PMID: 22153073);
PNAS. 2011 Aug 30;108(35):14497-502 (PMID: 21844352);
PLoS Genet. 2011 Feb 3;7(2):e1001286 (PMID: 21304883);
Nat Biotechnol. 2010 Oct 13;28(10):1069- 1078 (PMID: 20944599); Oncogene. 2011 Jan 13;30(2):223-33 (PMID: 20838376).
Please send your curriculum vitae and the contact information for 3 references to Daniel D. De Carvalho, Ph.D. (ddecarv@uhnresearch.ca). 

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Leishmania chagasi naturalmente resistente ao óxido nítrico!!!


Recentemente nosso grupo demonstrou a existência de isolados de Leishmania chagasi naturalmente resistentes ao óxido nítrico (NO) [http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1089860312000614]. Os experimentos foram realizados com isolados de L. chagasi obtidos de pacientes humanos e de cães e revelaram que 60% dos isolados circulantes no estado de Sergipe apresentam resistência ao NO. Foi demonstrado também que isolados resistentes ao NO apresentam maior sobrevivência em macrófagos murinos, com aumento do percentual de macrófagos infectados e do número de amastigotas por macrófagos. Sabendo que o NO é um dos agentes leishmanicidas mais eficientes do macrófago, como se dará a regulação da infecção por isolados resistentes?! Quais seriam os mecanismos de resistência?! Proteínas?! NTPDases?! Lipídios?! E as consequências clínicas no curso da leishmaniose visceral?! São cenas para próximos capítulos!!! 
Como chamada destacamos que em 2007, Giudice e colaboradores [http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1810296/?tool=pmcentrez] já haviam demonstrado esse perfil de resistência em L. amazonensis e L. braziliensis com forte correlação com desenvolvimento da forma mucosa da doença em pacientes portadores desses isolados. Da mesma forma, a resistência ao óxido NO foi relacionada com a refratariedade ao tratamento. Na leishmaniose cutânea, isolados de L. braziliensis obtidos de pacientes refratários ao tratamento foram mais resistentes ao óxido nítrico do que isolados de pacientes responsivos ao tratamento (Souza et al., 2010) [http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2915995/?tool=pmcentrez].

É a grandeza dos pequenos que mais nos surpreende!  




Priscila Lima, Doutoranda

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O óxido nítrico (NO) ainda é capaz de oferecer grandes surpresas aos imunologistas e biologistas celulares!

Phileno Pinge Filho, UEL-Londrina-PR


A bactéria Listeria monocytogenes [(Lm), Gram + intracelular], causa infecções letais, apesar de induzir uma resposta imune inata fulminante. Essa reposta é dependente de MyD88, fator regulador de interferon-3 e do inflamassoma. Sabemos também que o controle da infecção por Lm é dependente da ação de neutrófilos, células NK e linfócitos TCD8+. Citocinas como IFN-g e TNF também são essenciais na defesa contra Listeria.

Sabemos que a estimulação de receptores do tipo Toll (TLR) ativa macrófagos para resistirem aos patógenos intracelulares. O trabalho de Caroline Cole e colaboradores (2012) mostra pela primeira vez que macrófagos ativados por TLR matam células Lm livres, mas falham em prevenir a infecção por propagação da Lm, porque a ativação dos macrófagos aumenta eficiência da disseminação da Lm a partir de uma célula doadora para um macrófago receptor. Os autores demonstram de maneira elegante que esse aumento requer a produção de óxido nítrico (NO) por meio da enzima óxido nítrico sintase induzível-2 (NOS2). NO também promoveu a propagação de Lm durante a infecção in vivo, confirmada por ensaios de inibição da NOS2 com 1400W que indicaram a redução na disseminação de Lm no fígado, mas não no baço de camundongos C57BL/6. A expressão menor da NOS2 no baço em relação a existente no fígado pode ser uma das explicações para essa diferença observada.

Christian Bogdan comenta o artigo de Cole e colaboradores na seção “Previews” do periódico “Immunity” de 25 de maio e chama nossa atenção para o impacto do NO sobre a propagação da Lm por meio da sua ação sobre a maturação de vacúolos secundários de macrófagos infectados.  E adianta a reflexão: 20 anos após a clonagem da NOS2, a pequena molécula inorgânica NO ainda é capaz de oferecer grandes surpresas não somente aos imunologistas como aos biologistas celulares.
Primary infection of macrophages with L. monocytogenes. After endocytosis extracellular bacteria end up in a primary, single membrane vacuole (PV). Listeria escape into the cytosol by the action of pore-forming listeriolysin O (LLO) and phospholipases A and B (not depicted). NO and superoxide (O2), generated by TLR- and/or IFN-g-induced Phox and NOS2, can impair the activity of LLO and phospholipases, which, however, might be rescued by the IFN-g-inducible thiolreductase (GILT). LLO itself was shown to inhibit the recruitment of Phox towards the phagosome (Lam et al., 2011). NOS2- and Phox-independent killing of Listeria can result from phagolysosome (PL) formation or other IFN-g-inducible mechanisms (e.g. activation of autophagosomes [AP]; recruitment of vesicles carrying guanylate-binding proteins [Gbps] that support the assembly of Phox). The actin-nucleating protein (ActA) allows a few Listeria to spread. Secondary infection of macrophages with L. monocytogenes. In the absence of exogenous stimuli Phox and cathepsin D contribute to the control of Listeria in secondary, double membrane vacuoles (SV; left). A few bacteria will escape. IFN-g alone triggers NO release, which inhibits the proton-pumping activity of V-ATPase and the formation of PL (middle). (NB: Whether or not NO inhibits V-ATPase also under primary infection conditions, has not been addressed). IFN-g prevents bacterial spreading in a NOS2-independent manner (e.g. via Gbps and activation of AP). Only few bacteria escape. Stimulation with LPS (±IFN-g) triggers NO release, which inhibits PL formation and V-ATPase activity (right). IFN-ginducible mechanisms (e.g. Gbps, AP) are postulated to be blocked by unknown TLR-dependent signals so that many Listeria will manage to spread.
Referências:
Cole C, Thomas S, Filak H, Henson PM, Lenz LL. Nitric Oxide Increases Susceptibility of Toll-like Receptor-Activated Macrophages to Spreading Listeria monocytogenes. Immunity. 2012 May 25;36(5):807-20.
Christian Bogdan. Listeria monocytogenes: No Spreading without NO. Immunity, Volume 36, Issue 5, 25 May 2012, Pages 697-699.




12-06-18-Muitos fazendo pouco  
Nelson Vaz  
Há vários anos insisto naquilo que considero um aspecto básico da conversão da fisiologia imunológica em patologia: uma perda da diversidade clonal (Vaz & Pordeus, 2005; Pordeus et al., 2009). Creio mesmo que precisamos atentar para a diversidade biológica em muitas áreas além da imunologia. Ameaças à “biodiversidade” são reconhecidas como graves danos ecológicos. No conjunto de estudos recentemente publicados sobre o “microbioma” humano há indicações de que perdas na diversidade microbiana do hospedeiro estão frequentemente associadas com patologias humanas. Quando certas populações microbianas se expandem em demasia surge a doença, mas germes potencialmente patogênicos podem co-existir harmonicamente com o organismo, desde que em equilíbrio com outros micróbios. O tratamento com antibióticos pode ser uma faca de dois gumes e gerar estados patológicos por alterar este equilíbrio entre populações microbianas muito diversas (Blaser, 2009). Na própria imunologia, aquilo que já foi chamado “linfopoiese por linfopenia” (ou “proliferação homeoastática”) é um exemplo similar, porque na regeneração linfóide, clones diferentes se expandem em ritmos diferentes. Um dos trabalhos mais interessantes que li nos últimos anos mudou meu entendimento sobre a natureza das substâncias que chamamos de “antibióticos”, usualmente considerados armas para o combate de micróbios. Na natureza, essas substâncias funcionam como elementos de interação entre populações microbianas diferentes. Cada linhagem bacteriana secreta simultaneamente dezenas destas substâncias em minúsculas quantidades e nunca foram encontradas em condições naturais as concentrações necessárias para seu uso terapêutico como “antibióticos”. Esta diversidade essencial ao viver é o que explica porque só é possível cultivar cerca de 1 % das espécies bacterianas em cultura pura e explica também porque sempre morriam as samambaias silvestres que meu velho pai insisita em trazer para seu jardim. Bactérias e fungos que vivem em “vida livre” no solo são, em seu conjunto, muito diferentes das bactérias e fungos que vivem suas “vidas livres” sobre as superfícies muco-cutâneas dos animais. (Mlot, 2009). Enfim, pode mesmo ser algo bem mais geral o fato de que “simplificações” de processos biológicos que são naturalmente diversos representem caminhos comuns para a desintegração de sistemas.  Muitos fazendo pouco parece ser a regra para a saúde sistêmica, a regra que é quebrada por poucos fazendo muito. É uma lástima que os imunologistas em sua diversidade, não atentem ainda para isso.
MLOT, C. 2009. Antibiotics in Nature: Beyond Biological Warfare. 
Nature, 324, 1637-1639.
PORDEUS, V., RAMOS, G. C., CARVALHO, C. R., BARBOSA DE CASTRO JR., A., CUNHA , A., P. & VAZ, N. M. 2009. Immunopathology and oligoclonal T cell expansions.Observations in immunodeficiency, infections, allergy and autoimmune diseases. Current Trends in Immunology, 10, 21-29.
VAZ, N. & PORDEUS, V. 2005. Visiting Immunology (tambem em portugues: Visita Imunologia). Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 85, 350-362.
BLASER, M. 2011. Stop the killing of beneficial bacteria. 
Nature, 476, 392-394.
AYRES, J. S., TRINIDAD, N. J. & VANCE, R. E. 2012. Lethal inflammasome activation by a multidrug-resistant pathobiont upon antibiotic disruption of the microbiota. Nature Medicine 18, 799–806 (2012) doi:10.1038/nm.2729, 18, 799-806.

domingo, 17 de junho de 2012

Um novo papel das Células Dendríticas Plasmocitóides


Como sabemos, o timo é o responsável pela maturação das células T. Este processo envolve sucessivas seleções positiva e negativa, com a finalidade de gerar células T funcionais, porém não reativas a antígenos próprios ou inócuos. Na medula tímica, células epiteliais medulares (mTEC), sob controle do fator de transcrição AIRE, expressam antígenos teciduais específicos sendo responsáveis pela deleção de clones auto reativos ou geração de células T regulatórias naturais. No entanto, as mTECs não apresentam todos os antígenos próprios presentes nos tecidos, sendo necessário mecanismos adicionais para o controle de clones auto-reativos potenciais. Historicamente, os primeiros relatos de células com morfologia de plasmócitos em zonas de células T datam de 1958, no entanto somente em 1999 foi feito a caracterização inequívoca dessas células como Células Dendríticas Plasmocitóides (pDCs), cuja função conhecida até então era a rápida e maciça produção de IFNs do tipo 1 após sinalização via Toll 7 e 9.

Em novembro de 2008 Husein Hadeiba et al. demonstraram um novo papel para as pDCs: elas possuem papel importante no mecanismo de tolerância periférica. Esta característica está restrita às células que expressam o CCR9, presentes nos linfonodos e baço, as quais possuem um fenótipo imaturo (quase não expressam MHC-II e moléculas co-estimulatórias). Uma vez ativada por ligantes de TLR7 e TLR9, a pDC imatura perde a expressão do CCR9 e passa a expressar MHC-II, CD80 e CD40, bem como produzir IFN-a e TNF. Em experimentos in vitro, as pDCS CCR9+ se mostraram capazes de inibir a proliferação de células singênicas oriundas de linfonodo. Em experimentos de co-cultura destas pDCS com linfócitos T CD4 alogênicos, houve inibição da proliferação dos mesmos, bem como diferenciação de Tregs na cultura, que, quando co-cultivadas com linfócitos T CD4 singênicos, também diminuem significativamente a sua proliferação. As pDCs que não expressam CCR9 não são capazes de exercer esta atividade. No modelo de GVHD (graft versus host disease), a administração das pDCs imaturas inibe a mortalidade de animais que recebem medulas alogênicas e a produção de IL-17 por linfócitos T CD4 efetores, assim como promove a diferenciação de Tregs nos linfonodos dos receptores.

 Em Março desse ano, o mesmo grupo de autores demonstraram que, além de promoverem tolerância periférica, as pDCs são capazes de capturar antígenos inócuos em tecidos periféricos e levá-los para o timo, apresentá-los e depletar células T específicas. Essa migração é dependente da quimioatração via CCL25-CCR9, e, de maneira interessante, os autores observaram que quando há estímulo via TLR9, mimetizando uma situação de infecção, as pDCs perdem a expressão de CCR9 e, consequentemente, a capacidade de migrar para o timo, algo bastante interessante, visto que ninguém quer tolerizar células T que sejam patógeno específicas, né?
 

  (1)    Hadeiba H, Sato T, Habtezion A, Oderup C, Pan J, Butcher EC. CCR9 expression defines tolerogenic plasmacytoid dendritic cells able to suppress acute graft-versus-host disease. Nat Immunol 2008 Nov;9(11):1253-60.
  (2)    Hadeiba H, Lahl K, Edalati A, et al. Plasmacytoid dendritic cells transport peripheral antigens to the thymus to promote central tolerance. Immunity 2012 Mar 23;36(3):438-50.

  

Post de Eduardo Crosara, Jaqueline Raymondi e Manuela Sales

sábado, 16 de junho de 2012

Como construir instituições de ensino, pesquisa e extensão bem sucedidas?


O Jornal da TV Cultura está promovendo esta semana uma série de reportagens especiais sobre os 100 anos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP).

A primeira reportagem foi ao ar nesta segunda-feira, dia 11/06/2012, e abordou de forma bastante interessante o contexto histórico e as condições sob as quais a faculdade foi fundada e se desenvolveu. Além disso, o telejornal entrevistou e convidou para discussão o atual vice-diretor da FM-USP, José Otávio Costa Auler Júnior, que destacou a importância que o empenho dos fundadores e os acordos estabelecidos com a Fundação Rockefeller tiveram para impulsionar o crescimento da FM-USP e torná-la a grande referência que é atualmente. A discussão trouxe à tona ainda alguns problemas, como a expansão do ensino superior no Brasil, por exemplo.

O ano de 2012 marca também os 60 anos da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP). O empenho e a determinação de uma geração de pesquisadores pioneiros alavancaram e transformaram um projeto de lei em uma empreitada bem sucedida. Em seu belo texto, que apresenta nossa faculdade e a contextualiza historicamente, a Profª.Drª. Maria Augusta de Sant'Ana Moraes destaca os propósitos inovadores (ensino, pesquisa e prestação de serviços), além de um olhar voltado para as expectativas da indústria para com a faculdade, sob os quais a FMRP-USP foi fundada e que a norteiam até hoje.  À época, esses requisitos atendiam também aos padrões exigidos pela Fundação Rockefeller. Vale destacar que além de implantar a FMRP-USP, o Prof. Dr. Zeferino Vaz, seu primeiro diretor, ainda ajudou a fundar a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A FMRP-USP, com seus alunos, docentes, hospitais, certamente contribuiu para moldar a Ribeirão Preto que 60 anos depois da implantação da Faculdade é uma cidade transformada.

Analisando as histórias destas faculdades, fica claro que o sucesso do ensino e da pesquisa e a tradução desses em melhoria da saúde pública estão essencialmente sob nossa responsabilidade. Atuando na academia ou junto a órgãos políticos, administrativos ou agências de fomento, determinaremos com nosso ânimo, dedicação e ousadia a continuidade e fundação de instituições das quais possamos nos orgulhar. Assim, cabe aqui perguntar: em que patamar gostaríamos de encontrar o ensino, a pesquisa e o sistema de saúde no Brasil em 2112? Que tal começar hoje, corrigindo o que nos parece imperfeito e traçando como será o futuro?

Notas:

1. A reportagem sobre a FM-USP pode ser assistida na página do Jornal da Cultura (segundo bloco da edição de 11/06/12). Creio que as reportagens que estão por vir serão igualmente interessantes.

2. O site da FMUSP também traz um vídeo institucional comemorativo que vale a pena ser visto.


Post de Rodrigo F Rodrigues.
Pós-doutorando FMRP/Iba - USP

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Célula B novamente! Agora como célula fagocítica.


                                             Cancro. Journal of Leukocyte Biology, 2012, Apr;91(4):519-21.


              O linfócito B tem sido tema de alguns posts publicados aqui no Blog e, além de seus papéis clássicos e os novos já publicados aqui no Blog, agora um comentário cujo título é “Phagocytic B cells: déjà vu all over again?” [JLB, aqui] aborda uma nova e interessante função que essas células são capazes de exercer: a fagocitose.

  Já havia fortes indícios que as células B poderiam ter uma capacidade fagocítica, uma vez que as células B conseguem internalizar antígenos solúveis por pinocitose ou endocitose mediadas por receptores de complemento, imunoglobulinas e FcRs. Além disso, a presença de células B IgM+ com capacidade fagocitária já foi descrita em répteis, anfíbios e peixes [clique aqui; aqui], porém até o momento, isso não tinha sido provado em mamíferos.

             Neste comentário o autor aborda dois trabalhos publicados nesta mesma edição, os quais mostram a capacidade fagocitária e microbicida entre diferentes subpopulações de células B em camundongo. Parra e col. [JLB 2012, aqui] mostram que são as células B1-B da cavidade peritoneal que são capazes de fagocitar, enquanto que Nakashima e col. [JLB 2012, aqui] observam proporções similares de células fagocitárias entre as células B1-B no fígado, células B2-B e células B MZ (do inglês, MZ- marginal zone) do baço.

             O fato é que os trabalhos mostram que células B têm a capacidade de fagocitar beads de látex e bactéria, além de apresentar capacidade microbicida através da formação do fagolissosoma. Além disso, estas células B fagocíticas, assim como as células B convencionais, conseguem apresentar antígenos para células T e podem secretar anticorpos. Assim, esses trabalhos em conjunto com outros recentemente publicados (aqui) mostram que as células B não são apenas APCs, produtoras de citocinas e secretoras de anticorpos, mas também podem agir como fagócitos, eliminando os patógenos fagocitados.


Essa célula realmente têm mil e uma utilidades!!!



Post de Gustavo Rocha Garcia – FMRP/Iba.
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