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BRASILEIRA DE IMUNOLOGIA
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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Opostos - complementares e antagonismos no Sistema Imune

Em fisiologia, diz-se que músculos são ”antagônicos” quando exercem funções complementares. A contração balanceada e simultânea do biceps e do triceps é necessária para o tonus muscular do braço humano. Antagonismo e oposição dão lugar à complementaridade, algo diferente que surge em outro domínio: um oxímoro, uma oposição compreensível em um outro contexto (Oxímoro é um termo composto das palavras gregas oxy (afiado, esperto) e moron (grosso, estúpido) para designar expressões dúbias como “silêncio eloquente” ou “equivocadamente correto”. Na França, existe o ditado: “Quanto mais muda, mais fica a mesma coisa”.)
        Niels Bohr, o grande físico nuclear do século vinte, criou para si mesmo o brazão onde está escrito: “Contraria Sunt Complementa” - os opostos se complementam. Conta-se que Bohr exultava quando encontrava um paradoxo e dizia: “Agora podemos progredir”; o progresso consistia em abandonar os termos em conflito em favor de um outro entendimento.
O termo “biodiversidade” trás em si mesmo esta contradição dos opostos-complementares. Sugere que o viver é diverso, mas exatamente com isto, prestigia a integridade, a indivisibilidade do viver. Remova uma só linhagem de uma comunidade de seres vivos - e a comunidade se altera e pode mesmo desabar por inteiro. A biodiversidade se refere exatamente a unidade do viver.
Meu último estudante de doutorado, Archimedes Castro Junior, propôs e demonstrou experimentalmente que não há diferenças essenciais nas dinâmicas celulares das duas manifestações opostas da atividade imunológica. A memória imunológica, que condiciona respostas imunes progressivamente mais intensas a cada contato com o antígeno, e a tolerância imunológica, que inibe estas respostas, exibem dinâmicas celulares praticamente idênticas quando visualizadas em um contexto mais abrangente. Os contrários se complementam, também na imunologia.(Castro-Junior, A. B., B. C. Horta, et al. (2012). "Oral Tolerance correlates with high levels of lymphocyte activity." Cellular Immunology 280: 171-181.)
Por várias décadas, propus que as diversas formas de imunopatologia - as reações alérgicas e autoimunes, assim como formas graves de doenças infecciosas - podem ter uma explicação comum. Uma explicação que tem a ver com a perda da biodiversidade/integridade linfocitária, algo que no jargão imunológico se conhece por “expansões oligoclonais”. Todo o meu esforço durante estes anos se resume a uma afirmação banal: a atividade imunológica depende do conjunto de linfócitos, de sua diversidade/integridade, e quando este conjunto se simplifica em demasia, ele se desconjunta. Esta é a fonte da imunopatologia. Uma explicação banal, com consequências nada banais.
A diversidade clonal 
A diversidade clonal é a característica mais representativa dos linfócitos, não apenas por sua pluralidade, mas também e principalmente, pela forma como ela é gerada. Os diversos linfócitos emergem em um estado “de repouso” nos órgãos linfóides primários na total ausência de contato com os ligantes eventualmente capazes de ativá-los. Surgem sem que tenham um “alvo” definido para os “receptores” que acabaram de inventar, dos quais cada qual exibe cerca de cem mil cópias em sua membrana. Este fato é consensualmente admitido pelos imunologistas. 
A ideia foi proposta pela primeira vez por Niels Jerne, em 1955, em sua teoria seletiva, depois transformada por Burnet na teoria de seleção clonal. Seguramente, esta é a ideia mais importante da imunologia mas, como é uma ideia contra-intuitiva, ela sempre escapa aos não-especialistas e também talvez escape aos especialistas mais apressados. A formação inicial dos anticorpos precede e é independente do contato com os antígenos. Os antígenos apenas expandem ou limitam a atividade de linfócitos pré-existentes. É fundamental ter isto em mente.
Esta aparente falta de direcionamento dos linfócitos quando emergem no corpo é um oxímoro porque, longe de ser a ausência de um “norte” ou de um “oriente”, ela não significa desnorteamento ou desorientação. Siginifica o seu oposto, pois possibilita a integração de células que ostentam estas moléculas recém-inventadas na comunidade celular já existente no organismo. O “norte” ou o “oriente” ao qual os linfócitos recém-inventados se destinam, é o próprio organismo ao qual eles pertencem.
Epigênese
Esta é a ideia mais importante da imunologia exatamente porque ela se refere ao organismo, ainda que desta forma antagônica/oposta cujo sentido literal parece absurdo. Os linfócitos que não encontram seus “alvos” se desintegram por apoptose, em algumas horas ou dias, deixam de se integrar ao organismo. Mas, como nos versos de Brecht, “tudo muda/ mas o que acontece fica acontecido/ a água que pões no vinho/ não podes mais separar”. O que acontece fica acontecido e possibilita o que pode acontecer depois - um processo que se conhece como “epigênese”. A geração da diversidade linfocitária e suas consequências constituem um processo epigenético. 
A epigênese dos linfócitos se sobrepõe à genética, se desenrola como um processo somático de geração de diversidade que traz em si mesmo a busca de cada célula por um destino que é o organismo. Este direcionamento dos linfócitos é apenas parte dos processos que modificam e conservam continuamente o organismo. Um contínuo ensaio no qual o organismo arrisca sua integridade para recuperá-la pouco depois nas células que são ativadas pelo encontro de seus parceiros celulares.
A meu ver, e lamentavelmente, a imunologia atual ainda está distante de uma visão integradora com este feitio epigenético. A despeito de tarefas formidáveis, como as desempenhadas por equipes lideradas por Antonio Coutinho sobre a atividade imunológica natural, ou de Irun Cohen sobre o homúnculo imunológico, os imunologistas, em geral, ainda pensam em termos de “respostas imunes específicas” - e pensam na “tolerância” como seu inverso. Este é um grave equívoco. Nosso entendimento difere do de Coutinho e do de Cohen em vários pontos, pincipalmente na importância que atribuímos à “tolerância oral” e a ideias de Maturana (Biologia da Cognição), mas isto é de menor importância comparado a aquilo no que concordamos.
Três enigmas e uma solução banal
Em meio século de trabalho experimental em imunologia (1963-2013) encontrei três enigmas, que vou descrever muito brevemente, para mostrar que eles podem ser resolvidos por esta visão antagônica/integradora da atividade imunológica que acabo de descrever. Cronologicamente, a chamada “tolerância oral” foi o segundo enigma que encontrei em minha carreira. O primeiro enigma eu encontrei ao investigar a síntese de IgE em camundongos, e o terceiro tem a ver com padrões de reatividade em imunoglobulinas naturais. Começo pelo meio e terminarei incompleto. A solução que tenho a lhes oferecer é a integridade do organismo, meramente um esboço.
A “tolerância oral” 
A “tolerância” imunológica, meu segundo enigma, não é uma inibição da atividade imunológica, como usualmente entendida, embora realmente seja o oposto a “memória imunológica”. A tolerância é o inverso da reatividade progressiva que se imagina ocorrer, por exemplo, na vacinação anti-infecciosa, mas não significa inatividade ou inibição. Muito ao contrário, ela representa uma atividade mais sofisticada, integradora. E, como veremos, robustamente estabilizadora.
O estudo da “tolerância oral” nos permitiu atingir esta conclusão porque, ao contrário, da “tolerância natural”, que se estabelece naturalmente e encontramos já pronta no organismo, podemos desencadear  a “tolerância oral” a uma proteína purificada com data e hora marcadas; basta dá-la de comer (ou beber) ao organismo.
Atentamos para o fato de que nenhuma “tolerância” é absoluta, pois resta sempre uma reatividade residual. O organismo tolerante ainda reage ao antígeno tolerado, embora significativamente menos. Constatamos experimentalmente que esta reatividade residual é robustamente estável e não aumenta, nem diminui, mesmo frente a repetidas imunizações com o antígeno específico em adjuvantes. A “tolerância oral” cria uma “imunidade sem memória” que insiste em permanecer como está.
Esta “estabilização” da reatividade específica é um fenômeno novo na imunologia, pois não corresponde nem à “memória” imunológica (a reatividade não é progressiva, é o inverso disso, é estável), mas, ainda assim, está presente, não pode ser ignorada (não é “tolerância” no sentido de inibição). Seu sentido é a conservação, a estabilidade.(Verdolin, B. A., S. M. Ficker, et al. (2001). "Stabilization of serum antibody responses triggered by initial mucosal contact with the antigen independently of oral tolerance induction." Braz. J. Biol. Med. Res. 34(2): 211-219.) 
Consequências teóricas
Para nós, encontrar esta “estabilização levou a conclusões teóricas importantes e nos abriu uma ampla janela experimental.  Deduzimos que tal “estabilização” que demonstramos na “tolerância oral”, ocorre também na “tolerância natural”, burnetiana; que a discriminação self/nonself, afinal, é um pseudo-problema pois há auto-anticorpos e linfócitos T reativos com auto-componentes em todos os organismos sadios. Não há clones proibidos, mas estes linfócitos auto-reativos não estão envolvidos em “respostas imunes”, sua reatividade não é progressiva: está dinamicamente estabilizada - como na tolerância oral. 
Há níveis, patamares, degraus de reatividade robustamente estabilizados no organismo. As respostas imunes progressivas não são as unidades das quais se compõe a atividade imune normal: elas são a base da imunopatologia. A fisiologia da atividade imune é conservadora, é aquilo que se conserva em meio à mudança.(Vaz, N. M., G. C. Ramos, et al. (2006). "The conservative physiology of the immune system. A non-metaphoric approach to immunological activity." Clin Dev Immunol 13(2-4): 133-142.) 
Consequências experimentais
Experimentalmente, a configuração destes “estados estáveis” nos reservava uma grande surpresa: o organismo resiste a tentativas de romper esta estabilidade. Tentativas de imunizar animais tolerantes com o antígeno tolerado desencadeiam processos anti-inflamatórios potentes capazes de inibir uma ampla variedade de fenômenos imunológicos, como descrito no amplo trabalho de Cláudia Carvalho e colaboradores. 
Por exemplo, a injeção de uma pequena dose (10 µg) de ovoalbumina em animais tornados “tolerantes” pela ingestão prévia de ovoalbumina, é capaz de inibir: a) a formação de anticorpos para antígenos não relacionados; b) reações de hipersensibilidade tardia a estes antígenos: c) a formação de granulomas peri-ovulares na esquistossomose; d) reações graft-versus-host; e) a deposição de colágeno e a formação de cicatrizes em feridas incisionais e excisionais; f) a implantação de embriões no útero murino; além de inibir diretamente a inflamação desencadeada por uma injeção de carragenina (ver Curriculo Lattes de Claudia Carvalho).
Cláudia e colaboradores têm dados iniciais que mostram a mobilização de hormônios e neuropeptídeos anti-inflamatórios nas tentativas de imunizar animais tolerantes com o antígeno tolerado em adjuvantes. Mas creio que, no momento, uma apreciação da natureza deste fenômeno é mais importante do que a enumeração de seus detalhes celulares e moleculares. As tentativas de imunização tendem a desencadear expansões oligoclonais, que são aspectos da patologia do organismo e existem múltiplos mecanismos destinados a preservar a operação do organismo sem as manifestações inflamatórias que estas expansões oligoclonais desencadeiam.
A síntese de IgE
  Voltando aos anos 1970, o primeiro enigma com que me deparei está no método que inventamos para induzir uma síntese intensa e prolongada de IgE em camundongos: a injeção intermitente (a cada mês) de pequenas doses (0.1-1.0 µg) de antígenos potentes em animais geneticamente predispostos (alto-respondedores) a responder a esses antígenos. (Estes experimentos  contribuíram para a caracterização dos chamados genes-Ir ligados ao MHC, que foram importantes na caracterização do processamento e apresentação de peptídeos a linfócitos T). O enigma está em que doses mais elevadas do mesmo antígeno induzem apenas uma síntese transitória de IgE que não aumenta em imunizações subsequentes. Por que doses pequenas podem fazer o que doses mais elevadas não fazem?
A explicação que propus na época invocava células T supressoras, que hoje chamaríamos de reguladoras. Propus que tais células só seriam ativadas por doses mais elevadas de antígeno e que a imunização com baixas doses burla, por assim dizer, a regulação, e a IgE pode ser formada de forma progressiva. Hoje, acredito em outra explicação, que supõe uma associação entre a produção de IgE e expansões oligoclonais. Apenas animais alto-respondedores possuiriam os raros clones capazes de reagir às doses minúsculas de antígeno e são estes clones que entram em expansões oligoclonais. Há uma abundante coleção de observações na literatura que associa a síntese de IgE a expansões oligoclonais. Estas expansões são observadas em estados alérgicos e doenças autoimunes, formas graves de doencas infecciosas e parasitárias e em alguns estados de imunodeficiência congênita, como a síndrome de Omenn. 
Não tenho aqui o espaço para discutir esta associação entre a IgE e a oligoclonalidade. Posso apenas dizer que se trata de outro oxímoro: o processo inflamatório, em geral, tende a inibir sua própria geração; a inflamação gerada pela oligoclonalidade tende a ativar outros clones, a reduzir a própria oligoclonalidade e, portanto, interrompe a inflamação. Dentro da operação articulada do organismo, a própria inflamação inibe a inflamação. A “função” da IgE é inibir a produção da IgE. Um cículo virtuoso, como muitos outros no viver.
Padrões de reatividade em imunoglobulinas naturais
O terceiro enigma com que me deparei, estava no tema mais recente que investigamos, e já havia perdido muito de seu carácter enigmático. Que houvesse padrões de reatividade em imunoglobulinas naturais nos parecia quase obrigatório e o que nos propusemos a mostrar foi que em doenças parasitárias ocorreriam variações não aleatórias nestes padrões, que seriam característicos das “formas clínicas” destas infeccões. 
Mostramos que isso ocorre na malária humana, na leishmaniose murina e na esquistossomose mansônica em humanos e em camundongos. Em todas estas situações, mostramos, como prevíramos, a ocorrência de variações nos padrões de reatividade das IgG naturalmente formadas com extratos de Escherichia coli, portanto, manifestações não dirigidas diretamente aos antígenos parasitários. 
Assim como no caso da síntese de IgE, minha explicação pressupõe uma associação entre expansões oligoclonais e estas variações não aleatórias nos padrões de reatividade em imunoglobulinas naturais.
        Como funcionam as vacinas anti-infecciosas
Para encerrar, quero sugerir um mecanismo alternativo para a eficácia de vacinas anti-infecciosas que difere da crença tradicional.  Leigos e especialistas acreditam que a vacinação cria uma “memória” imunológica específica, que possibilita respostas imunes mais rápidas, intensas e duradouras. Eu penso diferente: penso que a “memória” imunológica talvez explique a imunopatologia, explica como adoecemos, mas não explica como nos mantemos sadios.
Qual a base da variabilidade individual na suscetibilidade a doenças infecciosas? Apoiado por muitos dados na literatura atual, creio que os indivíduos que desenvolvem os sintomas mais graves são exatamente aqueles que desenvolvem expansões oligoclonais. As vacinas podem proteger estes indivíduos porque aumentam a diversidade de suas respostas clonais, portanto, podem evitar as expansões oligoclonais. A proteção conferida pela vacinação, portanto, não depende da memória imunológica. Apesar de também presente, a memória imunológica está mais relacionada à imunopatologia que à imunoproteção. A proteção depende de um aumento da diversidade clonal, diversidade que os indivíduos naturalmente mais resistentes à infecção já possuem sem serem vacinados.
Coda
A vantagem desta explicação é propor um mecanismo “sistêmico” e epigenético para a imunopatologia e para a imunoproteção. Se a atividade imunológica é mesmo “sistêmica”, se ela depende de uma “sistema imune” entendido como um conjunto de linfócitos e produtos linfocitários, um conjunto que opera harmonicamente, integrado e produz ciclos de atividade, então, a imunopatologia, em todas as suas formas, representa um “desconjuntamento”, a perda parcial ou temporária desta harmonia e integração.  Em termos celulares, este deconjuntamento se expressa pela presença de expansões oligoclonais.
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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Combinação de marcadores para selecionar Tr1



Enquanto as células T reguladoras naturais possuem marcadores considerados relativamente estáveis como o FOXP3 e alta expressão de CD25, as células T reguladoras induzidas são um pouco mais difíceis de serem identificadas, já que existem dúvidas sobre a estabilidade dos seus marcadores. Uma atenção especial deve ser dada para as células conhecidas como Tr1, pois elas são tidas como carentes de um bom marcador. O principal marcador da Tr1 é a capacidade de produzir IL-10. Isto não quer dizer muita coisa, já encontrar um linfócito produzindo IL-10 parece ser tão fácil quanto encontrar parlamentar corrupto. Ou seja, pode até parecer que este ou aquele não faz nada, mas se procurar direito e esperar um tempinho, a coisa aparece. Em maio deste ano, uma das mães da TR1 finalmente encontrou uma forma de identificar o filho sem rosto. O grupo da Dra Roncarolo mostrou que células CD4+ reguladoras de camundongos ou humanos podem ser separadas pela a combinação dos marcadores LAG3 e CD49. Esta combinação foi capaz de selecionar uma população celular que produz grande quantidade de IL-10 e que possui uma grande capacidade de inibir células efetoras. Estas características estavam presentes em células obtidas de sangue periférico de doadores sadios, células obtidas de animais com colite e células de animais infectados com Nippostrongylus brasiliensis. Além disto, em cultura de células humanas polarizadas para Treg (com IL-10) foi demonstrado que a combinação destes marcadores selecionou uma pequena população daquelas com um maior potencial regulador. Assim, embora a combinação destes marcadores não selecione todas as iTregs (e provavelmente nem todas as Tr1), estes serviram para selecionar Tr1 com alta eficiência.

Gagliani N, Magnani CF, Huber S, Gianolini ME, Pala M, Licona-Limon P, Guo B, Herbert DR, Bulfone A, Trentini F, Di Serio C, Bacchetta R, Andreani M, Brockmann L, Gregori S, Flavell RA, and Roncarolo MG 2013. Coexpression of CD49b and LAG-3 identifies human and mouse T regulatory type 1 cells. Nat Med 19: 739-746

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Disfunção de células dendríticas na malária humana é parcialmente causada pela IL-10

É reconhecido por todos nos imunologistas e malariologistas que tanto a regulação quanto a função da resposta imune desencadeada na malária é complexa e pouco entendida. Um aspecto intrigante e ainda não elucidado é o fato de que a reinfecção  em indivíduos expostos ao agente causador da malária não induz proteção completa contra o parasito. Existiria portanto, um tipo celular, em particular, que apresente suas funções prejudicadas em função da infecção? Ou mais de um tipo celular ficaria fora de sintonia durante a tentativa de se montar  uma resposta protetora efetiva? Eu particularmente acredito na segunda opção.
Nesse sentido, foi publicado recentemente no Journal of Experimental Medicine, que  células dendríticas podem ser um desses tipos celulares, que ao sofrerem influência da infecção pelo plasmódio, não conseguem exercer suas funções adequadamente. Esse fenômeno traz sérias consequências, uma vez que as células dendríticas desempenham função central iniciando a resposta imune através da apresentação de antígenos para células da imunidade adaptativa, por exemplo. O estudo mostra diminuição de células dendríticas na periferia e acúmulo de células imaturas. Paralelamente, foi demonstrado que células dendríticas, nessas condições, estão mais propensas a sofrerem apoptose e são menos capazes de capturarem e apresentarem antígenos às células T. Além disso, os autores demonstraram que altos níveis de IL-10 participam da indução da apoptose das células dendríticas nos pacientes avaliados. Assim, com o bloqueio de IL-10, as células dendríticas são resgatadas do processo de apoptose.
Achei interessante os resultados encontrados nesse estudo, e intrigante o papel que a IL-10 desempenha sobre as células dendríticas. Os altos níveis de IL-10 durante a malária humana sempre me chamaram a atenção e ainda acredito que seu papel pode ser benéfico e exercido com o intuito de modular os altos níveis de citocinas inflamatórias observados durante a infecção, causadores dos sintomas da malária. Nosso desafio é entender melhor como regular a produção dessa citocina que sabemos ser fundamental durante a resposta imune contra a maioria dos patógenos que conhecemos.


Como disse o ex-colaborador do nosso blog, Bruno Andrade: “Bom ver um paper somente com dado humano no JEM”. Achei o artigo muito bom e parabéns aos autores por ter conseguido a atenção do JEM. Não só para os que fazem imunologia humana, uma publicação assim é um super reconhecimento!

Referência: Kenangalem E, Engwerda C, López JA, Anstey NM, Good MF. Apoptosis and dysfunction of blood dendritic cells in patients with falciparum and vivax malaria.

J Exp Med. 2013 Jul 29;210(8):1635-46. doi: 10.1084/jem.20121972.

domingo, 8 de setembro de 2013

JOURNAL CLUB – IBA: ESOFAGITE EOSINOFÍLICA: DESVENDANDO NOVOS MECANISMOS DE ALERGIA


        Toda vez que pensamos em alergias mediadas por células Th2, logo inferimos aquela clássica sequência de eventos: ativação de células dendríticas, polarização de resposta Th2, produção de IgE, sensibilização de mastócitos, ativação de eosinófilos e liberação de mediadores, como histamina. Mas nem sempre um processo alérgico mediado por resposta Th2 conta com esta mesma sequência de eventos. Um trabalho do grupo liderado pelo Dr David Artis publicado na Nature Medicine demonstrou que os mecanismos imunológicos envolvidos com a patogênese e a progressão da esofagite eosinofílica (EoE) não são comuns a todas as alergias conhecidas. A EoE é uma doença alérgica, de origem alimentar que atinge principalmente crianças (4/100.000) e é caracterizada pelo intenso infiltrado eosinofílico no esôfago. Além disso, pacientes com EoE apresentam aumento da expressão gênica para citocina TSLP (Thymic stromal lymphopoietin) no esôfago e parte deles possuem polimorfismo de ganho de função no gene desta citocina. A TSLP já foi discutida neste blog e você pode acessar o link: http://blogdasbi.blogspot.com.br/2011/10/journal-club-iba-tslp-regulando.html .

Nesse estudo foi observado que animais sensibilizados com alérgeno pela via cutânea apresentavam intensa liberação local de TSLP, e este evento foi associado ao desenvolvimento da EoE, visto que animais TSLPR-/- não desenvolveram a doença. Sabendo-se que a TSLP é importante para diferenciação e proliferação de basófilos, foi demonstrado que estas células participam da patogênese da EoE, onde animais depletados de basófilos não desenvolveram a doença. Também foi avaliado a participação da IgE no desenvolvimento da EoE. De maneira supreendente, animais deficientes para a cadeia pesada de IgE continuaram apresentando a inflamação alérgica, demonstrando que a patogênese da EoE independe de IgE.
Interessante que pacientes com EoE ativa (> 15 eosinófilos/campo histológico), apresentam um intenso infiltrado basofílico no esôfago, reforçando a importância desta célula para patogênese da doença. Ainda, pacientes que possuiam pelo menos 1 alelo polimórfico de ganho de função no gene de TSLP apresentavam aumento de basófilos sistemicamente. Desta forma, o eixo TSLP-basofilo também participa da patogênese de EoE em humanos.
Seria então o eixo TSLP-basófilo um potencial alvo terapêutico para o tratamento da EoE? Para responder tal questão, animais já com a doença estabelecida foram tratados com anti-TSLP ou com anti-CD200R3 (anticorpo que depleta basófilos). Ambos os tratamentos reverteram os parâmetros imunolopatológicos e clínicos encontrados na EoE, representando uma nova estratégia para o tratamento da doença.
Em indivíduos que carregam o polimorfismo para o TSLPrisk, a exposição a antígenos nas barreiras epiteliais leva a um aumento na expressão de TSLP (5) associado com basofilia periférica induzida pelo TSLP (6), que em conjunto aumentam a probabilidade de, mas não são necessários para , o desenvolvimento da EoE (7). Ainda não se sabe se na EoE este polimorfismo e a basofilia periférica promovem o acúmulo de eosinófilos e basófilos no esôfago.


Referências
Spergel JM. Eosinophilic esophagitis in adults and children: evidence for a food allergy component in many patients. Curr Opin Allergy Clin Immunol. 2007 Jun;7(3):274-8.
Noti M, Wojno ED, Kim BS, et al. Thymic stromal lymphopoietin-elicited basophil responses promote eosinophilic esophagitis. Nat Med. 2013 Aug;19(8):1005-13
Siracusa MC, Wojno ED, Artis D. Functional heterogeneity in the basophil cell lineage. Adv Immunol. 2012;115:141-59.
Liu YJ. Thymic stromal lymphopoietin: master switch for allergic inflammation. J Exp Med. 2006 Feb 20;203(2):269-73.

Post de Juliana Kawahisa e Paulo Henrique Melo 




quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Concurso Prof. Imunologia - UnB

Caros colegas,

Estão abertas as inscrições para o concurso para Prof. Adjunto na área da Imunologia da Universidade de Brasília - Campus FCE. Quem tiver interesse pode se inscrever até o dia 27 de setembro.

Seguem abaixo algumas informações:

O edital 161/2013 da Fundação Universidade de Brasília (FUB) divulgou que está disponível uma vaga para o cargo de professor com título de doutor na área de Ciências Biológicas: Imunologia, Parasitologia e Microbiologia, para atuar em jornadas de trabalho de Dedicação Exclusiva. 


  • Área: Ciências Biológicas: Imunologia, Parasitologia e Microbiologia;
  • Requisito Básico: Graduação em Ciências Biológicas ou áreas afins e Doutorado em Ciências Biológicas ou áreas afins.
  • Vaga: 01
  • Remuneração: R$ 8.049,77

http://dgp.unb.br/concursos/docente-2013/category/8647-161



quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Mea Culpa Retractions




Recentemente uma resenha publicada na The Scientist (Kerry Grens, agosto 30, 2013) aborda um tema cada vez mais polêmico - a maneira como são vistos os cientistas que tem seus artigos retratados. 

Veja o link:
http://www.the-scientist.com/?articles.view/articleNo/37317/title/Mea-Culpa-Retractions/

Neste caso o artigo começa com 
"Researchers earn applause after recalling two papers containing misinterpreted findings."

Cada caso é um caso !!! O erro está em generalizar !!!! 

Entretanto, independente da opinião vale a pena a reflexão: O que seria de Rutherford-Bohr, Einstein e Planck sem a teoria atômica de Thomson? 

PS: No modelo proposto por Joseph John Thomson o átomo era composto de elétrons embebidos numa sopa de carga positiva, como passas em um pudim. 

Abraço Josi

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Memória no osso!

Uma das minhas aulas preferidas no congresso de Milão foi a do Dr. Andreas Radbruch, do Deutsches Rheuma-Forschungszentrum – Berlin.  Ele iniciou lembrando de casos de sobreviventes de epidemias de gripe na Europa que mesmo após 90 anos mantinham a produção de anticorpos específicos contra a cepa de influenza da exposição inicial. Curiosamente, esta memória de longa duração não era acompanhada da detecção de células T específicas na periferia.  Em seguida, Radbruch apresentou uma série de dados obtidos em humanos e camundongos que sugerem que enquanto células T CD4+ de memória gradualmente desaparecem na periferia, elas permanecem estáveis na medula óssea. Este pool de linfócitos de memória seria mantido próximo aos plasmócitos, mas por um tipo diferente de células estromais que proveria um nicho de sobrevivência. Desafiando o paradigma de recall de uma resposta secundária comum, estas células residentes na medula não proliferam.  Elas também expressam níveis altos de CD69, o que as torna irresponsivas ao gradiente de esfingosina-1 fosfato que normalmente promove a recirculação.  Curiosamente, células T CD8+ de memória residentes expressando altos níveis de CD69 também foram encontradas na medula óssea. Resta esclarecer se (e como) estas células de memória sozinhas seriam capazes de conferir proteção.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Everything you always wanted to know about Scientific Publishing * But were afraid to ask.


A vida dá voltas. Esta semana faz um mês que deixei a bancada e os experimentos para trás e iniciei uma nova jornada.  Meu ambiente de trabalho é agora um escritório. Meu ofício requer somente um computador, um telefone e uma paciência imensa para lidar com egos, frustrações, concorrência e conflitos.  Vida de editor (ao contrário do que as pessoas imaginam) não é fácil.

Enquanto cientista, eu (e todo mundo que eu conheço e com quem já trabalhei) tinha meus preconceitos com editores e o mercado editorial em geral. Especialmente nas grandes revistas, onde a concorrência para publicação é enorme e o índice de aceitação de artigos é muito baixo.  Compreensível. O editor está linha de frente. É ele quem redige e envia as temidas cartas de rejeição. Obviamente, ninguém gosta de ter seu trabalho rejeitado. Logo, o editor leva a fama de mau.

Benjamin Lewin, fundador da Cell (que depois se tornou Cell Press) era amado pela comunidade científica e idolatrado como modelo do editor que em primeiro lugar é um excepcional cientista. Reza a lenda que Ben Lewin nunca rejeitou um paper sequer. O resto da equipe mandava as cartas de rejeição e ele (e somente ele) mandava as cartas de aceite. Muito esperto.

Ben Lewin 

A Cell (e demais revistas da Cell Press) segue ainda hoje o modelo estabelecido por Ben Lewin, que é ter uma equipe de editores que em primeiro lugar é formada por ótimos cientistas. Em segundo lugar, que é multidisciplinar. E por último (e mais importante), que toma decisões editoriais em equipe, o que a meu ver é um modelo mais justo e equilibrado, se comparado a outras revistas onde um único editor é responsável por uma área inteira do conhecimento.

É interessante também observar como muitos dos preconceitos em relação à publicação editorial não tem fundamento.  Comentários como: ‘meu paper foi rejeitado e nem sequer foi lido’ ou ‘não tenho a menor chance de publicar na Cell porque sou de um laboratório que não é famoso’ ou aquela história de que ‘fulano ou sicrano ligou para editor e tudo foi resolvido’.

Em 1 mês, acredite, já rejeitei muitos papers. Todos foram lidos (inclusive os que não tem potencial para ser aceitos nem na revista do Cebolinha). Com uma média de 15-20 novos artigos submetidos todos os dias, nunca vi ninguém tomar uma decisão editorial baseada no fato de que o artigo veio deste ou daquele laboratório. E sim, é verdade que o fulano e o sicrano muitas vezes querem falar diretamente com o corpo editorial. Longe de ser um problema, isso é encarado como algo normal a ser estimulado. É importante que haja um canal aberto entre editores e autores – não importa de onde eles sejam. Esse é um hábito que ainda não existe no Brasil. É importante que os editores de revistas relevantes estejam antenados e informados a respeito do que está acontecendo de interessante no país. Que frequentem os congressos nacionais e internacionais que estão acontecendo por aí. É importante que os editores saibam de onde a produção científica brasileira de qualidade está vindo.

Um editor empolgado com o seu paper vai fazer tudo que estiver ao alcance dele/dela para ver aquele trabalho publicado. Só não se esqueça que o editor é um mediador. Embora ele seja responsável pela decisão final, ele levará em consideração a opinião dos especialistas na área – os revisores. Aí é que o negócio fica mais complicado. Cientistas são seres humanos e portanto nem sempre isentos no julgamento do trabalho alheio. Nessas horas, o papel do editor é ainda mais fundamental, ao determinar o que é uma solicitação razoável, o que é um comentário justo, o que é um julgamento que no fundo tem outras intenções. Não é tarefa simples.


Joao Monteiro
Editor Científico 
Cell


PS: Nos próximos posts, vou escrever um pouquinho a respeito de diversos aspectos do mercado editorial, como escrever uma ‘Cover letter’, como ler uma carta de rejeição, a importância do ‘abstract’, ‘Open Access’ e os diversos modelos editoriais, ‘Peer-review’, etc.  Check it out!

domingo, 1 de setembro de 2013

JOURNAL CLUB – IBA: CÉLULAS T REGULADORAS E ÁCIDOS GRAXOS DE CADEIA CURTA: MANTENDO A PAZ NO INTESTINO



Smith e colaboradores (2013) publicaram um trabalho muito elegante na conceituada Science e defenderam uma nova explicação para a geração de tolerância à microbiota intestinal. Os autores propuseram que produtos derivados da alimentação, metabolizados por bactérias comensais, seriam responsáveis pela homeostasia no intestino diretamente por induzirem expansão e aumento da capacidade supressora de células T reguladoras (Tregs) colônicas.
Tais produtos são obtidos a partir da fermentação de polissacarídeos no cólon, compostos por 1-6 carbonos em sua estrutura e chamados de ácidos graxos de cadeia curta (short-chain fatty acids, SCFAs). Os SCFAs possuem receptores em células do sistema imune (GPR43, codificado pelo gene Ffar2), com propriedades anti-inflamatórias já descritas em macrófagos e células dendríticas.
De maneira simples, clara e direta, os autores demonstraram que a ingestão de SCFAs é capaz de aumentar a frequência e número de células T reguladoras produtoras de IL-10 presentes no cólon intestinal. Como esperado, essa geração foi dependente de GPR43, que inibe a expressão de enzimas envolvidas com controle epigenético, as histonas desacetilases (HDCAs). A acetilação de histonas é relacionada com o relaxamento da cromatina e maior exposição do DNA à ligação de fatores de transcrição. De fato, o tratamento in vitro de Tregs com SCFAs inibiu a expressão de duas desacetilases: a  HDCA6 e a HDCA9, anteriormente relacionadas com a função supressora dessas células, que realmente relacionou-se com a maior acetilação das histonas. Por fim, células T reguladoras tratadas com SCFAs expandiram melhor e foram mais eficientes na proteção em modelo experimental de colite. Tal proteção não foi observada na deficiência específica de GPR43 nas Tregs.
Dessa forma, a nova moda microbiota/sistema imune ganha novos “apetrechos”: os metabólitos derivados das bactérias comensais. Microbiota intestinal e metabólitos poderão ser utilizados como futuros moduladores terapêuticos no tratamento e prevenção de doenças inflamatórias, em especial as do trato gastrointestinal.
 Post de Denise Sayuri e Kalil Alves de Lima

 Referências:



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