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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Infecções prévias com vírus heterólogos alteram a resposta individual à vacinação

Autor: Dinler Antunes, pós-doutorando no Departamento de Ciências da Computação da Rice University, no Texas/EUA.


Figura 1.: Rede de reatividade cruzada envolvendo o alvo vacinal HCV-NS31073Similaridade estrutural no contexto do MHC foi indicada como possível mecanismo para o desencadeamento de imunidade heteróloga, enquanto variabilidade individual e direcionalidade nas respostas observadas foram atribuídas ao histórico de infecções e o repertório privado de linfócitos T (Zhang e cols., 2015).


  A influência de infecções prévias sobre a resposta a novos desafios imunológicos não é nenhuma novidade para os imunologistas. O processo de imunização altera a composição do conjunto de linfócitos de memória de modo que algumas populações são expandidas, em detrimento de outras (Welsh & Selin, 2002). A imunidade heteróloga entre vírus parece ter um papel central neste contexto, sendo por sua vez moldada pelo repertório privado (individual) de linfócitos T CD8+ e por eventos de reatividade cruzada no reconhecimento de complexos peptideo:MHC (Welsh e cols., 2010). 
 Apesar de estes mecanismos serem reconhecidos, ainda nos surpreende quando respostas específicas para determinado alvo viral são encontradas em indivíduos que não tiveram exposição prévia a este patógeno. Pode uma simples gripe ou uma virose transmitida pelo beijo gerar algum nível de imunidade contra o Vírus da Hepatite C (HCV), por exemplo? Por mais incrível que pareça, eventos desta natureza já foram relatados em trabalhos prévios (Wedemeyer e cols., 2001), sendo provavelmente mais frequentes do que imaginávamos (Selin e cols., 2011). Em um trabalho recentemente publicado no Journal of VirologyZhang e colaboradores (2015) descrevem a presença de linfócitos específicos para um alvo imunogênico de HCV (NS31073) em um terço dos indivíduos soronegativos para para este vírus, independente de fatores de risco para exposição a HCV. Análises ex vivo indicaram a presença tanto de células virgens quanto de células de memória, sugerindo que pelo menos uma parcela da resposta deve ser mediada por linfócitos originalmente expandidos na presença de vírus heterólogos (Figura 1).
  Uma análise de bioinformática estrutural (utilizando metodologia previamente descrita no SBlogI) sugeriu diferentes epitopos virais (derivados de EBV, CMV e Influenza) como possíveis alvos de reatividade cruzada, predições estas confirmadas em pelo menos uma parcela dos indivíduos. Cabe salientar que um destes alvos, EBV-LMP2329 (LLWTLVVLL), não apresenta qualquer similaridade de sequência com o epitopo HCV-NS31073 (CINGVCWTV), mas apresenta grande similaridade estrutural no contexto do MHC (Figura 2).

Figura 2.: Recorte da superfície dos complexos peptídeo:MHC, apresentando diferentes peptídeos virais no contexto da mesma molécula de MHC (HLA-A*02:01). Os domínios alfa-1 e alfa-2 da molécula de MHC, que flanqueiam o epitopo, são indicados. As cores indicam a distribuição do potencial eletrostático na superfície (vermelho = negativo, azul = positivo, branco = neutro). Neste conjunto, os alvos EBV-K1217 e EBV-BARF0356 apresentaram maior diferença em termos de potencial eletrostático (comparação utilizando agrupamento hierárquico). Alvos apresentando maior similaridade estrutural com o peptídeo vacinal de HCV (NS31073), considerando a superfície de interação com o TCR, foram selecionados para testes in vitro e respostas cruzada foram observadas em uma parcela dos indivíduos testados.

  O epitopo HCV-NS31073  foi previamente incluído na composição de uma vacina experimental anti-HCV, a qual foi utilizada por Zhang e colaboradores (2015) para imunizar indivíduos saudáveis. Acompanhando este grupo vacinado, os autores observaram resposta mais intensa e mais rápida nos indivíduos que apresentavam linfócitos específicos para HCV-NS31073 previamente a vacinação. Em conjunto, estes dados reforçam a hipótese de que a existência de células T "cross-reativas" previamente a imunização seja uma das variáveis responsáveis pela variabilidade individual à vacinação. A reatividade cruzada de células T parece ser mais comum do que previamente estimado, sendo possível até mesmo entre epitopos com baixa similaridade de sequência e podendo envolver diferentes alvos virais. Em conjunto com a variabilidade individual para a produção de linfócitos T (repertório privado), o histórico de infecções aumenta a variabilidade individual da resposta a vacinas e aponta para a necessidade de estratégias personalizadas. Outra questão importante se refere a "qualidade" desta resposta cruzada e a capacidade de estabelecer uma imunidade protetora, visto que respostas cruzadas fracas podem mediar infecção crônica e imunopatologia (Selin e cols., 2011Wlodarczyk e cols., 2013).
  Embora vacinas personalizadas e avaliações em larga-escala do histórico pessoal de infecções virais ainda não sejam uma realidade, novas tecnologias estão sendo desenvolvidas neste sentido. Uma publicação recente da revista Science descreve uma nova abordagem - rápida e barata - para detectar o histórico de infecções virais de um indivíduo (veja artigo do The Guardian). Metodologias como esta podem ter grande impacto no diagnóstico de doenças, na descoberta de novas associações entre infecções virais e a progressão de diferentes patologias humanas, bem como no desenvolvimento de vacinas mais seguras e mais eficientes. 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Citometria de Fluxo: Lições do Mestre Howard Shapiro

                          Dr. Howard Shapiro durante conferência para celebrar os 25 Anos de Citometria de Fluxo no Brasil,
                                   Instituto Oswaldo Cruz, RJ, 26/11/2014. Foto: Andréa Teixeira - Arquivo pessoal.

Em evento realizado durante essa semana e organizado pelo pesquisador Álvaro Luiz Bertho da Fundação Oswaldo Cruz, o Instituto Oswaldo Cruz (IOC) reuniu pesquisadores, estudantes e especialistas de diversas regiões do Brasil, para celebrar os 25 anos da Citometria de Fluxo no Brasil, relembrando a implantação do primeiro citômetro de fluxo no país, recebido no IOC em 1989. Durante o evento, a conferência magna foi realizada pelo Dr. Howard Shapiro com o tema Growing Up and Growing Old in Cytometry, onde discorreu sobre o desenvolvimento, avanços e contribuições da citometria de fluxo para a pesquisa científica.

O Dr. Shapiro, que é autor do livro “Protocols in Flow Cytometry”, referência para os estudos na área, é atualmente pesquisador do Beth Israel Hospital em Boston e diretor do Center for Microbial Cytometry de West Newton nos EUA. Durante sua conferência o pesquisador destacou a importância de termos citômetros de fluxos mais simples e baratos para aplicações como contagem de linfócitos T CD4+ no diagnóstico e monitoramento do paciente HIV+, para testes de drogas para malária e tuberculose com aplicabilidade em países da África, por exemplo, onde a citometria feita com esse conceito poderia ter um impacto maior em termos de saúde pública global. Seguindo esse propósito, o grupo liderado por ele vem nos últimos anos se dedicando ao desenvolvimento de novos instrumentos, que possam no futuro facilitar o diagnóstico de doenças infecciosas, seu tratamento e o desenvolvimento de novas drogas.

Dr. Shapiro falou ainda sobre sua vasta experiência em Citometria, a aplicabilidade da técnica para o diagnóstico de malária e sobre o conceito de astronomia celular. Durante sua conferência, ele afirmou que para encontrar respostas em citometria é preciso começar pelas informações básicas sobre o tema. Disse ainda que existe uma preocupação muito grande com equipamentos, mas a essência da citometria está nas células. “Atualmente, é possível coletar mais dados do que precisamos. Quando se tem tantas informações pode ser difícil separar o que é importante do que não é”, destacou o pesquisador. Ele defende a criação de citômetros mais simples e com custo menor. Com isso, a tecnologia teria um alcance maior e poderia trazer uma contribuição mais efetiva para populações residentes em países com recursos financeiros escassos.

Referências
- Shapiro HM: “Cellular Astronomy” – a foreseeable future in cytometry. Cytometry. 2004; 60A:115-124.
- Shapiro HM, Perlmutter NG: Personal Cytometers: Slow Flow or No Flow? Cytometry. 2006; 69A:620-630.
- Shapiro H, Mandy F: Cytometry in malaria: Moving beyond Giemsa. Cytometry Part A. 2007;  71A:643-645.
- Janossy G, Shapiro H: Overview: Simplified cytometry for routine monitoring of infectious diseases. Cytometry B Clin Cytom. 2008; 74 Suppl 1:S6-S10.
- Shapiro HM, Perlmutter NG: Killer applications: toward affordable rapid cell-based diagnostics for malaria and tuberculosis. Cytometry B Clin Cytom. 2008; 74 Suppl 1:S152-S164.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Padronizando a imunofenotipagem de células humanas


Uma revisão publicada na Nature Review Immunology deste mês destaca a importância de se padronizar reagentes e protocolos entre os cientistas que usam citometria de fluxo para estudar células do sistema imune humano. Os dados gerados por diferentes laboratórios precisam ser comparáveis, o que hoje em dia não acontece por conta das inúmeras fontes de variabilidade da técnica, defendem os autores.

The heterogeneity in the healthy human immune system, and the immunological changes that portend various diseases, have been only partially described. Their comprehensive elucidation has been termed the 'Human Immunology Project'. The accurate measurement of variations in the human immune system requires precise and standardized assays to distinguish true biological changes from technical artefacts. Thus, to be successful, the Human Immunology Project will require standardized assays for immunophenotyping humans in health and disease. A major tool in this effort is flow cytometry, which remains highly variable with regard to sample handling, reagents, instrument setup and data analysis. In this Review, we outline the current state of standardization of flow cytometry assays and summarize the steps that are required to enable the Human Immunology Project.

Para quem já trabalha com citometria de fluxo, a revisão pode parecer básica, mas há informações úteis como os coquetéis padronizados de anticorpos para estudos de células T, B, NK, DC, monócitos, assim como marcadores de ativação. Os autores contam também um pouco da história do Human Immunology Project, uma analogia ao Projeto Genoma Humano, cuja ideia foi lançada em 2008 (aqui).

Fica a dica!
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