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terça-feira, 16 de abril de 2013

Porque os estudantes acham que aprender imunologia é tão difícil?


Post da Prof. Lilia Maria Carneiro Câmara

REFLEXÕES SOBRE O PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM DA IMUNOLOGIA NOS DIAS ATUAIS

Porque os estudantes acham que aprender imunologia é tão difícil?

Esta questão tem me perseguido nos últimos 22 anos, quando comecei a ensinar na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará. Já recebi diversas respostas de alunos e professores, sendo a mais comum “- a característica abstrata dos conceitos imunológicos que confere uma carga de subjetividade e incerteza que incomoda!”, associada à eterna reconstrução dos conceitos a partir da avalanche de trabalhos que a literatura "vomita" todos os meses, cujo acesso é quase em tempo real.
Na verdade foram aquelas características o que mais me atraiu ao estudar imunologia no curso de graduação. Em 1982, minha maior preocupação era comprar o livro mais novo que fosse lançado. Foi quando tive o prazer de ler a 4ª, e última, edição do livro dos quatro grandes (Bier, Mota, Dias da Silva e Vaz). Como o tempo de acesso às informações atualizadas podia variar de 2 a 6 meses (tempo do correio Fortaleza – Bireme - Fortaleza), éramos mais livres para experimentações e longas conversas sobre o eterno “e se” da Imunologia. Podíamos utilizar sem culpa o famoso Hai-Kai do Millôr: Livre pensar é só pensar. Enquanto para mim a Imunologia era misteriosa e fascinante, os colegas reduziam-na como a causa idiopática das doenças, portanto não deveríamos “gastar” tempo tentando entendê-la.
Como professora, após alguns anos mesclando aulas teóricas com atividades de grupo onde discutíamos os experimentos clássicos, ou com seminários sobre le denier cri de la mode no mundo científico imunológico, fui apresentada à metodologia de aprendizagem baseada em problemas (ABP/PBL). Pelo caráter multidisciplinar, voltada para a prática profissional, abraçamos a metodologia, cujo centro é o estudo de um problema no grupo tutorial. A grande crítica à época, e que vigora até hoje, é o caráter "reducionista" da metodologia. Como meus alunos de graduação são futuros médicos, enfermeiros, odontólogos, fisioterapeutas e farmacêuticos, e a probabilidade de surgir um imunologista no seio desta plêiade é baixíssima, achei a metodologia mais do que oportuna. No entanto, sentindo falta de um aprofundamento teórico imunológico de algumas questões, foram criados espaços, de 2 horas, na semana dos semestres em que lecionamos imunologia, nos quais passamos a fazer estudos orientados com temas como: mecanismos de ativação linfocitária, funções biológicas do complemento, etc. Sempre abordando pontos específicos associados a questões do cotidiano profissional do aluno.
Outro ponto de preocupação é que os “conteúdos” da imunologia contidos nos problemas, abordados nos grupos tutoriais da ABP/PBL, estão obviamente associados às outras áreas do conhecimento, como patologia, microbiologia, parasitologia, farmacologia, epidemiologia, ética, e na hora de debater o que foi estudado, o aluno prefere se aprofundar nos conteúdos das áreas onde ele encontra "solidez", nas quais ele pode ver a lâmina com o tecido lesionado ou com o microorganismo, ou observar o cadáver, ou medir o efeito de uma droga!
- "Mas o livro de imunologia é chato!" Foram inúmeras as vezes que ouvi esta frase! Durante certo tempo pensei até em escrever um livro, tipo: “Ensino de Imunologia no contexto da Aprendizagem baseada em problemas”. Quem sabe "facilitando" que o aluno achasse os conceitos imunológicos necessários a resolução do problema, o mesmo se interessaria em se aprofundar nas questões imunológicas. Mas desisti, porque creio piamente que para aprender imunologia o indivíduo tem que ser curioso, tem que querer entender como os fenômenos imunológicos ocorrem, e a ABP/PBL, se bem aplicada, estimula essas características. Além do mais, para a geração Y, que daqui a pouco será a Z, o conhecimento estará literalmente à mão (tablets, smartphones e assemelhados).
No entanto, nem toda a tecnologia do mundo é capaz de ensinar nada se o aprendiz não se sentir encantado, cativado. E quando isto ocorre, não existem barreiras tecnológicas, nem "falta de base", que o impeçam de buscar, ou mesmo de criar, as respostas, ou levantar outros questionamentos. Há alguns anos, minha maior preocupação ao me deparar com o ensino da imunologia, seja qual for a estratégia educacional, é como enfeitiçar meus alunos, tanto da graduação como da pós-graduação. Ainda não consegui produzir o "pó de pilim plipim" que faz o aluno voar, mas listo abaixo alguns dos ingredientes que tenho testado continuamente:

ü  Conhecer o cotidiano profissional atual em que o aluno será inserido (graduação) ou está inserido (pós-graduação);
ü  Conhecer a estrutura do curso: matriz curricular, disciplinas/módulos que ele está cursando;
ü  Definir objetivos de aprendizagem que incluam a capacidade do aluno em sintetizar ou de aprimorar conceitos/ações, pois esses objetivos deverão estar atrelados a estratégias de aprendizagem onde o aluno é o centro da ação. Pois quem deverá desenvolver aquelas qualidades é o aluno e não o professor.
ü  Fazer um contínuo feedback das estratégias utilizadas. Sempre questionar se os objetivos propostos foram atingidos e quais os pontos a melhorar.
ü  Pactuar desde o primeiro encontro com os alunos (aula teórica, aula prática, GT, etc) "de onde viemos, o que somos, e para onde vamos". Transparência é a palavra de ordem.
ü  Nunca tratar o aluno como um vaso vazio pronto para você enchê-lo com sua sapiência.
ü  Esteja aberto para outras interpretações, porque o olhar "fresquinho" e antenado dos "anjinhos" (como um colega os chama) pode lhe surpreender.


Antes de mais nada e acima de tudo: O velho e querido "bom senso", que é claro se fortalece com o passar dos anos.

Fortaleza, 01 de abril de 2013

Lilia Maria Carneiro Câmara
Profa Associada de Imunologia
da Faculdade de Medicina da UFC

P.S.: Agradeço a colaboração da Prof. Lilia Câmara para SBlogI. Prof. Edson H Teixeira


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14 comentários:

  1. Assim que vi o título, corri pra ler a postagem!
    Eu havia reparado isso na turma da disciplina Imuno... Achava que era desinteresse mesmo do jovem, mas lendo o post, percebi que é mais complexo que isso... Eu já gostei de Imunologia logo de cara, explicava tanta coisa, fazia umas terem sentido e outras virarem um bicho de sete cabeças, mas a curiosidade em saber mais sobre aquele universo era maior.

    Muito Bom!! =)

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  2. Gostei desse post também. Pouco abordado, mas super importante uma vez que é necessário passar o que aprendemos. O conceito não divulgado é inválido. Vale ressaltar que só existe comunicação quando há entendimento. Nesse contexto é importante tentar divulgar a Imunologia da maneira mais simples e didática possível para chamar a atenção e cativar os alunos. Não tenho experiência como educadora, mas tenho como aluna. A Imunologia também pra mim é fascinante e me chamou atenção logo de cara. Enfim é um tema complexo....

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  3. Esse post me chamou muito a atenção. Fui aquele aluno que aprendia com facilidade os conceitos de imuno enquanto que a maioria da turma reclamava da dificuldade em se aprendê-la.
    Acho que a causa é realmente a abstralidade dos conceitos, exigindo muito do cognitivo e, até mesmo, da imaginação.
    Ou, ainda, pode ser questão de afinidade. Por quê não?
    Quando "reduzimos" os níveis da aula, perdemos informações preciosas.

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    1. Muito imortante esse ponto: Não se pode reduzir os níveis da aula. E bem lembrado pode ser apenas uma questão de afinidade.....

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    2. Cara GK
      A ênfase não é no volume do conteudo, mas na nossa capacidade de cativar o aluno para a aprendizagem, pois as informações são muitas e disponíveis, o difícil é despertar no alino o querer buscá-las, lê-las, entendê-las e saber utilizá-las. O aluno só poderá desenvolver essas atitudes na aprendizagem da Imunologia, se nós, educadores, criarmos oportunidades em sala de aula e fora dela, para que elas apareçam. A preocupação é na escolha da estratégia, mais do que na quantidade do conteúdo.

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    3. concordo professora,e uma duvida a parte minha é se realmente é necessario grandes conhecimentos em fisica,matematica e quimica pra estudar imunologia,visto que nao tenho interesse em matematica e fisica mas tenho muita curiosidade em bacteriolgia e a imunologia esta ganhando seu lugar nos meus olhos e sei tambem que é fundamental.algo relativo a biologia sempre será um doce independente de qual grande ele seja ou possa parecer,excelente post professora.

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  4. Prezada Lilian,

    parabéns pelo post. Hoje sou professora e concordo com você em vários aspectos, mas acima de tudo quanto à nossa preocupação em despertar o interesse do aluno. Sou uma apaixonada pela imunologia e despertar o interesse da turma neste assunto é um prazer diário.

    Karina Alves de Toledo

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  5. Gabriel Shimizu Bassi18 de abril de 2013 15:11

    Eu acho que dá prá ter uma comparação do ensino de Imunologia com o de Neurociências durante a graduação.

    Percebo que o problema principal é a intimidade com que o aluno recém ingressante tem sobre a Imunologia. Por exemplo, aos que fizeram cursinho pré-vestibular, não temos, nem que seja superficialmente, a apresentação do sistema Imune. Em relação a Neurociências, já se tem um pouco de noção desde os nossos livros básicos de biologia que lemos durante o colegial. Há uma aproximação da materia ao aluno.

    Além disso, a midia bombardeia com as poucas notícias (quando mal apresentadas) sobre, especificamente, o encéfalo. Quem nunca viu um programa do Dráuzio Varela, da Suzana Herculano-Rousel ou do Miguel Nicolelis explicando, especificamente, como o sistema nervoso funciona em programas televisivos populares? Eu NUNCA vi uma reportagem bem feita explicando o funcionamento do sistema imune.

    Agora imaginemos aqueles alunos que entram no curso de ciências biológicas. Já há um imprinting sobre as Neurociências. Pelo menos eu vi (e vejo) aqui entre os alunos de graduação da Faculdade de Medicina. Há uma preferencia muito maior por matérias as quais foram expostos e tem maior familiaridade (como Neurociências, Cardiologia, Metabolismo, etc). Pergunte a um aluno recém-ingressado a diferença funcional entre um neurônio e um linfócito. Perceba a qualidade da resposta

    NÃO É O LIVRO DE IMUNOLOGIA QUE É CHATO (pq o livro de Neuro é tão maçante quando o de Imuno), é a falta de exposição. Antes mesmo de chegarem a faculdade. Se queremos criar bons imunologistas (e bons entendedores), precisamos expor essa imunologia não somente aqueles privilegiados que recém ingressaram no curso superior, mas antes, muito antes. Expor isso aos seus pais, familiares e ambiente.

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    1. Interessantíssima sua colocação, Gabriel! A falta de divulgação do nosso objeto de estudo dificulta o acesso à informação e desejo de aprender dos alunos.
      Mas, se Imuno é tão importante quanto Neuro, por que a mídia deixa por menos? Quando MUITO aparece, são "os níveis reduzidos de CD4 na AIDS"
      Só!

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    2. Gabriel Shimizu Bassi19 de abril de 2013 17:06

      Tudo se baseia na facilidade de entendimento e quem dá as matérias televisivas.

      1) Para o telespectador é muito mais fácil entender um assunto que ele pode ver, tocar e sentir (como distúrbios sensoriais, psiquiátricos, dos olhos, etc) que algo abstrato (como as proteínas que formam um coágulo). E não é somente no Brasil, outros programas como a BBC - Londres, DW - alemã e RAI - italiana, dão muito mais ênfase as Neurociências

      2) O Brasil não possui bons apresentadores de Imunologia. Não tem uma figura televisiva ou científica nacional que a população leiga possa associar a Imunologia. Pergunta a essas pessoas que é o Dráuzio varella, Suzana Herculano-Rousel, etc.

      3) Isso vem em parte (acho eu) por causa das premiações. Praticamente não há brasileiro imunologistas que tenha tido grandes premiações em eventos internacionais veiculados na televisão. Lembro-me quando o Miguel Nicolelis foi indicado ao prêmio Nobel de Medicina/Fisiologia: houve uma enxurrada de reportagens, entrevistas e, principalmente, qual a sua pesquisa científica. E isso tudo (muito) veiculado na midia.

      4) Propaganda. Quando eu estava ainda no mestrado na Psicobiologia, lembro-me que os eventos sobre a divulgação das Neurociências eram extremamente bem organizadas e muito bem veiculadas. Por exemplo, o presidente estadounidense George Bush dedicou o período de 1990-2000 como "A Década do Encéfalo" (Brain Decade). E lá se foi uma batelada de grants para pesquisa sobre o encéfalo.

      5) Revistas científicas veiculadas ao público leigo. Se você passar por uma banca de revistas qualquer, poderá ver vários títulos especializados em Neurociências para o público leigo: Scientific American: Mente e Cérebro; Superinteressante; Neurociências & Negócios, etc.

      Enfim, o bombardeio é tão grande que sobra pouco espaço para outras. Se a Imunologia quiser ser melhor entendida, vai ter de entrar na concorrencia. E haja concorrencia

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  6. Gostei muito do post, e de fato a maioria dos estudantes de graduação não gostam da imuno.
    Mas no caso da UNB, a imuno é dada no penultimo semestre para os alunos de biologia, com apenas 2 créditos(2 horas semanais), e além disso os professores que ministram Imuno, não são fãs de dar aula. O que dificulta e contribui para a aversão dos alunos há essa disciplina tão magnifíca.

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  7. Achei que fosse o único a gostar de Imunologia no mundo todo, rsrsrsrs... Bem, deixe eu me apresentar antes. Sou engenheiro mecânico, trabalho como perito em Foros e adoro Medicina Natural a qual aplico em minha vida. Isso me levou a adquirir alguns livros universitários da área médica para estudar e compreender o mecanismo, já que como engenheiro sou bastante curioso...
    Tenho Guyton, Sobbota, Junqueira & Carneiro, Lehninger, Moore e o Abba de Imunologia. Tenho a capacidade (sempre tive) de aprender por mim mesmo e ao me interessar pelo assunto aprendi e tenho aprendido muito. E sempre achei MUIIIIIIIIITO interessante a Imunologia, talvez, como você bem disse, há que ser curioso!!!! Para entender Imunologia uso os conceitos que tenho de minha de graduação que é a lógica (matemática), a experimentação natural (da natureza mesmo) e intuitiva (física) e a percepção "interrogativa" que a química desperta. Mexo isso em um caldeirão, aplico um pouco de filosofia (também chamado de viajar na maionese) e entendo... é simples!
    Muito bem pautado sua abordagem... todas elas; pois, é assim que aplico a mim mesmo!
    Abração. Fabiano Valente Nunes. PS.: Se quiser aprender como funciona uma bomba estude o coração, se quiser aprender sobre tubulações estude as veias/artérias, se quiser aprender sobre os compressores estude os pulmões, se quiser aprender sobre energia estude o fígado e pâncreas, se quiser aprender sobre lubrificação estude o sistema circulatório, etc... tudo é tudo e como diria o filósofo: Homem, conhece a ti mesmo e conhecerás o universo e os Deuses!

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    1. magnifico teu comentario amigo,otimas colocações!vc traduziu bem a engenharia reversa, é exatamente como vc falou cara.

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