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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O brinde que queremos


Escrevi esta coluna ainda sem saber quem seria o ministro da ciência e tecnologia, agora que sei acho mais dificil ainda... mas enfim, esta saiu de conversa entre eu e André, Aguinaldo e Zanetti em Floripa...


Que papel você espera que a ciência tenha no mundo? Na sua vida, ou no futuro que você imagina para seus filhos e netos? Embora aparentemente esta seja uma questão que você não considera com freqüência, todos os dias pensamos nisso.  Queremos motores melhores, construções mais seguras, medicamentos mais eficientes, energia mais barata, vacinas que nos protejam de todos os vírus. Mais recentemente, aprendemos que ao adaptar o mundo ao nosso estilo de vida estamos acabando com alguns recursos essenciais, portanto queremos agora recuperar a água, manter a camada de ozônio. Se um asteróide for colidir com a Terra, queremos saber desviá-lo, ou iniciar uma colônia em outro planeta.

De onde vêm as idéias que nos permitem viver como atualmente e ainda sonhar com um mundo melhor? Assim como os artistas conseguem usar seu dom para interpretar a realidade reapresentá-la de forma inspiradora, cientistas buscam entender as leis que regem a natureza. Em geral começam com uma pergunta – por que as coisas caem?– que tende a se transformar em outra, mais profunda – como elas caem? Nesse processo, vamos aprendendo mecanismos essenciais que tentamos reproduzir, com tecnologia que vamos criando. Ao entender como fazer com que uma máquina voe, descortinaram-se infinitas possibilidades. Ao assistir na internet um robô sondando o espaço, precisamos lembrar que isso começou com algumas pessoas que obsessivamente tentaram entender porque as coisas caem quando as soltamos, além daqueles que efetivamente desvendaram esse mistério para todos. Que ousaram fazer perguntas difíceis de responder.

Existe hoje na ciência, e na sociedade, um debate sobre como avaliar um bom cientista. Alguns dizem que é o número de artigos publicados, outros tentam calcular o impacto das revistas em que publica. Essas avaliações determinam quanto dinheiro o cientista capta para financiar sua próxima pesquisa. Os fundos são limitados e criam-se fórmulas e algoritmos para determinar quem é mais competente, o mais relevante. Ainda assim, o Brasil segue tecnologicamente dependente de outros. Copiamos fórmulas e desenhos de fora, nossos governantes e empresários tem dificuldade de acreditar que temos a capacidade de desenvolver tecnologia competitiva.

Isso acontece porque estamos fazendo a pergunta errada.  O crucial hoje não é avaliar quem faz a pesquisa mais relevante, até porque relevância mesmo só se define com o passar do tempo. Quantos entenderam no século 17 que o jovem Isaac Newton fechado em seu quarto fazendo cálculos transformaria para sempre a história da humanidade? Embora algum tipo de ranqueamento seja necessário e tenhamos de sempre buscar uma formula mais adequada para distribuir os recursos, nós cientistas sabemos muito bem avaliar nossos pares e reconhecer ciência boa (ou ruim) quando a vemos. A avaliação dos pares é imprescindível em qualquer tipo de classificação, pois apenas quem trabalha diariamente naquela área conhece a falácias e possíveis enganos que se pode cometer, se relaxamos no rigor do desenho e da interpretação.

Contudo, a pergunta que precisa ser respondida é: como fazer para que o Brasil faça ciência que seja capaz de transformar a nossa realidade? A única maneira de viabilizar isso é modificar a maneira de formar – e portanto de avaliar – os cientistas. Ensinar que o importante não é focar no número de artigos, ou patentes, ou resumos, mas em ousar fazer perguntas difíceis, pensar mesmo no impossível. E ser absolutamente cuidadoso, severo, ao interpretar os resultados. Se no Alzheimer nossos neurônios definham ao acumular agregados de proteínas, como fazer para que esses agregados sejam eliminados e não causem outros problemas durante o processo? Enquanto muitos respondem – não dá pra fazer  - um cientista diria – vejam aqui um jeito pelo qual podemos tentar. Assim se cria a novidade que transforma.

Finalmente, não podemos nos enganar achando que apenas a ciência que mostra aplicação imediata é a que importa.  Tentando entender porque uma espiga de milho tinha cor engraçada, uma garota mudou o campo da genética para sempre. Os contemporâneos de Darwin achavam ridículo ele viajar pelo mundo medindo membros de animais estranhos. Se queremos ser capazes de modificar o cenário cientifico brasileiro, temos de encorajar a ousadia e premiar o rigor e o cuidado na investigação.  A tecnologia virá inevitavelmente de brinde.

Coluna publicada no Jornal Zero Hora, 28/12/2014

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4 comentários:

  1. Cara Cris,
    Concordo com seu texto. Lembro, porém, que a decisão de alterar os critérios de avaliação não depende da burocracia das agências e menos ainda do Ministro. Em todas as instâncias quem julga os cientistas são seus pares.
    A pergunta crucial é porque não mudamos a avaliação de cientistas e de projetos no Brasil?
    Discutimos isto nos nossos congressos?

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  2. Sim Barral querido! Nós temos que promover esta discussão em todas as instâncias que reúnem cientistas brasileiros, para indicar aos ministros e técnicos das agencias que esta é uma questão crucial para promover o crescimento da ciencia no pais - e a bem dizer, no mundo.

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  3. Maria Bellio (UFRJ)15 de janeiro de 2015 14:41

    Querida Cris,
    questões muito importantes, sem dúvida, q nos fazemos frequentemente, inclusive aqui no SBlogI.
    Infelizmente não temos ainda um algoritmo, uma fórmula.
    Mas tenho algumas sugestões p/os CAs do CNPq visando o aumento da transparência:
    1) ampliar o n. dos componentes de cada CA de 3 para 20
    2) que os pareceristas não sejam anônimos e q seus pareceres sejam divulgados, se o pesquisador q está tendo seu projeto julgado concordar.

    bjs
    M.

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  4. Oi Cris de novo,

    Só para esclarecer: não é necessário esclarecer qualquer Ministro ou técnicos sobre isto pois nenhum deles se envolve em critérios de julgamento. Basta a comunidade decidir mudar, ou seja sair da queixa para a ação.

    Aproveitando o comentário de Maria:
    Não creio que seja possível, nem desejável, neste caso ter um algoritmo ou fórmula.
    Quanto à transparência, já é um outro aspecto. Tão importante que merece um novo post de Cris ou um de Maria.

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