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sexta-feira, 18 de julho de 2014

Os Novos Marcianos

Sei que pra muitos de nós o conceito do microbioma e imunidade já está super consolidado, mas acho que vale aqui no blog publicar este texto de divulgação que fiz pra coluna na Zero Hora, pra quem não lê muito sobre isso.

Nós e as Bacs


No clássico Guerra dos Mundos, publicado em 1898,  H.G. Wells imaginou uma Terra devastada por uma invasão alienígena. Marcianos, apresentados como mais fortes, mais inteligentes e com melhor tecnologia, exterminavam humanos com a eficiência e a tenacidade da Alemanha ao aniquilar os sonhos futebolísticos dos brasileiros na terça-feira. Enfim. Quando tudo parecia perdido, os marcianos começam a morrer misteriosamente. No final, é revelado que eles sucumbiram às bactérias da Terra, contra as quais os humanos normais já teriam imunidade há tempos. Essa história de terror foi contada sob o ponto de vista do século XIX por Wells, que era revisor da revista cientifica Nature e trabalhava muito para divulgação de ciência. Nessa época, não sabíamos que não existia vida inteligente em Marte, e bactérias eram seres misteriosos e assustadores. Estas eram visíveis apenas ao microscópio, e identificadas principalmente como causadoras de doenças mortais – antibióticos foram descobertos apenas no século seguinte, a penicilina sendo identificada em 1928.

O interessante é que hoje sabemos que as células bacterianas em nosso corpo são pelo menos dez vezes mais abundantes que as células humanas, pertencentes a mais de dez mil espécies diferentes. Essas bactérias são conhecidas conjuntamente como o microbioma humano, evoluíram por centenas de milhões de anos adaptando-se a viver em nossa pele, no intestino, nos tratos respiratório e vaginal, sem causar doença – exatamente o oposto.  Somos basicamente condomínios de bactérias, sendo o intestino a zona nobre, em que o acesso aos nutrientes fica concentrado. As bactérias componentes do microbioma trabalham arduamente preservar o seu ambiente – o ser humano -  de modo que este deixe vários descendentes, garantindo novas moradias para... bactérias filhas.

As bactérias do intestino produzem enzimas necessárias para que possamos digerir diferentes alimentos e assim absorvê-los. Produzem vitaminas que não produzimos, e também competem com outras bactérias, potencialmente patogênicas, que tentem colonizar nosso corpo.  Os chineses já sabiam disso há dois mil anos atrás, e usavam chá de fezes para tratar colites inflamatórias. Hoje sabemos que isso funcionava melhor porque a colite era causada pela bactéria Clostridium dificile, que proliferava em nosso intestino quando bactérias do microbioma eram eliminadas por alguma razão. Nosso microbioma sofre baixas quando tomamos antibióticos. A reposição das bactérias originais, “do bem”,  resolve o problema. No século XX , no Colorado, o “cházinho” foi substituído por tratamento com enemas fecais, igualmente eficientes.

Mais recentemente, descobriu-se que as bactérias da microbiota produzem substancias antiinflamatórias, e isso pode curar diabetes e outras doenças inflamatórias, trazendo uma nova função para o tratamento agora carinhosamente denominado “transplante de cocô”.  Além disso, essas bactérias interagem com o sistema imune do hospedeiro fazendo com que ele mesmo produza respostas antiinflamatórias. E alguns tumores só se manifestam se o hospedeiro possui uma determinada composição de espécies na microbiota, sugerindo que manipular a população de bactérias no intestino pode prevenir certas formas de câncer.  Hoje existem projetos internacionais para a compreensão das funções da microbiota, pois parece que estamos apenas arranhando a superfície do assunto. Por exemplo, o tipo de alimento que consumimos seleciona diferentes espécies de bactérias. Fibras complexas selecionam espécies que favorecem respostas antiinflamatórias e inibem a obesidade, enquanto que alimentos processados industrialmente selecionam outras espécies, que favorecem respostas inflamatórias e formação de gordura. Assim, a dieta não apenas interfere no metabolismo da pessoa, mas no seu microbioma, e esse conhecimento vai sem dúvida revolucionar  hábitos, e os mercados farmacêutico, nutricêutico, e de saúde. É importante, contudo, buscar as fontes idôneas de informação sobre o assunto, antes de achar que o tratamento com probióticos – alimentos que contem espécies de bactérias viáveis – é a cura para todos os males.


Se HG Wells escrevesse essa história hoje, com o conhecimento que temos hoje sobre o microbioma, ela seria bem diferente. Os marcianos seríamos nós, extinguindo milhares de espécies com o uso indiscriminado de antibióticos. Hoje colocamos antibióticos em tudo, em sabão, na alimentação de animais que consumimos, no leite. Essas drogas são ferramentas maravilhosas, salvam milhões de vidas,  mas precisam ser utilizadas de forma inteligente. No novo conto de Wells, os humanos seriam agora ameaçados por novas espécies de bactérias, resistentes aos antibióticos, e pela perda gradual de funções vitais por terem extinguido as bactérias do microbioma. Muito mais próxima da realidade que a primeira, e por isso, ainda mais aterrorizante.


Texto publicado no Jornal Zero Hora, Caderno ProA, 13 de julho de 2014

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2 comentários:

  1. Cris, voce esta botando pra quebrar...Seus artigos (este e o do amor) estao preciosos. Bjs

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    1. Puxa Sergio, vino de vc é um enorme elogio! Bjs

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