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BRASILEIRA DE IMUNOLOGIA
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Dicas básicas para elaborar relatórios e teses sem irritar seu orientador, seu assessor e a banca da sua tese


Frequentemente os estudantes enviam documentos (relatórios, dissertações, teses, resumos de congresso, etc.) para seus orientadores corrigirem. Muitas vezes o pobre corrige tudo; sofre, reclama (geralmente consigo mesmo) mas acaba corrigindo tudo. Pior é quando ele corrige com pressa e o documento segue com alguns erros... ai quem acaba reclamando é o assessor (da agência de fomento), o membro da banca, etc.

Pensando nisso, e tendo em mente que muitos dos erros são comuns (e são inerentes ao processo de aprendizado) eu preparei algumas dicas para evitar a irritação do orientador, assessor e o membro da banca.
Espero que seja útil!

 
Dicas para elaborar relatórios e teses sem irritar seu orientador,
seu assessor e a banca da sua tese.

• Use uma linguagem formal! A academia é muito mais conservadora do que os colegas do facebook.
• Evite termos coloquiais como “o próximo passo”... Procure usar: “a seguir”,“posteriormente”...
• Importante:  Evite gerúndio. “sendo importante” “vem sendo descrito”… em textos científicos use o passado ou o presente: “Foi descrito”, “é importante”...
• Evite frases longas, Saramago é muito bom nisso (frases longas separadas por virgula), mas não escreve linguagem cientifica. A linguagem cientifica tem que ser muito precisa, clara e sem nenhuma ambiguidade. Para isso frases curtas são essenciais.
• Paragrafo. Digite “enter” e passe para o próximo paragrafo somente quando for mudar de assuntou ou mudar a linha de raciocínio. Evite parágrafos curtos demais, evite digitar “enter” só porque você cansou de escrever e quer uma saidinha para tomar um copo d’água.

• Legendas. Geralmente, a primeira frase da legenda descreve o resultado. Por exemplo, “Macrófagos deficientes em NLRC4 são susceptíveis à infeção por L. pneumophila”. A segunda frase descreve brevemente como o experimento foi feito e o que os símbolos significam (nessa parte também é bom definir abreviações usadas nas figuras): “Macrófagos derivados de medula óssea (BMDM) obtidos a partir de camundongos Nlrc4-/- (círculos fechados), ou de animais C57BL/6 (círculos abertos), foram infectados com L. pneumophila selvagem (cepa JR32) e cultivados por 24, 48 e 72 horas para determinação do número de UFC (Unidades formadoras de colônia)”. Depois você descreve as estatísticas: * indica ... Finalmente (isso é muito importante), mencione o número de wells (ou animais) utilizados no experimento e quantos experimentos foram feitos: “O experimento foi realizado em triplicata e representa um experimento representativo de outros 4 realizados” 

OBS. Legendas são muito importantes. Se tem uma coisa que seu assessor, ou o membro da sua banca, vai ler com certeza é a legenda das figuras. Capriche nisso pois legendas mal feitas irritam o pobre coitado.


• Nomes científicos em Itálico: Leishmania amazonensis. Somente a primeira letra do nome do gênero em maiúscula. Na primeira vez que for se referir a espécie pode listar nome do gênero: Leishmania amazonensis, nas outras só L. amazonensis.

 • Nome de proteína: Naip5  (primeira maiúscula somente, sem itálico)
• Nome de gene: naip5 (todas minúsculas em itálico)
• Geralmente usa-se itálico também para in vitro, in vivo e ex vivo, etc.

Outras dicas importantes:
• Passe um corretor ortográfico, já vem no próprio programa e não custa nada...
• Releia tudo que você escreveu com calma... se for possível “engavete” seu texto por uns dias e releia-o.  Vai ver que você mesmo pode corrigir um monte de coisas nele. Poupe o pobre do seu orientador.
• Citações: Procure citar sempre os artigos originais, os primeiros a serem publicados. Evite revisões, dê o credito aos autores que demonstraram a observação original.  IMPORTANTE: use programas como Endnote ou Reference manager. Em plena era digital, é uma loucura fazer isso manualmente.
• Nunca ache que você pode entregar “qualquer coisa” para o seu orientador porque ele vai corrigir de qualquer forma. Se você foi aceito(a) no lab é porque seu orientador sabe do seu potencial. Portanto, entregue o melhor que você puder.
• Ultimo e mais importante, evite entregar para o seu orientador no sábado a noite. Ele também é humano e também tem direito a descansar no domingo. Inicie uma semana antes, assim você entrega lá pela quarta feira e ele vai ficar muito feliz.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Ensino x Pesquisa em Ensino: uma questão, também, da Imunologia.


Não é raro escutarmos nas conversas entre os colegas da nossa área - no momento de cafezinho, reuniões e outros eventos dos departamentos - o tema: ensino. E aí a confusão sobre esse tema está instalada. Pior, as concepções sobre o tema ficam cristalizadas em formas de verdades que vão sendo passadas de geração em geração nos laboratórios. A principal delas, e uma das mais importantes em termos da estrutura do tema, é: qual a diferença entre Ensino e Pesquisa em Ensino?
Na grande área das humanidades do conhecimento a questão do ensino e pesquisa em ensino estão estruturadas claramente como entidades distintas. O que são de toda verdade e que apresentam algumas interfaces entre elas que são pertinentes e de direito. Entretanto, nas grandes áreas das ciências experimentais, às quais estamos inseridos, as vertentes de ensino e pesquisa em ensino assumem a marginalidade na face do saber como:
i) tema de pesquisa para ser feita quando você estiver as vésperas da aposentadoria;
ii) preocupação que só devemos ter depois de uma colossal publicação nas grandes revistas de imunologia e afins;
iii) destinada à preocupação apenas para os programas de extensão; e ainda pior:
iii) estigmatizada e delegada àqueles que não sabem fazer bancada ou ‘ruins de bancada’ ou o fulano(a) ‘mão-podre’ do laboratório.
A consequência de todas essas definições cristalizadas nos nossos discursos cotidianos é o atraso no avanço da reflexão sobre ensino e ainda mais sobre pesquisa em ensino nas áreas de ciências biológicas e médicas dos cursos de graduação brasileiros. Refletindo intrinsecamente na formação de recursos humanos liberados às centenas por ano com títulos de mestres e doutores que vão assumir posições nevrálgicas na universidade (ensino/pesquisa/extensão) para formar mais profissionais. Mas afinal, o que é ensino? E o que é pesquisa em ensino?
Aqui divido meu texto em três grandes partes na tentativa de faiscar a discussão. A primeira parte, a seguir, na dialética do que é ensino e pesquisa em ensino; na segunda parte, exemplifico a importância de uma boa pesquisa realizada em ensino de imunologia por pesquisadores brasileiros; a terceira são algumas propostas alicerçais para a pesquisa em ensino de imunologia.

1)    Os dois caminhos: diferentes e não um mais curto ou fácil que o outro.

 Nas consultas de qualquer dicionário da nossa língua encontramos definições que fazem uníssono para os termos de Ensino e Pesquisa em Ensino. Numa definição desses conceitos todos podemos dizer que Ensino é qualquer forma sistematizada de transmitir algum conhecimento para outrem em ambientes ditos como escolares (nosso caso aqui é a universidade). Pesquisa é um processo sistemático, utilizando metodologias específicas, para construção do conhecimento humano. Dessa forma, a Pesquisa em Ensino significa processo sistêmico, com metodologias e fundamentos teóricos próprios, sobre qualquer forma sistematizada de transmitir algum conhecimento a outrem. A pesquisa em ensino de ciências, no Brasil, obedece essa estrutura desde meados da década de 60 do século XX. E as metodologias usadas nessa grande nova área podem ser emprestados, sem grandes conflitos, à pesquisa para ensino das ciências biológicas e médicas do ensino superior.
Assim, a forma confusa e petrificada de associar ‘se ensino faço ensino, lógico trabalho com pesquisa em ensino’ pode ser rompida e abrir para mais outro ponto de grande confusão: a prática docente. Sim, a prática docente exige pesquisa, porém pesquisa para sua prática docente e não como geradora de conhecimento acadêmico. E como fazemos esse exercício da prática docente na atualidade? A grande única forma de contato que o pós-graduando se depara no seu processo de formação são com os ‘estágios de docência’ que na sua grande maioria constituem, de grande parte cronológica, de observação de algum docente experiente e uma aula de regência no meio disso tudo. Na grande maioria das vezes, o estudante passa por esse estágio, sem uma reflexão, com uma base teórica especializada, ou seja, sem ler um único texto sobre ensino e estágios supervisionados em ensino,  e refletindo sobre a prática do docente supervisor e ainda sobre sua prática docente na ocasião. O estágio fica relegado ao cumprimento de créditos.
A pesquisa em ensino não soluciona – nem de perto e nem tem essa intenção – de resolver os problemas e desafios da prática docente. Ela fornece bases de conhecimento de metodologias, como importância do experimento, do ensino por investigação, de ensino em espaços não formais e etc, que podem ser refletidos na prática docente. A pesquisa em ensino ainda gera conhecimento, propõe metodologias para a investigação, refuta práticas, abre perspectivas de metodologias para o ensino, testa hipóteses, valida sequências didáticas. Ou seja, ela é sim uma linha de pesquisa de extrema importância no campo de geração de conhecimento novo, inovador, com publicações de importância e produtos para o mercado, como exemplo de programas de didáticos para computador. Fazer pesquisa em ensino nas áreas de ciências biológicas e médicas não é estar na zona marginal da ciência, mas ela ocupa um dos pilares de sustentação para qualquer atividade investigativa experimental.  

2)    Um exemplo dos mais importantes: o conceito.

            Um dos assuntos mais espinhosos para qualquer professor de imunologia – seja ele iniciante ou emérito – é discutir com os alunos da graduação (que chegam impregnados das marteladas midiáticas e dos livros básicos do ensino médio) sobre o conceito básico: o que faz a imunologia? Ou, o qual a função do sistema imunológico? As primeiras respostas são sempre as mesmas: que a função do sistema imunológico está fixada na díade ataque-defesa, ou seja, da relação de microrganismos com o organismo. Porém esse drama não acaba por aí. Ele se espalha de forma natural e insolúvel no livros didáticos de imunologia, esses que usamos nas nossas aulas para a graduação. E ai não há professor, milagreiro que possa dissolver.
            Esse resultado foi interessantemente estudado e concluído (em um precioso e raro artigo de ensino de imunologia no Brasil) por Siqueira-Batista e colaboradores (2009). Nesse artigo, Siqueira-Batista se utiliza de uma metodologia simples e precisa na área de ensino que é a investigação, busca textual, sobre o tema nos livros didáticos, fazendo uma:
(a) revisão crítica da literatura, com textos obtidos nos livros e nos capítulos de livros de Imunologia;
(b) leitura crítica dos textos;
(c) elaboração de síntese reflexiva sobre o tema.
Esse estudo concluiu que os livros didáticos de imunologia, em sua quase totalidade, definem o sistema imunológico como ‘arsenal’, ‘militar’, não abrindo possibilidades de apresentação das funções do sistema imunológico, como por exemplo, na face da homeostasia.
            Esse trabalho mudou os rumos do ensino de imunologia? Não. E não por diversos motivos, dentre eles, a ausência da discussão do tema de forma firme e vertical, ou até, mesmo pela cristalização de como a história da imunologia foi construída ao longo desses anos e contextos históricos envolvidos. Ou seja, um bom tema para pesquisa.

            3) as propostas

Ensino, a prática docente, Pesquisa em Ensino e geração de conhecimento científico da área, apesar de terem suas diferenças claras, apresentam interfaces como qualquer outra grande área, como por exemplo, produtos gerados na pesquisa podem virar sequências didáticas e aplicadas no ensino do cotidiano da disciplina e formação de pesquisadores no tema. Além de gerar conhecimento básico para a temática: o que é ensinar imunologia?
Dessa forma, para maior amplitude da pesquisa em ensino de imunologia, as propostas são simples e altamente executáveis:
a) reconhecimento de que pesquisa em ensino de imunologia é uma linha produtiva e com perspectivas de integração com outras linhas do departamento e na universidade;
b) contratação de docentes com essa linha de pesquisa nos departamentos de imunologia;
c) financiamento de projetos para essa linha de pesquisa como auxílio financeiro e bolsas de pós-graduação.

Post de Daniel Manzoni

Referências bibliográficas:

SIQUEIRA-BATISTA, R.; GOMES, AP.; ALBUQUERQUE, V.S.; MANDALON- FRAGA, R.; ALEKSANDROVIWZ, A.M.C.; GELLER, M. Ensino de Imunologia na educação médica: lições de Akira Kurosawa. Revista Brasileira de Educação Médica. 33, 186-190, 2009

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Últimas chamadas!

Caros,


Nos últimos anos,  as coisas mais inovadoras e significativas que surgiram pra terapia de câncer  são baseadas em imunologia. Anticorpos monoclonais, receptores quiméricos em linfócitos T, células Treg, escore imune para patologia.



Neste evento buscamos pela primeira vez colocar em um mesmo congresso pessoas que trabalham com imunologia, com câncer, e com pesquisa clinica e básica. Junto com representantes do governo (DECIT, ANVISA, REDEFAC), para tentar uma coalizão de forças que ofereça novas alternativas para pacientes de câncer.



Acredito que podemos aprender muito com outras áreas, mas também acredito que podemos - e devemos - estar lá não só para facilitar a  compreensão da complexa linguagem que falamos, mas para pensar em que outras maneiras podemos contribuir para esse campo.

Pessoas que trabalham com câncer ainda não compreendem Imunologia.



Imunologia é demais, e contudo frequentemente é muito crítica para a maioria das pessoas. Podemos contribuir pra esta transição. E podemos inovar, baseados em nosso conhecimento de outras áreas de imunologia.



Espero que vocês venham ao evento, mesmo que (ainda) não trabalhem em câncer.



Abraços, Cris Bonorino

P.S. Data limite para submissão de resumos estendida para 27/2

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Um GRANDE Julgamento



Prezados blogueiros, hoje vou descrever um trabalho que saiu na Nature no mês de janeiro, porém vou trata-lo de maneira lúdica. Trata-se de uma peça de teatro com moléculas da Imunologia. Há alguns anos atrás escrevi uma história parecida, porém com o enfoque genético. Atualmente essa prática pedagógica vem sendo apresentada por alunos de iniciação científica e de pós-graduação em vários lugares no Brasil. Boa leitura!

A juíza chegava para um caso difícil. O julgamento começou. Cientista e promotor entraram. O promotor estava com ódio nos olhos enquanto que a ré estava do outro lado chorando. Dizia que tinha feito o melhor. Tudo era acompanhado pela Science, Nature, Journal of Immunology e quem cobria a notícia era a célula dendrítica, com um vestido vermelho cheio de pontas.

Juíza: - Peço o silêncio de todos os presentes para o julgamento público da caspase-1. A ré foi autuada de acordo com o artigo PMID: 24356306 (Doitsh et al., 2014) por eliminar linfócitos CD4 expressando CCR5 em pacientes com  HIV. Venho a chamar agora a sua advogada de defesa ASC.

Narrador: ASC uma advogada de não mais que 1,00 m de altura, usava um vestido em duas partes (PYD-CARD). Ao chegar abraçou a sua cliente caspase-1, que vestida de preto, chorava e sinalizava para pró-IL-1β e pró-IL-18 na plateia.

Juíza: - Promotor, o direito de fala é todo seu nesse momento.

Cientista: - Obrigada, excelentíssima juíza! Após anos de tentativa para encontrar a cura do HIV, vejo aqui que saiu na Nature um excelente paper. Por favor, olhe! Trouxe uma cópia para senhora (Doitsh et al., 2014). Já faz um tempo que sabemos que pacientes com HIV morrem. Mas por quê? Como imunologistas, sabemos que o HIV infecta células T CD4+ e que uma vez infectadas, as coitadinhas morrem. No entanto, ainda não sabíamos, até o presente, o mecanismo pelo qual isso ocorria. Acusei por anos a caspase-3. Pobre caspase-3. Só que agora eu SEEEI. É ela ... a caspase-1. ASSASSINA!!!!!

Narrador: De repente a molécula ASC levanta e grita

ASC:  - Protesto meritíssima! A caspase-1 não deve ser tratada assim. Ela foi induzida a matar, porém a culpa é dele, do HIV. Tentei trazê-lo aqui, mas com seus inúmeros disfarces eu não o encontrei.

Juíza: Pedido acatado Sra. ASC.

Cientista: - Peço desculpas, acho que me excedi um pouco. Quero chamar aqui minha primeira testemunha. Por favor, que entre a tradicional IL-12.

Narrador: - A IL-12, por ser uma senhora de idade já, e cheia de regras, entrou no tribunal com a ajuda de um macrófago M1, senhor um pouco gordinho que vestia uma camisa escrita “Clássico”.

IL-12: - Pra mim é um prazer testemunhar contra a caspase-1. Graças a ela a IL-18 quer ser mais importante que EU na indução de Th1. Caros amigos, vejam bem... Todo mundo vive sem IL-18, mas quero ver ficar sem minha presença. Sou tradicional e, claro, muito importante. Na verdade, eu duvido que um dia encontrem maior indutor de STAT4 do que eu.

Juíza: - Muito obrigada Sra. IL-12. Agora é a defesa que tem a palavra.

ASC: - Faz-me rir, Sra. IL-12. Muitos estudos e inclusive alguns não publicados mostram que IL-18 é fundamental e, que sem ela você não tem força o suficiente para induzir uma Th1 protetora em alguns modelos experimentais. Vou chamar agora alguém que vai dizer que a caspase-1 é fundamental. Por favor, entre Dr. JS.

Dr. JS: - Prezada ASC, público e demais presentes. Caspase-1 é importante contra T. cruzi (Silva et al., 2013),  Leishmania (Lima-junior et al., 2013), vírus (Rathinam and Fitzgerald, 2010) e fungos (Gross et al., 2009). A ré foi induzida a matar as células CD4. E, se formos pensar, nossa querida Caspase-1 não é a única culpada nessa história, visto que o tratamento inibindo CXCR4 e transcriptase reversa evitou a morte de CD4 e a ativação de caspase-1 e caspase-3. E se a senhora for verificar na figura 1, o vírus também induz caspase-3. E perceba que, em 2010, foi mostrado que caspase-3 também é culpada. Claro que minha cliente inflama e não é nenhum pouco silenciosa, mas sua existência é necessária. A propósito, a produção de IL-1b ativa foi dependente de caspase-1, mas independente de NLRP3. Eu tenho uma pergunta para vossa excelência. Quem é o receptor upstream nesse contexto (Doitsh et al., 2014)? Ele sim seria o principal culpado. Não acha?

Cientista: - Santo DNA, não se fazem mais cientistas como antigamente. A caspase-1 causa muito mal na malária, na artrite, na esclerose e em muitas outras doenças. Eu poderia ficar uma eternidade aqui falando se quisesse citar todas. Só falta você me dizer que é a caspase-11, ativada por LPS, que seria a culpado pela grande piroptose observada. Vou chamar agora a IL-18.

IL-18: - Você é uma traidora Sra. IL-12. Te ajudei por anos. Graças a existência da caspase-1 eu e minha irmã, IL-1β, ficamos ativas. Por anos, ficamos na terapia de citocinas até que surgisse a solução correta para o nosso problema: a caspase-1. Sem caspase-1 não poderíamos exercer nossas funções. Precisamos dela e esperamos contar com uma decisão justa.

Juíza: - Depois de todos os depoimentos, de tudo o que escutei aqui, decidi juntamente com o júri popular (composto de várias moléculas da imunidade inata) declarar a caspase-1 CULPADA. No entanto, a mesma não deve ser condenada por seus crimes, visto que existe um forte regime condicional imune que controla suas ações, tais como o IL1RA. Precisamos de fato descobrir mecanismos adicionais que participam da infecção por HIV para tentar enquadrar esse vírus nos rigores da lei imune.


E você blogueiro, em qual lado você está?

Post de Grace Kelly Silva (pós-doutoranda da FMRP/IBA)

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Post-doctoral position in Centre for Research in Inflammatory Diseases : Ribeirao Preto, Brazil


A postdoctoral position is available at the Biochemistry and Immunology Department, Ribeirao Preto Medical School from the University of Sao Paulo (FMRP-USP), Ribeirao Preto, Brazil. We are seeking applicants who are exceptionally motivated, innovative, that can work independently within a collaborative team setting. Prior experience in cellular immunology techniques and bioinformatics will be valued. Applicants must have PhD and knowledge in Immunology and Infectious Diseases.
Title of the project: Control of the immune response in infections with leishmania or Trypanosoma cruzi
Leading researcher: João Santana da Silva
Candidates should initiate studies in Brazil and can subsequently integrate the project with other institutions outside of Brazil.
Fellowship stipend: ~US$ 30,000.00/year (tax free) provided by FAPESP.
Please contact by e-mail João Santana da Silva
Please submit your complete application by 17/03/2014 (cover
letter, CV and 2 recommendation letters) to Dr. Joao S. Silva, jsdsilva@fmrp.usp.br …

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Revolução do big data na assistência em saúde

Cada vez mais precisamos pensar em como tratar grande volume de dados na área da saúde. O filme abaixo, do TED, trata do aspecto da coleta de dados através de uma solução engenhosa.



Esta outra apresentação trata da visualização de dados complexos e é também muito boa.



Vale a pena buscar mais apresentações lá no TED.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Endonuclease da Saliva de Lutzomyia longipalplis aumenta a Sobrevivência de Leishmania em Neutrófilos




                      Imunodetecção de NETs por microscopia confocal e microscopia eletrônica.
                              Fonte: Brinkmann et al., 2004. Science.

Neutrófilos são células que participam da primeira linha de defesa contra infecções e que formam estruturas extracelulares denominadas NETs (do inglês "neutrophil extracelular traps"), capazes de eliminar Leishmania. O artigo publicado recentemente pela pesquisadora brasileira Andrezza Chagas do Laboratory of Malaria and Vector Research no NIH e que conta com a participação de outros pesquisadores brasileiros identificou que a Lundep, endonuclease presente na saliva de Lutzomyia longipalpis, é uma molécula capaz de destruir NETs. A enzima hidrolisa tanto DNA de fita dupla quanto de fita simples.

Os dados mostraram ainda que o bloqueio da formação de NETs induzidas pelo parasito ocorria após tratamento com Lundep recombinante e aumentava a sobrevivência da Leishmania em neutrófilos. Estudos in vivo mostraram que a co-injeção de Lundep com promastigotas metacíclicas de Leishmania major aumentava significativamente a infecção em camundongos em comparação com a injeção apenas de PBS ou Lundep em sua forma inativa.

Os autores sugerem que durante os eventos iniciais pós-inoculação, a enzima Lundep afeta o sistema inato do hospedeiro, principalmente pela destruição de NETs, permitindo que a Leishmania evada a resposta imune do hospedeiro, o que auxilia o parasito no estabelecimento da infecção. Mais uma vez, dados da literatura reforçam a relevância de compostos salivares do vetor na transmissão de Leishmania e na resposta imune frente à infecção e o seu potencial uso como componente de formulações vacinais anti-Leishmania.


Referências
Chagas AC, Oliveira F, Debrabant A, Valenzuela JG, Ribeiro JM, Calvo E. Lundep, a Sand Fly Salivary Endonuclease Increases Leishmania Parasite Survival in Neutrophils and Inhibits XIIa Contact Activation in Human Plasma. PLoS Pathog. 2014 Feb 6;10(2):e1003923. doi: 10.1371/journal.ppat.1003923.

Brinkmann V, Reichard U, Goosmann C, Fauler B, Uhlemann Y, Weiss DS, Weinrauch Y, Zychlinsky A. Neutrophil extracellular traps kill bacteria. Science. 2004 Mar 5;303(5663):1532-5.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Sobre Imunologia e Teatro




O mais louco de tudo não foi descobrir a imunologia quase escondida dentro da medicina, mas é encontrar a imunologia também no teatro. Isso dá mesmo a sensação de estar pensando na direção certa. Depois, então, você olha para a sociedade e vê os mesmos problemas que se apresentam de novo: competição, especialização, atores isolados, destino, história, desenvolvimento, evolução. Na verdade estamos falando do óbvio, do cotidiano, da visão de mundo de cada cidadão, seja ele cientista, jornalista, cantor, ator, gari, dona-de-casa, mendigo, professor. Como é complexo tratar do óbvio, do que é silenciosamente aceito, questionar o que não devemos, ao menos fomos adestrados para questionar. “Pára de falar, menino!”, “Não mexe aí, garota!”, “Pára de incomodar um minuto!”, “Você tem que ser o melhor!”. Daí você vai passando pela vida, pelas rodas de conversa, pelas salas de aula, como um turista desinteressado, e vai comendo pelas beiradas, vivendo pela metade, querendo só se dar bem, olhando as pessoas sem olhar nos olhos, julgando pelas aparências, deixando se orientar pelo que ouviu dizer, o que você ouve no salão de cabeleireiro, na fila do banco, ou o que a mamãe falou. Você vai vivendo uma vida de torpor induzido pela televisão, ou pela pílula de tarja preta que toma há 30 anos para suportar tanta mediocridade em que está imerso.
Então fica tão difícil falar do óbvio, que sem conhecer o óbvio, o básico, o fundamental, desembestamos a contrariar a natureza, a biologia, também conhecida como Deus segundo Spinoza. Da imunologia passando pelo teatro e nossa vida em sociedade testemunho a agonia dos sentimentos, a tristeza, a depressão, a frustração pelos lugares onde ando, a maioria confusos, desmotivados, sem horizonte, com seus afetos embotados, sem libido para nada que não seja diversão de massa com apelo sexual estereotipado. Viraram gado. Todos se sentem aleijados de seus impulsos, desempenhando funções burocráticas de pura repetição a mando de alguma corporação de comunicações, farmacêutica, bancária.
Foram colocados para competir uns com os outros, mal sabendo que competir é anti-humano, destrói toda a poesia que nos faz humanos, que nos faz caminhar juntos, de mãos dadas, elimina nossa possibilidade de ter uma identidade própria, pois nada cria mais dependência que competir, faz com que você se paute no outro para existir. Quem compete na verdade depende. Mas estou aqui para escrever sobre a possibilidade, sobre a vida, sobre imunologia, medicina, teatro, saúde, arte, ciência, conhecimento. Conhecimento sobre a vida, por isso a biologia. E essa anda por um momento histórico interessante, uma grande transformação conceitual e ideológica, onde as ideias de destinos e talentos determinados (sejam por genes, ou outras partículas), seleção dos mais aptos, dos mais adaptados, competição, ameaças, ataques, defesas já são ideias derrubadas por uma biosfera, um universo, imanentes, interconexos, onde estamos todos acoplados uns nos outros, de protozoários a grandes primatas conversadeiros, numa grande deriva sem direções, planos ou objetivos a cumprir, onde a cooperação, a generosidade, o amor são as palavras chave. Onde o prazer é o aumento de nossa possibilidade de ação, e que quanto mais conhecermos essa biologia imanente, distribuída em tudo, mais conheceremos Deus, e viveremos uma vida de virtude não porque tememos o inferno ou obedecemos cegamente um mandamento, mas porque conhecemos nossa natureza, e faremos o que ela nos impele a fazer, que é estar em harmonia, em amor intelectual de Deus.
Essa vida é uma vida de prazer, de conhecimento, de conexão com a natureza. E para onde olhamos, da ciência da imunologia à arte do teatro, as mesmas questões apontam para uma vida muito melhor que essa do Shopping Center e da exclusão social, para um reencontro com uma coletividade natural, com a tribo, a comunidade da biosfera, cooperativa e amorosa, como todos nós sentimos que devia mesmo ser.

Post de Vítor Pordeus
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