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quinta-feira, 5 de março de 2015

Plaquetas regulam resposta de neutrófilos na inflamação

            Sabe-se que as plaquetas desempenham papel central nas reações inflamatórias. As plaquetas estão envolvidas no desenvolvimento de várias doenças como aterosclerose, artrite, dermatite e lesão pulmonar aguda. Diversos estudos mostram que as plaquetas podem controlar o recrutamento de neutrófilos e macrófagos e suas funções efetoras. Um estudo recentemente publicado na Science mostrou, utilizando de microscopia intravital em camundongos, que durante uma resposta inflamatória local é frequente a interação de plaquetas com os neutrófilos ancorados na parede endotelial em processo de migração. Quando uma inflamação local acontece, no caso do estudo foi induzida por inoculação de TNF, os neutrófilos são recrutados, perdem sua morfologia simétrica e se tornam polarizados, com bordas equipadas com conjuntos diferentes de proteínas. Uma dessas proteínas é a PSGL-1 que é um ligante de P-selectina. A interação de PSGL-1 nos neutrófilos com a P-selectina em plaquetas ativadas parece ser essencial para o início do processo de inflamação. A falta de PSGL-1 ou de P-selectina, assim como o bloqueio da interação entre as duas, impede que o processo de "crawling" do neutrófilo ocorra de forma eficiente. 
            Os pesquisadores ainda observaram que o bloqueio da interação mediada por PSGL-1 levou a um risco de morte mais baixo durante lesão pulmonar aguda em camundongos, além de reduzir o dano no fígado causado durante a sepse experimental. A produção de NETs pelos neutrófilos foi abolida após o bloqueio de PSGL-1 em ambos os modelos experimentais. Além disso, o bloqueio da interação melhorou a resposta de camundongos em um modelo experimental de isquemia cerebral. Os pesquisadores sugerem bloquear que essas interações em humanos poderia ajudar pessoas com doenças vasculares que envolvem inflamação, tais como doença cardíaca e acidente vascular cerebral. Especificamente bloqueando PSGL-1, ao invés de bloquear completamente as funções das plaquetas ou neutrófilos em si, poderia reduzir os efeitos colaterais indesejados provenientes da interferência direta com estas células importantes. O artigo, além de trazer resultados promissores, tem vídeos incríveis de microscopia intravital e de animações 3D que vale a pena conferir!

Modelo da interação neutrófilos-plaquetas 


                                                   Microscopia intravital mostrando a interação plaqueta-neutrófilos

Link para vídeos: http://www.sciencemag.org/content/346/6214/1234/suppl/DC1

V. Sreeramkumar et al., “Neutrophils scan for activated platelets to initiate inflammation,”Science, 346:1234-38, 2014.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Endonuclease da Saliva de Lutzomyia longipalplis aumenta a Sobrevivência de Leishmania em Neutrófilos




                      Imunodetecção de NETs por microscopia confocal e microscopia eletrônica.
                              Fonte: Brinkmann et al., 2004. Science.

Neutrófilos são células que participam da primeira linha de defesa contra infecções e que formam estruturas extracelulares denominadas NETs (do inglês "neutrophil extracelular traps"), capazes de eliminar Leishmania. O artigo publicado recentemente pela pesquisadora brasileira Andrezza Chagas do Laboratory of Malaria and Vector Research no NIH e que conta com a participação de outros pesquisadores brasileiros identificou que a Lundep, endonuclease presente na saliva de Lutzomyia longipalpis, é uma molécula capaz de destruir NETs. A enzima hidrolisa tanto DNA de fita dupla quanto de fita simples.

Os dados mostraram ainda que o bloqueio da formação de NETs induzidas pelo parasito ocorria após tratamento com Lundep recombinante e aumentava a sobrevivência da Leishmania em neutrófilos. Estudos in vivo mostraram que a co-injeção de Lundep com promastigotas metacíclicas de Leishmania major aumentava significativamente a infecção em camundongos em comparação com a injeção apenas de PBS ou Lundep em sua forma inativa.

Os autores sugerem que durante os eventos iniciais pós-inoculação, a enzima Lundep afeta o sistema inato do hospedeiro, principalmente pela destruição de NETs, permitindo que a Leishmania evada a resposta imune do hospedeiro, o que auxilia o parasito no estabelecimento da infecção. Mais uma vez, dados da literatura reforçam a relevância de compostos salivares do vetor na transmissão de Leishmania e na resposta imune frente à infecção e o seu potencial uso como componente de formulações vacinais anti-Leishmania.


Referências
Chagas AC, Oliveira F, Debrabant A, Valenzuela JG, Ribeiro JM, Calvo E. Lundep, a Sand Fly Salivary Endonuclease Increases Leishmania Parasite Survival in Neutrophils and Inhibits XIIa Contact Activation in Human Plasma. PLoS Pathog. 2014 Feb 6;10(2):e1003923. doi: 10.1371/journal.ppat.1003923.

Brinkmann V, Reichard U, Goosmann C, Fauler B, Uhlemann Y, Weiss DS, Weinrauch Y, Zychlinsky A. Neutrophil extracellular traps kill bacteria. Science. 2004 Mar 5;303(5663):1532-5.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Depois de lançar armadilhas, eles se movem como um "estilingue"!!!!

 

Em 2004, o grupo do Dr. Arturo Zychlinsky publicou na Science que para matar bactérias, os neutrófilos lançavam "armadilhas" feitas de enzimas e de DNA para fora da célula (veja abaixo). Essas armadilhas foram chamadas de NETs ( neutrophil extracellular traps). Foi uma revolução no campo da imunidade inata e muitos grupos começaram a trabalhar com NETs em vários contextos. No congresso em Quebéc ( The Neutrophil in Immunity, junho desse ano) pode-se ver uma grande atenção aos estudos com NETs... se elas são formadas in vivo, se são feitas de DNA nuclear ou mitocondrial (ou uma mistura deles), se podem ser marcadores de doenças...




Fonte: Neutrophil Extracellular Traps Kill Bacteria
Science
Vol. 303 no. 5663 pp. 1532-1535
DOI: 10.1126/science.1092385 


Há algumas semanas, um outro artigo curioso sobre o comportamento de neutrófilos foi publicado por um outro grupo muito bom ( Dr. Klaus Ley). Ao ler esse artigo, o primeiro ímpeto que eu tive foi de rir!!! O que é tão engraçado (pelo menos pra mim), é como a "vida imita a vida"... 

Explicando: imagine que você esteja em uma enxurrada e tivesse que resistir ao fluxo enorme de água que tenta te empurrar. Para resistir a esse fluxo, algumas estratégias "adesivas" podem ser necessárias, como se agarrar em alguma coisa, ou até mesmo se amarrar enquanto caminha até a margem.

E parece que os neutrófilos fazem isso muito bem. Neste último artigo, os autores mostraram que para resistir às enormes forças de cisalhamento dentro dos vasos sanguíneos, os neutrófilos lançam algumas projeções celulares como se fossem um estilingue ( "slings" ). Essas projeções formam uma espécie de "tapete adesivo" para que então o neutrófilo "role" de maneira mais segura e firme. Depois de rolar sobre este tapete, eles novamente lançam essas projeções, aumentando assim as forças adesivas e a resistência ao fluxo.


O artigo é bem curto (uma letter), então é bem fácil de ler.

Ah!!! A foto da sandália imitando um estilingue é uma carinhosa homenagem às Mulheres Imunologistas que tanto têm contribuído para a ciência mundial (não estou querendo lançar moda!)





terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Neutrófilos no centro da patogênese da tuberculose


Como estudar imunologia humana ? Para isso, marcadores de doença são fundamentais. Há 20 anos atrás, no Comitê de Doença de Chagas da OMS, nós procurávamos o marcador molecular ideal para a Doença de Chagas, e acreditávamos que este marcador seria melhor evidenciado por um anticorpo do paciente. Além de diagnóstico, o biomarcador ideal deveria também prever o aparecimento da doença num doador ainda sem sintomas.

A idéia estava correta, mas uma molécula apenas não foi capaz de preencher os requisitos. Vinte anos depois, os estudos de genômica mostram que biomarcadores eficientes são conjuntos (ou módulos) de dezenas de proteínas, que são reguladas em bloco durante o processo patológico. Ao invés de anticorpos, estes módulos moleculares agora são identificados pela análise genômica do RNA que é expresso nas células dos pacientes. Além disso, a análise funcional destas moléculas lança uma luz na patogênese da doença, e pode sugerir novas terapias.

A tuberculose (TB) é um exemplo de sucesso recente nesta área. A TB permanece como uma doença emblemática, apresentando morbidade e mortalidade altas. As respostas imunes responsáveis pela proteção ou suscetibilidade ao Mycobacterium tuberculosis permanecem desconhecidas. Recentemente, um estudo de genômica coordenado por Anne O’Garra, e realizado em dois centros independentes, na Inglaterra e África do Sul, identificou uma assinatura molecular de 393 genes, em pacientes portadores de TB ativa (Berry MPR et al., An interferon-inducible neutrophil-driven blood transcriptional signature in human tuberculosis. Nature 466; 973-979, 2010). Análises em chips de  microarranjos de DNA foram realizadas com o RNA extraído do sangue total ou de subpopulações de leucócitos dos pacientes. Dentro deste conjunto, foi isolada uma assinatura específica de 86 genes, capaz de discriminar a TB de outras doenças inflamatórias e infecciosas. A assinatura contém uma série de genes hiperexpressos e uma série de genes inibidos. Importante, a mesma assinatura foi também encontrada em 10-25% dos doadores assintomáticos, sugerindo que possa ser o marcador prognóstico ideal para identificar aqueles pacientes que irão progredir para a doença manifesta. Além disso, a expressão quantitativa da assinatura gênica foi diretamente proporcional à extensão do comprometimento pulmonar, e retornou progressivamente à normalidade com o tratamento (Figura). O exame dos genes envolvidos na assinatura molecular mostrou que estes são proteínas envolvidas na sinalização intracelular mediada principalmente, por interferon alfa/beta, e expressas principalmente em neutrófilos, e em menor grau, também em monócitos. Este estudo surpreendeu ao mostrar pela primeira vez a grande importância deletéria dos neutrófilos e dos interferons tipo I na tuberculose humana. No entanto, estudos prévios já haviam relatado a reativação de TB latente após a injeção de interferons do tipo I para tratamento de hepatite. Além disso, o estudo em pauta representa mais uma evidência da íntima interrelação funcional que existe entre macrófagos e neutrófilos nas infecções, seja para a imunoproteção ou para a suscetibilidade, fenômeno que vem sendo cada vez mais reconhecido na imunologia (Silva MT, J. Leukoc. Biol. 87; 93-106, 2010; Soehnlein O and Lindbom L, Nat. Rev. Immunol. 10; 427-439, 2010).


 Numa publicação mais recente, estes e outros especialistas em imunologia da TB se reuniram para discutir o papel dos neutrófilos na TB experimental e humana (Lowe DM et al, Neutrophils in tuberculosis: friends or foes ? Trends Immunol. 2012, epub ahead of print). No trabalho, os autores discutem a complexidade da resposta imune na TB, mas enfatizam o papel central dos neutrófilos na doença. As evidências em modelos experimentais sugerem que os neutrófilos têm um papel protetor nos estágios iniciais da infecção, mas com a evolução do processo infeccioso, os neutrófilos passam a desempenhar um papel claramente deletério, associado diretamente com as manifestações clínicas.

O fórum de especialistas conclui que, em indivíduos suscetíveis, a falência da imunidade Th1 ou a perda da resposta ao IFN-gama provocam um influxo de neutrófilos para os sítios de infecção. Este influxo poderia ser uma compensação para a função comprometida dos macrófagos. No entanto, os neutrófilos infiltrantes também estão disfuncionais, sendo facilmente infectados pelo M. tuberculosis, porém incapazes de matar o patógeno. Tais neutrófilos “frustrados” geram uma inflamação inespecífica, com produção de radicais tóxicos, secreção de enzimas proteolíticas, produção aberrante de citocinas, e necrose secundária, por falta de uma remoção fagocítica eficiente. A necrose irá perpetuar o processo inflamatório. Além disso, há evidências de que neutrófilos induzam supressão em linfócitos T efetores através da expressão de PD-1 ligante. A ingestão de neutrófilos mortos pode carrear bactérias para o interior de macrófagos, ou modular a função de macrófagos previamente infectados. Este processo de remoção pode ser pró- ou anti-inflamatório, dependendo de outros estímulos concomitantes. Este é um tema em aberto no cenário da infecção, e que vem sendo estudado, por exemplo, pelo grupo da Dra. Patricia Bozza, na Fiocruz do Rio de Janeiro. Outra questão fundamental, que já foi mencionada neste blog pelo Dr. Edgar Carvalho, são os fatores genéticos ou ambientais que determinam se os neutrófilos irão ou não invadir o tecido infectado, e como estes fatores correlacionam com resistência e suscetibilidade à infecção. O importante é salientar o salto da importância agora atribuída aos neutrófilos na TB. Um conceito que a imunologia não poderia prever há pouco tempo atrás. E que abre uma grande variedade de importantes linhas de pesquisa.     

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Neutrófilos apoptóticos e fenótipo regulador de macrófagos


Post de Valéria Borges
A interação de neutrófilos e macrófagos define eventos chave da resposta imune inata durante a infecção por diferentes patógenos. Os mecanismos deflagrados pelo reconhecimento e fagocitose de neutrófilos apoptóticos por macrófagos infectados por parasitas do gênero Leishmania tem sido tema de vários artigos do grupo liderado por Dr George Alexandre dos Reis (IBCCF,UFRJ) (1). A interação de neutrófilos apoptóticos com os macrófagos leva a uma resposta dependente do “background” genético do hospedeiro que irá determinar a morte ou sobrevivência da Leishmania.
Por outro lado, sabe-se que a resposta funcional de macrófagos aos estímulos do ambiente leva a uma diferenciação em sub-populações com fenótipo denominado M1 ativados classicamente ou M2a ativados alternativamente. Uma terceira população denominada de macrófagos regulatórios ou M2b expressam um fenótipo  IL-12lowIL-10high que esta associado a supressão da resposta inflamatória e induz uma diferenciação do tipo Th2. 
Recente publicação do grupo, no Journal of Immunology (“Proinflammatory Clearance of Apoptotic Neutrophils Induces an IL-12lowIL-10high Regulatory Phenotype in Macrophages”) (2), teve como objetivo investigar o fenótipo de macrófagos induzido pela fagocitose de neutrófilos apoptóticos e se essa mudança de perfil é estável após a subseqüente reestimulação com LPS, bem como suas implicações na infecção por Leishmania major.
Dentre os principais achados, os autores mostram que macrófagos derivados de medula óssea, previamente estimulados pela fagocitose de neutrófilos pró-inflamatórios de camundongos C57BL/6, mas não neutrófilos de BALB/c, expressam um fenótipo regulatório/M2b caracterizado por uma baixa produção de IL-12 com alta produção de IL-10, altos níveis de secreção de TNF e óxido nítrico. A indução de macrófagos regulatórios do tipo M2b induziu resposta de linfócitos do tipo Th2 e esteve associada a atividade da enzima elastase neutrofílica, sendo parcialmente dependente da sinalização por TLR4. Todo esse ambiente permissivo favorece a replicação intracelular de L. major em células infectadas.
Os resultados obtidos nesse estudo sugerem que a fagocitose de neutrófilos apoptóticos além de ser importante no processo de resolução da inflamação pode direcionar a diferenciação de macrófagos para um fenótipo regulatório, contribuindo para uma resposta humoral aumentada e persistência do parasita na célula hospedeira. 
Referências:
1. Ribeiro-Gomes FL, Silva MT, Dosreis GA. Neutrophils, apoptosis and phagocytic clearance: an innate sequence of cellular responses regulating intramacrophagic parasite infections. Parasitology. 2006;132 Suppl:S61-68.
2. Filardy AA, Pires DR, Nunes MP, Takiya CM, Freire-de-Lima CG, Ribeiro-Gomes FL, Dosreis GA. Proinflammatory Clearance of Apoptotic Neutrophils Induces an IL-12lowIL-10high Regulatory Phenotype in Macrophages. J Immunol. 2010 Aug 15;185(4):2044-2050.

sábado, 5 de junho de 2010

IL-33 e controle da migração de neutrófilos: Novas alternativas para o tratamento da sepse?


A sepse – síndrome de resposta inflamatória sistêmica a um insulto infeccioso – representa um problema clínico de grande relevância, devido a sua crescente incidência, custo e alta taxa de letalidade, e permanece como a principal causa de morte nas Unidades de Terapia Intensiva. A sepse é caracterizada por uma resposta inapropriada do hospedeiro frente à infecção, onde a resposta inflamatória à infecção com produção exacerbada de citocinas e ativação leucocitária é o principal determinante da gravidade da doença e evolução para a falência orgânica.

Em um trabalho elegante realizado pelo grupo liderado por Fernando Cunha/ USP-RP em colaboração com Foo Liew/ Universidade de Glasgow foi demonstrado um papel protetor para a IL-33 na sepse. José Carlos Alves Filho e colaboradores demonstraram que animais tratados com IL33 e submetidos a sepse polimicrobiana indizida por ligadura e punção cecal (CLP) apresentaram uma importante redução na mortalidade quando comparado aos animais controles não tratados. Os mecanismos associados à proteção da IL-33 na sepse foram relacionados a um aumento do recrutamento de neutrófilos para o foco infeccioso dependente do receptor CXCR2 e uma maior eficiência no clearence bacteriano. Estes mecanismos também parecem ocorrer na sepse humana visto que níveis elevados do receptor solúvel inibitório para IL-33 (sST2) e diminuição na expressão do receptor CXCR2 foram observados em pacientes que não sobreviveram a sepse. Estratégias específicas voltadas para a modulação da resposta inflamatória na sepse ainda não estão disponíveis na prática clínica e são alvos de intensa investigação, esse estudo poderá trazer desdobramentos interessantes nessa área. Vale a pena conferir.

O trabalho foi publicado na edição desta semana da Nature Medicine (Alves-Filho et al. 2010, Nat. Med 16: 708-712; doi:10.1038/nm.2156 ). Parabéns ao Zeca, Fernando e toda equipe!
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