BLOG DA SOCIEDADE
BRASILEIRA DE IMUNOLOGIA
Acompanhe-nos:

Translate

Mostrando postagens com marcador retratação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador retratação. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Reprodutibilidade em pesquisa, retratação de artigos e uma iniciativa educacional do NIH

Autor: Dinler Antunes, pós-doutorando no Departamento de Ciências da Computação da Rice University, no Texas/EUA.

A reprodutibilidade e os artigos retratados

A reprodutibilidade de experimentos/resultados é um dos pilares das ciências e a preocupação com o aumento de trabalhos retratados é um debate recorrente na comunidade (este tema foi previamente abordado aqui no SBlogI em post de Janeiro de 2012: "A reprodutibilidade em discussão"). Em um editorial da revista Infection and Immunity, publicado em 2011, os autores descrevem que a frequência de retratações varia entre os periódicos científicos e que existe uma forte correlação entre o "índice de retratação" (métrica desenvolvida pelos autores) e o fator de impacto da revista: quanto maior o impacto, maior o número de retratações.  

Figura 1. Correlação entre o fator de impacto do periódico e frequência de artigos retratados, indicada pelo "índice de retratação. Vide publicação original.

Obviamente esta correlação deve ser fruto de uma série de fatores. Por exemplo, o status e os possíveis benefícios advindos da publicação em revistas de alto impacto poderiam incentivar alguns pesquisadores a falsificar/omitir dados ou "maquiar" resultados, sobretudo considerando a maior exigência destas revistas quanto a clareza e coerência dos resultados. Alternativamente, as mesmas condições podem favorecer a publicação de dados incorretos ou conclusões equivocadas simplesmente por incentivar nos autores um comportamento mais ousado, quanto ao desenho experimental e a defesa das implicações e abrangência dos resultados. Consequentemente assumindo mais riscos e estando mais propensos a erros. Por fim, o maior número de retratações pode ser apenas o reflexo da maior exposição dos artigos publicados em revistas de alto impacto, fazendo com que os experimentos e resultados sejam discutidos e reproduzidos por uma parcela maior da comunidade. Conforme discutido por Liliane Lins no blog da SciELO, os pesquisadores são falíveis e o processo de revisão pelos pares também tem suas limitações, de modo que a publicação do artigo representa apenas a primeira etapa no processo de auto-correção das ciências. A exposição deste trabalho para a comunidade e sua confrontação com outros estudos permitirão que seja posteriormente confirmado ou refutado. Sua refutação, neste caso, pode ser tanto a constatação de que as conclusões estavam incorretas/incompletas, apesar de o trabalho ter sido desenvolvido de modo cientificamente adequado, ou que houve um sério erro na execução do estudo, a ponto de ele precisar ser retratado. 

Figura 2. (A) Número de artigos retratados por causas específicas, ao longo dos anos. (B) Porcentagem de artigos retratados por fraude ou suspeita de fraude por ano de publicação. Reproduzido de Fang e colaboradores, 2012.

Um estudo publicado em 2012 na revista PNAS, descrevendo a revisão de 2.047 artigos da área da saúde que constam como retratados no Pubmed, revelou que apenas 21,3% das retrações foram atribuídas a erros. Infelizmente, 67,4% das retratações foram atribuídas a conduta inadequada (misconduct), incluindo fraude ou suspeita de fraude (43,4%), publicações duplicadas (14,2%) e plágio (9,8%). Conforme também abordado por Liliane Lins, o crescente uso de ferramentas para detecção de plágio e de publicação duplicada deve reduzir ainda mais a ocorrência destes nos próximos anos, mas erros e fraudes são mais difíceis de serem detectados. O aumento no número de artigos retratados por fraude, observado na figura acima, pode refletir uma real "popularização" de condutas inadequadas, ou apenas maior eficiência nos mecanismos de verificação. 

Os custos pessoais, econômicos e sociais dos artigos retratados

Além das questões éticas e das implicações para o desenvolvimento da ciência, estas retratações tem um impacto econômico real e consequências legais para os envolvidos. Conforme apresentado por Stern e colaboradores (2014), o financiamento do NIH direcionado para trabalhos retratados soma aproximadamente 58 milhões de dólares no período de 1992 a 2012. Apesar de representar apenas 1% do orçamento total do NIH para o mesmo período, os custos indiretos para a sociedade são certamente muito maiores. Os autores citam o exemplo do trabalho que apresentou uma falsa associação entre vacinação e autismo (). Apesar de posteriormente retratado, o artigo gerou uma onda de desconfiança na população e o aumento de campanhas contra vacinação, as quais propiciaram os surtos de sarampo nos EUA e difteria na Espanha. Um surto de sarampo no Reino Unido, com 1200 casos reportados, teve um custo estimado de 800 mil dólares. (Esta polêmica em torno das vacinas também foi abordada em publicações anteriores do SBlogI, aqui e aqui). Mesmo após o controle de um surto, a baixa adesão a campanhas de vacinação mantém a limitada cobertura da população e propicia o surgimento de novos casos. Os EUA havia eliminado o sarampo em 2000, mas a partir de 2011 houve uma escalada no número de casos (CDC-2011, CDC-2015).
O longo tempo entre a publicação e a retratação amplia os impactos negativos do erro/fraude, tanto científicos quanto sociais. Pior do que isso, existe pouca divulgação acerca de trabalhos retratados e muitos deles continuam sendo citados mesmo após a retratação (Campanário, 2000, Ferguson, 2015). Algumas iniciativas independentes, como o blog Retraction Watch, tentam reunir e divulgar informações sobre trabalhos retratados. No que se refere ao aspecto pessoal, Stern e colaboradores (2014) reportaram uma redução de 91,8% (mediana) no número de publicações dos autores após terem seus artigos retratados, bem como uma importante redução no acesso a financiamento para pesquisa.


NIH oferece módulos de treinamento para rigor e reprodutibilidade em pesquisa


Preocupados com o crescente número de trabalhos retratados, em Janeiro de 2014 o NIH lançou uma série de iniciativas para fortalecer o rigor e a reprodutibilidade na pesquisa. Como parte deste projeto, o órgão esta financiando o desenvolvimento de uma série de módulos de treinamento no tema, visando atingir sobretudo alunos de pós-graduação e jovens pesquisadores. Além disso, já estão disponíveis quatro módulos iniciais desenvolvidos pelo NIH, com o objetivo de propiciar o debate. Estes módulos incluem vídeos e material acessório para guiar a discussão, abordando os seguintes temas: (i) falta de transparência, (ii) randomização e mascaramento, (iii) replicatas biológicas e técnicas e (iv) tamanho amostral e critério de exclusão. Confira abaixo o vídeo do primeiro módulo e veja aqui as perguntas propostas para orientar esta discussão.



terça-feira, 2 de junho de 2015

Retratações de artigos e outros problemas de integridade científica. Um problema crescente?

Um artigo no New York Times de 28 de maio último foi dedicado ao problema da retratação de artigos científicos (Retracted Scientific Studies: A Growing List aqui). A motivação do artigo foi a retratação na Science do artigo sobre mudança de atitudes frente ao casamento homoafetivo mas cita vários casos emblemáticos anteriores, incluindo o artigo que descreveu a relação entre vacinação e autismo publicado no Lancet e retratado 12 anos depois.


Um artigo da Nature de 2011 (aqui) havia mostrado que o problema  de retratações é crescente. O tema já foi tratado no SBlogI em postagens anteriores (aqui, aqui, aqui, entre outros, incluindo posts nos quais o problema é tratado mesmo não sendo o tema central).
Figura do artigo The Trouble with Retractions (aqui).

Em outubro de 2014, a FAPESP divulgou, identificando os pesquisadores, "Cinco casos de fraude científica – incluindo plágio e fabricação de dados – foram divulgados nesta terça pela Fapesp, fundação pública que financia a pesquisa científica no Estado de São Paulo. Desde o lançamento do Código de Boas Práticas Científicas, em 2011, é a primeira vez que a instituição expõe conclusões de investigações. A divulgação das fraudes deve continuar, conforme forem apuradas. A medida é inédita no Brasil."

Um possível esquema para ampliar as citações de revistas brasileiras foi denunciado em 2013 (Brazilian citation scheme outed. pdf aqui)

Figura do artigo Brazilian citation scheme outed. pdf aqui

O tema da retratação se soma à cobertura da imprensa para outros aspectos embaraçosos da atividade científica. Em 2012, um artigo na Reuters tratou da questão da irreproducibilidade dos dados de trabalhos científicos publicados. A former researcher at Amgen Inc has found that many basic studies on cancer -- a high proportion of them from university labs -- are unreliable, with grim consequences for producing new medicines in the future. … During a decade as head of global cancer research at Amgen, C. Glenn Begley identified 53 "landmark" publications -- papers in top journals, from reputable labs -- for his team to reproduce. Begley sought to double-check the findings before trying to build on them for drug development. Result: 47 of the 53 could not be replicated. He described his findings in a commentary piece published on Wednesday in the journal Nature." O artigo da Nature (pdf aqui) mostra aspectos interessantes, inclusive que artigos não reproduzíveis publicados em revistas com Fator de Impacto de 5 a 19, tiveram maior número de citações que os reproduzíveis. 

Tabela do comentário Raise Standards for Preclinical Cancer Research aqui

Contudo, o aumento de retratações não deve apavorar. Os artigos retratados representam cerca de 0,02% dos artigos publicados anualmente e isto pode refletir a decisão mais firme dos editores de retirar os resultados não confiáveis do que um aumento importante do problema. Contudo a divulgação dos episódios na imprensa leiga tende a maximizar os problemas. Assim, ou a comunidade científica enfrenta de forma decidida esta situação ou corre o sério risco de desmoralização e perda de credibilidade de forma perigosa.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Publicar é importante, mas não na seção de Retractions

Ao ler o artigo cujo título está acima, o amigo George dos Reis parece ter identificado mais uma promissora área de especialização dos advogados: consultoria e defesa de cientistas contra acusações de fraude e solicitações de retratações (retraction) de artigos científicos. Veja um trecho:

"After steadfastly defending her work against accusations of falsified data and an official misconduct ruling, the lead author on two controversial stem cell papers published this year in Nature has reportedly agreed to retract one of them. Earlier today, Japanese media began reporting that stem cell researcher Haruko Obokata of the RIKEN Center for Developmental Biology in Kobe, Japan, is willing to retract a paper concluding that so-called STAP stem cells can form a wide variety of tissues, but does not intend to retract the paper describing how to make those stem cells.” (veja o artigo completo no Science Insider aqui).
e fez o seguinte comentário:

"Ainda a respeito da matéria de cientistas terem advogado ... na verdade, eu estou mesmo é chocado com a quantidade de denúncias de fraude e retratações que estão acontecendo... agora parece epidemia ... há duas semanas atrás eu recebi um e-mail de um colega mostrando que num único número da revista Mol Cell, havia 3 notícias de retiradas de artigo, reunidos numa "nova" seção da revista chamada "retractions" (em duas destas retractions, o autor principal acusa um grupo inteiro de pesquisadores de um instituto, que fazia um tipo de analise molecular para eles, de fraudes sistemáticas por tempo longo. .uma mafia), na semana passada, mais 3, e agora esta. Acho que precisamos olhar com cuidado para o que esta acontecendo, pode ser que estas noticias se tornem alvo da imprensa comum e a ciência acabe perdendo o respeito da opinião publica ... parece ser fruto de uma desvirtuação do sentido da pratica da ciência."

Vejam que as “retractions"têm sido bastante lidas (espero que não contem para calcular o Fator de Impacto da revista).


Além de concordar com ele, precisamos tomar medidas sérias para coibir isto, mas também adotar medidas preventivas. É preciso mudar a cultura do meio científico para devolver a ciência para a busca do conhecimento da natureza e não esta competição desenfreada por um reconhecimento fugaz. 

O tema de retratação de artigos já foi tópico de discussão no SBlogI, assim como em vários outros blogs. No caso do SBlogI, alguns dos tópicos discutidos desde 2011, estão abaixo.

Jan 13, 2011
A cada dia que passa parece que o número de artigos que sofre retratação (retraction) aumenta. Fiquei impressionada com o acontecimento ocorrido no volume 79, da revista Infection and Immunity de 2011: 5 artigos de um ...

Sep 04, 2011
O Wall Street Journal public um artigo sobre o crescente número de trabalhos retirados (retracted): Mistakes in Scientific Studies Surge (aqui, mas somente para assinantes). O MinnPost.com publicou um comentário ...

Jan 30, 2013
5 Murat Çokol, Fatih Ozbay e Raul Rodriguez-Esteban, “Retraction rates are on the rise” [Taxas de retração estão em ascensão], EMBO Reports, 2008. 6 Ler Isabelle Bruno, “Pourquoi les droits d'inscription universitaires ...

©SBI Sociedade Brasileira de Imunologia. Desenvolvido por: