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segunda-feira, 23 de abril de 2012

O espalhamento da desordem - texto do professor Rafael Linden

Para nossa reflexão segue o texto do professor Rafael Linden - Instituto de Biofísica - UFRJ
http://umcientistanotelhado.blogspot.com.br/2012/04/o-espalhamento-da-desordem.html

Vale a pena ler!!!

Jounal club Iba: O paradigma da hipótese da higiene


A hipótese da higiene, originalmente proposta por Strachan em 1989, se baseava em estudos epidemiológicos que mostravam a relação inversamente proporcional entre sanitização e desenvolvimento de doenças atópicas. Seu conceito principal era que o indivíduo nascia predisposto a desenvolver um padrão Th2 de resposta, e a exposição a microorganismos na infância seria necessária para o desenvolvimento do padrão Th1, que contrabalancearia a tal resposta Th2 e impediria o desenvolvimento de doenças alérgicas. No entanto, estudos epidemiológicos também mostravam que a prevalência de doenças autoimunes e inflamatórias aumentava em países mais urbanizados e com melhores condições de sanitização, fazendo o conceito original da hipótese cair por terra, já que estas doenças são mediadas por padrões Th1/Th17 de resposta. A explicação alternativa para este fenômeno foi, durante muito tempo, o desenvolvimento deficiente das Tregs em indivíduos criados em melhores condições de higiene. Experimentos em camundongos germ-free (GF) corroboraram esta observação, já que vários trabalhos demonstram que estes animais têm menor número de Tregs e defeitos funcionais das mesmas. No entanto, a principal característica destes animais é a ausência da microbiota, e o foco da atenção nesta linha de pesquisa mudou novamente; o objetivo agora é determinar quais alterações ocorreriam no intestino, mediadas pela presença da microflora, ou seja, qual o efeito desta “infecção persistente” no desenvolvimento do sistema imune. Diversos trabalhos mostram a participação da microbiota no desenvolvimento das Tregs e na inibição da resposta inflamatória (não mediada por Tregs). No entanto, diversos outros estudos mostram que a participação da microbiota acarreta no desenvolvimento de doenças inflamatórias, e estes trabalhos contraditórios acabaram por colocar em xeque a hipótese da higiene. Agora, os trabalhos publicados recentemente na Nature Medicine e Science mostram como a microbiota influenciaria de maneira positiva no desenvolvimento da resposta imune, e fornecem mais evidências experimentais a favor da hipótese da higiene.
 No estudo publicado na Science por Olszak et al., e que foi assunto de um post neste blog em 27.03.12, os autores demonstraram que células iNKT estão aumentadas no cólon e no pulmão de animais GF quando comparados com animais specific pathogen free (SPF). No estudo, animais GF foram mais susceptíveis para modelos de colite (induzido por oxazolona) e asma (induzido por OVA) e, de maneira interessante, o aumento da suscetibilidade de animais GF foi bloqueado quando os animais foram tratados com anticorpo contra a molécula CD1d, demonstrando a atuação determinante de células iNKT. Além disso, quando a microbiota foi reestabelecida em animais GF neonatos, a proporção de células iNKT diminuiu e o animal demonstrou melhora nos modelos de colite e asma. Entretanto, quando a microbiota foi reestabelecida em animais GF adultos a proporção de células iNKT não se alterou e os animais permaneceram susceptíveis. Assim, a ausência da microbiota estaria influenciando essa população específica de células de maneira estável e persistente, situação que levou os pesquisadores a procurarem qual seria o fator relacionado com esse aumento de iNKT específico no pulmão e cólon. Então, os autores observaram que a quimiocina CXCL16, a qual atrai células iNKT, está em maior quantidade no pulmão, cólon e inclusive no soro de animais GF, sem que o receptor para CXCL16 (CXCR6) esteja mais expresso nas células iNKT. Enfim, para sacramentar a importância da microbiota nesse contexto, os pesquisadores demonstraram que a ausência da mesma está relacionada ao aumento de hipermetilação de sítios CpG no gene para CXCL16, permitindo-se assim um aumento da expressão dessa quimiocina. Esse trabalho dá suporte à hipótese da higiene e demonstra a influência que a microbiota pode exercer sobre o funcionamento normal do sistema imune. Um dos próximos passos seria entendermos quais habitantes intestinais específicos que beneficiariam nosso sistema imune.

Nesta mesma linha de raciocínio, o trabalho publicado mais recentemente na Nature Medicine por Hill et al. e que foi assunto de um comentário desta mesma edição (Khosravi & Mazmanian, 2012), também corrobora a idéia de que a microbiota comensal ao influenciar no desenvolvimento da resposta imune, diminui a susceptibilidade à ocorrência de doenças alérgicas e demonstra possíveis mecanismos envolvidos nessa modulação pela microbiota. A partir de experimentos utilizando camundongos GF e tratados com antibiótico quando comparados a animais controles, sugere-se o seguinte modelo (Figura): na ausência da microbiota comensal não haveria reconhecimento pelos receptores de reconhecimento padrão e consequente sinalização via MyD88, o que especificamente na célula B levaria ao aumento da produção de IgE, que, por sua vez, atuaria indiretamente aumentando a proliferação de basófilos. Desta forma, a microbiota comensal limitaria a ocorrência de doenças alérgicas. No entanto, os mecanismos envolvidos neste fenômeno ainda precisam ser totalmente desvendados, lembrando-se também que existem outros fatores associados, como os genéticos e ambientais (dieta, exposição a agentes infecciosos), que tornam o assunto mais complexo e ainda mais interessante para nós imunologistas.



Post de Jaqueline Raymond, Luana Soares e Felipe da Silva.

domingo, 22 de abril de 2012


Citometria de Massa: Uma Ferramenta  Adicional para Monitorar a Resposta Imune



Fonte: Science.


Na semana passada tivemos no NIH um workshop interessante sobre Monitoração da Resposta Imune. Um dos pontos discutidos foi o uso de novas ferramentas para essa avaliação que permitam a análise de grande número de marcadores com volumes de amostras relativamente pequenos. O pesquisador da Stanford University, Garry P. Nolan, mostrou os resultados que vem alcançando usando a Citometria de Massa.

A medida de parâmetros múltiplos numa única célula, utilizando-se citometria convencional é limitada pela sobreposição dos espectros de fluorescência dos fluoróforos. A imunofenotipagem por citometria de massa permite a análise de mais de 36 proteínas numa velocidade de 1000 células/segundo e sem a presença dessa sobreposição. Ao invés de fluorocromos, a citometria de massa usa metais raros da tabela periódica (lantanídeos) associados a anticorpos. As células passam individualmente através de um tubo, são pulverizadas dentro de uma câmara pequena, aquecidas a cerca de 13.000oF e vaporizadas em nuvens sucessivas de núcleos atômicos e elétrons. Em seguida, o conteúdo de cada nuvem (que era uma célula) é arremessado contra uma parede. Um detector conta os átomos, enquanto eles aterrissam e assim, o instrumento pode determinar a massa de cada um deles.

Usando essa técnica, o grupo do Dr. Nolan examinou a medula óssea de indivíduos saudáveis, medindo simultaneamente 34 parâmetros para cada célula analisada (31 anticorpos, viabilidade, conteúdo de DNA e tamanho celular). Os dados foram publicados no ano passado na revista Science (Bendall et al., 2011). Embora a técnica tenha sido usada para analisar os processos de sinalização celular em vários tipos celulares do sistema hematopoiético humano, pode ser aplicada também para vários outros sistemas e, provavelmente, será uma metodologia utilizada com frequência pelos grupos de pesquisa futuramente.

Referências:
- Bendall SC, Nolan GP, Roederer M, Chattopadhyay PK. A deep profiler's guide to cytometry. Trends Immunol. 2012 Apr 2.

- Nolan GP. Flow cytometry in the post fluorescence era. Best Pract Res Clin Haematol. 2011.

- Bendall SC, Simonds EF, Qiu P, Amir ED, Krutzik PO, Finck R, Bruggner RV, Melamed R,  Trejo A, Ornatsky OI, Balderas RS, Plevritis SK, Sachs K, Pe’er D, Tanner SD, Nolan GP. Single-cell mass cytometry of differential immune and drug responses across a human hematopoietic continuum. Science 332, 687–696 (2011).

sábado, 21 de abril de 2012

Sempre ouvi que a vida é uma causa perdida. Será?


Fonte: Revista Piauí.

Li recentemente uma correspondência publicada no final do ano passado pelo grupo de Cassatella na Nature Immunology. Nela, o grupo ataca de forma contumaz um artigo publicado na mesma revista pelo grupo de Cerundolo em novembro de 2010. O grupo de Cerundolo afirma que a amilóide sérica A1, uma proteína de fase aguda, induz a secreção de grandes quantidades de IL-10 por neutrófilos humanos – de 100 a 400 ng/mL. Em contrapartida, o grupo de Cassatella refuta tal dado, alegando que o mesmo experimento fora feito em quatro laboratórios diferentes espalhados pelo mundo – um no Reino Unido, dois na Itália e um na Alemanha - e que os resultados obtidos são contrários aos do grupo de Cerundolo, mesmo utilizando diversos estímulos, incluindo a própria amilóide sérica A1.
            Num primeiro momento, encarei inepto aqueles resultados. O que me interessava, a priori, era saber se o neutrófilo produz ou não IL-10, já que muitos artigos estão mostrando por aí a presença desse tal neutrófilo regulador; mas, a posteriori, fiquei pensando cá com os meus botões: “teria o grupo de Cerundolo se enganado com os dados publicados? Ou o grupo de Cassatella teria sido intransigente demais, a ponto de levantar o dedo em riste e alegar uma possível farsa? Ou seriam meramente resultados opostos? Ou ainda problemas técnicos durante a detecção de IL-10?” Não cabe a mim analisar o mérito da questão, porém muito me intrigou a forma recriminatória que um grupo comentou o trabalho do outro. Não façamos falso julgamento de ninguém, mas certamente essas questões nos remetem a um assunto recorrente aqui no blog: a falta de idoneidade no mundo da pesquisa.
            Estático, acompanhei mais uma matéria publicada na revista Piauí sobre novas suspeitas de fraude cometidas por pesquisadores brasileiros. A matéria tem como título Os alquimistas, fazendo alusão a químicos brasileiros. O texto – muito bem escrito, por sinal – põe em xeque onze estudos publicados, os quais foram retratados recentemente pela Elsevier. Acompanhe ipsis litteris trechos da matéria: “... Como engenheiro químico, o pesquisador altera a estrutura de materiais que ocorrem espontaneamente na natureza. Ele trabalha principalmente com argilas coletadas por geólogos em trabalhos de campo, sobretudo na Amazônia. ‘O geólogo não tem grande interesse nos materiais com que trabalho, às vezes até os despreza’, explicou. ‘Mas na mão de um engenheiro químico eles podem ser modificados.’ O pesquisador insere moléculas nessas argilas a fim de lhes conferir propriedades de interesse industrial. ‘Esse material, por exemplo, tem esse espaço vazio’, ensina ele, apontando para a imagem de microscópio de uma esmectita na tela de um computador. ‘Aqui dentro posso colocar uma molécula orgânica que a torne mais reativa.’” A técnica de ressonância magnética nuclear é então utilizada para confirmar a inserção de tais moléculas, gerando um espectro. “O objeto das suspeitas de fraude são justamente os resultados desses exames de ressonância magnética nuclear. O autor e os cosignatários do trabalho estão sendo acusados de manipular os espectros: haveria a repetição do padrão de ruídos em vários gráficos – algo impossível para uma medida que deveria ser randômica. Quem chamou a atenção da Elsevier para essas irregularidades foi um pesquisador português da Universidade de Aveiro, mantido no anonimato pela editora.” (leia a matéria completa aqui).   
            Aliás, é inacreditável a disseminação desta prática abominável em todas as esferas institucionais, seja na política, no poder judiciário, ou mesmo nas instituições de ensino superior. É uma espécie de banalização da corrupção. E, nas universidades, isso não está arraigado apenas no ato da publicação, mas também se proliferou como um câncer nos recantos mais sombrios dos próprios laboratórios de pesquisa. Não é novidade alguma ouvirmos casos de processos judiciais, ou de pessoas que prejudicam o andamento do projeto de outrem, ou mesmo de pessoas sem escrúpulos que burlam resultados em artigos científicos. Mas o que torna essa prática cada vez mais frequente no ambiente acadêmico? Certamente toda essa engrenagem é movimentada pelo olhar altaneiro da má fé, que gera resultados rápidos e consequentemente alicerça o arrivismo.           
A vida, meus caros, se esvai como neve ao sol, e seguramente aqueles que se utilizam de interesses vis e escusos para atingir os seus objetivos não conseguiram entendê-la. É certo que não nos interessa a inocuidade generalizada no mundo da pesquisa, mas também não queremos adeptos da idéia maquiavélica de que os fins justificam os meios. Assim como na imunologia, a vida é regida pelo equilíbrio; pena que muitos não conseguiram captar o seu verdadeiro significado.
Post Scriptum: Ah! Sou da opinião de que neutrófilos não produzem IL-10. E, se produzem, não alcançam níveis tão estratosféricos como o anunciado.

Referências:

Davey MS, Tamassia N, Rossato M, Bazzoni F, Calzetti F, Bruderek K, Sironi M, Zimmer L, Bottazzi B, Mantovani A, Brandau S, Moser B, Eberl M, Cassatella MA. Failure to detect production of IL-10 by activated human neutrophils. Nat Immunol. 2011 Oct 19;12(11):1017-8.
De Santo C, Arscott R, Booth S, Karydis I, Jones M, Asher R, Salio M, Middleton M, Cerundolo V. Invariant NKT cells modulate the suppressive activity of IL-10-secreting neutrophils differentiated with serum amyloid A. Nat Immunol. 2010 Nov;11(11):1039-46. Epub 2010 Oct 3.
De Santo C, Salio M, Dong T, Reiter Y, Cerundolo V. Reply to "Failure to detect production of IL-10 by activated human neutrophils". Nat Immunol. 2011 Oct 19;12(11):1018-20.


Post de Tiago Medina (doutorando FMRP – Iba)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Ciência em Foco



Colegas,


fui convidado no final do ano passado para apresentar um quadro sobre ciência, no Programa Trocando em Miúdos, aqui da Rádio Universitária da UFU. O programa é apresentado pelo jornalista Márcio Alvarenga e completa em 2012 25 anos de existência, falando sobre os mais diferentes temas.


O quadro chama-se Ciência em Foco e consiste na apresentação de temas científicos variados em um espaço de 5-10 minutos, um dia na semana. 


Já havia participado de algumas gravações para o programa, conforme já relatei AQUI e AQUI. Contudo, devo confessar a vocês que o desafio não é fácil... Como sou muito naive neste tipo de comunicação, sempre opto por entrevistas: acho mais fácil perguntar do que discorrer sobre um assunto variado!


Estou mencionando este assunto pois os temas abordados, por motivos óbvios, tem um tintura do SBlogI.


Caso queiram conferir, seguem alguns links dos quadros já gravados.


- João Marques Madurro, Paulo Rogério de Farias e Matias Szabó falam sobre o ensino na pósgraduação, financiamento de pesquisa, divulgação e desenvolvimento científico.


- Prof. Álvaro Ferreira Jr. sobre as proteínas do ovo de galinha.


- Dr. João Paulo Servato sobre lesões bucais.


- Prof. Sergio Vitaliano falando sobre as doenças que acometem os animais selvagens.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Quem?





Dia desses conversamos aqui sobre crowdsourcing.


Nesse fim de semana, um amigo me passou essa foto (veja melhor aqui). Parece que tem a ver com a imunologia brasileira... Voce poderia situar a foto no tempo e dar informações? Melhor ainda, voce poderia acrescentar outras fotos do evento nesse site que criei?

O objetivo é preparar um artigo longo juntando essas informações, memórias, perspectivas.

Vamos lá!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE: Junções comunicantes e hepatotoxicidade





Nos últimos anos, um grande esforço tem sido feito por vários grupos de pesquisa para compreender fatores e mecanismos envolvidos na lesão hepática. Esse grande interesse deve-se, principalmente, ao fato do fígado constituir um órgão essencial à vida do organismo por desempenhar funções como controle metabólico, síntese de proteínas plasmáticas e detoxificação de substâncias endógenas e exógenas. Os fatores que causam lesão no fígado podem ser divididos, de maneira geral, em duas grandes classes: i) agentes infecciosos, como vírus, bactérias, dentre outros, e ii) químicos, como diversas drogas.
Nesse sentido, a causa mais frequente de lesão hepática induzida por drogas é a overdose acidental ou intencional (suicida) com o paracetamol (APAP), um analgésico e antipirético de fácil acesso. A patogênese da lesão hepática causada pelo APAP resulta na morte massiva de hepatócitos por necrose, culminando consequentemente em falência hepática aguda. É interessante ressaltar que os danos causados ao fígado pelo APAP continuam se propagando mesmo quando as concentrações plasmáticas dessa droga atingem níveis próximos ao limiar de detecção. Isso sugere que outros fatores estão associados com a progressão da lesão. Um desses fatores é a inflamação local em resposta à morte dos hepatócitos por necrose, caracterizada pela presença abundante de neutrófilos, que pode amplificar a morte celular do parênquima hepático. No entanto, existe outro modo importante de progressão da lesão: via interação célula-célula no próprio parênquima.
Um componente importante da manutenção da homeostase do fígado é a comunicação direta entre os hepatócitos, mediada pelas junções comunicantes (gap junctions). As junções comunicantes são formadas por proteínas conhecidas como conexinas, sendo que no fígado, a conexina mais amplamente expressa nos hepatócitos é a Cx32. Já é descrito na literatura que diversos fatores que promovem tanto sobrevivência quanto morte celular são compartilhados entre os hepatócitos através de canais formados por Cx32 (Fig. 1) (Vinken, 2011). Essa via também está associada à propagação da inflamação hepática (Patel et al., 2009).

Figura 1: Conexinas e comunicação intercelular em hepatócitos. As conexinas (Cx32, no fígadoafetam a homeostase do órgão ao mediar o fluxo de fatores de sobrevivência e/ou morte celular entre hepatócitos através de juncões comunicantes (1), sinalização por receptores transmembranosos específicos mediado por hemicanais (2-3), ou, ainda, por afetarem o funcionamento de mitocôndrias (4). Baseado em Vinken 2011.

Recentemente, Patel e colaboradores (2012) publicaram um estudo no periódico Nature Biotechnology relacionando a influência de Cx32 e a lesão hepática induzida por drogas. Os autores demonstraram que camundongos knockout para Cx32 (Cx32-/-) são resistentes à lesão hepática induzida por diferentes tipos de drogas (paracetamol e tioacetamida). Análises histopatológicas de animais selvagens revelaram regiões extensas de necrose, com abundante infiltrado de células inflamatórias, que não estava presente nos animais que não expressavam a Cx32. Posteriormente, os autores realizaram experimentos em animais selvagens com o objetivo de estudar o potencial terapêutico da inibição farmacológica das junções comunicantes formadas por Cx32 na prevenção da hepatotoxicidade induzida por drogas. Para essa finalidade, foi utilizado o 2APB (2-aminoetoxi-difenil-borato) para bloquear seletivamente os canais formados por Cx32. Nesse sentido, foi observado que o pré-tratamento com 2APB resultou em proteção à hepatotoxicidade causada por tioacetamida e paracetamol, semelhante ao que já havia sido encontrado em camundongos Cx32-/-. Surpreendentemente, os efeitos protetores do bloqueio de Cx32 não se restringem apenas ao período antes do desafio dos animais com as referidas drogas. Foi demonstrado que tanto a co-administração das drogas com 2APB quanto a administração de 2APB após 6 horas de overdose são estratégias eficazes para proteger os animais da falência hepática aguda. Ainda, essas estratégias reduziram a mortalidade dos animais expostos ao APAP de 80% para 30%, e de 100% para 0% no grupo exposto a tioacetamida, mostrando que de fato a comunicação entre as células (por exemplo, via junções comunicantes) pode distribuir inclusive mensagens relacionadas à morte celular, sendo portanto um mecanismo de amplificação de lesões em órgãos.
Entretanto, o estudo apresenta uma limitação técnica importante. Embora a relação entre canais de Cx32 e lesão hepática induzida por drogas, descrita no trabalho, seja inquestionável nos camundongos deficientes para Cx32, os efeitos do bloqueio dessas conexinas e a proteção contra lesão direta das drogas precisam ser interpretados com cuidado. A droga utilizada como bloqueador de Cx32, o 2APB, é também um bloqueador da via de sinalização de cálcio mediada por IP3 (inositol trifosfato). Sendo assim, o desenho experimental utilizado no presente estudo não nos permite concluir quais efeitos são devidos ao bloqueio das junções comunicantes e quais são influenciados por possíveis alterações na sinalização de cálcio (estas que são muito relevantes para diversos processos celulares). Dessa forma, estudos que continuem a investigar a contribuição das conexinas tanto em condições normais quanto patológicas, ainda são extremamente necessários.

Autores: André Gustavo Oliveira, Pedro Elias Marques e Gustavo Batista de Menezes
Laboratório de Imunobiofotônica, Instituto de Ciências Biológicas - UFMG
Referências Selecionadas:
Suraj J Patel, Jack M Milwid, Kevin R King, Stefan Bohr, Arvin Iracheta-Velle, Matthew Li, Antonia Vitalo, Biju Parekkadan, Rohit Jindal, Martin L Yarmush (2012). Gap junction inhibition prevents drug-induced liver toxicity and fulminant hepatic failure. Nature Biotechnology, 30:179-185.
Mathieu Vinken (2011). Role of connexin-related signalling in hepatic homeostasis and its relevance for liver-based in vitro modeling. World Journal of Gastrointestinal Pathophysiology, 15:82-87.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Nucleotidases/Adenosina e o estabelecimento da infecção por Leishmania sp.


Apesar dos inúmeros estudos realizados para desvendar os eventos imunológicos que ocorrem durante a leishmaniose visceral, a complexa interação entre parasita-hospedeiro dificulta a montagem deste intrigante quebra cabeça. Estudos sobre a regulação do sistema imune contra Leishmania sp. tem apontado um possível papel para as enzimas ectonucleotidases e o seu produto, adenosina. O aumento na concentração de adenosina extracelular inibe as funções efetoras das células do sistema imune do hospedeiro, via ativação de diferentes combinações de receptores purinégicos.
Uma revisão recente publicada por Palleta-Silva & Meyer-Fernandes [http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3189589/?tool=pmcentrez] esclarece que as ectonucleotidases são enzimas presentes na membrana dos parasitos com sítio ativo voltado para o meio extracelular, que catalisam a hidrólise de nucleotídeos de adenosina. Nucleotídeos extracelulares estão envolvidos em muitas funções fisiológicas, via sinalização purinérgica, que envolve uma família de receptores expressos concomitantemente em várias células do sistema imune como neutrófilos, macrófagos, células dendríticas e células T. A atividade dessas enzimas varia entre e as muitas espécies do gênero Leishmania sendo diretamente relacionada com a virulência e gravidade da doença. Um artigo publicado em 2011 [http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1286457908001202] ressalta que as características intrínsecas do parasita podem sim direcionar a forma clínica da leishmaniose. Neste artigo, os autores demonstraram que isolados de L. amazonensis obtidos de pacientes com leishmaniose visceral apresentam maior atividade ecto-ATPase do que isolados de pacientes com leishmaniose cutânea localizada e difusa.  Uma pesquisa com pacientes com LV revelou que estes apresentavam elevada concentração de adenosina apesar da diminuição de nucleotidases do hospedeiro [http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21729107]. Esses achados apontam as ecto-nucleotidases como importantes alvos terapêuticos contra leishmanias.

Rafael Paletta-Silva and Jos´e RobertoMeyer-Fernandes, 2011

Quais outras moléculas e mecanismos esse expert protozoário lança mão para sobreviver?! Que venham mais pesquisas!

Luana Seraphim, Fabricia Alvisi & Priscila Lima, Pós-Doutorandas

domingo, 15 de abril de 2012

Mudar é essencial para crescer

Phileno Pinge Filho - Universidade Estadual de Londrina

No dia 16 de abril de 1996 inicie minhas atividades como professor assistente na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Naquela época os laboratórios em sua grande maioria estavam sucateados e os poucos pesquisadores existentes sonhavam com a criação da “FAPESP do Paraná”. Em 12 de agosto de 1998, o governador do Estado do Paraná Jaime Lerner, decretou a criação da Fundação Araucária (FA) tendo por finalidade o amparo à pesquisa e à formação de recursos humanos necessários ao desenvolvimento científico e tecnológico do Estado do Paraná. Seus recursos financeiros têm origem no Fundo Paraná, que destina 2% da receita tributária do Estado ao desenvolvimento científico e tecnológico. Desse percentual, até 30% são destinados à Fundação.

Segundo dados da Capes/MEC, o Paraná possui 212 programas de pós-graduação entre mestrado e doutorado. Sete em cada dez profissionais com doutorado que trabalham no Paraná obtiveram o título em outros estados. É o que revelou um levantamento do Ins­ti­tu­to Paranaense de Desen­vol­vimento Econômico e Social (Ipardes) e da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti) divulgado recentemente. Dos 4.496 doutores contabilizados em 2008, apenas 1.291 defenderam suas teses em instituições paranaenses de ensino superior. A principal origem dos profissionais que vieram de fora é São Paulo.

A deficiência do Paraná na oferta de doutorados está sendo corrigida gradualmente e isso se deve em grande parte ao papel exercido pela FA. De fato, o Estado do Paraná apresentou um crescimento superior à média na­­cional na criação de cursos de doutorado entre 1999 e 2009 – 204% (de 26 para 79 cursos) contra 78% no Brasil (de 800 para 1.421, veja o quadro abaixo).

Mesmo quando percebemos que mudar é inevitável, as pessoas respondem diferentemente aos desafios. Alguns regridem emocional e profissionalmente e se recusam a tomar parte da ação. Por outro lado, existem aquelas que vão para o outro extremo e mudam com cada mudança do vento que sopra. Estas pessoas viram ótimas opções em situações que eram péssimas em sua maioria e perceberam a importância da mudança para o fortalecimento emocional e crescimento profissional.

Por vários motivos a FA não se tornou a “FAPESP do Paraná”, mas hoje os pesquisadores do Paraná já podem contar com melhores condições de trabalho e equipamentos imprescindíveis para o desenvolvimento de muitas atividades outrora impossíveis de serem realizadas de maneira plena.

Journal Club Iba: Lin28b como o regulador “master” das células tronco hematopoiéticas fetais

Células troncos hematopoiéticas (HSC – hematopoietic stem cell) podem ser diferenciadas em dois tipos: fetais e adultas. O sistema imune fetal é desenvolvido a partir das HSC do fígado, que é um local transiente na hematopoiese, enquanto as células imunes formadas na fase pós-natal e durante a fase adulta são provenientes das HSC da medula óssea. A partir dos progenitores linfóides fetais são geradas as células B que se localizam na zona marginal do baço, células B do tipo B1a, localizadas no peritônio, além das células T γδ (CD4+, Vγ1.1, Vδ6.3) e as células iNKT (célula T Natural Killer invariante). Esses linfócitos são chamados de linfócitos “innate-like” e localizam-se estrategicamente no corpo. Diferentemente, as células progenitoras linfóides adultas irão diferenciar-se em células B2 e Tαβ (linfócitos convencionais) e um pequeno grupo de células Tγδ. Essas preferências no desenvolvimento de cada tipo celular respondem às necessidades de cada fase: durante a fase fetal, as células do sistema imune respondem rapidamente a um número limitado de moléculas estranhas; durante a fase adulta, as células imunes apresentam um grau de especificidade aguçado, conseguindo assim, reconhecer uma diversa gama de patógenos.

Joan Yuan et al., 2012 (aqui) identificaram um regulador do desenvolvimento das células hematopoiéticas, o Lin28b. Essa proteína, bloqueia especificamente a família dos microRNAs let-7 que são responsáveis pela inibição da proliferação celular. O gene que codifica o Lin28b está expresso especificamente no fígado fetal e timo tanto em camundongos quanto humanos, contudo está ausente nas células da medula óssea adulta. Os miRNAs da família let-7, por sua vez, apresentam uma proporção inversa do Lin28b, ou seja, eles não são expressos na fase fetal, mas sim na adulta. Células da medula óssea modificadas para expressar Lin28b adquirem a capacidade de gerar linfopoiese tipo fetal.

Não está descrito se em transplante de medula óssea a partir de HSC adultas ocorre o desenvolvimento de células B da zona marginal e células B-1. Devido ao fato desses linfócitos “innate-like” fetais apresentarem rápida proliferação e serem mais eficientes contra alguns patógenos, a persuasão de células da medula óssea para adquirirem propriedades fetais poderia ser realizada para transformar na clínica uma resposta imunológica inata e adaptativa mais completa.

Post de Thaís Bertolini, Éverton Padilha e Luiz Gustavo Gardinassi

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