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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Promessas da imunoinformática para uma nova geração de vacinas

     No último post eu comentei sobre o surgimento da imunoinformática e sobre o crescente uso de ferramentas computacionais para o desenvolvimento de vacinas, tendo mencionado um trabalho sobre a vacinologia reversa no século 21 [1]. Neste artigo, publicado em 2013, os autores discutem como as novas tecnologias ajudaram a aprimorar a proposta original da vacinologia reversa [2], a qual visa determinar o repertório antigênico de um dado patógeno à partir de sua sequência genômica. A proposta original foi planejada para levar rapidamente da sequência genômica de uma amostra patogênica a uma lista de candidatos vacinais, utilizando-se etapas de triagem virtual por bioinformática. O processo envolvia a testagem de um amplo painel de candidatos em modelos animais, de modo que apenas no final eram gerados dados epidemiológicos sobre os antígenos protetores. Nas aplicações mais recentes da vacinologia reversa, as etapas de bioinformática foram complementadas com diversas triagens experimentais, utilizando RNAseq, análises proteômicas, dados de micro-arranjo, citometria de fluxo, etc [1]. Os autores discutem ainda que o conhecimento acerca da epidemiologia dos candidatos vacinais, bem como sua regulação e a interação parasita-hospedeiro devem se tornar parte integral nos novos fluxogramas de triagem virtual.
     Em outra publicação de 2013, a equipe da empresa EpiVax, Inc. descreveu o JanusMatrix, uma ferramenta para a predição de reatividade cruzada em larga escala [3]. Baseada na análise de cristais de complexos TCRpMHC, foram identificados resíduos do epitopo (posições) que normalmente interagem com o TCR e resíduos que normalmente servem de âncora para o MHC. Assim, a ferramenta divide o epitopo de interesse em duas “faces”: a face que contata o MHC e a face que contata o TCR. Na prática isso significa mapear quais resíduos estão em cada face e utilizar este “padrão” como entrada para uma busca por identidade de sequência em larga escala. O algoritmo permite ainda certa variabilidade dos resíduos que compõe a face do MHC (aumentando sua sensibilidade), desde que não prejudiquem a ligação com o mesmo. A ferramenta foi inicialmente utilizada para mapear a ocorrência de potenciais alvos de reatividade cruzada em sequências proteicas obtidas do genoma humano, assim como do microbioma e do genoma de vírus e bactérias patogênicas (Figura 1).
Figura 1. Redes de reatividade cruzada para epitopos de linfócitos T regulatórios (A) e efetores (B). Sequências proteicas derivadas do genoma humano (esquerda) do microbioma humano (centro) ou de genomas virais e bacterianos (direita) foram triadas utilizando-se a ferramenta JanusMatrix. Os losangos verdes indicam os peptídeos utilizados como entrada (fonte), quadrados cinza são epitopos (9mers) derivados do epitopo fonte, triângulos azuis indicam epitopos que são 100% idênticos ao epitopo fonte no que se refere ao padrão da "face do TCR" (e que também são apresentados por HLA), enquanto círculos roxos indicam proteínas contendo possíveis alvos de reatividade cruzada (de acordo com a "face do TCR").

     Os autores salientam as possíveis aplicações da ferramenta JanusMatrix, mas ponderam que esta análise em larga escala esta voltada a aspectos populacionais, não sendo precisa no que se refere a respostas de indivíduos ou o contexto de MHCs específicos. Em um trabalho mais recente [4], o grupo coordenado pela pesquisadora Anne S. De Groot salientam a dificuldade de se desenvolver vacinas para doenças infecciosas emergentes e doenças tropicais negligenciadas, mesmo após a publicação de seus genomas. Alguns destes patógenos possuem ciclos de vida com diversos estágios e uma variedade de vetores, o que aumenta a complexidade do processo de desenvolvimento de vacinas. Neste trabalho os autores apresentam algumas implementações de imunoinformática utilizando o JanusMatrix para realizar uma busca sistemática por alvos imunodominantes em sequencias genômicas recém determinadas, com aplicações no desenvolvimento de vacinas. Seguindo esta tendência, outros algoritmos e fluxogramas combinando imunoinformática e testes in vitro deverão ser publicados nos próximos anos na tentativa de superar alguns dos grandes desafios atuais da vacinologia.

Post de Dinler Amaral Antunes
NBLI - Núcleo de Bioinformática do Laboratório de Imunogenética.
Doutor em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGBM/UFRGS).

1. Donati C, Rappuoli R (2013) Reverse vaccinology in the 21st century: improvements over the original design. Ann N Y Acad Sci 1285: 115-132
2. Rappuoli R (2000) Reverse vaccinology. Curr Opin Microbiol 3: 445-450.
3. Moise L, Gutierrez AH, Bailey-Kellogg C, Terry F, Leng Q, Abdel Hady KM, VerBerkmoes NC, Sztein MB, Losikoff PT, Martin WD, Rothman AL, De Groot AS. (2013) The two-faced T cell epitope: examining the host-microbe interface with JanusMatrix. Hum Vaccin Immunother. 9(7):1577-86.
4. Terry FE, Moise L, Martin RF, Torres M, Pilotte N, Williams SA, De Groot AS. Time for T? (2014) Immunoinformatics addresses vaccine design for neglected tropical and emerging infectious diseases. Expert Rev Vaccines. 5:1-15.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Genética e Bioinformática se encontram nas fronteiras da Imunologia

A elucidação dos mecanismos envolvidos na geração da variabilidade de anticorpos e TCRs representa uma das maiores conquistas da imunologia. Enquanto a variabilidade dos MHCs é dada pelo elevado polimorfismo na região cromossômica que codifica estas moléculas (6p21.3, em humanos), a variabilidade de TCRs e imunoglobulinas (IGs) é dada por um complexo mecanismo genético envolvendo a recombinação de segmentos variáveis identificados pelas letras V (variable), D (diversity) e J (joining). Estes mecanismos foram esclarecidos ao logo das décadas de 80 e 90 [1,2,3,4], um período de ouro para a imunogenética e que coincide com o primeiro momento de crescimento no número de publicações em bioinformática (Figura 1).
                                                                                                               
Figura 1. Número de publicações no PubMed com os termos "immunogenetics" e "bioinformatics" entre os anos de 1965 e 1998. O pico observado para as publicações em imunogenética com ápice em 1971 se refere a elucidação do papel do antígeno H no sistema ABO [5,6,7], enquanto a aparente queda nas publicações a partir de 1975 pode refletir o maior enfoque dado as avaliações funcionais (após a descrição dos anticorpos monoclonais). O terceiro pico, em 1981, se refere as publicações sobre o sistema V-D-J [1,2]. As publicações em bioinformática continuaram crescendo até estabilizar entre 2012 e 2013 (anos nos quais foram registradas 16.302 e 16.009 publicações com este termo, respectivamente).


Neste período efervescente para a imunogenética e a bioinformática, foi criado na França o IMGT (the international ImMunoGeneTics information system)[8,9]. Segundo uma recente publicação da revista Frontiers in Immunology [9], a criação deste banco - especializado em genes e proteínas de interesse da imunologia - marcaria o nascimento da "Imunoinformática". A proposta do IMGT se diferencia de outros repositórios de dados biológicos justamente por sua preocupação em fornecer o tratamento adequado da informação envolvida na variabilidade de IGs, TCRs e MHCs. Ele foi desenvolvido sobre um conjunto de axiomas e conceitos (IMGT-ONTOLOGY), para permitir a correlação entre sequências gênicas, sequências proteicas e as estruturas destas moléculas complexas (Figura 2).

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Figura 2. Acima, estrutura de uma imunoglobulina (IG), molécula central na resposta imunológica humoral. A direita, representação de um complexo TCR/peptídeo:MHC, elemento chave na montagem das respostas imunológicas celulares. Figuras publicadas por Marie-Paule Lefranc (2014) [9], na revista Frontiers in Immunology.

Atualmente o IMGT compreende um total de sete bancos, com mais de 15.000 páginas de recursos online e 17 ferramentas, fornecendo ainda um sistema para a análise de dados genômicos e de expressão para IGs e TCRs. O IMGT fornece ferramentas como IMGT/Collier-de-Perles tool, o qual permite criar representações didáticas das moléculas de interesse do usuário, seguindo o padrão de numeração e nomenclatura desenvolvido pelo IMGT. Esta é uma alternativa muito interessante para o estudo dos diferentes polimorfismos nas moléculas de MHC. Outra ferramenta de destaque é o IMGT/V-QUEST, que permite a análise de sequências nucleotídicas dos domínios variáveis de IGs e TCRs, sendo capaz de identificar os genes V, D e J nas sequências rearranjadas das moléculas estudadas pelo usuário. Além disso, no caso de IGs, a ferramenta consegue identificar as mutações nucleotídicas e as consequentes trocas de aminoácidos oriundas do processo de hipermutação somática, através da comparação com dados de referência do próprio IMGT/V-QUEST. 

Figura 3. Número de publicações no PubMed com os termos "immunoinformatics","reverse vaccinology" e "computational vaccinology", entre os anos de 1998 e 2013.
Sendo um tema central para a imunologia, a vacinologia sempre esteve presente nas discussões em imunoinformática. O termo "vacinologia reversa" foi cunhado em 2000 pelo italiano Rino Rappuoli [10], para se referir a um processo de desenvolvimento de vacinas que se iniciava pela análise de sequências genômicas in silico, seguido pela identificação de alvos e posterior expressão de proteínas recombinantes para testes in vivo. Esta estratégia continua sendo discutida e aplicada, acumulando uma série de resultados interessantes na imunização contra vírus e bactérias [11,12,13]. Mais recentemente começou a se popularizar o termo "vacinologia computacional", que também tem sido discutida como uma alternativa na pesquisa em câncer [14,15]. Independentemente do termo mais utilizado (ou mais adequado), o fato é que o uso de ferramentas computacionais para o desenvolvimento de vacinas é uma realidade que vem ganhando força (Figura 3), sobretudo graças ao crescimento da comunidade de bioinformatas interessados em imunologia e a rápida evolução dos recursos computacionais.

Post de Dinler Amaral Antunes
NBLI - Núcleo de Bioinformática do Laboratório de Imunogenética.
Aluno de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGBM/UFRGS).

Nota: 
Agradeço ao professor José Artur Bogo Chies (Laboratório de Imunogenética/UFRGS) pelo suporte na pesquisa sobre Imunogenética.

Referências:
1. Kurosawa Y, von Boehmer H, Haas W, Sakano H, Trauneker A, et al. (1981) Identification of D segments of immunoglobulin heavy-chain genes and their rearrangement in T lymphocytes. Nature 290: 565-570.
2. Maki R, Roeder W, Traunecker A, Sidman C, Wabl M, et al. (1981) The role of DNA rearrangement and alternative RNA processing in the expression of immunoglobulin delta genes. Cell 24: 353-365.
3. Schatz DG, Oettinger MA, Schlissel MS (1992) V(D)J recombination: molecular biology and regulation. Annu Rev Immunol 10: 359-383.
4. Fanning L, Bertrand FE, Steinberg C, Wu GE (1998) Molecular mechanisms involved in receptor editing at the Ig heavy chain locus. Int Immunol 10: 241-246.
5. Sanger R, Race RR (1971) Immunogenetics of certain antigens of the red cell membrane. Nouv Rev Fr Hematol 11: 878-884.
6. Salmon C (1971) [Immunogenetics of ABH antigens]. Nouv Rev Fr Hematol 11: 850-862.
7. Petrov RV (1971) [Current problems of immunogenetics]. Zh Mikrobiol Epidemiol Immunobiol 48: 7-12.
8. Giudicelli V, Chaume D, Bodmer J, Muller W, Busin C, et al. (1997) IMGT, the international ImMunoGeneTics database. Nucleic Acids Res 25: 206-211.
9. Lefranc MP (2014) Immunoglobulin and T Cell Receptor Genes: IMGT((R)) and the Birth and Rise of Immunoinformatics. Front Immunol 5: 22.
10. Rappuoli R (2000) Reverse vaccinology. Curr Opin Microbiol 3: 445-450.
11. Vivona S, Gardy JL, Ramachandran S, Brinkman FS, Raghava GP, et al. (2008) Computer-aided biotechnology: from immuno-informatics to reverse vaccinology. Trends Biotechnol 26: 190-200.
12. Donati C, Rappuoli R (2013) Reverse vaccinology in the 21st century: improvements over the original design. Ann N Y Acad Sci 1285: 115-132.
13. Delany I, Rappuoli R, Seib KL (2013) Vaccines, reverse vaccinology, and bacterial pathogenesis. Cold Spring Harb Perspect Med 3: a012476.
14. Pappalardo F, Chiacchio F, Motta S (2013) Cancer vaccines: state of the art of the computational modeling approaches. Biomed Res Int 2013: 106407.
15. Petrizzo A, Tagliamonte M, Tornesello M, Buonaguro FM, Buonaguro L (2014) Systems vaccinology for cancer vaccine development. Expert Rev Vaccines 13: 711-719.
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