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terça-feira, 28 de outubro de 2014

Proteínas Modificadas de Células Dendríticas (Isoketais) Ativam Linfócitos T e Promovem Hipertensão


Via proposta para ativação de DC. Estímulo hipertensivo aumenta a produção de ROS e formação de isoketais e adutos isoketais de proteína em DC. Esses adutos aumentam a imunogenicidade de DC e promovem a produção de citocinas por esse tipo celular. Por sua vez, DC ativadas induzem proliferação e produção de citocinas por células T. Células T ativadas se dirigem para o rim e a vasculatura e liberam citocinas como IL-17, TNF-alfa e IFN-gama, que promovem hipertensão. Fonte: Kirabo et al., 2014, J Clin Invest.


Dano oxidativo e inflamação são implicados na gênese da hipertensão. Entretanto, os mecanismos pelos quais esses estímulos promovem hipertensão não estão completamente compreendidos.

Em estudo recente publicado na revista Journal of Clinical Investigation, liderado pelo grupo do Dr. David G. Harrison do Departamento de Bioquímica da Vanderbilt University nos EUA, os autores descreveram uma via em que o estímulo hipertensivo promove ativação de células T via células dendríticas (DC), levando à hipertensão. Utilizando diversos modelos murinos de hipertensão, o estudo mostrou que durante a hipertensão a oxidação de proteínas leva à formação de proteínas modificadas denominadas gama-cetoaldeídos altamente reativos (isoketais) que se acumulam nas DC.

Os isoketais são formados via rearranjo de intermediários H2-isoprostanos na via F2-isoprostano de peroxidação lipídica mediada por radicais livres. Adutos isoketais nas proteínas promovem crosslink extensivo das mesmas, levando à alteração da função proteica. Formação aumentada de adutos de proteínas isoketais é encontrada, por exemplo, em doenças associadas a estresse oxidativo, incluindo, doença hepática induzida por álcool, aterosclerose, asma e doença de Alzheimer.

No estudo publicado, o acúmulo de isoketais estava associado com produção de IL-6, IL-1-beta e IL-23 por DC e um aumento das moléculas co-estimuladoras CD80 e CD86. As DC ativadas desencadeavam ativação de células T, particularmente células CD8+, proliferação, produção de IFN-gama e IL-17A e hipertensão. Compostos que promovem a varredura de isoketais preveniram a ativação de DC e hipertensão experimental. Além disso, F2-isoprostanos plasmáticos que são formados em consonância com isoketais estavam elevados em humanos tratados para hipertensão e estavam muito elevados em pacientes com hipertensão resistente. Isoketais estavam também muito elevados em monócitos circulantes e DC de humanos com hipertensão. O estudo definiu um novo mecanismo de hipertensão e apresentou a redução de isoketais como uma nova abordagem terapêutica potencial para o tratamento da doença.

Referência

Kirabo A, Fontana V, de Faria AP, Loperena R, Galindo CL, Wu J, Bikineyeva AT, Dikalov S, Xiao L, Chen W, Saleh MA, Trott DW, Itani HA, Vinh A, Amarnath V, Amarnath K, Guzik TJ, Bernstein KE, Shen XZ, Shyr Y, Chen SC, Mernaugh RL, Laffer CL, Elijovich F, Davies SS, Moreno H, Madhur MS, Roberts J 2nd, Harrison DG. DC isoketal-modified proteins activate T cells and promote hypertension. J Clin Invest. 2014 Oct 1;124(10):4642-56. doi: 10.1172/JCI74084.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Ebola - Uma nova síndrome de imunodeficiência adquirida?

Estamos vivendo o pior e maior surto de Ebola de todos os tempos, as notícias sobre infecções nos EUA e Europa e as projeções matemáticas realizadas sobre a infecção no oeste africano apontam para expansão geométrica da infecção (http://healthmap.org/ebola/#projection).


A resolução da infecção depende de uma resposta imune antiviral (inata e adaptativa) eficiente e duradoura. Esta orquestração é dependente de três agentes centrais: antígenos (partícula viral reconhecida pelo sistema imune), células apresentadoras de antígenos (ex. células dendríticas) e linfócitos (T CD4+ e CD8+). O reconhecimento dos componentes virais (ex. Antígenos proteicos e material genético) pelas células dendríticas, juntamente com a apresentação de antígenos às células CD4+ e CD8+ citotóxicas, estimulam a produção de inúmeros fatores (citocinas, ex. IFNs) que são responsáveis por potencializar a resposta imune antiviral no microambiente. A capacidade de escapar do sistema de defesa é determinante para o grau de infectividade  e sua importância médica.

Ao entrar no corpo, o vírus do Ebola é capaz de infectar e destruir  as células dendríticas, um dos pilares centrais da resposta imune antiviral. Além do mais, a proteína VP24 do vírus é capaz de impedir a resposta antiviral gerada pelos IFNs (http://www.cell.com/cell-host-microbe/fulltext/S1931-3128(14)00263-7). Com a destruição das células dendríticas e a inibição das vias de ação dos IFNs, as células T não conseguem reconhecer à infecção e eliminá-la. Assim o vírus pode replicar livremente e muito rápido, tornando-o altamente letal.

A porcentagem de óbitos entre infectados com Ebola é alarmante, variando entre 50-90%, porém sua capacidade de contagio (R0) ainda é baixa comparada a outros vírus.




Recentemente, a página da internet “Information is Beautifil” (http://www.informationisbeautiful.net/visualizations/the-microbescope/) publicou um gráfico que demonstra a associação inversa entre a capacidade de contagio dos vírus e sua letalidade.



Contudo, com a disseminação do vírus ao redor do mundo, novas pressões de seleção de mutações aparecerão e consequentemente a razão entre a letalidade e a capacidade de contagio do Ebola pode se inverter. O que podemos esperar de uma infecção crônica pandêmica, que ataca um dos pilares da resposta imune (reconhecimento e apresentação de antígenos)? Devemos considerá-la uma questão de saúde pública similar ao “HIV-1” em um futuro próximo?


Os estudos sobre a epidemiologia do Ebola, assim como o desenvolvimento de uma vacina candidata e/ou terapia eficaz estão apenas começando. Esse mês, o editorial da Science e da Science Translational Medicine lançou uma série de artigos sobre os mais importantes achados na área (http://www.sciencemag.org/content/345/6202/1221.summary). Aconselho a leitura, afinal de contas, quanto mais profissionais envolvidos na solução dessa infecção, mais cedo nos livraremos dela.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Abordagem Inovadora para Detecção de Subpopulações de Células Dendríticas em Tecidos Linfóides



                                                  Fonte: Gerner et al., Immunity Aug 2012.

Na última semana de novembro foi realizado no NIH, o simpósio “Dendritic Cells in Health and Disease: A Tribute to Ralph Steinman” patrocinado por “Cytokine Interest and Immunology Interest Groups”. O Dr. Steinman descobriu as células dendríticas (DCs) em 1973 e essa descoberta abriu um novo campo de estudos na Imunologia: A biologia das DCs e o seu papel na regulação imune em situações saudáveis e patológicas. O reconhecimento da importância dos estudos realizados pelo Dr. Steinman culminou na concessão ao pesquisador do Prêmio Nobel de Medicina de 2011.

O simpósio contou com a participação de pesquisadores que trabalharam diretamente com o Dr. Steinman, como o Dr. Michel Nussensweig, Dr. Jacques Banchereau, Dra. Kristin Tarbell, dentre outros. Paralelo à participação de pesquisadores seniors foram proferidas também palestras por jovens pesquisadores que têm trabalhado em estudos sobre DCs, usando estratégias inovadoras. Um dos pesquisadores desse grupo, é o Dr. Michael Y. Gerner da Lymphocyte Biology Section, National Institute of Allergy and Infectious Diseases. O pesquisador apresentou dados que foram publicados recentemente na edição de agosto de 2012 na revista Immunity.

Neste estudo, ele propõe um método microscópico analítico denominado histo-citometria que promove a visualização e quantificação dos fenótipos de populações celulares complexas diretamente em seção de tecidos. Eles testaram a tecnologia tanto em populações celulares participantes da resposta imune inata quanto adaptativa. Ao analisar subregiões pré-definidas de linfonodos murinos, os pesquisadores detectaram uma distribuição diferenciada entre as subpopulações de DCs residentes ou migratórias. As DCs residentes CD8+ localizavam-se preferencialmente na região de zona T, enquanto DCs CD11b+ tinham sua localização principal nas regiões linfáticas. Já as células dendríticas migratórias mostraram uma distribuição mista entre as zonas de células T e interfoliculares e estavam praticamente ausentes na região medular.

Esses achados confirmam e ampliam estudos prévios que sugerem uma distribuição não aleatória para algumas subpopulações de DCs nos tecidos linfóides. A abordagem descrita no artigo oferece a possibilidade de se investigar em diferentes espécies por meio de sistemas biológicos distintos, interações entre subpopulações celulares e sua distribuição anatômica, estados de diferenciação e ativação.

Referências
- Ecker, R.C., and Steiner, G.E. (2004). Microscopy-based multicolor tissue cytometry at the single-cell level. Cytometry A 59, 182–190.

- Gerner MY, Kastenmuller W, Ifrim I, Kabat J, Germain RN. Histo-cytometry: a method for highly multiplex quantitative tissue imaging analysis applied to dendritic cell subset microanatomy in lymph nodes. Immunity. 2012 Aug 24;37(2):364-76. doi: 10.1016/j.immuni.2012.07.011.

- Kastenmuller, W., Torabi-Parizi, P., Subramanian, S., Lammermann, T., Germain, R.N. (2012). A spatially-organized multicellular innate immune response in the lymph node limits the systemic spread of tissue-invasive pathogens. Cell 151. http://dx.doi.org/10.1016/j.cell.2012.07.021.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Células dendríticas ou macrófagos? GM-CSF to the rescue!

A homeostase das células dendríticas (DCs) na periferia do sistema imune resulta de um balanço entre progenitores, geração, migração e morte das mesmas. Sob condições normais, a quantidade de DCs convencionais (cDCs) nos tecidos linfóides e não linfóides é constante, e resultado da migração de progenitores chamados pré-cDCs que, após a diferenciação em cDCs, ainda proliferam por algumas gerações. A presença das cDCs em alguns tecidos da periferia também se deve à diferenciação de monócitos.
Durante o processo inflamatório, o número de DCs nos órgãos linfóides é drasticamente alterado, podendo ser diminuído por excesso de ativação e morte por apoptose, ou pela migração para sítios de infecção ou outros órgãos. Quando as cDCs saem do local onde residem para migrar para os órgãos linfóides, elas entram em contato com várias células que foram ativadas que produzem citocinas capazes de alterar o fenótipo destas cDCs. Após o final do processo inflamatório, a quantidade de cDCs volta à normalidade com o recrutamento de progenitores, proliferação in situ de cDCs recém diferenciadas, e também com a diferenciação de monócitos para DCs inflamatórias .
O trabalho do grupo de Mark Catrall, em Toronto no Canadá, demonstrou que os progenitores de cDCs provenientes da medula óssea de camundongos proliferam e diferenciam-se em cDCs, mas após alguns dias de cultura, estas células perdem o fenótipo de DCs, diminuindo a expressão de CD11c e MHC II e adquirem morfologia e comportamento típico de macrófagos, como a alta capacidade de adesão às placas de cultura. Utilizando cultura de pré-cDCs juntamente com uma monocamada de células estromais derivadas de fibroblastos murinos, o grupo observou a diferenciação destas células em cDCs funcionais, capazes de estimular a proliferação de linfócitos T, quando pulsadas com OVA e co-cultivadas com linfócitos T provenientes do OT-I. A partir dos 10 dias de cultura, as células derivadas destas cDCs, chamadas de DC-d-M (do inglês, DC derived macrophage), reduzem a capacidade de ativar linfócitos T, sugerindo uma possível função reguladora destas APCs.
Esta função reguladora foi mais evidenciada pela alta expressão de marcadores como PDL-1, alta produção de IL-10 e óxido nítrico quando estimuladas com LPS (produção comparada às cDCs nos primeiros dias de cultura e também estimuladas com LPS). Quando foram utilizados antagonistas dos receptores que sugerem o fenótipo regulador destes DC-d-M, observou-se a reversão da capacidade antiproliferativa com a inibição da enzima iNOS, impedindo a produção de óxido nítrico, já conhecido como capaz de inibir a proliferação de linfócitos.
O nosso velho conhecido GM-CSF, frequentemente utilizado para a diferenciação de DCs de precursores da medula óssea de camundongos e também para diferenciação de monócitos humanos em DCs, também tem um papel importante nessa geração de células DC-d-M. Apesar de haver produção de mRNA para esta citocina nas células estromais utilizadas na cultura de pré-DCs, esta não foi observada no sobrenadante da cultura. Pelo contrário, foi observada a produção de M-CSF, uma citocina responsável pela diferenciação de macrófagos. A geração de DC-d-M foi parcialmente revertida com o bloqueio de IL-6 e M-CSF, e totalmente revertida com a adição de doses crescentes de GM-CSF sugerindo que o microambiente no qual os precursores de DCs se encontram é responsável tanto pela diferenciação de cDCs quanto pela transformação destas células em “macrophage-like”. O GM-CSF agiria como uma citocina que resgataria a cDC da sua sina de transformar-se em macrófago. A importância desta transformação foi evidenciada por este grupo durante o crescimento de tumores murinos. A aparição de células DC-d-M com capacidade supressora pode ter grande papel no estabelecimento de tumores, visto que elas estão presentes em maior número nos animais nos quais foi induzido o desenvolvimento do tumor. 
Estes resultados abrem nossa cabeça para pensarmos em como a ontogenia de DCs e macrófagos pode ser regulada. A presença de quantidades de GM-CSF no milieu inflamatório é capaz de regular a quantidade de cDC que, na ausência deste e na presença de outras citocinas, evoluem para um tipo de macrófago regulador. A aparente plasticidade destas cDCs recém geradas pode ajudar pesquisadores a pensar em novas maneiras de manipular a resposta imune durante uma infecção, câncer e até autoimunidade.

Referências

Diao J, Mikhailova A, Tang M, Gu H, Zhao J, Cattral MS. Immunostimulatory conventional dendritic cells evolve into regulatory macrophage-like cells. Blood., 2012 May 24;119(21):4919-27. Epub 2012 Apr 6.

Post de Thais Boccia
Doutoranda do Centro de Terapia Celular e Molecular - CTC-Mol
Universidade Federal de São Paulo


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

DESCOBERTA NOVA FUNÇÃO DAS CÉLULAS DENDRÍTICAS

Eu costumo dizer para os meus alunos de graduação que os linfócitos T que passaram pela seleção positiva e negativa do timo ganham o código secreto para a entrada nos linfonodos. O código secreto é CD62-L (ou L-selectina), a molécula que se liga a grupamentos de açúcares, como o Glycam, que estão presentes nas vênulas do endotélio alto (HEV) desse órgão. Nenhuma novidade: HEV e L-selectina são fundamentais para a recirculação linfocitária, tão importante para o funcionamento do sistema imune.
Também não é nenhuma novidade que a entrada desses linfócitos T virgens nos linfonodos é fundamental para que se encontrem com as células apresentadoras de antígenos (APC), especialmente as DCs, e iniciem, então, a resposta imune adaptativa. A novidade que os pesquisadores Christine Moussion e Jean-Philippe Girard, da Univesidade de Toulouse, França, descreveram em um artigo recente da Nature, é que as DCs são fundamentais para a manutenção da fisiologia das HEV e, portanto, da regulação da recirculação linfocitária em condições basais.
Em uma série de experimentos elegantes, os autores demonstraram uma marcante redução no tamanho e celularidade dos linfonodos periféricos, uma semana após a depleção de DCs. A deficiência na migração dos linfócitos T para os linfonodos foi atribuída à intensa diminuição dos marcadores específicos de HEV maduros, como Glycam, FucT-VII e GlcNAc6ST-2, concomitante com o aumento do marcador de HEV imaturo (MADCAM- presente em neonatos). Por microscopia intravital, os autores verificaram que essa alteração do fenótipo das HEV na ausência de DCs prejudicava a adesão e rolamento dos linfócitos T.
A transferência de BMDCs foi capaz de reverter o fenótipo imaturo das HEV e a migração dos linfócitos T para os linfonodos. No entanto, BMDCs de animais deficientes em linfotoxina-a foram incapazes de reverter esse fenômeno. Esses dados permitem a conclusão de que a linfotoxina-a produzida por DCs controlam o fenótipo de HEV e a entrada dos linfócitos nos linfonodos durante a homeostase.





Esse paper foi particularmente interessante para mim, pois além de descrever esse conceito importante, também me deu uma idéia de como prosseguir com os experimentos utlizando os animais CD11c-DTR (que no nosso lab sempre morriam antes de concluirmos os experimentos). Como já havia sido demonstrado (1), DTR também é expresso em células não hematopoiéticas e o tratamento desses animais com a toxina diftérica frequentemente causa efeitos tóxicos, induzindo perda de peso e morte. Nesse artigo aqui (2), os autores eliminaram esses efeitos indesejados, reconstituindo animais WT irradiados com a medula de CD11c-DTR, fazendo com que o DTR fosse expresso apenas nas DCs. Vivendo, LENDO e aprendendo...
Um 2012 maravilhoso para todos!!!!
Karina


Referências:

1. Zaft T, Sapoznikov A, Krauthgamer R, Littman DR, Jung S. CD11chigh dendritic cell ablation impairs lymphopenia-driven proliferation of naive and memory CD8+ T cells. J Immunol. 2005;175(10):6428-35.
2. Moussion C, Girard JP. Dendritic cells control lymphocyte entry to lymph nodes through high endothelial venules. Nature. 2011 Nov 13;479(7374):542-6.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Tá na rede: Zebrafish Como Modelo de Estudo da Imunidade Inata e Adaptativa.


Seguindo no tema levantado na sexta-feira de imunologia evolutiva, a relevância e o poder de estudos em peixes teleósteos, mais especificamente, no pequeno paulistinha/zebrafish (Danio rerio) é cada vez maior. Sua alta progênie (em torno de 100-200 ovos por fêmea grávida, por semana), faz destes animais poderosas ferramentas para estudos genéticos, e sua susceptibilidade ao tratamento administrado na água dos tangues de criação torna esses animais um ótimo modelo para estudos de toxicidade e screening de novas drogas e compostos. Tão valiosas quanto estas características são o desenvolvimento embrionário extra-uterino e a transparência do animal, que permitem observar desde muito cedo no seu desenvolvimento o aparecimento e migração de tipos celulares específicos através da marcação genética/fluorescente destas células, seguida de observação em tempo real.

No entanto, o zebrafish não era visto como um bom modelo para estudos imunológicos devido a falta de conhecimento e ferramentas para esses tipos de estudos. A disponibilidade de anticorpos para antígenos de peixe é extremamente limitada, e até pouco tempo se sabia muito pouco sobre a correlação entre as células imunes de teleósteos e as de mamíferos. Na última década muito avanço foi feito nessa área, e o peixe ósseo se torna cada vez mais um modelo atraente, uma vez que são os organismos mais primitivos providos de células T e células B, dando uma visão das características básicas necessárias para o desenvolvimento da resposta imune adaptativa, e da comunicação destas células com células da imunidade inata. Sem falar na facilidade de desenvolver estudos genéticos, quando comparado ao modelo padrão, os camundongos.

Em conjunto com o artigo de Zhang e colaboradores (2010) já discutido na última sexta-feira, vale ressaltar mais dois artigos recentes, ambos provenientes do grupo do Dr. David Traver, da University of California, San Diego, que vêm expandir nosso conhecimento sobre a imunologia no peixe, sua correlação e similaridades com o sistema mamífero.

No primeiro artigo, publicado em agosto desse ano na revista Blood (10.1182/blood-2010-03-267419), Balla e colaboradores descrevem morfológica e funcionalmente a população de eosinófilos em zebrafish. Eles mostram que o desenvolvimento de eosinófilos no peixe é similar ao descrito em mamíferos, e precursores com as mesmas características morfológicas podem ser isolados. Células imaturas estão presentes no sítio hematopoético do peixe adulto, o parênquima renal, e células mais maduras podem ser encontradas na cavidade peritoneal destes animais. Apesar de algumas proteínas características de mamíferos, como a peroxidase eosinofílica e a proteína básica principal, não serem encontradas em eosinófilos de zebrafish, os eosinófilos (gata2-hi, CCR9+) de peixe respondem com degranulação a antígenos provenientes de helmintos quando estimulados in vitro, e infecção por este patógeno leva a hipereosinofilia in vivo, assim como descrito inicialmente em modelos mamíferos. Estes resultados demonstram que não só o desenvolvimento, mas também funções características de eosinófilos são conservadas evolutivamente de teleósteos a humanos.

No segundo artigo, Lugo-Villarino e colaboradores, trabalho que conta com a participação da Miriam Werneck (INCa, FIOCRUZ), identificam e caracterizam células dendríticas em Danio rerio. Apesar de alguns indícios em outros teleósteos sugerirem a existência de células dendríticas tão cedo na escala evolutiva, estas células ainda não haviam sido isoladas ou testadas seletivamente. Neste artigo publicado em Setembro no PNAS (10.1073/pnas.1000494107), os autores isolam células que possuem as características morfológicas e de microestrutura semelhantes a células dendríticas de mamíferos se aproveitando de sua capacidade fagocítica e da composição glicoprotéica de sua superfície. Através do sorteamento e ensaios in vitro, é demonstrado que a população de células apresentadora de antígenos enriquecida desta forma é capaz de estimular uma resposta proliferativa de células T antígeno-específica, células estas que expressam proteínas características de APCs como MHC de classe II e IL-12 p40. A identificação de células dendríticas neste modelo determina que estas células estão presentes por tanto tempo quanto os linfócitos T e B, reiterando seu papel como conector entre as respostas inata e adaptativa.

Vale, então, ficar de olho nos desenvolvimentos desta área que está cada vez mais ativa e crescendo dentro da imunologia mundial. O paulistinha/zebrafish é um novo modelo que traz características únicas e complementares ao modelo murino. A facilidade de desenvolver e analisar screenings genéticos usando mutagênese induzida, ou de rastrear a migração de células após insulto antigênico em tempo real são pontos fortes que serão cada vez mais explorados nos próximos anos.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Será que a dificuldade em diferenciar fagócitos mononucleares é só um problema meu???

Neste mês foi publicado na Nature Reviews Immunology um artigo levantando um problema que pesquisadores vem enfrentando, muitas vezes sem saber, ao trabalhar com populações de fagócitos mononucleares. Neste comentário, cinco super-experts, Frédéric Geissmann, Siamon Gordon, David A. Hume, Allan M. Mowat e Gwendalyn J. Randolph, dão suas opiniões sobre a heterogeneidade no sistema fagocítico mononuclear e a importância em se definir melhor suas populações para pesquisas futuras.
Em Unravelling mononuclear phagocyte heterogeneity, Geissmann aponta que as células mielóides não são mais heterogêneas do que a maioria dos tipos celulares. No entanto, muitas confusões são geradas com a utilização de marcadores fenotípicos inespecíficos. Um bom exemplo é o CD11c, que pode não só ser expresso por células dendríticas, mas também por alguns macrófagos teciduais, monócitos ativados e até mesmo algumas células NK e eosinófilos. Hume também critica a utilização de CD11c como único marcador para a identificação de DCs. Com isto, recrimina o uso do camundongo CD11c-DTR (diphtheria toxin receptor) para depleção seletiva de DCs. Este tópico também é abordado por Hume em um artigo de revisão, Macrophages as APC and the dendritic cell myth, publicado pelo Journal of Immunology em 2008.
Para Randolph os cientistas erram quando assumem que a caracterização fenotípica das DCs e sua distinção dos macrófagos nos órgãos linfóides, podem ser aplicadas a todos os outros tipos teciduais. Além disto, geralmente não são consideradas as alterações fenotípicas que sabidamente ocorrem durante um processo inflamatório em comparação a condições homeostáticas. Esta opinião é compartilhada por Siamon Gordon, que aponta que parte da confusão é gerada pela adaptabilidade e plasticidade dos macrófagos. Assim, em função destas células expressarem um enorme repertório de receptores e, portanto, sofrerem intensa ação dos microambientes em que se encontram, apresentam seus fenótipos modulados. Para Mowat, muitas das subpopulações de DCs não são claramente definidas, além de suas obtenções e caracterizações serem realizadas por diferentes métodos, por diferentes grupos de pesquisadores. Subpopulações têm sido estabelecidas em função de suas habilidades em induzir por exemplo diferenciação de células Th17, células T reguladoras, ou produzir TNF- α, IL-23 e NO. No entanto, muitos dos conceitos precisarão ser re-interpretados, pois, por muitas vezes, as população utilizadas para estas caracterizações foram pré-selecionadas arbitrariamente por marcadores que podem ser expressos tanto por DCs quanto por macrófagos.

As opiniões destes cientistas de renome também são reveladas em outras perguntas como:

- Existem bons marcadores fenotípicos para macrófagos e DCs, ou suas distinções deverão ser baseadas somente em suas funções? Se o último for verdade, o que um macrófago faz que uma DC não faz e vice-versa?

- Quais as condições de cultura que um pesquisador deve usar para gerar macrófagos e células dendríticas in vitro?

- Qual é a importância de se definir macrófagos e DCs para pesquisas e potenciais terapias futuras?

Pessoalmente concordo com Randolph quando ele diz queue “DC and macrophage biologists don't talk with each other enough. Indeed, if a cell is called a DC in a paper, I think that it is less likely that a macrophage biologist will read it and vice versa”.
doi:10.1038/nri2784

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Subpopulação de célula dendrítica promove colite mediada por células T


O grupo da Fiona Powrie tem contribuído substancialmente para o entendimento dos mecanismos de indução de colite mediados tanto pelo sistema imune inato quanto pelo adaptativo. Neste mês, na Immunity, Siddiqui e colaboradores descrevem a identificação e caracterização de uma população de células dendríticas expressando E-caderina (DC E-caderina+) , o receptor de CD103. Esta última molécula, teve sua função explorada não só por pesquisadores do grupo de Fiona Powrie mas também pelo grupo da Yasmine Belkaid. Ambos sugerem que DC CD103+ são capazes de promover células T reguladoras convencionais e antígeno-induzidas no tecido linfóide associado ao intestino (GALT).
Os dados publicados mostram que as DC E-caderina+ acumulam no GALT durante colite mediada pela resposta imune adaptativa, mais especificamente por células T. Os resultados sugerem que esta subpopulação de DC se origina de monócitos inflamatórios e apresenta a habilidade de promover respostas inflamatórias crônicas no intestino.
Os autores destacam no artigo que DC E-caderina+:
• se acumulam no cólon e linfonodos mesentéricos inflamados
• derivam principalmente de monócitos inflamatórios Gr1+
• produzem altas quantidades de citocinas inflamatórias (e.g. IL-6 e IL-23) e quimiocinas
• exacerbam colite
doi:10.1016/j.immuni.2010.03.017
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