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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Plausibilidade


O termo plausível tem a mesma raiz latina de aplauso. Algo lido ou ouvido ou assistido é considerado plausível quando faz algum sentido, quando é passível de aceitação por quem assiste, ouve ou lê. É um termo que se refere à cooperação, à coordenação de condutas entre seres humanos. Qualquer ficção - literária, coloquial ou de outra natureza - precisa ser plausível, mas a realidade, o que sucede, o que acontece não tem essa restrição. Por isso, Gregory Bateson disse que a ciência nunca prova nada (“never proves anything”) (1), que ela pode melhorar (“improve”) nosso entendimento, rejeitar (“disprove”) um entendimento prévio, mas nunca prova nada. O que se passa é em grande parte imprevisível, na realidade que nos é invisível; há aquilo que se passa sem que nós notems e há muito mais que nos é irreconhecível. Usualmente, a previsibilidade é vista como um atributo importante do pensamento científico, mas Humberto Maturana não crê que a previsibilidade seja uma característica fundamental da ciência, como são as explicações. Toda a ciência está baseada em explicações aceitas segundo certos critérios de validação, que as distingue de outros tipos de explicações – éticas, estéticas, mágicas ou religiosas (2). Mas aquilo que vai se passar no momento seguinte pode ser imprevisível e inexplicável.

A imunologia é um tema importante na medicina e na biologia porque busca explicar mecanismos usados pelo organismo para lidar com o imprevisível, para tornar plausível e assimilável aquilo que não estava previsto no viver. Usualmente pensamos na atividade imunológica de linfócitos como imunidade anti-infecciosa, como parte de uma defesa contra doenças infecciosas, algo que nos protege de vírus, micróbios e parasitas, mas a situação é bem mais complexa.

Para se dar conta de que foi invadido por algo que não lhe pertence, o corpo precisaria manter sempre atualizado um “inventário”  detalhado de sua própria composição cambiante a cada instante. O corpo é uma entidade dinâmica, em contínua modificação, que troca continuamente suas partes celulares e moleculares, e manter este inventário parece impossível; principalmente impossível quanto a natureza da entidade que faria este reconhecimento minucioso e cambiante – um fantasma na máquina molecular, uma entidade cognitiva. Esta vigilância defensiva não poderia ser a de um sentinela, que vigia em silêncio, mas sim algo que alguns chamam de tenacidade, aquilo que nos permite escutar algo que um amigo nos sussurra em meio ao ruído de uma festa animada.

O corpo está em contato contínuo com inúmeros materiais que não lhe pertencem, mas não o ameaçam diretamente, como as macromoléculas presentes em seus alimentos e também inúmeros produtos de sua flora microbiana comensal, hoje conhecida como a microbiota nativa. Absorvemos ainda intactas ou parcialmente digeridas muitas macromoléculas dos alimentos e também inúmeras coisas que nossa vasta microbiota nativa produz. Estes materiais constituem a grande massa de materiais externos com os quais o corpo entra em contato. Há um certo grau de previsibilidade nestas exposições, construídas gradualmente na ontogênese mas, mesmo assim, dar conta do que se passa. Identificar os materiais invasores, parece igualmente impossível.  Não me parece plausível, portanto, que o corpo faça um levantamento contínuo das diferenças entre a sua própria composição e os diversos materiais biológicos com os quais está continuamente em contato; tornar testes materiais conhecidos e assimiláveis é indissociável da própria maneira do corpo construir e manter-se a si mesmo.

Precisamos de uma outra maneira de ver o corpo, o organismo. Deste pensamento criamos o título de um pequeno livro que escrevemos sobre tais problemas: “Onde está o organismo. Derivas e outras histórias na biologia e na imunologia” (3). Na capa traseira deste pequeno livro, colocamos uma das frases mais profundas sobre a Biologia que já ouvi, da autoria de nosso coautor Jorge Mpodozis, neurobiólogo da Universidade do Chile:
"Há plasticidade nos modos de desenvolver. Os caminhos do desenvolvimento teem plasticidade em todos os momentos, é isso o que permite essa maravilhosa diversidade de linhagens de seres vivos. Mas o problema não é o que é plástico, e sim o que se conserva. Se a mudança é uma condição constitutiva do viver, então, como se conserva aquilo que se conserva?"

Na imunologia, apenas recentemente começamos a atentar para aquilo que se conserva em meio a tudo quilo que varia, ou seja, a nos preocuparmos com padrões, perfis estáveis de atividade. Um camundongo troca todos os seus linfócitos várias vezes em um ano, no entanto, as imunoglobulinas que produz – seus “anticorpos naturais” – principalmente as IgM, são de uma constância extraordinária (4). Esta possibilidade de caracterizar padrões de reatividade tem sido a tônica do trabalho de Cohen e associados nos últimos anos (5). Como se conservam estes padrões? São eles que nos permitem, finalmente, nos referirmos a um “sistema imune” de maneira genuína. Mais recentemente, observações similares foram estendidas às células T (6).
Cpmeça a ser plausível que existam, afinal, conexões entre as células T do organismo.



Bibliografia
(1)   Bateson, G. (1980) Science never proves anything. In “Mind and Nature. A necessary Unity” London, Fontana, pp.24-36.
(2)   Maturana, H (1998) Biologia da autoconsciência. In “Ontologia da Realidade” Belo Horizonte, Editora UFMG., pp.211-241
(3)   Vaz , N.M., J.M. Mpodozis, J.F Botelho and G.C. Ramos. Onde Está O Organismo? - Derivas E Outras Histórias Na Biologia E Na Imunologia. Florianópolis: editora-UFSC, 2011.
(4)   Haury, M., et al. (1997). "The repertoire of serum IgM in normal mice is largely independent of external antigenic contact." Eur J Immunol 27(6): 1557-1563.
(5)   Cohen, I. R. (2013). "Autoantibody repertoires, natural biomarkers, and system controllers." Trends Immunol. 10.1016/j.it.2013.05.003
(6)   Madi, A., et al. (2014). "T-cell receptor repertoires share a restricted set of public and abundant CDR3 sequences that are associated with self-related immunity." Genome Research.

doi 10.1101/gr.170753.113.

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