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BRASILEIRA DE IMUNOLOGIA
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domingo, 17 de abril de 2011

Destaque para pesquisador brasileiro

Gente, achei legal compartilhar esta noticia que está no site da FAPERGS - reconheci o sobrenome do nosso colega blogueiro - aqui vai um pouco da história do Cesar Victora, pai do Gabriel Victora. Parabéns Gabriel, e ao seu pai que mais uma vez é agraciado com reconhecimento internacional. Realmente, the apple does not fall far from the tree. Destaques 14 de abril de 2011 , 11:42 Pesquisador da FAPERGS recebe prêmio internacional por contribuição à pediatria O gaúcho Cesar Gomes Victora, pesquisador atuante da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul - FAPERGS, desde 1990, com vários projetos apoiados incluindo um PRONEX- Programa de Apoio a Grupos de Excelência, será premiado por contribuição à pediatria, comprovando como a disparidade social afeta a saúde das crianças. A dedicação de 30 anos a pesquisas na área da epidemiologia e saúde infantil terá reconhecimento internacional. Professor emérito de Epidemiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Cesar Gomes Victora, receberá o Prêmio por Contribuições Proeminentes para a Saúde Infantil Global do Programa de Pesquisa Pediátrica Mundial. Responsável por estudos que são usados como base pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para as recomendações sobre aleitamento materno, Victora se destacou mundialmente por realizar pesquisas com nascidos em décadas diferentes (1982, 1993 e 2004) e acompanhar a saúde deles ao longo dos anos. Com isso ele pôde comprovar que crianças que ganham peso até dois anos de idade têm mais chances de serem altas e inteligentes e as que ganham peso posteriormente têm maior tendência a obesidade na fase adulta. leia na íntegra a noticia http://www.fapergs.rs.gov.br/conteudo_puro.php?cod_conteudo=162&cod_menu=6

Journal Club- IBA: Procurando o equilíbrio

Quem não vive em busca do equilíbrio? A mucosa, por exemplo, necessita de uma constante homeostase para não desenvolver uma doença inflamatória intestinal. Não significa que na mucosa não aconteça inflamação, pelo contrário, um pequeno nível de resposta imune garante que tudo ocorra na mais perfeita harmonia. Por exemplo, receptores da imunidade inata reconhecem padrões moleculares associados a patógenos (bactérias comensais) desencadeando a produção de componentes antiflamatórios tais como IL-10 e TGF-β. A falha de qualquer um dos mecanismos da imunidade inata na mucosa pode acarretar em uma doença de Crohn ou em uma colite ulcerativa. O mais agravante é que essas duas doenças inflamatórias intestinais, quando se tornam crônicas podem resultar em câncer coloretal (Saleh & Trinchieri,2011).

Dessa maneira trabalhos para tentar entender os mecanismos responsáveis pelo o tal do equilíbrio constante são cada vez mais frequentes. Recentemente em 2010 Dupaul-Chicoine e col, demonstraram que camundongos Casp1-/- são extremamente suscetíveis à colite induzida por DSS (dextran sulfato de sódio). Este efeito é revertido com a administração de IL-18 recombinante. Esse resultado é muito interessante, visto que até então IL-18 era conhecida por ativar uma resposta inflamatória, ao contrário do efeito reparador sugerido pelos autores.


Em continuidade às investigações, os autores verificaram o papel de caspase-12 (regulador negativo de caspase-1). Os animais deficientes para caspase-12 mostram-se resistentes à colite aguda e apresentam aumento da reparação tissular. Surpreendentemente, este aumento do reparo tecidual, somado à maior resposta inflamatória desses animais, culminou também na maior susceptibilidade ao câncer coloretal associada à colite crônica dos camundongos Casp12-/-. Isso significa que a regulação promovida por IL-18 não pode faltar, embora, uma pequena dose de inflamação também tenha que existir.

Post de Grace K. Silva, Gabriela T. Scortegagna e Daiane C.C. Alves.


Referências:

- Inate immune mechanisms of colitis and colitis-associated colorectal cancer. Saleh M, Trinchieri G. Nat Rev Immunol. 2011 Jan;11(1):9-20. Epub 2010 Dec 10. Review. - Control of intestinal homeostasis, colitis, and colitis-associated colorectal cancer by the inflammatory caspases.Dupaul-Chicoine J, Yeretssian G, Doiron K, Bergstrom KS, McIntire CR, LeBlanc PM, Meunier C, Turbide C, Gros P, Beauchemin N, Vallance BA, Saleh M. Immunity. 2010 Mar 26;32(3):367-78. Epub 2010 Mar 11.

sábado, 16 de abril de 2011

É necessário cautela na divulgação de seus dados...

Clique na figura para ampliar

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Newsletter - Frontiers in Immunology

Caros, vejam a carta que recebemos da IUIS. Por favor, leiam e manifestem.

IUIS-FIM Newsletter April 15th, 2011

Subject: Requests for Special Topic Proposals

Dear Society Member,

Frontiers in Immunology was just launched a few months ago and it is now the official journal of the

International Union of Immunological Societies (IUIS), as you may know. Accordingly, we would like to

make you aware of the possibility for you to propose a Special Topic in your research area. This is an

opportunity for you to ‘take ownership’ of this new scientific publishing paradigm!

Frontiers is an Open Access, Swiss-based international scientific publisher. It was designed and is run by

scientists for scientists - over 15 000 of the highest impact scientists in the world are editors in

Frontiers. You can find out more about Frontiers at: www.frontiersin.org/about.

It is important for us to be able to bring together our peers, competitors as well as colleagues, to focus on

their research areas, hypotheses or questions - normally we do this through small conferences or holding

sessions at major conferences. Frontiers Special Topics was conceived to give researchers the

opportunity to bring their own community together and into focus. Special Topics are not at all the same

as special issues of other journals. Special Issues are usually strategically selected by a publisher

according to their agenda. It is the researcher’s agenda that is important in Frontiers, and articles are not

invited, but carefully selected (as in a conference) from article proposals and rigorously peer-reviewed.

Special Topics are meant to be an encyclopedic coverage of a focused research area with a collection of

a minimum of 10 articles of any type (Original Research, Methods, Hypothesis & Theory, Reviews, etc.).

A Live System: Frontiers created a special IT platform to manage and present Special Topics, making it

easy to host a Special Topic using this platform. Each Special Topic gets a dedicated homepage on the

Frontiers website, where all articles are aggregated. In the upcoming versions of Frontiers, it will be

possible to initiate discussions, blogs, collaborations and share data. It is not a one-off affair. The site can

become a hotbed of continued discussion, and regularly updated with new articles - much like a repeated

annual conference.

E-books: Special Topics will also be compiled into an e-book for widespread dissemination to promote

the focused research area. The e-books can be sent to all major foundations that fund the particular area

of research, to Frontiers’ network of international journalists, and to any list of organizations the

organizers propose.

Encyclopedia: Frontiers has started building a state-of-the-art, freely accessible multimedia research

encyclopedia for release in 2013 that will aggregate Special Topics into an easy readable, navigable and

educational form. The Frontiers Research Encyclopedia will select all those highly successful Special

Topics to define the research categories to be covered, and work with you to make a concise synthesis

for lay consumption. It will become the ultimate reference source for scientists, educators, funders, the

scholarly public, and policy makers (also on iPad and other like systems).

So, Frontiers Special Topics are an opportunity for you to bring your research area to critical mass, to

intensify collaborations, to promote the research area to funders, to make sure that the research area is

represented in the knowledge base of academia, and to make each discovery in science count in the

education of future scholars. As the ultimate continuous reference source by leading scientists, Special

Topic articles will also become highly cited articles.

Like all research published with Frontiers, all Special Topic articles are freely available on the Internet and

submitted to PubMed Central and other archiving facilities. Article contributions to Special Topics receive

reduced article publication fees, which sustain our open access policy and philosophy.

Typically, Frontiers Special Topics are co-hosted by several leading scientists. If you are interested in this

opportunity, please contact the Frontiers Editorial Office (immunology.editorial.office@frontiersin.org)

for further instructions on how to submit your proposal, which will be reviewed by the Specialty Chief

Editors and has to be approved by them. The most important part of your job, as a Special Topics Host

Editor, will be to ‘spread the word’ to all of your friends as to this special publishing opportunity!

All the best regards./Kendall & Seppo

Seppo Meri, MD, PhD, Professor of Immunology, Secretary General, International Union of

Immunological Societies (IUIS), Department of Bacteriology & Immunology, PO Box 21, Haartman

Institute (Haartmaninkatu 3), FIN-00014 University of Helsinki, Helsinki, Finland

tel 358-9-191 26758, fax 358-9-191 26382, seppo.meri@helsinki.fi

Kendall A. Smith, M.D., Rochelle Belfer Professor of Medicine & Immunology, Chief, Division Of

Immunology, Weill Medical College of Cornell University, 407 East 61st St., RR-503, New York, NY,

10065

tel: 646-962-8166, E-mail: kasmith@med.cornell.edu, URL: www.kendallasmith.us

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Crise no governo Americano quase tira o pubmed do ar

por Joao P Monteiro

(at the Lymphocyte Biology Section of the Laboratory of Immunology, NIAID/NIH)

Você pode estar perguntando o que a atual crise financeira americana tem a ver com o pubmed, a principal base de dados e ferramenta de busca de informação científica na área biomédica. Pois tem tudo a ver. Há exatamente uma semana, sexta-feira, 8 de Abril, a incapacidade de entendimento entre os partidos Democrata e Republicano no Congresso Americano quase levou o governo a literalmente fechar as portas. Uma guerra, mais ideológica que financeira, vem sendo travada no congresso desde que os Republicanos, impulsionados pelo “Tea Party” retomaram a maioria no congresso, desestabilizando a base democrata, tentando reverter os avanços sociais alcançados pelo governo Obama nos últimos anos.

O desentendimento tomou proporção tal, que já fevereiro, sem conseguir aprovar o orçamento da União para 2011, o governo Obama pela primeira vez foi ameaçado a fechar as portas, o que não ocorreu devido à assinatura de uma medida provisória que manteve o ogoverno aberto às custas de um orçamento provisório. Na semana passada essa medida expirou e na incapacidade de Democratas e Republicanos se entenderem, o governo - todos os órgãos federais públicos americanos - se prepararam para fechar as portas sexta-feira à meia noite. Literalmente. Incluindo os “National Institutes of Health”, com suas centenas de laboratórios, pesquisadores e pós-doutorandos. Cada funcionário recebeu uma notificação classificando-o como essencial ou não-essencial, e os não-essenciais foram gentilmente convidados a permanecer em casa. Sem acesso ao local de trabalho, contas de email e, claro, sem salário. Por tempo indeterminado. Na sexta-feira, 18h a maioria dos pós-docs já tinha deixado os labs, carregando pilhas de dados e o que era possível de trabalho para fazer em casa, caso a situação se prolongasse. Às 19:30 um novo email avisando que contas oficiais de email seriam desativadas, acesso ao servidor seria impedido e todos os sites do governo considerados não essenciais permaneceriam fora do ar. Entre eles o pubmed.

Pouca gente se lembra, quando acessa o pubmed, que esta base de dados é mantida pelo governo americano, através da “National Library of Medicine”, localizada no campus principal do NIH em Bethesda. Pode conferir lá no cantinho esquerdo da página do pubmed no seu browser... A notícia se espalhou rápido, com protestos da comunidade científica online e em redes sociais. Afinal, que cientista em pleno século XXI pode pensar um mundo sem pubmed? Qual foi a última vez que você leu um artigo científico direto das páginas da revista? Ou, qual foi a última vez que você teve de ir à biblioteca da sua instituição procurar um artigo? O espaço físico para armazenamento de dados é cada vez menor, o espaço virtual cada vez maior, e a tendência da maioria dos periódicos científicos de digitalizar completamente seu acervo reduz imensamente a necessidade de uma biblioteca. E não seria a velocidade da ciência atual também uma consequência da capacidade de acessar a informação quase em tempo real?

Bem, o final da história é feliz. Faltando menos de uma hora para o “shutdown”, um acordo entre Republicanos e Democratas foi anunciado, o Orçamento foi aprovado e governo não fechou. Só por via das dúvidas, à meia noite e um minuto acessei o pubmed para ter certeza que tudo continuava lá... Estava.

Leia a história toda em:

http://www.washingtonpost.com/wp-srv/special/politics/government-shutdown-2011/index.html

Onde está Organismo?

Nelson Vaz

Onde está Organismo?” é um pequeno livro da editora-UFSC, Florianópolis, que reune transcritos de palestras de um simpósio realizado na UFSC, em 2006. Editado por Gustavo Ramos (UFSC), tem como autores além de Gustavo Ramos: João Francisco Botelho (UFSC), Jorge Mpodozis (Universidad de Chile, Santiago) e Nelson Vaz (UFMG). O livro estará disponível nas livrarias em abril de 2011.


Onde está Organismo?

DERIVAS E OUTRAS HISTÓRIAS NA BIOLOGIA E IMUNOLOGIA.


APRESENTAÇAO (NELSON VAZ)

PREFÁCIO. AS PERGUNTAS ANTES DAS RESPOSTAS. (GUSTAVO RAMOS)


1. ONDE ESTÁ O ORGANISMO?

1.a. “A EQUAÇÃO FUNDAMENTAL DA BIOLOGIA”. (JORGE MPODOZIS)

1.b. “ONTOGENIA”. (JORGE MPODOZIS)

1. c. “A DERIVA NATURAL DOS SISTEMAS DE DESENVOLVIMENTO” (JOÃO FRANCISCO BOTELHO)

1.d. “FILOGENIA”. (JORGE MPODOZIS)


2. UM SISTEMA IMUNOLÓGICO, AFINAL

2.a. “O NÓ GÓRDIO ENTRE BIOLOGIA E IMUNOLOGIA” (GUSTAVO CAMPOS RAMOS)

2.b. “Inflamação como um fenômeno do desenvolvimento animal” (GUSTAVO RAMOS)

2.c. “UMA BREVE HISTÓRIA DAS CERTEZAS IMUNOLÓGICAS” (NELSON VAZ)

2.d. “ A FISIOLOGIA CONSERVADORA DO SISTEMA IMUNOLÓGICO” (NELSON VAZ)

2.e. “IMUNOPATOGÊNESE POR DESCONEXÃO”. (NELSON VAZ, ICB/ UFMG)


POSFÁCIO - O MODO DE OUVIR. (JORGE MPODOZIS)


Derivas

O livro trata a Biologia e a Imunologia com base na Deriva Natural (Maturana and Mpodozis, 2000)

um conceito que substitui à idéia de evolução biológica baseada na Seleção Natural (o neo-Darwinismo), uma das idéias mais poderosas dos tempos modernos.

Desde que publiquei o “Guia Incompleto de Imunobiologia” (Vaz e Faria, 1993)

, outro pequeno livro cuja edição se esgotou rapidamente, perguntam porque não fiz uma re-edição. Senti que não valeria fazer isto sem a companhia de outros textos que legitimassem outra revolução, mais ampla, na Biologia. Porqu, como afirma Gustavo Ramos neste segundolivro, há um nó Górdio entre a maneira de ver a Imunologia e o neodarwinismo. Desde os anos 1960,a Imunologia está baseada no conceito de seleção clonal, primo-irmão da seleção natural.


A Seleção Natural, como outros processos considerados “seletivos”, na realidade é a conjugação de dois processos, ou um processo em duas fases. Na primeira fase, uma ampla gama de variantes deve ser gerada ao acaso; na segunda fase, estes variantes competem entre si para o desempenho de uma dada função e são “selecionados” os variantes “mais aptos”. A geração dos variantes deve ser aleatória para validar o processo de “seleção” como o real construtor do processo; se fatores não-aleatórios governarem o que se passa, seriam estes fatores e não a “seleção” o motor do que se passa. Segundo o neo-Darwinismo, entre as fontes aleatórias de variantes na origem das espécies de seres vivos estão a reprodução sexual, as mutações e recombinações do DNA.


Na deriva natural, a noção de acaso, necessária aos processos seletivos, é substituída pela noção de história, definida como uma sequência de mudanças estruturais. Maturana diz que:


“Os sistemas vivos são sistemas históricos, existem como entidades singulares em um fluxo contínuo de mudanças estruturais em torno da conservação de sua auto-construção/manutenção (sua autopoiese) e da conservação de sua congruência com as circunstâncias do meio em que vivem (sua adaptação). Não é a mudança que torna a evolução biológica um processo histórico: é a conservação (ontogenética e filogenética) da autopoiese e da adaptação, como aquilo em torno do qual, todo o resto pode variar. Nessas circunstâncias, o que é primariamente conservado na história dos sistemas vivos é o viver.”


A “orelha” do nosso novo livro cita Jorge Mpodozis, ao dizer:

“Há plasticidade nos modos de desenvolver. Os caminhos do desenvolvimento têm plasticidade em todos os momentos, e isso é o que permite essa maravilhosa diversidade de linhagens de seres vivos. Mas o problema não é o que é plástico, e sim o que se conserva. Se a mudança é uma condição constitutiva do viver, então, como se conserva aquilo que se conserva?”


Como se conserva aquilo que se conserva? Nesta outra maneira de ver, na qual a adaptação é invariante, as perguntas fundamentais estão dirigidas aos processos que determinam as direções que seguem a mudança e a conservação das características biológicas. Como é mantido aquilo que se conserva naquilo que muda; uma visão do viver como um processo epigenético, no qual o presente não contém o futuro e que se passa no presente não foi determinado no passado, mas sim, é decidido a cada instante.


Aquilo que a imunologia tradicional considera seu objeto de estudo - as reações defensivas, como a formação de anticorpos - não é aquilo que é primariamente conservado pelo organismo. Estas reações consideradas defensivas são parte da conservação da construção/manutenção do organismo (sua autopoiese) e da conservação de sua congruência com as circunstâncias do meio (sua adaptação). Nestes termos, um dos aspectos mais importantes da imunologia atual, por exemplo, é a caracterização da constância de padrões de reatividade nas imunoglobulinas naturais e em linfócitos T naturalmente ativados,problemas que raramente são percebidos como importantes (Nóbrega et al., 2002; Madi et al., 2011)



UM SISTEMA IMUNOLÓGICO, AFINAL

Em nosso novo livro, “Onde Está o Organismo?” descrevo a atividade imunológica como uma deriva natural. A imunologia nasceu junto com a bacteriologia médica, no trabalho de Pasteur, Koch e vários outros cientistas, na segunda metade do século XIX. Nasceu inspirada pela Teoria dos Germes, na suposição de que o contágio com germes específicos é o que causa as doenças infecciosas e que a proteção contra as mesmas seria conseguida com vacinas

.


Nasceu também embebida na contradição gerada por nossa dupla natureza de organismo/pessoa, que confere atributos de pessoa (antropomorfiza) ao nosso corpo, como se uma intencionalidade defensiva pudesse fazer parte da ação de células e moléculas. Esta intencionalidade defensiva marcou a criação dos termos imunológicos, pois não há outra maneira de entender o sentido do termo “anticorpos”. Estes conceitos fundadores, antropomorfizantes, que contêm este duplo equívoco, continuam centrais e atuantes na imunologia do século XXI.


As doenças infecciosas não são explicáveis meramente pelo contágio. A grande maioria dos organismos infectados se comporta como “portadores sãos” de milhares de bactérias; grande parte do DNA de cada organismo está enxertado com DNA viral; um terço de todos os sers vivos existe como “parasita”. As doenças infecciosas são “acidentes de percurso” na convivência do organismo com uma imensa variedade de bactérias, vírus e parasitas multicelulares.


A “defesa” do corpo é um resultado de processos de construção/manutenção do organismo, não é um mecanismo defensivo, não é uma parte especial que se destaca deste viver; surge assim apenas em nossas observações tradicionais. O viver de organismos metazoários, como o nosso, envolve o convívio em harmonia com bactérias, vírus e parasitas, além do contato diário com centenas de proteínas de alimentos e com materiais diversos derivados da flora intestinal, contra os quais não “nos defendemos” como proposto na imunologia tradicional e está implícito na noção de “vacinas”.


Um entendimento adequado da biologia de linfócitos e outras células envolvidas na atividade imunológica, precisa evitar estes dois equívocos. Precisa abandonar:

a) a idéia de uma defesa intencional: e

b) a confusão do que fazemos (como pessoas) com aquilo que nosso corpo faz (seu viver).


Esta mudança não é fácil. Abrir mão desta maneira de ver esbarra na necessidade de substituí-la por uma outra maneira de ver, que preencha o vácuo criado pelo abandono de crenças seculares. Isto não ocorrerá da noite para o dia. Há o medo de buscar um conhecimento alternativo que parece não existir. Há muito menos pesquisa sobre “portadores sãos” do que sobre as doenças infecciosas. Somos todos expostos a materiais (alergenos) capazes de gerar doenças alérgicas, mas apenas alguns de nós se tornam “alérgicos”. Todos nós possuímos também linfócitos T ativados que reagem com peptídeos autólogos, além de imunoglobulinas que se comportam como “auto-anticorpos”, mas apenas alguns de nós são acometidos por “doenças autoimunes”. A saúde imunológica é a regra, mas todos os esforços se concentram em explicar as doenças, as exceções a esta regra de que a saúde é mais comum.


Isto ocorre porque atentamos mais para as mudanças que para a constância. Os objetos e os fenômenos que encontramos em nosso viver diário são de uma constância ilusória que oculta o turbilhão de mudanças que os constitui. Nossa realidade é construída com objetos estáveis e eventos previsíveis, portanto, as mudanças são o que nos preocupa e aquilo que preenche o noticiário do dia-a-dia. Com a imunologia não poderia ser diferente: a imunologia está interessada em mudanças da produção de imunoglobulinas, isto é , na formação de anticorpos

. Nesta maneira de ver, a estabilidade (a constância) das imunogloblinas que compõem os processos do viver cotidiano, é de importância secundária, ou sequer chega a ser imaginada.


Paradoxalmente, ao falar de mudança, falamos sempre de algo que se conserva, algo que assumiu uma nova forma, uma nova dinâmica. Ao valorizar a mudança e a inovação, nossa cultura está menos atenta para aquilo que se conserva. Mas só podemos falar da variação de algo que, até então, permanecia. É impossível descrever a história de eventos ao acaso A história e o acaso são incompatíveis, porque o que se passa não se passa ao acaso, mas sim como uma deriva.


Porque mudar?

A imunologia está em crise. É possível que, até mesmo para a maioria dos imunologistas profissionais, não se aperceba disso. Mas há uma flagrante defasagem entre o imenso aumento no conhecimento sobre componentes e mecanismos celulares e moleculares na imunologia experimental, e a tradução deste conhecimento em resultados práticos (clínicos,laboratoriais), no diagnóstico, prevenção e tratamento de doenças. No mínimo, poderia ser dito que esta tradução é demasiadamente lenta. Isto não significa que não ocorram exceções a esta regra e que, aqui e ali, sucessos notáveis sejam obtidos. Muitos afirmam que um grande progresso é iminente.


Mas a imunologia não sabe inventar novas vacinas anti-infecciosas. Bilhões de dólares e euros foram empregados sem sucesso na pesquisa de vacinas para o HIV, ou para a malária, ou mesmo para epidemias de influenza. Não existe tratamento eficaz para as doenças alérgicas, como a asma brônquica. Não existem sequer métodos efetivos de diagnóstico de doenças autoimunes. A miastenia gravis, por exemplo, é diagnosticada pela presença de anticorpos contra o receptor nicotínico da acetilcolina; mas quando estes anticorpos são induzidos em diversas linhagens de camundongos, por imunização com o receptor de acetilcolina, não há correlação entre a formação dos anticorpos e os sintomas de miastenia. O progresso na realização de transplantes de órgãos e tecidos foi devido ao desenvolvimento de agentes imuno-supressivos mais seguros e eficazes, não a uma compreensão do que se passa imunologicamente; no transplante de medula óssea, ainda não se sabe como prevenir a reações transplante-contra-hospedeiro, frequentemente fatais.


A descrição da atividade imunológica como uma deriva natural e a definição do sistema imune como uma rede fechada de interação entre linfócitos e de linfócitos com o organismo, que é o “meio” onde este sistema opera, não se resume a descrever sua fisiologia. Prevê também situações nas quais a atividade dfe linfócitos se torna patogênica. Em termos ultra-sumários, assim como o sistema imune é visto como um conjunto de relações entre linfócitos, a patogênese imunológica fosse um desconjuntamento, uma perda de conexões nesse conjunto, que permite que clones se expandam independentemente dos demais e resultem em populações linfocitárias com um grau sub-ótimo de diversidade clonal, isto é, expansões oligoclonais - uma imunopatogênse por desconexão, como descrevo em nosso livro.


A idéia de expansões oligoclonais como fonte de imunopatologia pode sugerir explicações que são como um denominador comum para doenças infecciosas, alérgicas e autoimunes. Além disso, permite entender um mecanismo de funcionamento das vacinas anti-infecciosas baseado na diversidade clonal, em vez de estar baseado na “memória”imunológica, como atualmente se entende, e assim sugerir abordagens alternativas à pesquisa sobre novas vacinas (Vaz et al., 2006; Vaz, 2009; Vaz e Carvalho, 2009; Pordeus et al, 2008; 2009)

.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Coma uma cenoura, também um pouco de gordura, e não se esqueça de amamentar o seu bebê


Não é de hoje que se discutem os efeitos da carência e do excesso da ingestão da vitamina A na dieta. Centenas de milhões de indivíduos não ingerem quantidades suficientes desta vitamina, o que tem sido associado a alta mortalidade resultante de infecções gastrointestinais e pulmonares. O aumento da susceptibilidade a estas infecções pode ser atribuída a danos causados aos epitélios e defeitos na capacidade efetora do sistema imunológico contra patógenos.

Foi no ano de 2007 que vários grupos de pesquisa mostraram o papel do ácido retinóico (RA) no desenvolvimento de um grupo específico de linfócitos, as células T reguladoras. O ácido retinóico é produzido por células dendríticas intestinais (CD103+), que juntamente com TGF-β induz expressão de Foxp3 por células T naive. Neste mesmo ano, pesquisadores descreveram ainda que o RA inibe o desenvolvimento de células Th17, subpopulação com atividade pró-inflamatória. Estabeleceu-se assim que o RA, promovendo desenvolvimento das células T reguladoras e inibindo o desenvolvimento de células Th17, é um importante modulador de respostas inflamatórias potencialmente deletérias.

Neste mês, Jason Hall e colaboradores publicaram na Immunity um trabalho demonstrando que RA é importante na indução de células T CD4 efetoras durante a infecção pelo Toxoplasma gondii e a vacinação. Os pesquisadores demonstraram pela primeira vez o envolvimento do receptor de RA, que, na superfície de linfócitos T, interage com seu ligante e tem papel na indução da imunidade celular. Assim, este trabalho adiciona às atribuições do RA um papel também inflamatório durante a resposta imune.

Pontos chaves para estimular a leitura deste trabalho:

- Sinalização do RA ocorre sistemicamente durante a infecção pelo T. gondii, agindo nas células T CD4, independente da via de infecção.

- Respostas de células Th1 e Th17 encontram-se prejudicadas durante infecção pelo T. gondii e vacinação na ausência de metabolitos da vitamina A.

- Na ausência de vitamina A, o RA restabelece as respostas do tipo Th1 e Th17, e o equilíbrio de células T no tecido linfóide associado ao intestino, durante a infecção pelo T. gondii e vacinação.

- A deficiência do receptor de RA é responsável pelos mesmos efeitos na homeostase de células T observados durante a deficiência da vitamina A.

- Receptor de RA regula a ativação de células T.

E para os interessados, seguem algumas referências:

1) Hall JA, Cannons JL, Grainger JR, Dos Santos LM, Hand TW, Naik S, Wohlfert EA, Chou DB, Oldenhove G, Robinson M, Grigg ME, Kastenmayer R, Schwartzberg PL, Belkaid Y. Essential Role for Retinoic Acid in the Promotion of CD4(+) T Cell Effector Responses via Retinoic Acid Receptor Alpha. Immunity. 2011 Mar 25;34(3):435-47.

2) Vaishnava S, Hooper LV. Eat Your Carrots! T Cells Are RARing to Go. Immunity. 2011 Mar 25;34(3):290-2.

3) Coombes JL, Siddiqui KR, Arancibia-Cárcamo CV, Hall J, Sun CM, Belkaid Y, Powrie F. A functionally specialized population of mucosal CD103+ DCs induces Foxp3+ regulatory T cells via a TGF-beta and retinoic acid-dependent mechanism. J Exp Med. 2007 Aug 6;204(8):1757-64.

4) Mucida D, Park Y, Kim G, Turovskaya O, Scott I, Kronenberg M, Cheroutre H. Reciprocal TH17 and regulatory T cell differentiation mediated by retinoic acid. Science. 2007 Jul 13;317(5835):256-60.

5) Sun CM, Hall JA, Blank RB, Bouladoux N, Oukka M, Mora JR, Belkaid Y. Small intestine lamina propria dendritic cells promote de novo generation of Foxp3 T reg cells via retinoic acid. J Exp Med. 2007 Aug 6;204(8):1775-85.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Tolerância e memória na imunidade inata? O controverso papel das células NK


Grandes esforços têm sido feitos para se entender melhor os mecanismos envolvidos no processo de tolerância, uma vez que a perda da tolerância ao próprio está intimamente relacionado com o desenvolvimento de doenças autoimunes. A maior parte do conhecimento atual sobre o entendimento da tolerância imunológica é baseada nos mecanismos controlados pelos linfócitos T e B. Entretanto, novos insights sobre o papel da imunidade inata no controle da tolerância começam a ser mais profundamente elucidados. Um interessante artigo publicado na Science Signaling no início desse mês, demonstrou o importante papel das células Natural Killer (NK) no estabelecimento da tolerância controlada pela imunidade inata.

O grupo de pesquisa francês liderado pela Dra. Sophie Ugolini (Centre d’Immunologie de Marseille-Luminy) conduziu um estudo que detalhou os mecanismos que levam a tolerância de células NK quando essas células não são capazes de detectar o MHC de classe I próprio através dos receptores de inibição, bem como os mecanismos pelos quais a detecção do MHC de classe I próprio através dos receptores de inibição condiciona ou “ensina” as células NK a se tornarem competentes. Os autores analisaram se o confinamento das moléculas inibidoras Ly49 e as proteínas ativadoras NK1.1 variavam entre as células NK hiporresponsivas e competentes. Os pesquisadores demonstraram que o processo de tolerância independente de MHC classe I em camundongos é associado com a presença de células NK hiporresponsivas nas quais ambos receptores de ativação e inibição apresentavam-se confinados em uma malha de actina na membrana plasmática. Em contraste, o reconhecimento do MHC classe I próprio pelos receptores de inibição condicionaram células NK a se tornarem reativas, e os receptores de ativação das células NK se compartimentalizaram em nanodomínios de membrana plasmática. Os autores propuseram que o confinamento dos receptores de ativação na membrana plasmática é crucial para assegurar o processo de tolerância ao próprio pelas células NK.


Fonte: Guia et al. 2011 – Science Signaling – Confinement of activating receptors at the plasma membrane controls natural killer cell tolerance.

Células NK se lembram?

Células NK também tem sido foco de recentes estudos que estão mudando a noção de que a memória imunológica funcional é limitada apenas a imunidade adaptativa. O grupo da Dra. Sophie Ugolini também publicou na Science do mês de Janeiro uma interessante revisão sobre o papel controverso das células NK na geração de memória imunológica. Foi descrito que células NK tem a capacidade de alterar o seu comportamento baseado em uma ativação prévia, uma característica análoga à memória imunológica adaptativa. Contudo, algumas funções das células NK semelhantes à memória imunológica clássica não são estritamente derivadas de antígenos e podem ser observadas após a estimulação por citocinas. O artigo discute as recentes evidências de que células NK podem exibir propriedades de memória imunológica, focando na habilidade das citocinas induzirem de forma não específica esse tipo de memória em células NK, que podem aumentar sua resposta após a re-estimulação.


Fonte: Vivier et al. 2011 – Science – Innate or Adaptive Immunity? The Example of Natural Killer Cells

Além de levantar questionamentos e boas discussões sobre os paradigmas do que se acredita hoje na Imunologia, tais recentes descobertas sobre as novas funções de memória das células NK e seu papel na tolerância imunológica, irão também acrescentar muito ao melhor entendimento dos mecanismos de regulação da resposta imunológica e do reconhecimento do próprio e não-próprio.


Pra quem quiser ler mais a respeito do assunto, seguem abaixo alguns artigos:


Vivier E, Raulet DH, Moretta A, Caligiuri MA, Zitvogel L, Lanier LL, Yokoyama WM, Ugolini S 2011. Innate or Adaptive Immunity? The Example of Natural Killer Cells. Science 331: 44 - 49.

Guia S,Jaeger BN, Piatek S, Mailfert S,Trombik T,Fenis A,Chevrier N, Walzer T, Kerdiles YM, Marguet D, Vivier E, Ugolini S 2001. Confinement of Activating Receptors at the Plasma Membrane Controls Natural Killer Cell Tolerance. Science 4 (167): 1-12.

Biron CA 2010. More things in heaven and earth: defining innate and adaptive immunity. Nat Immunol. 11(12):1080-2.

Sun JC, Lopez-Verges S, Kim CC, DeRisi JL, Lanier LL 2011. NK cells and immune "memory". J Immunol. 186(4): 1891-7.

Cooper MA & Yokoyama WM 2010. Memory-like responses of natural killer cells. Immunol Rev. 235(1): 297-305.


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