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BRASILEIRA DE IMUNOLOGIA
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domingo, 13 de janeiro de 2013

A HIPÓTESE PATHOS-D: A RELAÇÃO ENTRE DEPRESSÃO E QUESTÕES IMUNOLÓGICAS

          Doenças que levam à depressão são muito comuns nos dias de hoje. Todo mundo já conheceu alguém que tem ou teve algum sintoma depressivo ou que está em uso de medicamentos para depressão. Isso se dá não somente pelo aumento das pesquisas relacionadas à area de psicobiologia e psicofarmacologia, mas também a melhores diagnósticos e acesso das pessoas a medicamentos e a consultas por profissionais da saúde. Porém, a questão que surge é se as desordens depressivas maiores (depressões clínicas) são tão prejudiciais à sobrevivência e reprodução do indivíduo, por que então as variantes alélicas que promovem essas desordens não foram eliminadas ao longo da evolução?


         Numa belíssima tentativa de decifrar essa questão, Raison e Miller (2013) desenvolveram uma hipótese um tanto curiosa, principalmente por envolver aspectos imunológicos. Os autores supõem que alelos que potencialmente podem levar à depressão se originaram e se mantiveram no genoma humano devido à sua função complementar (ou integral) na modulação das respostas comportamentais e imunológicas que promovem a defesa do hospedeiro contra patógenos. Isto é, sintomas depressivos (como sociofobia, anedonia, anorexia e insônia) estão correlacionados com aumento da resposta imunológica a um patógeno (ver comentários abaixo), logo seus alelos variantes sofreram forte pressão seletiva positiva, mantendo-se no genoma. Então surge a hipótese da PATHOS-D (Pathogen Host Defense)

            Distúrbios depressivos são acompanhados por um aumento da resposta imune inata, podendo haver aumento de marcadores inflamatórios no sangue. Curiosamente, o aumento desses marcadores em indivíduos não depressivos pode predizer o desenvolvimento de depressão futura (Miller e cols., 2009). Os marcadores mais envolvidos nessas sintomatologias são classicamente conhecidos, tais como a IL-6, TNF-a, IL-1b, IFN e proteínas inflamatórias de fase aguda (Zorrilla e cols., 2001; Pasco e cols., 2010). O aumento dessas citocinas no sangue do indivíduo induz a apresentação de um comportamento denominado de “sickness behavior” (ou literalmente “comportamento doentio”), facilmente visto em animais (Aubert e cols., 1997; Bassi e cols., 2012) e humanos (McKusker e Kelley, 2013), cujos sintomas podem incluir anedonia, anorexia, caquexia, piloereção, hiperalgesia, fotofobia, febre, entre outros.

           Ao encontrar um antígeno imunogênico, o corpo reage organizando uma resposta hierárquica e controlada tanto localmente como sistemicamente, recrutando ambos sistemas imune e nervoso. Quando há o reconhecimento do patógeno, ocorre a liberação em cascata de citocinas pró-inflamatórias, tais como IL-6, TNF-a, IL-1 e IFN-a, quimiocinas e indução de moléculas de adesão. As citocinas e células encontradas na circulação periférica ativam e interagem com o sistema nervoso, produzindo hipervigilância (parte dorsal do córtex cingulado anterior), evitando futuras lesões e exposição ao patógeno, conservação/preservação (núcleos basais), promovendo a organização das reservas energéticas para a eliminação do patógeno e da cura dos ferimentos (Figura)




A hipótese PATHOS-D se apóia nos seguintes fundamentos:
1)      A depressão deve estar associada ao aumento do processo inflamatório e a ativação do mesmo deve induzir depressão;
2)  Variantes alélicas que aumentam os riscos de distúrbios depressivos (DD) podem aumentar os mecanismos de defesa em geral e da imunidade inata;
3)      Fatores ambientais para DD devem estar associados com o aumento do risco de infecções e aumentar a ativação inflamatória;
4)      Os padrões de aumento da atividade inflamatória associada aos DD devem diminuir a mortalidade por infecção nos ambientes de origem;
5)      Sintomas depressivos devem aumentar a sobrevivência no contexto da infeção aguda e em situações nas quais o risco de infecção pelo ferimento é alto.

             Em contrapartida, a PATHOS-D não é corroborada por toda a literatura científica, pois nem todos os pacientes com DD apresentam marcadores inflamatórios aumentados no sangue e/ou no líquor (Raison e Miller, 2011; Schmidt e cols., 2011; Raison e cols., 2010). Além disso, há a questão da adaptabilidade do indivíduo, pois o organismo, como um todo, tentará se adaptar ao máximo ao ambiente, podendo levar à depressão somente em casos extremos e onde não se tem controle sobre as variáveis ambientais (é interessante dar uma olhada na Teoria de Selye sobre a Adaptação Geral, mas isso já é outra história). Outro ponto é que a administração de citocinas a animais e humanos não leva necessariamente a sintomas depressivos (Capuron e cols., 2005; Raison e cols., 2010). Por exemplo, nem todo paciente em uso de IFN terá sintomas depressivos completos, mas pode ter, separadamente, outras variantes que incluem fadigas, dores musculares, insônias, anorexia, etc.

           O ponto positivo é que a PATHOS-D pode ajudar no desenvolvimento de novos tratamentos contra patologias imunológicas e mentais. Muitos autores tem descrito o tratamento de distúrbios depressivos por meio do uso de antiinflamatórios (Lotrich e cols., 2011), e também o tratamento de processos inflamatórios por meio de antidepressivos (Marteli e cols., 1967; Neveau e Castanon, 1999).

            Em resumo, a teoria PATHOS-D sugere que os alelos responsáveis por distúrbios depressivos são resultado de mecanismos de defesa contra patógenos ao longo da evolução. Isso nos mostra que o neurônio tem uma participação importante no sistema imune durante o combate a patógenos. E isso está conosco muito antes do neurônio, muito antes do macrófago, muito antes do próprio genoma.

Fonte: Raison CL, Miller AH. 2013. The evolutionary significance of depression in Pathogen Host Defense (PATHOS-D). Molecular Psychiatry. 18, 15–37.



Post de Gabriel Shimizu Bassi

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

UFRJ LANÇA EDITAL PARA CONCURSO DE PROFESSOR COM MAIS DE 300 VAGAS


No dia 24 de dezembro a UFRJ publicou edital para seleção de provas e títulos com mais de 300 vagas para o cargo de docente do magistério superior. As vagas alcançam todos os centros universitários e boa parte das unidades, além do Polo em Xerém e o Campus Aloísio Teixeira da UFRJ em Macaé.
As inscrições irão do dia 8 de janeiro até às 23 horas e 59 minutos do dia 6 de fevereiro de 2013, exclusivamente por meio de sítio eletrônico (concursos.pr4.ufrj.br) criado para esse certame, de acordo com a deliberação do Conselho Universitário em 12 de dezembro, que criou, também, uma Comissão Executiva para acompanhar todo o processo até sua conclusão.
Os candidatos poderão acompanhar o cronograma do concurso por esse sítio e os programas para cada setor estarão disponíveis a partir do dia 8 de janeiro.
Depois de feitas as inscrições o candidato deverá comparecer a unidade acadêmica para qual irá concorrer, munido com a documentação exigida e aguardar a homologação definitiva de sua inscrição, que será informada pelo próprio sítio eletrônico, assim como os endereços das unidades da UFRJ.
Estará disponível, também, para os candidatos o telefone: (021) 2598-1818 que funcionará das 9 às 17 horas, a partir do dia 8 de janeiro, como central de informações e atendimento.


Vejam o link:
http://concursos.pr4.ufrj.br/index.php?option=com_content&view=article&id=21:edital-no-312-de-21-de-dezembro-de-2012&catid=1

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O SBlogI deseja aos seus leitores um excelente 2013

Com votos de um produtivo e instigante 2013, informamos que retomaremos nossas atividades no próximo dia 14 de janeiro.

Até lá!

"Deus em seu repouso", Lapinha da Serra, Serra do Cipó (março de 2012), por Nelson Vaz.  

domingo, 6 de janeiro de 2013

Resistência herdável à cocaína... Será minha gente???



          Eis que como um raio luminoso e digo logo um tanto DESESPERADOR ! rs  que já de meias e assistindo a Retrospectiva 2012, recordei-me (ao fazer a MINHA retrospectiva do ano) do encarecido e já longínquo pedido do querido chefe para a confecção de um post!... Foi então, que em meio às lamentações temporárias me lembrei de algo muito interessante que havia lido na semana passada em uma dessas redes sociais (fingindo agora, um certo descaso! rs) e que confesso um tanto descrente no início, fui atrás do suposto trabalho.

     Contrariamente ao esperado pela máxima “tal pai, tal filho “cientistas da Universidade da Pensilvânia (U Penn) mostraram que filhos de ratos machos usuários de cocaína, eram mais propensos a resistir o vício. Os resultados publicados no dia 16 de dezembro na revista Nature Neuroscience “foi exatamente o oposto do que esperávamos", afirmou Chris Pierce, que liderou o estudo.

        Pierce permitiu que ratos machos ingerissem cocaína por 2 meses e, colocando fêmeas livres de drogas na mesma caixa, testou posteriormente a reação dos filhotes à cocaína. As filhas provaram ser tão sensíveis quanto os pais, no entanto os filhos eram mais resistentes. Comparado com os filhotes gerados por ambos os pais livres de drogas, os filhos machos obtidos pela situação anterior levaram um maior período de tempo para alcançar os mesmos níveis de dependência.

        Foi observado em tais animais, um aumento tanto em nível de mRNA quanto proteico de uma proteína denominada fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) no córtex pré-frontal medial (mPFC), uma parte do cérebro que é amplamente envolvida no controle do comportamento – e, constatado também, um aumento da associação de histona H3 acetilada com promotores de BDNF,  causando um aumento na expressão do gene apenas na descendência masculina de ratos viciados em cocaína. As mesmas alterações também ocorrem no esperma dos reprodutores e podem dessa forma, serem transmitidas aos filhotes.

        Ainda não está claro por que essa proteção não é repassada para as filhas, bem como, se pode ser herdada de ratas. Pierce acrescentou que "BDNF certamente não é o único jogador." Sua equipe vai analisar os genomas completos de seus ratos para identificar outras proteínas que possam estar envolvidas, o que então levaria a pistas para o tratamento da dependência.

       Coletivamente, esses resultados indicam que o comportamento de ingestão voluntária paterna de cocaína resulta em reprogramação epigenética dos descendentes, tendo efeitos profundos sobre a expressão gênica no córtex pré-frontal medial (mPFC), comportamento e consequente resistência à cocaína pela prole masculina. Embora ainda não seja claro se os resultados se aplicam aos seres humanos e como a bendita epigenética é uma caixinha de surpresas... Papais, repensem suas posturas! Afinal, nunca se sabe! =D

F. M. Vassoler et al., “Epigenetic inheritance of a cocaine-resistance phenotype,” Nature Neuroscience, doi:10.1038/nn.3280, 2012.

Post de Amanda Fonseca Zangirolamo - IBA

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Paper de 2012 na Imunologia VIII

E, por último, minha sugestão de trabalho marcante do ano (que, diga-se de passagem, me foi primeiramente indicado pela colega de UFU, Profa. Neide Silva):


Mathur R, Oh H, Zhang D, Park SG, Seo J, Koblansky A, Hayden MS, Ghosh S.
Cell. 2012 Oct 26;151(3):590-602. doi: 10.1016/j.cell.2012.08.042.


Comentário:
Esse paper não traz 'novos atores' para o contexto, mas consegue demonstrar que conhecemos ainda muito pouco sobre a atuação dos receptores inatos. Com uma abordagem filogenética implícita, os autores demonstram primeiramente que flagelina de Salmonella typhimurium se liga e ativa TLR11. Depois, de forma surpreendente, os autores mostram que este receptor confere resistência a camundongos frente a infecção por Salmonella typhi - diferentemente de seres humanos, que não possuem tal receptor e são acometidos pela febre tifóide. Com tais dados, eles sugerem a utilização de camundongos TLR11-/- como um inédito modelo murino para o estudo da infecção.




quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Paper de 2012 na Imunologia VII

Sugestão do blogueiro Fredy Gutierrez


Shi CS, Shenderov K, Huang NN, Kabat J, Abu-Asab M, Fitzgerald KA, Sher A, Kehrl JH.
Nat Immunol. 2012 Jan 29;13(3):255-63. doi: 10.1038/ni.2215.

Comentário: 
"O artigo demonstra uma conexão direta entre autofagia e inflammassoma."



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Paper de 2012 na Imunologia VI

Sugestão de João Viola:

van der Windt GJ, Everts B, Chang CH, Curtis JD, Freitas TC, Amiel E, Pearce EJ, Pearce EL. 
Immunity. 2012 Jan 27;36(1):68-78. doi: 10.1016/j.immuni.2011.12.007. 

Comentário:
"Os autores demonstram a diferença metabólica entre células T CD8 de memória e efetoras, mostrando que as células de memória utilizam preferencialmente a via mitocondrial aeróbica, enquanto as células efetoras utilizam a via glicolítica anaeróbica. Este efeito já foi bem demonstrado em células tumorais que apresentam uma alta taxa proliferativa, similar as células efetoras, chamado de efeito Warburg."




terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Paper de 2012 na Imunologia V

Sugestão do blogueiro Bernardo Franklin


Demattos RB, Lu J, Tang Y, Racke MM, Delong CA, Tzaferis JA, Hole JT, Forster BM, McDonnell PC, Liu F, Kinley RD, Jordan WH, Hutton ML. 
Neuron. 2012 Dec 6;76(5):908-20. doi: 10.1016/j.neuron.2012.10.029.




O Réveillon é a melhor festa do ano!





Ótimo 2013 para todos!!!

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