sexta-feira, 8 de agosto de 2014

E se...?


Uma das razões pelas quais as pessoas implicam com nerds é porque elas sabem tanto, mas tanto sobre alguma coisa, no nível molecular do assunto, que quando alguém fala algo errado sobre isso, eles sabem destrui-lo com argumentos, pois amam apaixonadamente aquilo ao qual dedicam seu saber. Fico pensando o  que aconteceria se os nerds do Brasil se unissem e se organizassem politicamente?

Na semana passada a National Review, uma revista conservadora associada com o Partido Republicano dos Estados Unidos, publicou o artigo de um colunista descascando o Neil de Grasse Tyson por se achar melhor que os outros só por ser nerd. O Neil acho que atualmente é o cientista mais pop que tem por aí – diretor do Planetário do Museu Americano de Historia Natural, apresentador do remake do show Cosmos, e apresentador de um show de radio chamado StarTalk, muito ouvido nos EUA.  Ele se posiciona sobre tudo, sempre de maneira didática e bem humorada:evolução; religião; organismos geneticamente modificados; mudança climática. Ele aparece em vários shows de TV, e com muito charme ensina de forma leve sobre diferentes assuntos, sempre de maneira muito articulada.

Isso irrita demais os conservadores americanos, partidários do ensino de criacionismo nas escolas, e que vivem em negação em relação às mudanças climáticas, renegam formas alternativas de energia. Para eles, o Neil epitomiza um medo muito grande: o de que as idéias liberais sejam, afinal, muito bem fundamentadas. Que perigo! Imaginem se todos realmente souberem que realmente existe evolução e que houve uma grande explosão que iniciou o universo. E, pior, se isso for descolado!

Hoje nos EUA e ao redor do mundo os nerds vem aos poucos aparecendo não tanto como malucos e introvertidos, mas até que simpáticos e engraçados. Shows de TV como o Big Bang Theory , o Sillicon Valley, são um exemplo claro dessa nova popularidade. Na carona disso, nerds já aparecem como alguém que realmente pode contribuir para uma sociedade melhor, não apenas com frutos do seu trabalho, como microchips, telefones celulares ou medicamentos revolucionários. Mas com idéias. Idéias de que mudança possa não apenas ser algo bom, mas o melhor.

A maioria dos nerds – e como cientista me incluo orgulhosamente nessa tribo – é introvertida e/ou  tem vergonha colocar abertamente o que sabe para o público em geral. Quando coloca, muitas vezes o faz de maneira meio desastrada pois vamos combinar muitos de nós não tem muitas habilidades sociais, ou acha que simplesmente as pessoas não vão estar interessadas, e vão tirar com a sua cara. Muitas vezes disfarçamos essa insegurança pensando – nem adianta eu argumentar, que o outro não vai entender o que vou dizer.

Mas, e se a gente achasse maneiras de ensinar de leve aos outros o que sabemos? Se nos colocássemos mais, se usássemos todo o conhecimento que temos para mostrar, de forma irrefutável, ou seja, baseada em evidência, quais idéias de um candidato ou governo são absurdas e quais idéias podem realmente trazer beneficio para a sociedade? Nem todos podemos ser charmosérrimos como Neil, mas cada um tem o seu tipo de charme. Acho pena que como categoria, principalmente os cientistas, sejamos tão pouco organizados nesse sentido. Pois acredito que temos muito a oferecer, mas não adianta guardar só dentro do laboratório. Você pode pensar que as pessoas não estariam interessadas. Mas, e se a gente soubesse como fazê-las se interessar?

Aqui o link de um artigo do NY times que adorei e fala um pouco sobre isso.

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