domingo, 29 de junho de 2014

JOURNAL CLUB IBA: ZBTB32 REGULA A “PROLIFERAÇÃO PERMISSIVA” EM CÉLULAS NK, ATRAVÉS DE SINAIS PROINFLAMATÓRIOS


Em trabalho recente de Beaulieu et al., publicado na revista Nature Immunology, foi demostrado que o Zbtb32, um dos membros da família de fatores de transcrição BTB-ZF, e o Blimp-1 (os quais são responsáveis pela regulação na proliferação e atividade funcional de linfócitos T e B), também estão envolvidos no processo de proliferação das células NK durante a infecção viral. Essa nova descoberta coloca as células NK em estreita semelhança com as células T.
Trabalhos anteriores demonstraram características similares das células NK e os linfócitos T. Assim, em estudo realizado por Chalifour et al., 2009, foi demostrado que, durante o processo de desenvolvimento das NK, as células são educadas para reconhecer o MHC-I próprio e, dessa maneira, não são ativadas durante o processo de interação com essa molécula na periferia. Outras características similares entre células NK e linfócitos T incluem o processo de ativação, sendo que, igual que aos linfócitos T, as células NK também são ativadas e proliferam em resposta a um antígeno específico (primeiro sinal). Além disso, as células NK também precisam de citocinas para exercer sua função efectora (terceiro sinal). Nesse contexto, será que o sinal de ativação das NK também envolve a ativação de fatores de transcrição como o Bcl6 que são observados em linfócitos T? Beaulieu e colaboradores mostraram que durante a infecção de camundongos com o citamegalovirus murino (MCMV sigla do inglês), as células NK Ly49H+ (específicas para o MCMV) apresentavam um aumento na expressão do gene Zbtb32 (fator de transcrição da família do Bcl6). Eles verificaram que animais knockout para esse gene, Zbtb32-/-, apresentaram uma taxa de sobrevivência menor do que os animais selvagens, quando infectados com o MCMV. No entanto a atividade funcional e a maturação das células NK Zbtb32-/- Ly49H+ não estavam alteradas.
            Quais seriam então os motivos pelos quais a ausência desse gene, nas células NK Ly49H+, diminuiria a sobrevivência dos animais infectados com o MCMV? Em células T e B, essa família de genes ao qual o Zbtb32 pertence controlam a diferenciação e proliferação dessas células (Martins et al., 2006; Yoshida et al., 2006). Além disso, eles regulam a atividade funcional das células NKT. Dessa forma, os pesquisadores resolveram investigar os processos de proliferação, apoptose e sobrevivência dessas células frente à infecção específica com o MCMV. Eles verificaram que as células NK Zbtb32-/- Ly49H+ não conseguem proliferar em resposta a infecção com o MCMV, enquanto que os processos de sobrevivência e morte não estão alterados. Assim, esse gene é essencial para a proliferação das células NK Ly49H+. Mas quais estímulos estariam favorecendo a ativação do Zbtb32? Seriam os antígenos virais, o ambiente inflamatório ou ambos? Em células NK knockout para o receptor das citocinas IFN-α, IL-12 e IL-18, a ativação do Zbtb32 é comprometida, enquanto que a ativação do receptor Ly49H+ somente não ativa a expressão do gene. Dessa forma, as citocinas do ambiente inflamatório são necessárias e suficientes para a proliferação das células NK. Assim, será que existe algum fator de transcrição downstream dos receptores de citocinas envolvido na ativação do Zbtb32? Os pesquisadores verificaram que o fator de transcrição STAT-4 liga-se a região promotora do gene Zbtb32 ativando-o e levando a sua transcrição.
Por último, restava esclarecer como a ativação de Zbtb32 controla a proliferação. Kallies et al. 2011, mostraram que o fator de transcrição Blimp-1 inibe a proliferação de células T e NK e que a proteína Bcl-6, um membro da família do Zbtb32, tem um papel antagônico ao do Blimp-1 em células B e T. Dessa forma, em virtude da semelhança entre Zbtb32 e Bcl-6, os pesquisadores hipotetizaram que as células NK Zbtb32-/- e Blimp-1-/- restaurariam a sua proliferação, o que foi confirmado. Em conclusão, o trabalho de Beaulieu e colaboradores mostra que o Zbtb32 promove a proliferação das células NK por antagonizar com o Blimp-1, mostrando mais uma semelhança no controle da proliferação entre as células NK e as células T (Figura 1).      


Figura 1: De modo semelhante ao que acontece nos linfócitos T, os fatores de transcrição Zbtb32 e Blimp-1 controlam a proliferação e função efetora de células NK, respectivamente. (a) As células NK expressam os genes que codificam as moléculas
com funções efetoras antes de encontrar o antígeno. Blimp-1 promove (→) a diferenciação de célula efetoras e inibe () a proliferação, ao passo que Zbtb32 inibe a expressão de Blimp-1. Como a expressão de Zbtb32 é estimulada pelas citocinas inflamatórias IL-12, IL-18 e IFN-α, o Zbtb32 regula a expressão de Blimp-1 para permitir a expansão da população de células NK em contextos inflamatórios. (b) Para os linfócitos, a expressão máxima de genes que codificam moléculas efetoras é tipicamente dependente de Blimp-1, após a proliferação induzida pelo antígeno. Blimp-1 reprime a expressão do Zbtb32 favorecendo, dessa forma, a função efetora (Adaptado de Crott et al., 2010).

Post de Annie Piñeros e Micássio Fernandes (Doutorandos IBA-FMRP-USP)


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