quinta-feira, 10 de abril de 2014

Sobre os ecos

“A educação brasileira está pior a cada ano”; “Os alunos, tanto no ensino básico quanto na universidade, estão péssimos”; “Tudo anda mal no ensino”. Essas são algumas das frases que qualquer um de nós escuta diariamente ao ter uma conversa na cantina, no churrasco com os amigos, no intervalo da aula na faculdade. O assunto As mazelas da educação brasileira é popular. Todos nós nos sentimos aptos a falar sobre. Entretanto, propor soluções é para alguns. Entender a origem é, ainda, desnecessário. Insisto perguntando: afinal o que está por detrás desse colapso factual que está cristalizado no discurso de qualquer brasileiro dos dias de hoje? Sobre esse assunto, quando tento buscar alguma causa, não consigo encontrar outra, se um dos pontos cruciais de origem: o Golpe civil-militar de 64 e seus ecos até a estrutura da sociedade brasileira da atualidade. E a esse respeito os documentos deixados e estudos produzidos posteriormente são volumosos e extensos. Durante o período, o sistema estatal instalado operou no corte dos direitos civis e a estrutura educacional brasileira foi transversalmente – da educação básica à educação superior - reformulada. A sociedade não teve forças suficientes para resistir. Na queda do regime houve esperança de mudanças. A sociedade ainda sem forças para resistir aceita e perpetua os ecos da bomba lançada pela ditadura e que ainda hoje, escutamos o som. O eco. É sobre a última questão que vou me atentar brevemente na minha análise da educação, principalmente da década de noventa até nossos dias, nas próximas linhas.
Nessa semana se “comemoram” os cinquenta anos do golpe militar de 1964. Vou trocar a palavra midiática de ‘comemorar’ por ‘lembrar’. Afinal acredito (acho que a grande maioria vai estar pleno acordo comigo) que não há nada para se comemorar. Na ditadura, além das atrocidades feitas contra aqueles que resistiam, se hoje olharmos para dentro da educação brasileira, focarmos a lupa para a universidade, berço de grande parte do conhecimento científico construído no Brasil, poderemos verificar, sem grandes dificuldades, pedaços desse passado não tão distante, que ainda está vivo e pulsa todos os dias. Porém o que se vê impregnado na universidade estruturada na ditadura é apenas o reflexo da distorção pior do que o que foi estruturada na educação básica. Na base houve o esfacelamento das atividades educativas de reflexão, priorizando o pensamento técnico; extirpação das disciplinas de humanas, como filosofia e sociologia da estrutura do ensino básico. Eram disciplinas que ofereciam ‘perigo’, pois com a proposta de livre pensamento, se caracterizam incompatíveis com a face autoritária em questão. (O que é típico de objetivos totalitários irem recortando camadas subjetivas da racionalidade humana, transformando e naturalizando pessoas dotadas da capacidade de pensar, sentir e refletir em meros executores de ordens, “fiz porque recebi ordens”). Assim, essas disciplinas do pensar humanista foram substituídas arbitrariamente pela ‘Educação Moral e Cívica’ e ‘Estudos dos problemas brasileiros’); o ingresso no ensino superior passou a ser por meio de vestibular unificado e classificatório (dando início à privatização no acesso ao ensino superior, fazendo pipocar os cursinhos pré-vestibulares e limitando o acesso ao ensino superior por grande parcela da população. Decidindo quem tem o direito a ter uma educação superior plena ou não); incentivo e massificação da profissionalização da população com cursos técnicos e executivos.
Essas poucas ações aqui pontuadas não fazem jus a outras tantas que somadas deformaram o sistema educacional brasileiro. A distorção desse sistema se debruça com força sobre o sistema do ensino superior, que passava por uma reforma, ganhando moldes transplantados de outras culturas nos anos de 68 e 69. Uma reforma universitária cujas estruturas permanecem até hoje (na reforma, com um intuito de aumentar a produtividade na universidade sobressaem a estrutura departamental [em muitos casos a estrutura departamental finaliza a alocação burocrática-administrativa dos professores e que em outros casos dificulta a interação e intenções de um trabalho na produção de um conhecimento no coletivo]; disciplinas oferecidas por sistema de créditos, estrutura da carreira do magistério e etc.). E nesse redemoinho de mudanças, ainda na universidade, professores que tinham posições política divergentes do regime são perseguidos, habilitações são caçadas, alguns expulsos, outros torturados e outros desaparecidos.
 Passados esses anos das mudanças dentro dos anos de chumbo e atingindo o final da década de oitenta, quando cai a ditadura, a pergunta crucial: houve mudanças profundas na estrutura da educação brasileira? Mudanças significativas, melhorias? Essas respostas não são simples de fazer. Cabe um preâmbulo nelas. É fácil fazer, e creditar toda a estruturação da educação brasileira dessa maneira somente ao aparelho de Estado da ditadura. O Estado teve sua enorme parcela ao impor um sistema. Os civis, outra maior. Principalmente os da década de noventa em diante. E a esses civis ainda continua essa grande parcela quando abrem mão, deliberadamente, de uma das maiores habilidades do ser humano que é a capacidade de pensar para assumirem e absorver o discurso estatal. Como se as ações que executamos no cotidiano fossem apenas frutos do conjunto de ações impostas, como se não tivéssemos qualquer responsabilidade na deliberação de estar, fazer ou ser. A responsabilidade da reflexão e da ação está sempre no Outro, no Estado, e a nós só nos cabe seguir sem refletir.
Há quem defenda que a escola no período ditatorial era de grande qualidade, pois se associa aquela qualidade à ordem e disciplina repressiva. Ordem e disciplina, como discurso estatal-ditador, não podem ser associados à qualidade. Qualidade tem que vir associada ao desenvolvimento do ser humano em sua plenitude, liberdade e exercício de cidadania. E quando digo sobre os ecos que ainda padecemos é nessa direção: a educação atual não proporciona a reflexão, pois não somos ensinados a discutir o ser político, o ser cidadão, o papel que devemos executar na sociedade. Na nossa atualidade, quem se dá a discussão do ser político e cidadania é estigmatizado ao ‘mal-humorado’, ‘desocupado’, ‘o chato’ que deveria estar produzindo. Produzindo algo material, palpável. Afinal o que vale é o produto inerte sem pensamento concretizado, reduzido ao mínimo, pois o mínimo basta para apenas sobreviver. É natural. O resto é perfumaria. E isso são os ecos, que podem ser ouvidos, que o passado da ditadura deixou com êxito.
 Suspiros que no final da década de 80 a população brasileira agradece o final da ditadura. Mudanças na LDB (Lei de Dirterizes e Bases) e o discurso de direito à liberdade e educação a todos. Mundo das ideias e não da realidade. O que ainda há é a educação básica sucateada, desqualificada, e a superior sofrendo com pouco investimento financeiro, ausência de prioridades de propostas governamentais e fadada a apenas sobreviver. Não sabemos como lidar com isso. Não fomos ensinados a lidar. Há alguns ainda que afirmam que há um exagero em falar dos malfeitos, dos ajambrados da ditadura brasileira, que foi uma “ditaleve”, que reclamamos do nada, que houve outras ditaduras mais severas na América Latina. A nossa foi tão inócua como um placebo, do qual ainda escutamos os ecos dela nas salas de aulas, nas universidades, na ciência brasileira. Ela pode ter acabado como um aparelho de estado trinta anos atrás. Porém ainda sentimos a radiação da bomba lançada em 64 e em seus anos de poder. A solução para isso? A solução parte de nós, mas não é simples. Essa não foi uma herança que recebemos desse processo todo. A herança que recebemos foi um conjunto de leis e costumes que amarram burocraticamente as ações. E sair desse enrosco só com a qualidade da educação, a qualidade verdadeira, que prepara para o mundo, para encontrar e se relacionar sinceramente com o Outro.  
Finalmente respondendo a questão: não houve e não se escutam barulhos de que há grandes sinais, governamentais e da sociedade, para um impulso radical de mudanças. Pelo jeito, e está claro, que é muito cômodo e está interessante da forma como está.

Post por Daniel Manzoni

Um comentário:

  1. acho a discussão deste texto muito válida, mas se fosse pra ler um post antigo, minha preferencia seria por algo relacionado à imunologia.

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