terça-feira, 11 de setembro de 2012

O sistema imune responde ativamente às bactérias comensais durante uma infecção patogênica


 
 
Uma das mais intrigantes perguntas da Imunologia atual é como o sistema imune associado ao intestino consegue tolerar os antígenos alimentares e bactérias comensais e ao mesmo tempo responder aos microrganismos invasores e patogênicos.

            Num artigo recente da revista Science, o grupo da Dra Yasmine Belkaid (Hand et al., 2012; ver referência no final) mostrou que o sistema imune responde às bactérias comensais após a infecção oral por Toxoplasma gondii.

Os autores mostraram que após a infecção, o parasito se expande sistêmicamente para o baço e localmente para a lamina própria do intestino delgado, onde induz uma significante imunopatologia que é associada com a indução de células Th1 e redução de células T regulatórias. Além disso, a infecção por T. gondii induz o aumento da associação entre as bactérias comensais e o epitélio intestinal, com escape de microrganismos do intestino e translocação para os linfonodos mesentéricos, fígado e baço. Essa quebra da barreira epitelial associada à redução da imunorregulação, culminam na perda da ignorância imunológica da microbiota intestinal durante a infecção por T. gondii.

Utilizando transferência de células T, com TCR transgênico especifico para flagelina (CBir1) da bactéria comensal Clostridium, para camundongos infectados com T. gondii, o grupo demonstrou que essas células T específicas para a microbiota são ativadas, proliferam e se diferenciam em células efetoras inflamatórias, produtoras de IFN-γ. O estudo também mostrou que essas células T sobrevivem por longos períodos e persistem em tecidos não linfóides, da mesma forma que as células de memória específicas para patógenos.

De maneira clara e concisa, os resultados sugerem que durante a infecção gastrointestinal, a resposta imune aos microrganismos comensais acontece de forma paralela à resposta aos microrganismos patogênicos, e que as respostas imunes adaptativas à microbiota comensal são um componente integral da imunidade de mucosa.

Definitivamente, um bom artigo para se ler. Boa leitura!

Referência:

  • Acute Gastrointestinal Infection Induces Long-Lived Microbiota-Specific T Cell Responses.

Timothy W. Hand, Liliane M. Dos Santos, Nicolas Bouladoux, Michael J. Molloy, Anyonio J. Pagan, Marion Pepper, Craig L. Maynard, Charles O. Elson III, Yasmine Belkaid.

E-pub ahead of print. 23 August 2012 / Page 1/ 10.1126/science.1220961

 

Post de autoria de: Alessandra Filardy

       Laboratory of Molecular Immunology

       NIAID/National Institutes of Health

 

 

3 comentários:

  1. George e Alessandra,
    tive o prazer de participar da banca de doutorado da Liliane dos Santos, que é co-autora do trabalho e orientada pela própria Y. Belkaid, obtido pelo programa de PG em Bioquímica e Imunologia do ICB/UFMG em parceria com o NIH, o qual gerou parte importante dos achados dispostos no trabalho citado. Certamente, o tema é extremamente contemporâneo e digno de um belo post aqui.
    Parabéns pela escolha!
    Abraços, Tiago.

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    1. Tiago, sem dúvida muito interessante, gerando uma série de novas perguntas. A imunidade das mucosas e a interação com a microbiota é sem dúvida uma das grandes fronteiras da Imunologia, e a pesquisa tem gerado uma série de resultados inesperados e promissores. Sendo a Dra Yasmine Belkaid uma das mais dinâmicas e criativas pesquisadoras da área. Obrigado, principalmente em nome da Alessandra, que agora entrou nesta área de pesquisa também !

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  2. Liliane Martins dos Santos5 de outubro de 2012 às 20:11

    Só hoje vi este post aqui. Faz tempo que não entrava no blog. Que legal ver o trabalho sendo comentado. Gostei muito do post! Obrigada pelos comentários. Estamos muito orgulhosos do trabalho. Tiago, estou voltando para o laboratório da Yasmine como pós-doc para continuar o projeto. A idéia agora é tentar entender quais seriam as consequências da ativação de respostas de memória contra antígenos da microbiota. Já temos alguns dados preliminares que parecem promissores.
    Abraços a todos, Liliane.

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