segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Faminto



Sábado
Shanghai parece uma Nova Iorque limpa e aberta. E com predios mais novos. Vejo muito do que imaginei, embora a a escala seja gigantesca. Os edificios das antigas concessoes britanicas e francesas contemplam do outro lado do rio, o skyline futurista de Pudong, que se ergueu de repente, ha vinte anos atras, de uma fazenda.
Vejo roupas nos varais. Lembro Napoles, e lembro Marco Polo. Estou quase certo que os italianos levaram mais que macarrao dos chineses... O aeroporto secundario e' maior que o JFK. Nenhuma surpresa. Estou na China, segunda maior economia do mundo. E inacreditavel que existam 300 milhoes de pessoas na classe media. E um bilhao na pobreza. E que esse 1 bilhao seja credor de toda a america decadente e gorda.
Ruas extremamente limpas e grandes aglomerados humanos. Cigarros molhados na pia.
Domingo
Estou num hotel do hospital onde falo amanha em Guangzhou, antiga Cantao, China. A cidade tem 15 milhoes de habitantes. E um aeroporto moderno, limpo, e grande. Consigo ver os pacientes andando la embaixo no patio do hospital. Lembro do Pedro II, hospital onde estudei, da pobreza, da infinita tristeza dos doentes, que viram bichos tristes, com uma cor esquisita. Os doentes do mundo todos se parecem. No elevador, um cara escarrou total e tentou esconder o catarro movendo discretamente o adidas maradona azul sobre o tal. Muita gente ainda escarra no chao, embora tenha visto cartazes ensinando as pessoas que isso não deve ser feito... Fiquei com angustia na sola de sapato.
Muita coisa aqui me lembra o Vietnam que nunca visitei. A vegetacao é mais tropical, as pessoas se vestem mais leve. As pessoas que me recebem são muito delicadas e gentis. Vim falar num antigo hospital militar, onde existe um grande grupo de gastroenterologia. O chefe deles veio ao Mount Sinai, onde trabalho, no comeco do ano e me convidou para vir visitar. O Sinai e’ referencia no assunto uma vez que Crohn trabalhava la quando descreveu a doença em 1932. A incidencia da doenca de Crohn aumentou muito na China nos ultimos anos, não se sabe porque, se suspeita que por causa da mudanca nos habitos alimentares, mais gente comendo Kentucky fried chicken...
Me levaram pra ver os laboratorios, que são escuros, mas espaçosos. Amanha tenho que dar a palestra, de paleto, como fui instruido. Tenho que lembrar de agradecer a todos. Agora so lembro o nome do chefe. Tenho que perguntar a Huabao como é o nome do cara que veio ontem ao banquete. Era o representante do reitor. O outro era um colonoscopista. Tinha feito o fiofó do primeiro ministro
No jantar o primeiro prato que veio na minha direcao na mesa giratoria, foi uma galinha, a cabeca sem pena, com os olhos esbugalhados olhando pra mim. Depois uma sopa que tinha um gafanhoto dentro. Tentei ficar no porco e no pato. Uma hora perguntei sobre um prato que vinha na minha direcao e me perguntaram se eu queria saber mesmo. Disse que não. Talvez cachorro, ou cobra. Vou seguir o conselho de Steve Jobs: stay hungry, stay foolish...
Fome de conhecer. Comer são outros quinhentos. Acho que vem muita coisa nova por ai..Alias, dizem que aqui se come tudo que tem 4 pes, menos cadeira, cama, e mesa.
Segunda
Não era gafanhoto, era escorpiao. Soube ontem na hora do cafe da manha, que teve 5 mil pratos inclusive pé de galinha, e pé de porco. Na hora do almoco, depois de andar no mormaco, numa montanha, fui servido pe de porco doce. E uma sopa de pulmao de porco. Gentilmente disse que não dava. Uau. Haja cha.
A tarde, dei meu talk. Muito salamaleque, mas uma plateia de jovens muito famintos e atentos. Uma amiga minha que ja tinha vindo aqui, tinha me dito que os estudantes chineses eram assim, famintos....Ninguem dormia ou parecia terminalmente desinteressado, como se ve hoje em dia nos Estados Unidos. Ao final muitas perguntas. Um aluno, de fato, fez 6 perguntas. Isso me impressionou muito, mais que aeroporto gigante, mais que trem bala, mais ate mesmo que sopa de escorpiao. Depois saimos pra jantar. Estava muito cansado e com uma gripe, mas entre um cochilo e outro vi uma arquitetura fantastica a beira do rio. A bibioteca de Guangzhou é simplesmente fantastica, a torre de televisão é a Eiffel do novo seculo. Pessoas dancando na beira do rio. Depois dormi. Como uma pedra do rio amarelo
Terca
Hoje, fiz um roteiro rural. Me levaram para Huizhou, uma cidade a duas horas e meia de Guangzhou. Visitei um hospital.
As estradas parecem as americanas. Limpas bem sinalizadas. E a construcao é maciça em volta. Predios novos, alguns horrosos com estruturas no topo de dar medo. Entulhos.
Chegando em Huizhou, fomos recebidos na estrada por um carro oficial, que nos levou ate o escritorio do chefe da saude publica local. O nome dele é dr Chiu e ele parece o irmao mais novo de Kouji Matsushima. Fomos pro hospital e fui recebido com honras e salamaleques. Conheci a gastroenterologia, os laboratorios clinicos e a neurocirurgia. O laboratorio era incrivelmente amplo e claro. Robots. Muitos terminais. Duvido que seja assim em muitos hospitais nos Estados Unidos. Perguntei a Chiu pelo SARS. Ele disse que foi um dos primeiros a ver e que construiu o hospital depois da epidemia. Ventilado e aberto.
Depois fomos almocar num restaurante de frutos do mar. Mesmo estilo dos outros. Sala privada. Eles insistiam, coma,coma...Um fruto esquisito do mar, não perguntei o que era pra não ficar com o troço na gengiva. Uma sopa de estomago de peixe, umas batatinhas minusculas, carambola de sobremesa. Varias outras coisas, e muitos drinks, isso na hora do almoco. Em determinado momento dr Chiu comecou a ler um poema na parede. De um poeta chamado Su Dongpo, que viveu em Huizhou há mil anos. O poema falava da lua. Da lua que cobre todos. Comecava com um delirio inebriado dele, se perguntando como a lua caminha no ceu, se o ceu sabe sobre o calendario da lua na terra. Depois querendo subir ate a lua pelo ar. Eles todos participavam da conversa e em determinado momento cantaram o poema que filmei com meu telefone, mas que não saiu porque eu estava prestando atencao neles e não na camera. Essas coisas a gente nunca esquece.
Saimos andando e de repente passamos por um templo taoista em reconstrucao. Incenso queimando e tal. Imagens gigantescas sendo repintadas. O fascinio do espiritual adquire aqui tons mais antigos e mais terrenos do que no Japão. Os deuses sao alegres, carregam criancas no colo. O taoismo se origina na China, os deuses sorriem.

Mundo velho, mundo novo. Sopa de escorpiao, poesia, robots, e deuses sorrindo. Que viagem... Amanha sigo pra Wuhan.

4 comentários:

  1. Cris, o lugar é fantastico, se voce nao foi ainda, considere...Voce ja esta no meio do caminho...Estou fazendo uma selecao de fotos, te mando um link depois. Beijo

    ResponderExcluir
  2. Caro Sérgio, mande o link para mim, se puder. Fantástico o seu post.
    Tive que cortar o riso em muitos momentos pois estou vendo alguém falando como vai ser o site da PG da USP. Isso tudo depois de um almoço farto, sem escorpiões, etc e tal.
    Grande abraço
    Joao Santana

    ResponderExcluir
  3. Sergião,
    Que delícia ler suas estórias....
    Bjo para Glau e saudades!

    ResponderExcluir