O amor,
disse Carl Sagan, é uma invenção dos mamíferos. Sagan, físico autor do seriado
Cosmos, que marcou minha geração de cientistas, agora re-editado, era fascinado
por evolução. Casou-se com uma bióloga evolucionista, Lynn Margulies, e em
1980, ganhou o Pulitzer com o livro Os Dragões do Éden, sobre a evolução do
cérebro. Nos mamíferos o cérebro é mais complexo que nos répteis (os dragões do
titulo). Os mamíferos têm comportamentos e rotas bioquímicas dedicadas não
apenas a buscar o parceiro, mas a escolher e às vezes permanecer com este,
sugerindo uma vantagem de sobrevivência.
Esta é hoje
uma área de intensa investigação. Parece
que mecanismos neurais diferentes operam em conjunto, particularmente em
humanos, para criar o amor. Alguns já existiam em outras espécies, como os que
regulam desejo sexual e a escolha do parceiro. Outros, como os que controlam o
apego, são característicos dos mamíferos. Estudos de ressonância magnética em
cérebros de humanos mostram que cada um desses impulsos ativa áreas diferentes,
embora haja alguma sobreposição.
O desejo
sexual evoluiu para motivar os indivíduos a buscar parceiros de acasalamento. Ele
está relacionado com andrógenos e estrógenos em mamíferos. Mas os sistemas
cerebrais envolvidos com o desejo sexual não são os mesmos associados com o
amor. Além disso, o desejo é geralmente dirigido a uma variedade de indivíduos,
e não parece, como no amor, ser focado em alguém particular.
A atração
evoluiu para motivar os indivíduos a preferir um tipo mais especifico de parceiro,
minimizando o gasto de energia. Ela é regulada pela molécula dopamina, que está
ligada à sensação de recompensa. A dopamina e a sensação que ela propicia também aumentam com o uso de
drogas que viciam. O amor freqüentemente é descrito na literatura e na música como
um vício, e existem de fato alguns sintomas semelhantes do amor com uma droga,
como a euforia inicial, a sensação de tranqüilidade quando se experimenta, e a síndrome
de abstinência quando termina.
Existe
também ligação entre o cheiro e a escolha do parceiro – a famosa “quimica”
entre os casais, que depende das
mesmas moléculas responsáveis pela resposta imune, o MHC. Os mamíferos são
atraídos pelo cheiro daqueles com moléculas de MHC diferentes das suas, levando
seus filhotes a apresentarem um repertório mais variado de respostas a
infecções. Cada individuo possui assim um potencial de defesa particular que se
traduz no odor natural, e provavelmente os perfumes mais afrodisíacos são
aqueles que potencializam o cheiro emanado por essas moléculas. Essa é uma das
razões pelas quais se percebe que o mesmo perfume exala um odor diferente
dependendo de quem o usa.
O apego
evoluiu provavelmente para motivar indivíduos a permanecerem juntos, otimizando
o uso de energia, aumentando as chances de sobrevivência dos filhotes. Os mamíferos
possuem uma capacidade ímpar de apego, que depende da ocitocina, um hormônio envolvido
nas contrações do parto, e presente no leite materno. Assim, quando nasce o
bebê e ele é amamentado, um poderoso mecanismo bioquímico faz com que mãe e
filhote humanos apaixonem-se perdidamente. A ocitocina também está envolvida no
apego entre casais, embora as áreas do cérebro ativadas não sejam exatamente as
mesmas ativadas na relação mãe-filhote. Nas espécies promiscuas, a ligação
entre atração sexual e liberação de ocitocina é ausente ou mais fraca. Já
existem estudos explorando o potencial de um spray nasal de ocitocina para modular interações entre parceiros
românticos!
Hoje, a
complexidade das relações humanas oferece novos desafios para a biologia básica
do amor, esculpida ao longo de centenas de milhões de anos. Se a espécie humana
durar tempo suficiente pode haver seleção sobre alguns desses mecanismos neurais.
Hoje, se há liberação de dopamina e ocitocina, esses circuitos cerebrais se
mantêm ativados, e as pessoas, apaixonadas. Fernando Pessoa escreveu que “o
amor romântico é como um traje, que, como não é eterno, dura tanto quanto
dura”. Gênio na escolha das palavras, Pessoa provavelmente não imaginava sua exatidão cientifica. Para um
cientista, o entendimento da biologia do amor é tão precioso quanto a sua mais
bela expressão em verso.
Coluna do Caderno PrOA, Jornal Zero Hora, 15/06/2014
Ótimo!
ResponderExcluirObrigada Gustavo!
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