Resolvi trazer para o Blog um assunto que há muito tempo é pauta entre as nossas conversas antes, durante ou após experimentos, na hora do café, almoço ou jantar, na mesa de bares… em qualquer lugar por aí. Acho que aqui é um lugar legal de discutir os direitos, ou melhor, a falta de direitos do pós-graduando, porque gente de todos os escalões tem acesso ao blog: os próprios estudantes, os professores, chefes de agências de fomento, etc. Antes de tudo deixo claro que essa é a minha opinião, certa ou errada, mas ainda é a minha opinião.
Tenho visto incessantemente na mídia
a respeito da nova lei dos direitos dos empregados domésticos. Bom pra eles
(as), que moram num país que decidiu defender a sua classe. Faxineiras, babás,
motoristas e cuidadores de idosos, que já tinham carteira assinada e direito a
décimo terceiro salário, agora também ganham por hora extra trabalhada após 8 h
de expediente, adicional noturno, 2 horas para almoço, férias… Se você que está
lendo acha que eu sou contra isso, você está me entendendo errado. Acho até que
a lei demorou demais para chegar e valer. Sou super a favor dos direitos dos
empregados domésticos e queria aproveitar para fazer um paralelo com a carreira
que estou tentando construir.
Eu fiz 4 anos de faculdade de
Ciências Biológicas. Tudo bem que não está entre os cursos mais bem vistos por
aí, mas ainda assim é um curso superior. Dei aula no ensino fundamental e
médio, e defendi TCC para me formar. Emendei 2 anos de mestrado a agora estou
no meio do doutorado já sofrendo com o dia pós-defesa, o título de ‘Dr.
desempregado’ e os anos de pós-doc que não contarão para minha aposentadoria.
Pois bem, quando me formei na faculdade me tornei Bióloga, mas o termo
‘estudante’ nunca me abandonou. Não sei se por consequência disso nunca tive e
também nunca discuti sobre ‘direitos’ com ninguém superior a mim, como por
exemplo, meu orientador, a quem chamo de ‘chefe’. Acho legal que os empregados domésticos tenham
seus direitos garantidos, sabe!? Acho massa pra caramba!! Mas e eu? Que dei um
duro danado, estudei, hoje trabalho com material contaminado e infectado, de
manhã de tarde e de noite, às vezes (incontáveis vezes, na verdade) viro noites
fazendo experimento, ou escrevendo/corrigindo manuscritos, lendo papers, dando
pareceres, escrevendo/corrigindo projetos, fazendo prestações de contas, não
recebo hora extra e/ou adicional noturno, não recebo insalubridade, não recebo
13º salário, fico vivendo uma ilusão do aumento que a presidenta prometeu dar
no meu salário que chamam por aí de ‘bolsa’, na minha declaração de matrícula
tem escrito “OS ALUNOS DESSA ENTIDADE NÃO POSSUEM DIREITO A FÉRIAS”, eu
trabalho sábado, domingo e feriados quando precisa (e normalmente precisa),
tiro dinheiro do bolso para participar de congressos, não tenho FGTS, e também
não tenho direito de fazer greve por melhorias das condições de trabalho, ou
seria de estudo?… e por aí vai, a lista é grande. Talvez você esteja pensando
‘eu já passei por isso, e no meu tempo a bolsa era menor ainda’. Tá, beleza, e
você se orgulha disso? O quilo do tomate também não era tão caro na sua época
de mestrado, era? O que sinto é um menosprezo geral da nação àqueles que querem
ser pesquisadores/cientistas no Brasil. Francamente. Ai vem um Ciência sem
Fronteira exportando gente para fora do país, com um monte de propaganda no
horário nobre para eleitor nenhum botar defeito. ‘Estamos internacionalizando a
ciência do país’. Sério? Não é o que parece.
Se não for pedir demais, exponham a
opinião de vocês nos comentários. O que vocês acham do paralelo que tracei e da
situação da nossa classe no Brasil?
Bom
trabalho.
Manuela
Sales – IBA – FMRP - USP









