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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Microglia tem origem em células eritromielóides do saco vitelínico embrional


       A origem da microglia provavelmente é um dos assuntos mais controversos na neurociência. Inicialmente, acreditava-se que a microglia se originava de macrófagos localizados na meninge que penetram no encéfalo e na medula durante os últimos estágios do desenvolvimento embrionário (Rio-Hortega, 1919). Porém, apesar da microglia e os macrófagos possuírem os mesmos marcadores, parece que eles apresentam morfologia e origem distintas (Perry et al., 1985; Gordon et al., 1992; Ling e Wong, 1993; Kurz e Christ, 1998; Cuadros et al., 1993). Aparentemente, essa controvérsia terminou quando se mostrou que a microglia provém de progenitores localizados no saco vitelínico, migrando para ao encéfalo e medula espinal (Alliot et al., 1998; Ginhoux et al., 2010; Kaur et al., 2001). Schulz et al. (2012) mostraram que os precursores localizados no saco vitelínico expressam o receptor para M-CSF. Porém, posteriormente, verificou-se que esses progenitores eram as células CX3CR1+ já comprometidas (macrófagos imaturos). É aí que a história começa a ficar interessante.

          Os autores analisaram células progenitoras do saco vitelínico do 8° dia pós-concepção (DPC) com potencialidade para gerar macrófagos. Três populações CX3CR1- foram encontradas: CD45+ c-kit, CD45 c-kit+ and CD45 c-kit. No 8°  DPC, somente as células CD45 c-kit+ podem dar origem a macrófagos CX3CR1+ CD45+. Para confirmar esse dado, os autores transferiram essas células para culturas de hipocampo livres de microglia. Após 12 dias da transferência foi encontrada a expressão de Iba-1 e CX3CR1-GFP somente em células CD45+ c-kit-/low (que antes eram eritromielóides CD45- c-kit+). Os autores postularam que existe uma expressão transitória de CD45 e c-kit ao longo da diferenciação e migração de progenitores para microglia (Figura 1).
          


       Em resumo, o artigo sugere que a microglia se desenvolve e prolifera a partir de precursores eritromielóides via ativação de Pu.1 e Irf8, transformando-os em macrófagos imaturos. O desenvolvimento de macrófagos imaturos para maduros e consequentemente para a microglia se dá por meio da sinalização por MMP8/9 (Kierdorf et al. 2013).
           E ficamos com a pergunta: a partir de qual momento do desenvolvimento podemos ter uma diferença real entre as células do sistema imune e do sistema neural? O que realmente vai diferenciar o desenvolvimento de um tipo celular em outro: a localização ou o isolamento de um determinado órgão (nesse caso, a barreira hematoencefálica) que impede a migração e consequente sinalização exclusiva daquele órgão isolado, desviando o desenvolvimento para outro tipo celular?
           Pois é, às vezes me divirto mais com as perguntas do que com as respostas.

Post de Gabriel Bassi. FMRP/IBA

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Radio blog: Science

Colegas,

sou um apaixonado pelo Rock n' Roll. Dentro deste estilo de música, sou bem eclético... porém os mais 'pesados' me atraem mais.

Outro dia esbarrei em uma música de uma banda de Hard Rock, System of a Down, com o sugestivo nome de 'Science'. Por motivos óbvios, comecei a prestar atenção na letra. E, para minha surpresa, a música detona os avanços científicos da humanidade, pois (segundo eles) estes desconsideram o sobrenatural.

Considerando que a banda é composta por ateus declarados, aliado ao fato de que a maioria das religiões tradicionais encontram-se em crises profundas, talvez a mensagem da música seja a ironia:  será que onde lê-se Science, não seria Religion? Ou será que a ciência realmente negligencia a fé?

Pessoalmente, neste contexto, só consigo chegar a uma conclusão:
- Ciência e Religião são fenômenos humanos e estão sujeitos as qualidades e defeitos de nossa espécie.




Science
System of a Down
Making two possibilities a reality
Predicting the future of things we all know
Fighting off the diseased programming
Of centuries, centuries, centuries, centuries
Science fails to recognize the single most
Potent element of human existence
Letting the reigns go to the unfolding
Is faith, faith, faith, faith

Science has failed our world
Science has failed our mother earth

Science fails to recognize the single most
Potent element of human existence
Letting the reigns go to the unfolding
Is faith, faith, faith, faith

Science has failed our world
Science has failed our mother earth
Spirit-moves-through-all-things
Spirit-moves-through-all-things
Spirit-moves-through-all-things
Spirit-moves-through-all-things
Spirit-moves-through-all-things
Spirit-moves-through-all-things

(Sim hayastani de anush de im, arevaham barr nem sirum)

Letting the reigns go to the unfolding
Is faith, faith, faith, faith
Letting the reigns go to the unfolding
Is faith, faith, faith, faith

Science has failed our world
Science has failed our mother earth
Spirit-moves-through-all-things (x12)
Science has failed our mother earth


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O Cérebro Besuntado


Moqueca de Camarão com leite de coco e azeite de dendê

Certas ideias em “ciência” são efêmeras. No entanto, quando surgem, passam sobre os preceitos mais sólidos como se aqueles nunca houvessem, sequer, existido. Outro dia deparei-me no mercadinho da vila com uma pilha de óleo de coco. Pensei que fosse para cozinhar, passar na pele ou no cabelo ou ainda qualquer outro fim, exceto a esquisitice que ouvi na rede de TV: “O consumo de uma ou duas colheres das de sobremesa desse óleo por dia pode render-te alguns quilos a menos em pouco tempo!” afirmava o entrevistado, de importante Universidade brasileira, ao programa doméstico.
Absorto, observei os constituintes do óleo e percebi que ali havia grande concentração de dois tipos principais de ácidos graxos, os ácidos láurico e mirístico, gorduras estas saturadas, com 12 e 14 carbonos em sua estrutura e respectivamente. Além disso, compunham este produto em cerca de 50% e 25% também respectivamente. Quando minha faculdade de origem cometeu a loucura em dar-me um diploma, lembro-me que saí de lá crendo que ácidos graxos de cadeia média, como os tais, eram absorvidos com facilidade pelo trato digestório humano, bem como, posteriormente, eram transportados diretamente para o interior da mitocôndria sem que houvesse a necessidade de alguma proteína de translocação, assim como é pertinente tal papel à carnitina palmitoil transferase (CPT-1) para outros tipos de ácidos graxos. Presumia-se que com essa entrada facilitada, a geração de energia seria também facilitada e mais robusta, assim como sua eliminação/degradação. E assim sacramentaram-me.
Sabendo que o mundo anda explodindo em obesidade, um dos mecanismos propostos mais aceitos atualmente para a compreensão de tal fenômeno é o fato de que o excesso de gordura saturada consumida pelos “comedores compulsivos” ativaria o receptor de sistema imune Toll-like receptor-4 (TLR-4). Com o receptor ativado, um disparo sinalizador ocorre de forma intensa rumo ao interior da célula, no intuito de iniciar uma resposta pró-inflamatória característica desta via. Mas se este receptor é de sistema imune, então estaríamos sendo infectados por comida? Na verdade, sim. Quando alguns tipos de gorduras são consumidos em grande quantidade, ainda que haja ausência de qualquer tipo bacteriano na alimentação, tais gorduras agem numa ação que simula a invasão de microorganismos. Isto ocorre devido ao fato de haver bastante semelhança entre a gordura que recobre a parede celular de bactérias, o chamado lipopolissacarídeo (LPS) e a gordura comumente encontrada em picanhas, manteigas, leites etc. Como os indivíduos obesos fazem consumo em grande quantidade desses alimentos, tais gorduras naturalmente presentes ali ativam o sistema imune como se houvesse a presença do microorganismo invasor.
Mas a situação é trágica, pois a resposta inflamatória apesar de ser de baixo grau é sistêmica, atingindo importantes tecidos como o sistema nervoso central. Lá, num lugar de difícil acesso, exatamente no meio e na base do cérebro encontra-se o hipotálamo, órgão responsável por perceber que nosso organismo está cheio ou vazio de nutrientes e nos fazer parar ou começar a comer. Concentrações super-ótimas de citocinas inflamatórias prejudicam a “percepção” hipotalâmica sobre a presença de nutrientes, nos permitindo comer incessantemente. Com isso, vagarosamente ganhamos peso e, a perpetuação deste mecanismo perverso se instala, pois a gordura acumulada em nosso corpo também é capaz de ativar este sistema.
Como sabemos, ainda que de “baixa intensidade”, a inflamação fora de controle ativa mecanismos apoptóticos. Portanto, neurônios hipotalâmicos morrem quando submetidos à presença constante e em grandes concentrações de ácidos graxos saturados oriundos da dieta. Querem piorar? Existe dois tipos de neurônios controladores da fome no hipotálamo, os orexigênicos (que nos dão fome) e os anorexigênicos (que nos fazem parar de comer). Indivíduos propensos à obesidade apresentam morte intensa em neurônios do tipo anorexigênico! Pasmem!
Nesse ínterim podemos nos perguntar: --Quem poderá nos salvar? Infelizmente a resposta não está numa cápsula milagrosa qualquer. A indústria farmacêutica está ainda muito distante de criar a pílula com razoáveis efeitos colaterais. Portanto, a única saída é: não se torne obeso! Coma direito e gaste calorias. Se vire para isso! Mas e aquele papo inicial da gordura milagrosa de coco, anunciada pelos gurus das “laureadas universidades” brasileiras e também mundiais, sabatinados e aprovados pela televisão e seus incautos telespectadores? Pobre povo. Não de agora, nem mesmo desta última década, pesquisadores se empenharam para melhorar as respostas antibióticas de drogas. Para isso estudaram incessantemente a composição de diversas bactérias e, até mesmo, do tipo de ácido graxo que compõe a fração LPS “lipo”-“polissacarídeo”, ou seja uma fração lipídica associada à diversos grupos de açúcares. É exatamente a fração lipídica do LPS a responsável pela ativação dos TLRs. Foi observado que os ácidos graxos que compõe de forma preponderante o LPS bacteriano, independente da patogenicidade do microorganismo, são os ácidos láurico, mirístico e palmítico. Nesta mesma ordem se dá o ranking de potência de ativação inflamatória. Ocorre ainda que, na natureza, ácidos graxos láurico e mirístico são raros, sendo sua principal fonte, o óleo de coco, aquele, dito “emagrecedor”.
Obviamente, enquanto cientistas olharem profundamente para seu microcosmo de forma desacoplada do cosmo todo, tais erros se perpetuarão. Acreditar que um benefício observado numa organela isolada, num sistema “in vitro”, como foi o caso da mitocôndria e aplicar tal hipótese para o “sistema humano” como um todo, pode ser fatal.
Cozinhar com óleo de coco pode ser interessante e certamente, saboroso! E não haverá problemas desde que feito de forma esporádica. Antes que estudos comprobatórios nos assegurem sobre tais fatos, então que o óleo de coco continue apenas intensificando a beleza dos cabelos da mulher brasileira, se é que ela precisa.

Dennys Esper Corrêa Cintra
Professor de nutrigenômica da UNICAMP

Referência
Carbohydr Res. 2003; 338(23):2431-47.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O lado Jekyll e Hyde dos radicais livres


Silvia Ponzoni, Departamento de Ciências Fisiológicas, UEL.
Phileno Pinge Filho, Laboratório de Imunopatologia Experimental, UEL










Ação de radicais livres             Ação de antioxidantes





Uma das teorias do envelhecimento estabelece que a sua origem esteja precisamente na ação dos radicais livres. Esta teoria foi proposta por Harman em 1957 (Harman,D. Aging: a theory based on the free radical and radiation chemistry. J.Geront.(1957) 2:298-300) e atualmente está demonstrada por meio de um grande número de publicações científicas.
O artigo “The myth about antioxidants” de Melinda Wenner Moyer publicado  na Scientific American deste mês coloca em dúvida esta teoria. De fácil leitura a autora sugere que a confirmação dos resultados obtidos de pesquisas recentes com vermes e camundongos indicará um novo olhar para a utilização de antioxidantes na forma de vitaminas ou de outros suplementos, pois eles podem causar mais mal do que bem à saúde das pessoas.
          Quando lemos o artigo, imediatamente somos bombardeados por imagens e pensamentos da ficção “O medico e o monstro” de Stevenson. Neste caso as protagonistas com duplas personalidades são as moléculas de radicais livres.
Durante décadas estas moléculas foram descritas como os responsáveis diretos do processo de envelhecimento, desordens neurodegenerativas e diversas patologias.  Níveis estratosféricos nas concentrações de radicais livres são obtidos em C. elegans modificados geneticamente para não produzirem enzimas antioxidativas. Com concentrações tão elevadas destas moléculas reativas aliada à incapacidade de neutralizá-las e o número de reações oxidativas presentes neste organismo modificado, o resultado esperado é a morte prematura deste verme. Mas não foi este o resultado encontrado, os vermes modificados geneticamente não tiveram morte prematura e apresentaram a mesma expectativa de vida daqueles não modificados. O aspecto interessante é que os animais modificados geneticamente apresentavam acúmulo de radicais livres bem como  danos oxidativos severos, mas não morreram prematuramente.
O rato-toupeira pelado, um roedor com a maior expectativa de vida dentre os roedores (capaz de sobreviver de 25 a 30 anos) apresenta as menores concentrações de antioxidantes naturais em relação ao camundongo, acumulando maior número de lesões oxidativas em seus tecidos do que outros roedores e mesmo assim vive aproximadamente oito vezes mais que outros roedores. Estes experimentos com o rato-toupeira pelado foram realizados por Rochelle Buffestein, fisiologista, que durante os últimos 11 anos tenta entender a longevidade desta espécie.
Sabe-se que em certas quantidades e situações os radicais livres  podem não apenas serem perigosos, mas úteis e saudáveis, capazes de dispararem mecanismos de defesa que mantém nosso organismo em forma. Por exemplo, alguns radicais livres ativam o gene HIF-1 que é responsável pela ativação de outros genes que participam dos mecanismos de reparo celular incluindo aquele que auxilia no reparo de mutações de DNA.
Em adição, o artigo ainda discute a utilização de vitaminas E e A  como antioxidantes, a sua  eficácia e benefícios para o usuário. O uso destes suplementos multivitamínicos não parece reduzir o risco de morte e ao contrário, há fortes indícios experimentais para o aumento dos riscos para o desenvolvimento de doenças como câncer de pulmão e morte prematura de seus usuários.

Boa leitura!

Referência Bibliográfica
Moyer, M.W. The Myth of Antioxidants. Scientific American 308, 62 - 67 (2013) doi:10.1038/scientificamerican 0213-62








quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Por que falham as vacinas


Por Nelson Vaz


No início do século vinte, Paul Bert, então Diretor do Institute Pasteur, Paris, reunia três conceitos poderosos em uma curta afirmação: “Um germe, uma doença, uma vacina”. Este ideal Pasteuriano foi a mola fundadora da Imunologia, uma especialidade nascida na então jovem Bacteriologia Médica, cuja finalidade explícita era inventar novos soros terapêuticos e novas vacinas anti-infecciosas. Ainda hoje, a crença de Paul Bert é compartilhada não apenas pelo público, em geral, como também por muitos especialistas. Mas tem sido muito difícil inventar novas vacinas, como sugere a longa discussão sobre as razões de sucessos e fracassos na vacinação.


Em uma visão ultra-simplificada da imunidade anti-infecciosa, isto não deveria ocorrer, porque é relativamente fácil desencadear a produção de anticorpos e ativar linfócitos T pela exposição a produtos de micróbios, vírus e parasitas. Experimentalmente, é fácil gerar uma “memória” imunológica para produtos de agentes infecciosos, que condiciona respostas imunes progressivas a cada novo contato com estes materiais. Supostamente, a eficácia das vacinas dependeria exatamente desta intensificação  das respostas. Então, se é fácil intensificar as respostas imunes, por que tem sido tão difícil obter novas vacinas?


Atribuir a proteção anti-infecciosa à uma reatividade progressiva - à “memória” imunológica - é uma ideia curta, simples e, lamentavelmente equivocada. Tal  “memória” seria suicida tão logo a resposta imune não conseguisse eliminar um agente infeccioso do organismo, ou, quando o organismo encontrasse repetidamente um estímulo antigênico no ambiente. Mas o equívoco mais grave e historicamente importante é descrever a atividade imunológica em termos de ataques e defesas, como se vivêssemos em um mundo perigoso.


Nas últimas décadas, com a caracterização dos “microbiomas”, constatamos que nosso mundo é um mundo essencialmente “microbiano”, tamanha é a abundância e variedade de bactérias e archeas. Há micróbios nas nuvens, que afetam o clima, e micróbios enfiados por quilômetros dentro das rochas do fundo dos oceanos. Quantidades inimagináveis de micróbios se instalam nas superfícies de nosso corpo, logo após o nascimento. Há quem proponha que somos mais parecidos com um “consórcio”, que com um organismo.


Cerca de 15 % de nosso genoma é constituido de material genético de origem viral; por exemplo, a sincitina, uma proteína importante na geração da placenta humana, foi codificada, originalmente, por um retrovírus. Duas proteínas necessárias na geração da diversidade linfocitária - Rag-1 e Rag-2 - também tiveram uma origem provavelmente viral. E, cerca de 30 % dos seres vivos podem ser classificados como “parasitas”, mesmo se excluirmos a grande massa de insetos que se alimentam de plantas. Então, um grave equívoco da Teoria dos Germes de Pasteur, foi negligenciar os “portadores sãos” de agentes potencialmente patogênicos, pois a convivência harmônica com micróbios é a regra e as doenças infecciosas são apenas acidentes de percurso.


Em resumo: a “memória” imunológica, isoladamente, não consegue explicar o êxito das vacinas; as infecções se tornam patogênicas apenas excepcionalmente. Deveríamos, portanto, atentar mais para a “fisiologia” da atividade imunológica, para aquilo que permite a convivência harmônica com micróbios, vírus e outros organismos multicelulares. Como funciona o chamdo “sistema imune” enquanto tudo vai bem? Ou, como perguntava Jerne: “O que precede a seleção clonal? (Jerne, 1971).


Quando voltamos nossa atenção para o viver “normal”, constatamos que produtos do microbioma e os alimentos constituem a maior parte do material imunogênico que invadem o corpo cotidianamente; mas, apesar disto, não desenvolvemos uma “memória” imunológica destes contatos; não “respondemos” a esta invasão cotidiana da mesma forma que reagimos a vacinas injetadas com adjuvantes. Não é que “ignoremos” a imunogenicidade dos alimentos: o que se estabelece aí é uma estabilidade dinâmica, surgem patamares robustamente estáveis de reatividade. O organismo estabiliza sua relação com materiais imunogênicos previamente ingeridos como alimentos (Verdolin et al., 2001).


De forma análoga, o organismo conserva patamares de reatividade a seus próprios componentes. A discriminação self/nonself é um pseudoproblema que tem nos atrapalhado por meio século. Longe de ignorá-los, o sistema imune interage continuamente com auto-componentes - só que o faz de forma robustamente estável. A chamada “tolerância natural” é um mecanismo estabilizador e a estabilidade da relação com alimentos é conhecida como “tolerância oral”. Embora seja vista como uma inibição da reatividade imunológica que representaria um obstáculo ao desenvolvimento de “vacinas orais”, a “tolerância oral” é uma estabilidade dinâmica. O que se estabelece aí não é a  “memória” imunológica,  nem é uma inibição da atividade imunológica: é outra coisa, uma estabilidade dinâmica, parte de outras estabilidades dinâmicas que constituem o viver.


O termo “estabilidade dinâmica” parece confuso pois destaca a conservação de algo em meio à mudança. Fala daquilo que se conserva naquilo que muda. Com colegas brasileiros e chilenos, publicamos em 2011 um pequeno livro sobre este problema: “Onde está o Organismo” - Florianópolis, Editora UFSC (Vaz et al., 2011). Na epígrafe deste livro, Jorge Mopozis diz:

“Há plasticidade nos modos de desenvolver. Os caminhos do desenvolvimento têm plasticidade em todos os momentos, e isso é o que permite essa maravilhosa diversidade de linhagens de seres vivos. Mas o problema não é o que é plástico, e sim o que se conserva. Se a mudança é uma condição constitutiva do viver, então, como se conserva aquilo que se conserva?” (Mpodozis, 2011).

Eis aí uma pergunta formidável e raramente ouvida: como se conserva aquilo que se conserva naquilo que muda? Nosso cotidiano está repleto de “estabilidades dinâmicas”. Um rio, por exemplo, é uma organização de moléculas de água que preserva um certo tipo de mudanças; interrompa estas mudanças e o rio desaparece, se transforma em lago. Os organismos são também estabilidades dinâmicas, entidades que conservam sua identidade através de enormes mudanças.

A Biologia atual é centrada no organismo adulto; o desenvolvimento é visto apenas como o trajeto que conduz ao organismo adulto. Mas, Walace Arthur inicia um livro sobre a biologia do desenvolvimento, com as seguintes palavras: 

“O cavalo é um animal microscópico que é incapaz de se mover. Consiste de um número bem reduzido de células (umas poucas centenas, comparadas aos trilhões achadas em um ser humano). Estas células não estão organizadas em sistemas sofisticados de órgãos. O cavalo é um parasita de outro animal, e adquire desta forma seus recursos de seu hospedeiro. Ele é inteiramente incapaz de obter energia de qualquer outro modo.”

e logo depois, acrescenta,

“Minha descrição está correta. Ela apenas se refere a um momento no ciclo da vida do cavalo que é diferente do momento em que usualmente pensamos à menção da palavra “cavalo”. Pensamos usualmente em um cavalo adulto, ou então em um lindo potro ainda instável em suas pernas. O que descrevi é um cavalo quando ainda é um embrião precoce, invisível aos nossos olhos porque está implantado profundamente nos tecidos maternos.” (Arthur, 2004)

Menciono de passagem um equívoco de grande importância social. Quando era Reitor da UFMG, meu amigo Tomaz da Motta Santos disse em um discurso: “Com as campanhas de vacinação, os governos pretendem que nossos corpos resolvam contradições sociais”. Mas as doenças infecciosas e outras formas de miséria humana dependem de fatores muito complexos.  Em um livro fantástico, René Dubos, comenta a “praga das batatas” que causou a “grande fome irlandesa” em 1845, que forçou a emigração de mais de um milhão de irlandeses. Ele enfatiza que o fungo responsável pela destruição das batatas convivia harmonicamente com as batatas inglesas, desde o Perú, de onde foram importadas. A “praga das batatas” surgiu depois de dois verões chuvosos e frios, em uma época em que a economia irlandesa também não andava muito bem (Dubos, 1959). De forma análoga, a “gripe espanhola” de 1918, surgiu inicialmente nas trincheiras repletas de soldados alemães. Dizem mesmo que a Alemanha não perderia a guerra se a gripe não tivesse surgido (Crosby,1989; Kolata, 2000).


Enfim, creio que as vacinas falham porque entendemos ainda muito mal a atividade imunológica. A “defesa” imunológica é um resultado do que se passa, e não um mecanismo que possa ser destacado dos mecanismos do viver. Somos nós, os imunologistas, que transformamos imunoglobulinas em anticorpos em nosso testes sorológicos (Vaz, 2011a,b). Nesta imensa massa de dados descritos sobre a atividade imunológica, nós, os imunologistas, não descrevemos ainda a nós mesmos, nem o que fazemos em nossa praxis profissional.


A imunologia poderia ter se afastado da bacteriologia médica quando foram caracterizadas  as isohemagluininas ABO como “anticorpos naturais” (Landsteiner, 1901); a anafilaxia (Portier et Richet, 1902) e os estados alérgicos, como a “doença do soro” (von Pirquet, 1906) - porque estes não são fenômenos ligados à proteção anti-infecciosa. Mas a influência da medicina até hoje pesa sobre nós e tendemos a ver os estados alérgicos como “defeitos” em uma imunidade que existe, basicamente, para nos “defender”. A “tolerância oral”, embora não com este nome, foi caracterizada no início do século XX (Besredka, 1909; Wells, 1911), mas nunca chegou a representar um aspecto importante do pensamento imunológico. Talvez porque, ao contrário dos micróbios, os alimentos nos parecem “inócuos”.


As vacinas falham porque ainda temos muito o que aprender. Há muitos anos defendo uma explicação “sistêmica” para a efetividade de vacinas anti-infecciosas. Mesmo durante infecções graves, apenas uma parcela da população infectada sofre danos severos ou mortais. Proponho que os indivíduos seriamente afetados são exatamente aqueles nos quais o “conjunto” de interações entre os componentes do sistema imune se “desconjunta”. Este desconjuntamento permite a expansão de clones com uma diversidade limitada de receptores: as expansões ditas oligoclonais. Há uma grande variedade de observações na literatura que apontam a concomitância de expansões oligoclonais de linfócitos T e condições patológicas que vão desde imunodeficiências congênitas a formas graves de infecção, a doenças alérgicas e autoimunes. Propusemos que a efetividade das vacinas em proteger os membros suscetíveis de uma população se deva à prevenção destas expansões oligoclonais (Pordeus et al., 2009).


Sob certos ângulos, nossa proposta é o exato oposto das explicações tradicionais com base na “memória” imunológica. A atividade imunológica normal é sempre plural (Jerne, 1955) e a patologia surge quando ela se singulariza. Desde 1890, quando foram notados os primeiros anticorpos, passamos 123 anos estudando as respostas imunes como se elas representassem a fisiologia imunológica, mas as respostas imunes representam a patologia imunológica. A fisiologia do sistema imune é conservadora (Vaz, 2006; Vaz et al., 2006) e não pode ser compreendida em termos de estímulos e respostas. Nem em termos da “regulação” destas respostas, ou seja, de “respostas regulatórias”. Precisamos entender mais claramente como opera o organismo.



Bibliografia

Arthur, W. (2004). Biased embryos and evolution. Cambridge: Cambridge University press. p.1


Besredka, A. (1909). "De l'anaphylaxie. Sixiéme memoire de l'anaphylaxie lactique." Ann.Inst.Pasteur 23: 166-174.    


Crosby, A. W. (1989). America's forgotten pandemic. The influenza of 1918. New York, Cambridge University press.

Dubos, R. (1959). Mirage of Health. Utopias, progress and biological change. New York, Harper & Brothers.


Jerne, N. K. (1955). "The natural selection theory of antibody formation." Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A. 41: 849-857. 
       

Jerne, N. K. (1971). What precedes clonal selection ? Ciba Foundation Symposium, 1971 : Ontogeny of acquired immunity. Amsterdam, Elsevier: 1-15.


Kolata, G. (2000). Flu. The story of t he great influenza pandemic of 1918 and the search for the virus that caused it. New York, Touchstone.


Landsteiner, K. (1901). "The agglutinative properties of normal human blood." Wien.klin.Wochnschr. 14: 424-448.

Pirquet, C. F.von (1906). "Allergie." Münchener Medizinische Wochenschrift 30: 1457-. 
        

Pordeus, V., G. C. Ramos, A. Barbosa de Castro Jr., A.P. Cunha, & N.M. Vaz (2009). "Immunopathology and oligoclonal T cell expansions. Observations in immunodeficiency, infections, allergy and autoimmune diseases." Current Trends in Immunology 10: 21-29.
          

Portier, P. and C. Richet (1902). "De l’action anaphylactique de certains venins." Comptes Rendus Hebdomadaires des Séances et Mémoires de la Société de Biologie 54:170–172.

Vaz, N. (2006). "Evolution and conservation of immunological activity." Brazilian Journal of Medical and Biological Research 39: 1521-1524.


Vaz, N. M., G. C. Ramos, V. Pordeus & C.R. Carvalho (2006). "The conservative physiology of the immune system. A non-metaphoric approach to immunological activity." Clin Dev Immunol   13(2-4): 133-142. 
   

Vaz, N. M. (2011a). "The specificity of immunological observations." Constructivist Foundations 6(3): 334-351.


Vaz, N. M. (2011b). "Observing Immunologists." Neurociências 7(3): 140-146.

Vaz , N. M., J. M. Mpodozis, et al. (2011). Onde está o organismo? - Derivas e outras histórias na Biologia e na Imunologia. Florianópolis, editora-UFSC.

Wells, H. G. (1911). "Studies on the chemistry of anaphylaxis. III. Experiments with isolated proteins, specially those of the hen's egg." J. Inf. Dis. 9: 147-171.
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