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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O lado Jekyll e Hyde dos radicais livres


Silvia Ponzoni, Departamento de Ciências Fisiológicas, UEL.
Phileno Pinge Filho, Laboratório de Imunopatologia Experimental, UEL










Ação de radicais livres             Ação de antioxidantes





Uma das teorias do envelhecimento estabelece que a sua origem esteja precisamente na ação dos radicais livres. Esta teoria foi proposta por Harman em 1957 (Harman,D. Aging: a theory based on the free radical and radiation chemistry. J.Geront.(1957) 2:298-300) e atualmente está demonstrada por meio de um grande número de publicações científicas.
O artigo “The myth about antioxidants” de Melinda Wenner Moyer publicado  na Scientific American deste mês coloca em dúvida esta teoria. De fácil leitura a autora sugere que a confirmação dos resultados obtidos de pesquisas recentes com vermes e camundongos indicará um novo olhar para a utilização de antioxidantes na forma de vitaminas ou de outros suplementos, pois eles podem causar mais mal do que bem à saúde das pessoas.
          Quando lemos o artigo, imediatamente somos bombardeados por imagens e pensamentos da ficção “O medico e o monstro” de Stevenson. Neste caso as protagonistas com duplas personalidades são as moléculas de radicais livres.
Durante décadas estas moléculas foram descritas como os responsáveis diretos do processo de envelhecimento, desordens neurodegenerativas e diversas patologias.  Níveis estratosféricos nas concentrações de radicais livres são obtidos em C. elegans modificados geneticamente para não produzirem enzimas antioxidativas. Com concentrações tão elevadas destas moléculas reativas aliada à incapacidade de neutralizá-las e o número de reações oxidativas presentes neste organismo modificado, o resultado esperado é a morte prematura deste verme. Mas não foi este o resultado encontrado, os vermes modificados geneticamente não tiveram morte prematura e apresentaram a mesma expectativa de vida daqueles não modificados. O aspecto interessante é que os animais modificados geneticamente apresentavam acúmulo de radicais livres bem como  danos oxidativos severos, mas não morreram prematuramente.
O rato-toupeira pelado, um roedor com a maior expectativa de vida dentre os roedores (capaz de sobreviver de 25 a 30 anos) apresenta as menores concentrações de antioxidantes naturais em relação ao camundongo, acumulando maior número de lesões oxidativas em seus tecidos do que outros roedores e mesmo assim vive aproximadamente oito vezes mais que outros roedores. Estes experimentos com o rato-toupeira pelado foram realizados por Rochelle Buffestein, fisiologista, que durante os últimos 11 anos tenta entender a longevidade desta espécie.
Sabe-se que em certas quantidades e situações os radicais livres  podem não apenas serem perigosos, mas úteis e saudáveis, capazes de dispararem mecanismos de defesa que mantém nosso organismo em forma. Por exemplo, alguns radicais livres ativam o gene HIF-1 que é responsável pela ativação de outros genes que participam dos mecanismos de reparo celular incluindo aquele que auxilia no reparo de mutações de DNA.
Em adição, o artigo ainda discute a utilização de vitaminas E e A  como antioxidantes, a sua  eficácia e benefícios para o usuário. O uso destes suplementos multivitamínicos não parece reduzir o risco de morte e ao contrário, há fortes indícios experimentais para o aumento dos riscos para o desenvolvimento de doenças como câncer de pulmão e morte prematura de seus usuários.

Boa leitura!

Referência Bibliográfica
Moyer, M.W. The Myth of Antioxidants. Scientific American 308, 62 - 67 (2013) doi:10.1038/scientificamerican 0213-62








quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Por que falham as vacinas


Por Nelson Vaz


No início do século vinte, Paul Bert, então Diretor do Institute Pasteur, Paris, reunia três conceitos poderosos em uma curta afirmação: “Um germe, uma doença, uma vacina”. Este ideal Pasteuriano foi a mola fundadora da Imunologia, uma especialidade nascida na então jovem Bacteriologia Médica, cuja finalidade explícita era inventar novos soros terapêuticos e novas vacinas anti-infecciosas. Ainda hoje, a crença de Paul Bert é compartilhada não apenas pelo público, em geral, como também por muitos especialistas. Mas tem sido muito difícil inventar novas vacinas, como sugere a longa discussão sobre as razões de sucessos e fracassos na vacinação.


Em uma visão ultra-simplificada da imunidade anti-infecciosa, isto não deveria ocorrer, porque é relativamente fácil desencadear a produção de anticorpos e ativar linfócitos T pela exposição a produtos de micróbios, vírus e parasitas. Experimentalmente, é fácil gerar uma “memória” imunológica para produtos de agentes infecciosos, que condiciona respostas imunes progressivas a cada novo contato com estes materiais. Supostamente, a eficácia das vacinas dependeria exatamente desta intensificação  das respostas. Então, se é fácil intensificar as respostas imunes, por que tem sido tão difícil obter novas vacinas?


Atribuir a proteção anti-infecciosa à uma reatividade progressiva - à “memória” imunológica - é uma ideia curta, simples e, lamentavelmente equivocada. Tal  “memória” seria suicida tão logo a resposta imune não conseguisse eliminar um agente infeccioso do organismo, ou, quando o organismo encontrasse repetidamente um estímulo antigênico no ambiente. Mas o equívoco mais grave e historicamente importante é descrever a atividade imunológica em termos de ataques e defesas, como se vivêssemos em um mundo perigoso.


Nas últimas décadas, com a caracterização dos “microbiomas”, constatamos que nosso mundo é um mundo essencialmente “microbiano”, tamanha é a abundância e variedade de bactérias e archeas. Há micróbios nas nuvens, que afetam o clima, e micróbios enfiados por quilômetros dentro das rochas do fundo dos oceanos. Quantidades inimagináveis de micróbios se instalam nas superfícies de nosso corpo, logo após o nascimento. Há quem proponha que somos mais parecidos com um “consórcio”, que com um organismo.


Cerca de 15 % de nosso genoma é constituido de material genético de origem viral; por exemplo, a sincitina, uma proteína importante na geração da placenta humana, foi codificada, originalmente, por um retrovírus. Duas proteínas necessárias na geração da diversidade linfocitária - Rag-1 e Rag-2 - também tiveram uma origem provavelmente viral. E, cerca de 30 % dos seres vivos podem ser classificados como “parasitas”, mesmo se excluirmos a grande massa de insetos que se alimentam de plantas. Então, um grave equívoco da Teoria dos Germes de Pasteur, foi negligenciar os “portadores sãos” de agentes potencialmente patogênicos, pois a convivência harmônica com micróbios é a regra e as doenças infecciosas são apenas acidentes de percurso.


Em resumo: a “memória” imunológica, isoladamente, não consegue explicar o êxito das vacinas; as infecções se tornam patogênicas apenas excepcionalmente. Deveríamos, portanto, atentar mais para a “fisiologia” da atividade imunológica, para aquilo que permite a convivência harmônica com micróbios, vírus e outros organismos multicelulares. Como funciona o chamdo “sistema imune” enquanto tudo vai bem? Ou, como perguntava Jerne: “O que precede a seleção clonal? (Jerne, 1971).


Quando voltamos nossa atenção para o viver “normal”, constatamos que produtos do microbioma e os alimentos constituem a maior parte do material imunogênico que invadem o corpo cotidianamente; mas, apesar disto, não desenvolvemos uma “memória” imunológica destes contatos; não “respondemos” a esta invasão cotidiana da mesma forma que reagimos a vacinas injetadas com adjuvantes. Não é que “ignoremos” a imunogenicidade dos alimentos: o que se estabelece aí é uma estabilidade dinâmica, surgem patamares robustamente estáveis de reatividade. O organismo estabiliza sua relação com materiais imunogênicos previamente ingeridos como alimentos (Verdolin et al., 2001).


De forma análoga, o organismo conserva patamares de reatividade a seus próprios componentes. A discriminação self/nonself é um pseudoproblema que tem nos atrapalhado por meio século. Longe de ignorá-los, o sistema imune interage continuamente com auto-componentes - só que o faz de forma robustamente estável. A chamada “tolerância natural” é um mecanismo estabilizador e a estabilidade da relação com alimentos é conhecida como “tolerância oral”. Embora seja vista como uma inibição da reatividade imunológica que representaria um obstáculo ao desenvolvimento de “vacinas orais”, a “tolerância oral” é uma estabilidade dinâmica. O que se estabelece aí não é a  “memória” imunológica,  nem é uma inibição da atividade imunológica: é outra coisa, uma estabilidade dinâmica, parte de outras estabilidades dinâmicas que constituem o viver.


O termo “estabilidade dinâmica” parece confuso pois destaca a conservação de algo em meio à mudança. Fala daquilo que se conserva naquilo que muda. Com colegas brasileiros e chilenos, publicamos em 2011 um pequeno livro sobre este problema: “Onde está o Organismo” - Florianópolis, Editora UFSC (Vaz et al., 2011). Na epígrafe deste livro, Jorge Mopozis diz:

“Há plasticidade nos modos de desenvolver. Os caminhos do desenvolvimento têm plasticidade em todos os momentos, e isso é o que permite essa maravilhosa diversidade de linhagens de seres vivos. Mas o problema não é o que é plástico, e sim o que se conserva. Se a mudança é uma condição constitutiva do viver, então, como se conserva aquilo que se conserva?” (Mpodozis, 2011).

Eis aí uma pergunta formidável e raramente ouvida: como se conserva aquilo que se conserva naquilo que muda? Nosso cotidiano está repleto de “estabilidades dinâmicas”. Um rio, por exemplo, é uma organização de moléculas de água que preserva um certo tipo de mudanças; interrompa estas mudanças e o rio desaparece, se transforma em lago. Os organismos são também estabilidades dinâmicas, entidades que conservam sua identidade através de enormes mudanças.

A Biologia atual é centrada no organismo adulto; o desenvolvimento é visto apenas como o trajeto que conduz ao organismo adulto. Mas, Walace Arthur inicia um livro sobre a biologia do desenvolvimento, com as seguintes palavras: 

“O cavalo é um animal microscópico que é incapaz de se mover. Consiste de um número bem reduzido de células (umas poucas centenas, comparadas aos trilhões achadas em um ser humano). Estas células não estão organizadas em sistemas sofisticados de órgãos. O cavalo é um parasita de outro animal, e adquire desta forma seus recursos de seu hospedeiro. Ele é inteiramente incapaz de obter energia de qualquer outro modo.”

e logo depois, acrescenta,

“Minha descrição está correta. Ela apenas se refere a um momento no ciclo da vida do cavalo que é diferente do momento em que usualmente pensamos à menção da palavra “cavalo”. Pensamos usualmente em um cavalo adulto, ou então em um lindo potro ainda instável em suas pernas. O que descrevi é um cavalo quando ainda é um embrião precoce, invisível aos nossos olhos porque está implantado profundamente nos tecidos maternos.” (Arthur, 2004)

Menciono de passagem um equívoco de grande importância social. Quando era Reitor da UFMG, meu amigo Tomaz da Motta Santos disse em um discurso: “Com as campanhas de vacinação, os governos pretendem que nossos corpos resolvam contradições sociais”. Mas as doenças infecciosas e outras formas de miséria humana dependem de fatores muito complexos.  Em um livro fantástico, René Dubos, comenta a “praga das batatas” que causou a “grande fome irlandesa” em 1845, que forçou a emigração de mais de um milhão de irlandeses. Ele enfatiza que o fungo responsável pela destruição das batatas convivia harmonicamente com as batatas inglesas, desde o Perú, de onde foram importadas. A “praga das batatas” surgiu depois de dois verões chuvosos e frios, em uma época em que a economia irlandesa também não andava muito bem (Dubos, 1959). De forma análoga, a “gripe espanhola” de 1918, surgiu inicialmente nas trincheiras repletas de soldados alemães. Dizem mesmo que a Alemanha não perderia a guerra se a gripe não tivesse surgido (Crosby,1989; Kolata, 2000).


Enfim, creio que as vacinas falham porque entendemos ainda muito mal a atividade imunológica. A “defesa” imunológica é um resultado do que se passa, e não um mecanismo que possa ser destacado dos mecanismos do viver. Somos nós, os imunologistas, que transformamos imunoglobulinas em anticorpos em nosso testes sorológicos (Vaz, 2011a,b). Nesta imensa massa de dados descritos sobre a atividade imunológica, nós, os imunologistas, não descrevemos ainda a nós mesmos, nem o que fazemos em nossa praxis profissional.


A imunologia poderia ter se afastado da bacteriologia médica quando foram caracterizadas  as isohemagluininas ABO como “anticorpos naturais” (Landsteiner, 1901); a anafilaxia (Portier et Richet, 1902) e os estados alérgicos, como a “doença do soro” (von Pirquet, 1906) - porque estes não são fenômenos ligados à proteção anti-infecciosa. Mas a influência da medicina até hoje pesa sobre nós e tendemos a ver os estados alérgicos como “defeitos” em uma imunidade que existe, basicamente, para nos “defender”. A “tolerância oral”, embora não com este nome, foi caracterizada no início do século XX (Besredka, 1909; Wells, 1911), mas nunca chegou a representar um aspecto importante do pensamento imunológico. Talvez porque, ao contrário dos micróbios, os alimentos nos parecem “inócuos”.


As vacinas falham porque ainda temos muito o que aprender. Há muitos anos defendo uma explicação “sistêmica” para a efetividade de vacinas anti-infecciosas. Mesmo durante infecções graves, apenas uma parcela da população infectada sofre danos severos ou mortais. Proponho que os indivíduos seriamente afetados são exatamente aqueles nos quais o “conjunto” de interações entre os componentes do sistema imune se “desconjunta”. Este desconjuntamento permite a expansão de clones com uma diversidade limitada de receptores: as expansões ditas oligoclonais. Há uma grande variedade de observações na literatura que apontam a concomitância de expansões oligoclonais de linfócitos T e condições patológicas que vão desde imunodeficiências congênitas a formas graves de infecção, a doenças alérgicas e autoimunes. Propusemos que a efetividade das vacinas em proteger os membros suscetíveis de uma população se deva à prevenção destas expansões oligoclonais (Pordeus et al., 2009).


Sob certos ângulos, nossa proposta é o exato oposto das explicações tradicionais com base na “memória” imunológica. A atividade imunológica normal é sempre plural (Jerne, 1955) e a patologia surge quando ela se singulariza. Desde 1890, quando foram notados os primeiros anticorpos, passamos 123 anos estudando as respostas imunes como se elas representassem a fisiologia imunológica, mas as respostas imunes representam a patologia imunológica. A fisiologia do sistema imune é conservadora (Vaz, 2006; Vaz et al., 2006) e não pode ser compreendida em termos de estímulos e respostas. Nem em termos da “regulação” destas respostas, ou seja, de “respostas regulatórias”. Precisamos entender mais claramente como opera o organismo.



Bibliografia

Arthur, W. (2004). Biased embryos and evolution. Cambridge: Cambridge University press. p.1


Besredka, A. (1909). "De l'anaphylaxie. Sixiéme memoire de l'anaphylaxie lactique." Ann.Inst.Pasteur 23: 166-174.    


Crosby, A. W. (1989). America's forgotten pandemic. The influenza of 1918. New York, Cambridge University press.

Dubos, R. (1959). Mirage of Health. Utopias, progress and biological change. New York, Harper & Brothers.


Jerne, N. K. (1955). "The natural selection theory of antibody formation." Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A. 41: 849-857. 
       

Jerne, N. K. (1971). What precedes clonal selection ? Ciba Foundation Symposium, 1971 : Ontogeny of acquired immunity. Amsterdam, Elsevier: 1-15.


Kolata, G. (2000). Flu. The story of t he great influenza pandemic of 1918 and the search for the virus that caused it. New York, Touchstone.


Landsteiner, K. (1901). "The agglutinative properties of normal human blood." Wien.klin.Wochnschr. 14: 424-448.

Pirquet, C. F.von (1906). "Allergie." Münchener Medizinische Wochenschrift 30: 1457-. 
        

Pordeus, V., G. C. Ramos, A. Barbosa de Castro Jr., A.P. Cunha, & N.M. Vaz (2009). "Immunopathology and oligoclonal T cell expansions. Observations in immunodeficiency, infections, allergy and autoimmune diseases." Current Trends in Immunology 10: 21-29.
          

Portier, P. and C. Richet (1902). "De l’action anaphylactique de certains venins." Comptes Rendus Hebdomadaires des Séances et Mémoires de la Société de Biologie 54:170–172.

Vaz, N. (2006). "Evolution and conservation of immunological activity." Brazilian Journal of Medical and Biological Research 39: 1521-1524.


Vaz, N. M., G. C. Ramos, V. Pordeus & C.R. Carvalho (2006). "The conservative physiology of the immune system. A non-metaphoric approach to immunological activity." Clin Dev Immunol   13(2-4): 133-142. 
   

Vaz, N. M. (2011a). "The specificity of immunological observations." Constructivist Foundations 6(3): 334-351.


Vaz, N. M. (2011b). "Observing Immunologists." Neurociências 7(3): 140-146.

Vaz , N. M., J. M. Mpodozis, et al. (2011). Onde está o organismo? - Derivas e outras histórias na Biologia e na Imunologia. Florianópolis, editora-UFSC.

Wells, H. G. (1911). "Studies on the chemistry of anaphylaxis. III. Experiments with isolated proteins, specially those of the hen's egg." J. Inf. Dis. 9: 147-171.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Nanoscopia holografica digital livre de marcação


Infelizmente em ciência, nem todas as boas idéias, ou boas invenções, chegam a se tornar realidade vindo a fazer parte de nossas rotinas. Por vários motivos, alguns projetos inovadores nem sempre são aceitos e acabam não vingando. Felizmente algumas boas idéias se tornam realidade e dentre elas, surge a que vou descrever aos senhores e senhoras logo a seguir. Trata-se de uma importante ferramenta tecnológica, que pode se tornar, em breve, uma novidade de rotina em nossos laboratórios.
Cientistas suíços da Ecole Polythechnique Federale de Lausanne acabam de desenvolver um novo método de aquisição de imagem  denominado “Marker-free nanoscopy by 2π-Digital holographic microscopy (DHM)”, algo como NANOSCÓPIO livre de marcação por Microscopia Holográfica Digital-2π. Trata-se de um “microscópio” capaz de fazer imagens de células e suas estruturas funcionais, sem o auxílio de corantes ou fluoróforos, e ainda em 3D. A nova tecnologia está sendo comparada por alguns cientistas, com o salto tecnológico dado pela televisão, em relação à fotografia. O nanoscópio usado neste método processa figuras obtidas através da captura de imagens refletidas da célula, utilizando-se um laser de baixíssima intensidade. As imagens são então capturadas por holografia e “montadas” por um programa de computador. As imagens construídas promovem resolução lateral de menos de 100 nm e podem ser analisadas em células vivas.  Sem o uso de corantes ou fluorocromos ou a necessidade de manipulação do DNA da célula, como acontece em animais transgênicos (GFP, CFP, RFP, etc.), as análises se tornam mais reais e sem possíveis influências externas promovidas por estas manipulações. Trata-se de uma tecnologia inovadora e promissora! Vamos torcer para que se torne viável e “utilizável” o mais rápido possível.

Link para um dos vídeos mostrando um remodelamento neuronal. Observem que a barra de escala se refere a 1 micrômetro somente:
http://www.nature.com/nphoton/journal/v7/n2/extref/nphoton.2012.329-s3.mov

Marker-free phase nanoscopy
Yann Cotte, Fatih Toy, Pascal Jourdain, Nicolas Pavillon, Daniel Boss, Pierre Magistretti, Pierre Marquet, Christian Depeursinge
Nature Photonics
Vol.: 7, 113-117
DOI: 10.1038/nphoton.2012.329

Post de Ricardo Gonçalves

ACADEMIA E A FÁBRICA DE SARDINHAS

Pessoal, 

Aproveitando as (minhas) férias e um pouco tempo que tem sobrado, me deparei com este texto do Professor Rafael Alcadipani (Professor Adjunto da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas) publicado na Revista O&S (Salvador, v.18 - n.57, p. 345-348 - Abril/Junho - 2011)

"A luta em uma guerra, a elaboração de plantações ou até mesmo o adestramento de animais requer que alguma forma de gerenciamento seja praticada. Por isso, não podemos pensar a sociedade, mesmo que a mais rudimentar, sem a função gestão. Não obstante, ensinamos aos nossos alunos dos cursos de graduação que o “pai” da administração é um engenheiro Norte-Americano que realizava, entre outras coisas, estudos de tempos e movimentos. Frederick Taylor não inventou a administração. Seu principal legado foi popularizar a racionalização extrema e metódica como sinônimo da melhor maneira de se administrar e gerar resultados em organizações. O taylorismo foi utilizado pelo mundo como a solução para os problemas das empresas ao, pretensamente, indicar a forma correta e certa de gerir. Apresentou-se como aplicável para todo e qualquer tipo de organização, não importando seu contexto e especificidades. Era, ainda, considerado neutro, ou seja, como um conjunto de ferramentas que favorece o melhor resultado, nada além disso. 

Depois do taylorismo, o mundo não cessou de ver modelos, maneiras e métodos que se apresentam como formas universais e corretas de se administrar. Na realidade, Taylor criou a primeira grande ideologia gerencial, o primeiro gerencialismo. Qualidade Total, Sistemas Integrados de Gestão, ISO-9000, Reengenharia são apenas algumas marcas do gerencialismo. Embora tais marcas mudem, a sua essência permanece a mesma: pretensão de aplicação universal, proposta de solução única para os diversos problemas, neutralidade política e a valorização do conhecimento do gestor em detrimento dos demais. O gerencialismo se propõe como a solução para a minimização dos inputs e a maximização dos outputs. O modelo corporativo, permeado pela ideologia gerencial, solidifi cou-se na contemporaneidade como “a maneira” de se fazer gestão. Organizações de todos os tipos devem ser efi cientes, efi cazes, os seus trabalhadores devem ser avaliados e cobrados constantemente. Esta é a maneira tida como a mais certa, a mais correta e, pasmem, até mesmo a mais justa de se gerir. Ou seja, a gestão da empresa passou a ser vista como a única forma correta de se fazer administração. 

O gerencialismo não fi cou circunscrito ao mundo empresarial e corporativo tradicional. Ele e seus modelos estão invadindo inúmeras esferas de nossa vida cotidiana. Hoje se espera, e há aqueles que inclusive defendem, que hospitais, ONGs, organizações fi lantrópicas, religiosas e até mesmo escolas e universidades sigam as normas e os ditames da gestão das empresas tradicionais. Assumimos que o processo de produzir conhecimento, cuidar de pessoas e lutar por causas humanas pode seguir as mesmas regras de gestão da produção em série de latas de sardinha. Passamos a gerir organizações com focos, objetivos e funções sociais totalmente diferentes como
se fossem fábricas de sabonete.

As peculiaridades do trabalho acadêmico

A função das escolas de ensino superior é criar e difundir conhecimento e este trabalho possui especifi cidades e complicações. Escrever um texto, por mais simples que seja, tende a levar o autor ao seu limite. A lógica do que se diz precisa estar clara, a novidade do que se pretende dizer, no caso de publicações científi cas, também. Na realidade, ao escrever um texto, o autor luta contra seus próprios fantasmas o tempo todo. Será que aquilo que escrevi faz sentido? Será que as idéias estão claras? A lógica do argumento está concatenada? Estou verdadeiramente convencido daquilo que digo? As minhas palavras transferem aquilo que realmente eu queria dizer? Eu sou bom o suficiente para escrever este texto? O que os outros vão achar do que escrevi? Estas são apenas algumas das questões que nos acompanham durante a escrita. Para a redação, é preciso pensar e repensar, escrever e reescrever. A produção do conhecimento impregna o seu autor. Quando se está escrevendo raros são os momentos de paz, pois idéias nos perseguem em todos os lugares que vamos. Muitas vezes, ficamos dias e dias na frente de um computador sem conseguir evoluir. Outras vezes passamos o dia todo escrevendo, apagando e reescrevendo o mesmo parágrafo. Trata-se de um processo diametralmente oposto ao de fazer gestão, cuja lógica do “apagador de incêndios” é dominante. 

A escrita é um processo extremamente laborioso, e não estar sob pressão de tempo é crucial. Na realidade, a escrita e o trabalho acadêmico seguem a lógica do artesanato, que é muito diferente da lógica da produção fordista ou toyotista típica do mundo corporativo. A escrita acadêmica envolve, via de regra, a realização de pesquisas, atividade de signifi cativa complexidade. A escolha de um tema, de um objeto, de um método, da maneira de coletar e analisar dados, de conseguir acesso são atividades extremamente demandantes quando realizadas de forma rigorosa. Mais uma vez, a distância da atividade gerencial cotidiana é notória, principalmente no que concerne à questão do uso do tempo. A difusão do conhecimento tampouco é atividade simples. Selecionar o conteúdo a ser ministrado, preparar a forma que isso será feito, maneiras que os alunos serão avaliados, ser capaz de criar uma dinâmica com a sala de aula que favoreça a aprendizagem, lidar com as próprias expectativas e com a dos alunos são atividades que requerem dedicação, cuidado, equilíbrio emocional e, sobretudo, paciência. Talvez, o mais importante do ensino é que infl uenciamos a maneira de os alunos compreenderem a realidade e até mesmo entender o que é a realidade. Afinal, ao descrever para nossos alunos como as coisas podem ser, estamos dizendo a eles como elas são. Não é à toa que a docência é uma das atividades mais nobres que há. 

Apesar da importância social, um professor recebe uma remuneração inferior a de pessoas com qualifi cação semelhante em outras profi ssões. O pagamento pouco atrativo tendia a ser compensado pela liberdade de pensar, a ausência de hierarquiaformal rígida, as menores pressões externas, o prazer de ensinar e pesquisar, a liberdade do próprio tempo. Ou seja, a realização pessoal e a possibilidade de um trabalho que foge das pressões das ocupações tradicionais compensavam a ausência de recompensas pecuniárias mais diretas. Porém, a invasão da lógica gerencial nas organizações educacionais está gerando um habitat bastante inóspito para o acadêmico e vocação.

Academia inóspita

O autor deste artigo, em conjunto com Ricardo Bresler, advertiu em 1999 que as faculdades e universidades brasileiras passavam por um nítido processo de McDonaldização. Cursos enlatados, o esvaziamento da refl exão, os ataques à liberdade acadêmica, a busca por ensinar aquilo que supostamente funciona, o uso desenfreado de apostilas, a transformação do aluno em cliente, a difusão de formas de avaliação de desempenho de professores similares a de empresas e a quantifi cação da produção acadêmica já eram traços do ensino superior brasileiro em 1999. De lá para cá, a situação apenas se agravou. A academia está prestes a virar fast-food. O modelo gerencial passou a ser visto como a solução para os problemas das organizações educacionais. Começou-se a desenvolver avaliações de desempenho de professores que mimetizam os processos de avaliação de executivos, os planos de carreira estão cada vez mais próximos ao de empresas, os alunos passaram a ser vistos como clientes e os cursos como produtos. 

Inseridos em tal lógica, professores são premiados ou punidos, muitas vezes, levando-se como fundamento principal a pesquisa da satisfação dos alunos com relação ao curso ministrado pelo professor. Tais avaliações discentes seguem uma lógica que não difere muito da lógica das pesquisas de satisfação de clientes que acabam de consumir um produto. A transformação do aluno em cliente transformou o professor em um mero prestador de serviços, muitas vezes subtraindo dele as funções de educador e o forçando a ser um “animador de auditório”. O problema do aluno-cliente é que a lógica do ensino-aprendizagem é subvertida pela lógica do consumo-satisfação que, muitas vezes, destoa da formação de um sujeito reflexivo e maduro. Diante do cliente, o professor-prestador de serviço não deve medir esforços para satisfazê-lo. A conseqüencia mais típica é o estabelecimento dos “pactos de mediocridade” em que o aluno finge que apreende e o professor que ensina. 

Outro problema grave é que na lógica gerencial-empresarial o que vale é a produtividade mensurada por números. No Brasil, produção acadêmica se transformou em sinônimo de fazer pontos. Balizada pela tabela de pontuação de produção acadêmica da CAPES, o trabalho de pesquisa tem sido medido pela quantidade de pontos que o professor consegue fazer por ano. Assim, a lógica está cada vez mais em produzir o máximo possível de artigos para fazer o máximo de pontos. Rankings com nomes e pontos de professores são produzidos e distribuídos nas secretarias dos programas de pós-graduação em todo o país. 

Não é incomum pesquisadores produzirem cinco ou seis artigos em uma mesmo ano. A perversidade deste sistema chegou a tanto que a noção de autoria, tão cara a uma academia que se pretende séria, está à beira de ser desvirtuada, principalmente quando pessoas assinam artigos que não leram. Não é incomum vermos alunos serem coagidos a colocar o nome de orientadores em artigos e trabalhos que jamais foram lidos pelo orientador. Na lógica da academia produtivista, o tempo para reflexão é deixado de lado, a formação de alunos é escamoteada e o desenvolvimento intelectual significa apenas números em uma tabela. 

Os alunos socializados neste sistema encaram a produção acadêmica como um fim em si mesmo, fazendo parte de uma geração que não pesquisa a fundo, não apreende e não se desenvolve; apenas publica. A publicação que deveria ser a coroação de um trabalho sério e diligente de pesquisa e refl exão está se transformando em uma mera numerologia da academia McDonald´s onde tudo deve ser quantifi cado dentro da lógica da quantidade como sinônimo de qualidade. Avaliar o trabalho de produção acadêmica em triênios é um acinte. É muito pouco tempo para que um projeto verdadeiramente intelectual se desenvolva e gere frutos. Trata-se da imposição da lógica do tempo empresarial taylorista-fordista em algo que é essencialmente artesanal. 

No mundo gerencial, a crítica e a refl exão deve sempre ser “construtiva”. O mal estar do problema exposto sempre deve dar lugar a uma rápida solução. Com a transplantação da lógica corporativa para as organizações de ensino, o horror à crítica se estabelece. O questionamento das diretrizes estabelecidas e as perguntas inoportunas são cada vez mais mal vistas na academia “fábrica de sardinha em lata”. Os que questionam são logo estigmatizados como causadores de problema e a sua opinião é, simplesmente, deixada de lado. A crise dos intelectuais não está apenas no seu papel social. A intelectualidade está em xeque também dentro do mundo acadêmico que passa cada vez mais por um processo de “higienização”, no qual o suposto mal odor da crítica deve dar lugar a esterilidade do consenso mudo e da crítica propositiva. Neste contexto, a liberdade acadêmica entra em xeque. A ironia é que o gerencialismo invade o mundo educacional em sua faceta mais tradicional e menos elaborada, uma vez que a gestão acadêmica sob sua égide tende a ser quase taylorista-fordista.

Outro modelo é preciso

Antes do modelo produtivista, a academia vivia sob o império da cátedra. O professor com certa senioridade assumia uma posição vitalícia e de lá reinava absoluto e soberano. A renovação era improvável e a fossilização tendia a ocorrer. Para se preservar a liberdade acadêmica de um gerava-se a submissão de outros. Os periódicos eram, muitas vezes, clubes fechados onde poucos podiam publicar e o acadêmico nunca era avaliado por ninguém. A crítica ao modelo atual não signifi ca o desejo do retorno à sociedade da corte. Sem dúvida, o modelo anterior era inadequado e injusto. Não resta dúvida que os professores e pesquisadores precisam “publicizar” o que fazem. A produção de um artigo ou de um livro, quando é resultado de um amadurecimento intelectual, é sinônimo de desenvolvimento intelectual. Em um processo de diálogo com os pares, muito se apreende. Uma aula, quando bem preparada e ministrada, é gratificante para alunos e professores. 

Porém, o gerencialismo quando aplicado ao ensino e a pesquisa corrói a essência da produção e divulgação do conhecimento. O problema da inserção da lógica gerencial no meio educacional é que ela passa a impor um “ethos” corporativo para um tipo de atividade que pouco ou nada tem a ver com o mundo das empresas. O professor precisa ter tempo para amadurecer suas idéias. Precisa de liberdade para expor seus pontos de vista sem ter que se preocupar em agradar um cliente ou um patrão.
Precisa desenvolver seu trabalho de pesquisa com a tranqüilidade de que se ele não fizer um número certo de pontos por ano não será excluído. O professor precisa ter a tranqüilidade de que quando ele atingir certo nível de desenvolvimento intellectual e senioridade em uma dada área, ele não será descartado por não fazer pontinhos. A academia precisa, urgentemente, rever o caminho que está trilhando, pensar em uma nova maneira de se organizar que leve em consideração as suas peculiaridades e sua finalidade social. Deixar a nobre tarefa de produzir e divulgar conhecimento para a lógica das fábricas de sardinha é antes de qualquer coisa um desperdício."

* PhD pela Manchester Business School – The University of Manchester. Professor Adjunto da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas – EAESP/FGV. Endereço: Rua Itapeva, 474 – 11º andar. São Paulo/SP. CEP: 01332-000. E-mail:Rafael.Alcadipani@fgv.br

o&s - Salvador, v.18 - n.57, p. 345-348 - Abril/Junho - 2011
www.revistaoes.ufba.br



Abraços

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Modelos murinos no estudo de doenças inflamatórias humanas, funcionam?


O uso de camundongos em pesquisas biomédicas é realizado por mais de 50 anos, e muitos deles em estudos de respostas inflamatórias humanas. O menor custo, tamanho, conveniência, e facilidade de manipulação genética estão entre as razões do escolha de camundongos em pesquisas. Entretanto, um importante ponto frequentemente deixa de ser levado em consideração: camundongos parecem ser mais resistentes à inflamação e infecção do que humanos. 



Uma pesquisa realizada por um consórcio nacional americano envolvendo diferentes grupos de pesquisa da Harvard Medical School, Mass General Hospital e Stanford University, entre outros, investigaram as respostas genômicas de camundongos e humanos em respostas inflamatórias. Eles constataram que embora o estress inflamatório agudo de diferentes origens resultam em respostas genomicas similares entre humanos de diferentes idades, elas não se correlacionam com aquelas observadas em camundongos submetidos as mesmas condições.

O estudo levanta uma discussão, entre os pesquisadores da área, sobre qual é o real valor informativo que modelos murinos possuem em diferentes circunstâncias específicas de pesquisas sobre doenças inflamatórias humanas.

Seok et al. Genomic responses in mouse models poorly mimic human inflammatory diseases. PNAS, 2013.

http://www.pnas.org/content/early/2013/02/07/1222878110
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