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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Modelos murinos no estudo de doenças inflamatórias humanas, funcionam?


O uso de camundongos em pesquisas biomédicas é realizado por mais de 50 anos, e muitos deles em estudos de respostas inflamatórias humanas. O menor custo, tamanho, conveniência, e facilidade de manipulação genética estão entre as razões do escolha de camundongos em pesquisas. Entretanto, um importante ponto frequentemente deixa de ser levado em consideração: camundongos parecem ser mais resistentes à inflamação e infecção do que humanos. 



Uma pesquisa realizada por um consórcio nacional americano envolvendo diferentes grupos de pesquisa da Harvard Medical School, Mass General Hospital e Stanford University, entre outros, investigaram as respostas genômicas de camundongos e humanos em respostas inflamatórias. Eles constataram que embora o estress inflamatório agudo de diferentes origens resultam em respostas genomicas similares entre humanos de diferentes idades, elas não se correlacionam com aquelas observadas em camundongos submetidos as mesmas condições.

O estudo levanta uma discussão, entre os pesquisadores da área, sobre qual é o real valor informativo que modelos murinos possuem em diferentes circunstâncias específicas de pesquisas sobre doenças inflamatórias humanas.

Seok et al. Genomic responses in mouse models poorly mimic human inflammatory diseases. PNAS, 2013.

http://www.pnas.org/content/early/2013/02/07/1222878110

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

As universidades federais na Scientific American Brasil


Ciência e Educação (de qualidade) são a Base da Esperança

Em 1998 o Governo Federal criou por decreto a Gratificação de Estímulo à Docência no Magistério Superior. Tratava-se de um adicional ao salário dos docentes de instituições federais de ensino superior (ifes), cujo valor dependia da produtividade em ensino, pesquisa, extensão e administração de cada professor. Pouco tempo depois o valor máximo desta gratificação foi incorporado aos salários de todos os docentes concursados das ifes. Os professores que sistematicamente tinham produtividade máxima (de acordo com critérios governamentais) continuaram a receber em seus contra-cheques o mesmo valor de meses anteriores. Os demais, com produtividade inferior, conquistaram significativo aumento em seus vencimentos.

Este é um exemplo que retrata com fidelidade o quadro típico da universidade pública brasileira: a falta de meritocracia. E, sem reconhecimento efetivo de mérito, como promover progresso científico e tecnológico relevante? Esta falta de políticas meritocráticas na academia brasileira atinge não apenas professores e pesquisadores, mas também alunos e funcionários do quadro técnico-administrativo.

Neste artigo esboço de forma muito breve alguns dos mais graves problemas crônicos do ensino superior público - com ênfase nas universidades federais - e algumas consequências de tais problemas, geralmente gravitando ao redor da confortável garantia de emprego para todos os professores concursados. O foco deste texto se justifica de forma simples. As universidades federais de nosso país têm um papel estratégico fundamental em toda a rede educacional brasileira. Ações e políticas de instituições privadas e estaduais de ensino superior ou médio são muitas vezes dependentes de práticas comuns às universidades federais espalhadas pelo território nacional, as quais são fortemente controladas pelo Governo.

Instituições federais de ensino superior não têm autonomia para contratação, demissão ou negociação salarial de professores. Concursos públicos, para fins de contratação de novos docentes, somente podem ser realizados através de editais nacionais do Governo Federal. Localmente, não há como negociar a contratação de professores, não importando a competência dos mesmos, fatores emergenciais ou as necessidades da instituição. Sempre devem ser aguardados os editais governamentais. Demissões somente podem ocorrer em casos extremamente graves, como abandono do cargo. Participei, anos atrás, de uma comissão interna da Universidade Federal do Paraná (UFPR) que deveria avaliar a situação de um docente que não aparecia no trabalho há pelo menos seis meses. Esta foi uma demonstração muito clara da lentidão administrativa de uma universidade federal. Se um docente lecionar de forma incompetente ou se não realizar atividades de pesquisa, extensão ou administração, isso não caracteriza motivo suficiente para demissão ou perda de privilégios básicos do cargo. Vale observar que estou falando da prática e não daquilo que consta em documentos oficiais. Também não estou discutindo sobre professores substitutos, os quais são contratados por tempo determinado, ganhando salários muito inferiores aos de concursados.

Se um professor é contratado após realização de concurso público, ele deve cumprir um estágio probatório de três anos. Após este período, seu cargo está praticamente garantido, independentemente de sua produção posterior ao longo de toda a vida acadêmica restante. Além disso, docentes podem eventualmente progredir em planos de carreira, mas jamais regridem. Uma vez que um docente se torna Associado III, por exemplo, jamais pode regredir para Associado II ou I, mesmo que nada mais produza após sua última progressão funcional.

É claro que há professores de ifes que mantém excelente produção acadêmica. Mas existem também aqueles que faltam às aulas (sem registro oficial de tais faltas), não cumprem ementas de disciplinas ou horários de aulas, não realizam pesquisa alguma ou qualquer atividade de extensão e nem orientam alunos de graduação ou de pós-graduação. Tais professores podem contar com os mesmos benefícios da estabilidade dada aos mais produtivos. 
São várias as consequências do conforto conquistado através da estabilidade irrestrita. Uma delas é o fato de que comumente professores mais antigos se sentem intimidados por jovens que demonstram talento evidentemente superior à média, e muitas vezes usam mecanismos burocráticos absurdos como tentativa desesperada para nivelar todos a um mesmo patamar de desempenho mediano. Cito um caso que eu mesmo testemunhei. Durante minha chefia do Departamento de Matemática da UFPR, de 2005 a 2007, fui relator de um processo de pedido de afastamento de um casal de jovens professores recentemente contratados pelo Departamento de Estatística daquela instituição: Leonardo Soares Bastos e Thaís Cristina de Oliveira Fonseca. Ambos foram convidados para realizar doutoramento em ótimas universidades britânicas, sob a orientação de dois pesquisadores de excelente reputação internacional e com bolsas de estudos pagas pelas respectivas instituições estrangeiras. Apesar do Departamento de Estatística ter aprovado as duas solicitações e de meu parecer ter sido justificadamente favorável, o Setor de Ciências Exatas (instância superior) indeferiu os pedidos. A alegação foi o estágio probatório, o qual deveria ser cumprido por ambos. Legalmente, o estágio probatório poderia ser cumprido no exterior, uma vez que o vínculo empregatício com a UFPR seria mantido. E os membros do Conselho do Setor de Ciências Exatas sabiam disso. Mas o fato é que vi de perto os verdadeiros motivos para negar os pedidos de afastamento temporário: o medo provocado por jovens que crescem rapidamente em suas carreiras. O resultado não poderia ser outro. O ambicioso casal pediu demissão e seguiu rumo para a Inglaterra. Hoje são professores doutores das Universidades Federal Fluminense e Federal do Rio de Janeiro. Ou seja, apesar das políticas das ifes serem praticamente as mesmas em todo o país, este casal ainda insiste em apostar no futuro de nossa nação. Afinal, o Brasil precisa de estatísticos de alto nível.

A consequência mais óbvia da estabilidade irrestrita para docentes das ifes é a falta de um ambiente competitivo na vida acadêmica pública. É claro que muitos professores com produção científica (nem todos) têm acesso a bolsas de estudo e/ou pesquisa, o que caracteriza um certo reconhecimento de mérito por parte de órgãos de apoio que são geralmente externos às ifes. E a manutenção dessas bolsas depende da contínua produção científica dos beneficiados, de acordo com critérios muitas vezes exigentes. No entanto, seus cargos em suas instituições de origem jamais estão ameaçados, ainda que não produzam conhecimento algum. E mesmo em casos de faltas graves, como a prática comum de lecionar conteúdos de forma superficial e até errada, o cargo continua garantido. As ifes ainda contam com o trabalho competente de diversos pesquisadores e cientistas brasileiros, algo que dificilmente pode ser encontrado em universidades privadas deste país. Mas, em geral, as condições de trabalho deles em pouco difere daquelas ofertadas a todos os demais. Temos, assim, um ambiente de pouco estímulo à produção intelectual relevante do ponto de vista do exigente cenário internacional.

O Brasil não é internacionalmente reconhecido como uma nação que produz ideias. Os Estados Unidos são um país tão novo quanto o nosso. Mas as melhores universidades do planeta estão na América do Norte, de acordo com diversas pesquisas internacionais realizadas de forma independente. Por que o Brasil não consegue se destacar em produção científica? Não estaria na hora de percebermos que estamos fazendo alguma coisa errada? Mentes brilhantes nosso país tem desde muito tempo atrás.

Carlos Chagas foi oficialmente indicado ao Nobel de Medicina em duas ocasiões. Perdeu porque Afrânio Peixoto era contrário à política meritocrática adotada por Chagas durante sua gestão no antigo Departamento de Saúde Pública do Governo Federal. Deste modo, Peixoto e colegas fizeram campanha perante a Comissão Nobel, no Instituto Karolinska (Suécia), afirmando, resumidamente, que o trabalho de Chagas não merecia atenção alguma. 

Natural de Petrópolis, RJ, Peter Medawar ganhou o Nobel de Medicina, mas durante a juventude teve a cidadania cassada pelo Governo Federal, simplesmente porque não se apresentou ao serviço militar obrigatório. Os resultados de suas pesquisas sobre transplantes de tecidos vivos estão acessíveis a qualquer brasileiro, incluindo militares. Mas a cidadania de Medawar somente foi restaurada muito tempo depois e de forma absolutamente discreta. Por sorte Medawar tinha cidadania britânica também. Assim, Inglaterra ganhou um Prêmio Nobel a mais e o Brasil até hoje ignora a fundamental importância da ciência feita em ambientes competitivos.

Universidades estadunidenses também conferem estabilidade para professores. Mas são poucos os que recebem este benefício, conhecido como tenure. O critério é simplesmente meritocrático. E tal mérito não se avalia através de concurso público realizado em dois ou três dias, mas ao longo de uma extensa carreira marcada por contribuições de elevada relevância acadêmica e negociações. A concessão de estabilidade irrestrita a qualquer professor universitário ou pesquisador é uma forma extremamente eficaz para cultivar um ambiente sem desafios significativos. E ciência, como qualquer outra atividade profissional de alto nível, se fundamenta na constante luta para vencer desafios.

Um docente de instituição federal de ensino superior pode ter acesso a bolsas governamentais de pesquisa e orientar alunos de pós-graduação, se demonstrar produção científica principalmente na forma de artigos publicados em certos veículos especializados de circulação internacional. No entanto, em áreas como matemática, física, química e biologia, esta produção é especialmente avaliada a partir de números que nem sempre têm a ver com qualidade. Avalia-se a quantidade de artigos publicados em periódicos reconhecidos pelos órgãos de apoio à pesquisa, mas raramente se avaliam fatores extremamente importantes, como impacto social de pesquisas e a efetiva participação dos envolvidos.

A revista britânica Nature, por exemplo, adota a seguinte política editorial: ao final do artigo publicado deve ser especificada a real contribuição de cada um dos autores. No entanto, a maioria dos periódicos especializados não adota esta postura. A inclusão de nomes de colegas em artigos científicos tem sido cada vez mais frequente, mesmo quando estes colegas não participam de forma alguma no projeto em questão. E apenas uma minoria dos professores pesquisadores das ifes consegue publicar contribuições que demonstram algum impacto significativo à ciência. O mecanismo mais imediato para avaliar impacto é citação. Em geral, quanto mais citações um artigo recebe na literatura especializada internacional, mais relevante é o impacto do trabalho citado. Porém, mesmo esta visão quantitativa tem limitações.

Por conta de um único artigo publicado na revista Nature, o curitibano Cesar Lattes revolucionou a física de partículas elementares. E, por conta deste trabalho, ele também foi indicado ao Nobel. Quantos outros pesquisadores deste país podem dizer que passaram por experiência parecida? Em avaliações de produtividade, para fins de progressão funcional nas ifes, este artigo de Cesar Lattes valeria tanto quanto um trabalho obscuro publicado emPhysics Essays, um dos piores periódicos de física em circulação. E valeria a metade de um livro didático publicado, independentemente de sua qualidade.

A verdade é que vivemos em uma nação na qual há um número crescente de doutores que sequer sabem ler inglês, situação essa simplesmente inadmissível nos países desenvolvidos, principalmente nas áreas científicas. E sem conhecimentos básicos de inglês, como produzir ciência?

De forma alguma recomendo que deveríamos copiar o modelo acadêmico norte-americano. Mas certamente poderíamos aprender muito com modelos que demonstram claramente funcionar melhor do que o nosso. Afinal, as universidades estadunidenses, apesar de inúmeros problemas graves, produzem a maioria das mais impactantes contribuições científicas e tecnológicas do mundo. O Brasil simplesmente não compete.

Nos Estados Unidos jovens ingressam em universidades. No Brasil, jovens ingressam em cursos universitários. Esta é uma diferença profunda entre os dois sistemas. Se um aluno de uma instituição federal de ensino superior consegue vencer as absurdas barreiras do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e do vestibular, ele está praticamente preso a um curso escolhido enquanto cursava o ensino médio e, portanto, enquanto estava longe de qualquer ambiente universitário. Se este aluno percebe que o curso escolhido não está de acordo com seu perfil pessoal, ele dificilmente terá chances de conseguir uma transferência. A burocracia é muito complicada e prática para poucos. Provavelmente terá que se submeter ao ENEM e ao vestibular de novo ou simplesmente desistir, como muitos o fazem. Já em uma universidade norte-americana, seja privada ou estadual, o recém ingresso encontra a oportunidade de conhecer todas as diferentes realidades das opções disponíveis para graduação. Ele tem a chance de escolher seu futuro profissional a partir de um ambiente genuinamente universitário. No Brasil, as ifes operam como instituições poliversitárias. E este modelo é copiado por instituições estaduais e privadas do ensino superior brasileiro. Logo, o Brasil não tem ideia do que é uma universidade. 
Um sistema de ensino superior que exige de um adolescente a escolha de seu curso superior antes de ingressar em qualquer universidade é um sistema que negligencia sua juventude.

Nas ifes também não existe, de forma séria, a tradição das associações de ex-alunos. Isso significa que as ifes, em geral, não avaliam as carreiras de seus egressos. Uma universidade que não está interessada em saber sobre o destino profissional de seus ex-alunos é uma instituição que não está interessada em conhecer seu papel real perante a sociedade. Novamente temos negligência.

Em 2007 todas universidades federais assinaram o polêmico contrato REUNI(Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais) com o Governo. A Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) foi a última a assinar este pacto. Em troca de dinheiro, essas ifes assumiram o compromisso de aumentar gradualmente suas taxas de conclusão de curso para noventa por cento. Do ponto de vista educacional, essa exigência é simplesmente irresponsável. Cursos nas áreas científicas, por exemplo, comumente apresentam índices de reprovação muito superiores a dez por cento, mesmo nas melhores universidades do mundo. Isso significa que tanto o Governo Federal quanto os professores que alegam lutar pelo ensino superior público de qualidade em seus emocionais movimentos de greve, estão negligenciando o futuro da nação de forma realmente perigosa. A preocupação evidente é com quantidade de jovens que se formam em graduações e não com qualidade de ensino.

Em 2012 a consultoria britânica Economist Intelligence Unit publicou um levantamento global de educação que comparou quarenta países, levando em conta notas de testes realizados por alunos e qualidade de professores avaliados entre 2006 e 2010. O Brasil ficou em penúltimo lugar, denunciando um sistema educacional básico que supera apenas o da Indonésia. Este resultado desastroso é uma das múltiplas evidências de que professores formados pelo ensino superior brasileiro não estão demonstrando competência profissional. Diante da promessa do Governo e das universidades federais de que as taxas de conclusão de curso deverão subir indiscriminadamente para noventa por cento, percebe-se que o futuro reserva um desempenho educacional ainda pior para o Brasil, a longo prazo.

Usualmente também não existem programas de honors (ou equivalentes) nas ifes. Esses programas constituem em uma série de procedimentos de avaliação que reconhecem os alunos que se destacam como os melhores em suas respectivas turmas de formatura. Na prática, os programas de honorsoperam como cartas institucionais de recomendação que simplesmente afirmam: "Este indivíduo realizou seu curso com distinção e louvor." É uma forma de ajudar a alavancar as carreiras dos mais brilhantes. Nas ifes, no entanto, novamente faz-se questão de tratar todos de forma igualitária. Temos assim outro exemplo de negligência em um país cujas universidades públicas geralmente consideram elitismo como algo socialmente reprovável.

Não existem mais cátedras nas ifes. Se um professor de universidade federal falece, pede exoneração do cargo ou se aposenta, ele libera uma vaga. Não importa se este docente orientou dezenas de doutores, publicou centenas de artigos de elevado impacto, exerceu relevantes atividades administrativas ou influenciou de forma construtiva milhares de pessoas ao longo de sua carreira. Simplesmente não existe continuidade de sua obra. Este senso de continuidade deveria ser estabelecido institucionalmente através da cátedra. O célebre astrofísico Stephen Hawking, da Cambridge University, ocupou a mesma cátedra de Sir Isaac Newton, um dos pais da ciência moderna. Trata-se de um compromisso que deve transcender a mortalidade física dos grandes nomes da ciência mundial. Nas ifes, porém, qualquer obra, por mais relevante que seja, deve morrer junto com o seu autor. O grande lógico brasileiro Newton da Costa é professor catedrático da UFPR. Sua cátedra é um cargo vitalício, conquistado décadas atrás. No entanto, apesar deste grande cientista ser responsável pela formação de uma importante escola de lógicos brasileiros reconhecidos internacionalmente, a UFPR não se preocupa em ocupar esta cátedra com algum profissional que continue tal tradição. Isso porque todas as cátedras foram extintas, não apenas na UFPR, mas em todas as ifes. Temos aqui um exemplo de negligência com obras relevantes. Falta a percepção de que memória não se promove apenas com museus ou nomes dados a salas de aula e bibliotecas.

Mantenho um blog no qual promovo discussões e articulo ações sobre educação, com especial ênfase à matemática. Neste sítio convoquei alunos de ifes a espalharem cartazes em suas instituições de ensino com a frase "Professor de universidade pública tem seu emprego garantido, independentemente da qualidade de suas aulas." É uma frase simples, excessivamente resumida, mas que retrata um fato importante. Os jovens que atenderam ao pedido foram surpreendidos com manifestações imediatas de extrema intolerância, vindas justamente de professores. Docentes concursados, que viram esses cartazes, simplesmente os arrancaram. Cartazes colados em paredes foram dilacerados. Há pouco espaço para autocrítica nas ifes. 

Recentemente recebi convite da revista Sem Fronteiras, da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (SETI) do estado do Paraná, para escrever um artigo. Imediatamente escrevi um texto crítico sobre a educação brasileira. Recebi a resposta de que aquele texto não poderia ser publicado, pois não interessava à SETI criar atritos políticos com demais setores do governo paranaense. Em função desta resposta, escrevi outro artigo, no qual eu criticava o papel do filósofo da ciência nos dias de hoje. O artigo foi publicado na íntegra. Ou seja, criticar filósofos não tem problema. Mas criticar o sistema público de ensino é desaconselhável. E isso ocorreu em uma revista chamada Sem Fronteiras.

Quando propus o presente artigo ao editor Ulisses Capozzoli, a resposta foi imediata: se a Scientific American Brasil publica artigos contendo críticas a universidades dos Estados Unidos e de outros países, por que não criticar universidades brasileiras? Esta é uma postura genuinamente científica. Sem crítica, não se faz ciência e nem educação. Sem crítica, não se sustenta uma instituição de ensino séria e competitiva e, em particular, uma universidade. E os exemplos de negligência dados são igualmente exemplos de falta de crítica.

Professores de física falam de infinitésimos em suas aulas de graduação e pós-graduação, quando modelam fenômenos físicos através de ferramentas do cálculo diferencial e integral. No entanto, o cálculo ensinado nas mesmas instituições não emprega infinitésimos, conceito este fundamental em um estudo avançado conhecido como análise não standard. Professores de cursos de letras, quando lecionam linguística, discutem sobre gramáticas gerativas de Chomsky, sem de fato conhecer teorias de conjuntos, o que torna o estudo sério a respeito do tema simplesmente impossível. E docentes de cursos de filosofia abordam filosofia da ciência sem jamais terem tido qualquer contato com atividades científicas, no sentido estrito do termo. Apesar destes problemas não serem exclusivos das universidades federais, certamente a perpetuação de tamanha ignorância em tais instituições constitui um péssimo exemplo que se propaga em praticamente todas as universidades do país. O próprio Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) considera lógica matemática como especialidade da álgebra, em sua classificação de áreas do conhecimento, demonstrando desconhecer o que é lógica matemática.

O conceito de universidade deve apelar fundamentalmente para uma visão de universalidade, como o próprio nome sugere de forma trivial. Muitas das mais importantes contribuições científicas da história exigiram pesquisas interdisciplinares. A descoberta da estrutura molecular do DNA, por exemplo, somente foi possível graças a aplicações de métodos de ciências físicas em biologia. A própria filosofia da ciência, nos dias de hoje, avançou para muito além das ideias de Karl Popper, autor ainda venerado em graduações brasileiras como uma espécie de líder atual que conduz aos temas mais avançados da metodologia e da epistemologia. O casamento entre filosofia da ciência e métodos avançados de lógica matemática praticamente não é discutido nas salas de aulas de nossas universidades. Enquanto nossos professores universitários em geral ignoram as profundas riquezas da psicologia matemática e das aplicações da teoria matemática das decisões em ciências humanas, entre outros exemplos de interdisciplinaridade, o Brasil continua estagnado perante as nações que tradicionalmente produzem conhecimento científico de alto nível e que, por conta disso, crescem dos pontos de vista social e econômico. Não é por acaso que nossas graduações em engenharias são reconhecidas apenas como cursos técnicos em países europeus.

Fala-se muito da necessidade de valorizar o professor no Brasil. No entanto, os professores do ensino público frequentemente querem impor essa valorização através de greves que reivindicam melhores salários para todos, sem qualquer discriminação. Se docentes desejam honestamente ser valorizados, poderiam examinar certos exemplos que ocorrem em outras categorias profissionais. Médicos, psicólogos, engenheiros, arquitetos e até mesmo corretores de imóveis contam com o apoio de códigos de ética. Professores, porém, não têm qualquer código de ética para estabelecer padrões de qualidade de suas profissões e mecanismos de proteção e punição. Códigos de ética certamente não resolvem de maneira definitiva o problema da valorização profissional. Mas constituem um importante passo, de caráter muito mais meritocrático do que greves. Mas, para isso, seria necessário que os docentes dialogassem com especialistas em ética, cujas competências sejam internacionalmente reconhecidas. Sem diálogo entre diferentes áreas do saber, não há universidade e nem educação. 
Para o leitor perceber melhor as origens da incompetência dos professores brasileiros, recomendo a leitura deste artigo de Paula Louzano e colaboradores.

Nos Estados Unidos todas as instituições de ensino superior são pagas, incluindo estaduais e municipais. No Brasil as universidades públicas são gratuitas. Este é um exemplo brasileiro de profunda responsabilidade social. Mas qualquer que seja a realidade educacional e científica de uma nação, sempre haverá problemas graves a serem resolvidos. Portanto, a visão crítica jamais deve deixar de existir. Porém, levando em conta nossa realidade de hoje, fica evidente que ainda não encaramos de frente os problemas mais crônicos e graves.

Há muito tempo o Governo Federal tem investido consideráveis verbas para apoiar pesquisas e expandir vagas em universidades. E graças a iniciativas como a criação de institutos de pesquisa, projetos de convênios internacionais e órgãos de apoio ao desenvolvimento científico e tecnológico, o Brasil conseguiu conquistar um certo reconhecimento internacional em algumas áreas da medicina, matemática e física, para citar umas poucas.

Mas a preocupação principal que deve ser colocada, atualmente, é sobre a estrutura fundamental do ensino superior brasileiro. E o primeiro foco de atenção deve ser voltado às instituições federais de ensino superior, as quais respondem por grande parte da produção científica da nação e estão ao alcance de ações imediatas do Governo Federal. Em alguns rankingsinternacionais, as primeiras universidades brasileiras citadas são duas estaduais de São Paulo. Eventualmente aparecem também nestas listas a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas suas colocações são sempre modestas. E na rigorosa classificação Shangai, nenhuma instituição brasileira é citada.

A situação econômica do Brasil, bem como seus reflexos sobre a qualidade de vida de cada um de nós, não serão sustentados a longo prazo sem uma revisão drástica sobre os fundamentos de nossa educação e produção científica e tecnológica. Sem ciência e educação, simplesmente não há esperança.

Por Adonai Sant'Anna

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Ciência para leigos


A ideia deste post surgiu de um comentário do prof. Tiago Mineo (post), onde ele fala sobre a necessidade de sabermos “traduzir nossos resultados para o público em geral”; e também de uma disciplina que participei que foi ministrada pela professora Dra. Geciane Silveira Porto da Faculdade de Economia e Administração aqui da USP-RP, denominada Administração de Pesquisa e Desenvolvimento na Empresa (recomendo!). Nessa disciplina, aprendi um pouco sobre essa parceria cada vez mais necessária entre Empresa e Universidade. Duas coisas meio óbvias, mas que me chamaram muito a atenção como um aluno da Faculdade de Medicina cursando uma disciplina da Faculdade de Economia e Administração foram: 1) a dificuldade para consolidar essa parceria Empresa x Universidade não é somente burocrática. A comunicação às vezes atrapalha também. O linguajar científico e o linguajar dos administradores nem sempre se mistura de forma “aprazível”. 2) Não há uma uniformidade nas fontes de busca de conhecimento. Por exemplo, as empresas voltadas para outras áreas do conhecimento como, por exemplo, engenharia mecânica, robótica, entre outras, geralmente utilizam como fonte de busca de conhecimento principalmente os bancos de patentes, como o United States Patent and Trademark Office (USPTO) e no Brasil, Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Já na nossa área, é um pouco diferente. Normalmente visamos mais uma publicação do que uma patente e foi justamente isso que tentei demonstrar no meu projetinho final da disciplina. Resolvi focar no diabetes, que é minha área de atuação no mestrado. De fato, quando fui pesquisar, descobri que o número de publicações em diabetes no ano de 2012, por exemplo, foi aproximadamente 60 vezes maior do que o número de patentes depositadas. Isto reforça a noção de que pelo menos na nossa área, diferentemente de outras, visamos mais uma publicação do que o “mercado”.

Portanto, fica claro que são várias as fontes de conhecimento para as mais diversas áreas do conhecimento. Além disso, é fundamental sabermos transmitir esses conhecimentos para pessoas leigas na área, ainda mais nessa era da multidisciplinaridade. Para isso, acredito que podemos aprender (e muito) dessa “didática” com reportagens que encontramos por aí em revistas para o “público em geral”.  Às vezes, minha mãe me pergunta com o que eu trabalho e eu penso: “como vou explicar que uma determinada linhagem de camundongo é mais resistente ao diabetes auto-imune sem entrar em imunologia? Th17? Treg? Antes disso, como explicar o que é uma linhagem de camundongo?” Foi aí que me deparei com algumas matérias das revistas VEJA e Isto É que dão um show em matéria de “traduzir nossos resultados para o público em geral” e gostaria de compartilhar com vocês. Foram duas reportagens sobre Vitamina D (uma na Isto É e outra na versão impressa da VEJA em janeiro deste ano) e outra sensacional que saiu na VEJA sobre um tema bastante (!!!) discutido aqui na pós no nosso Journal Club: Microbiota. E o mais interessante: em um texto de 780 palavras e duas figuras explicativas, não aparece uma vez sequer a palavra microbiota! Em uma única figura, com um esquema bastante interessante, eles conseguem explicar de maneira simples e de fácil entendimento como todo o processo de disbiose (alteração da composição da microbiota) pode levar à obesidade. Para concluir este post, tentei fazer o “caminho inverso” dessa reportagem da VEJA sobre microbiota: refiz o esquema da matéria, só que dessa vez citando alguns dos trabalhos que ajudaram a consolidar tal conhecimento científico. Em outras palavras, fui do leigo ao científico (figura abaixo). Além disso, sugiro aqui também a leitura de uma revisão publicada na Nature bem interessante que saiu em setembro de 2012 sobre o tema, cujo autor é o pesquisador Bäckhed que aparece com a cara estampada na reportagem.






Leitura sugerida (desta vez não serão papers!):



Referências

Post por Frederico Ribeiro – Mestrando FMRP-USP

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Produto da ativação do complemento controla a expansão de iTregs


Não há dúvidas de que o sistema de complemento representa um papel importante na defesa do hospedeiro contra microrganismos patogênicos. Produto da ativação do complemento, C5a, é um fator quimiotático e está envolvido no recrutamento de células inflamatórias, tais como neutrófilos, eosinófilos, monócitos, linfócitos T, bem como na ativação e liberação de grânulos das células fagocíticas e geração de oxidantes; todos os quais podem contribuir para funções da imunidade inata ou danos teciduais. Nos últimos anos, tem sido demonstrado que C5a também participa da resposta imune adaptativa. Uma das principais conseqüências da sinalização dos receptores de C3a e C5a são a produção de IL-6, IL-12 e diferenciação de Th17. No artigo publicado na Nature Immunology, Strainic e colaboradores demonstram que a ausência da sinalização pelos receptores de C3a e C5a, tanto nas células T CD4+ quanto nas células dendríticas, podem promover a diferenciação de células T reguladoras induzidas Foxp3+ (iTregs). Além disso, foi demonstrado que as iTregs diferenciadas na ausência da sinalização dos receptores C3aR e C5aR apresentaram aumento da capacidade supressora comparada com iTregs induzidas na presença de TGF-β. O grupo de Strainic também identificou que, devido a ausência da sinalização via esses receptores em células T CD4+, ocorre uma redução na sinalização via PI3Kγ/AKT/mTOR, enquanto aumenta a ativação da PKA e, consequentemente, induz o aumento da produção de TGF-β. Os autores demonstram, através de uma série de experimentos elegantes, que a ausência da sinalização de C3aR e C5aR previne e também suprime o desenvolvimento da auto-imunidade, devido ao aumenta da frequência de iTregs, da produção de TGF-β, IL-10 e da redução de IL-6. Os resultados finais do artigo também demonstraram que ocorre um aumento da expansão de iTregs a partir de células T CD4+CD25- humanas na presença de antagonista para C3aR e C5aR. Corroborando, outro grupo também publicou recentemente que esses receptores, C3aR e C5aR, também controlam a atividade das Tregs naturais por controlar a expressão de Foxp3. Dessa forma, os autores demonstram o papel de C3a e C5a no controle da diferenciação de iTregs. Embora C3a e C5a possuem um papel crítico no controle do processo infeccioso, o bloqueio das vias de C3a e C5a, que podem ocorrer pricipalmente durante a geração de respostas tolerogênicas, podem originar iTregs especificas para antígenos próprios ou para iTregs especificas para antígenos orais ou aéreos. Os achados do artigo publicado na Nature Medicine são de fato interessantes, inovadores e podem realmente contribuir para o entendimento dos mecanismos envolvidos no desenvolvimento de doenças crônicas.
 
Daniele C. B. Nascimento
Pós-Doutoranda do Laboratório de Inflamação e Dor
Departamento de Farmacologia - FMRP/USP

Referências:
Strainic MG, Shevach EM, An F, Lin F, Medof E. (2012). Absence of signaling into CD4+ cells C3aR and C5aR enables autoinductive TGF-β1 signaIing and induction of Foxp3+ regulatory T cells. Nature Immunology 14(2):162-71.

Kwan WH, Van der Touw W, Paz-Artal E, Li MO, Heeger OS. (2013) Signaling through C5a receptor and C3a receptor diminishes function of murine natural regulatory T cells. J Exp Med. [Epub ahead of print].

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

NETs e função in vivo: a questão começa a ser resolvida...

NETs e função in vivo: a questão começa a ser resolvida...





Desde a publicação inicial em 2004, o fenômeno "Nets" (neutrophil extracellular traps) vem atraindo muitos estudos. Por vários anos, muitos trabalhos se limitaram a mostrar esse evento e ainda sua função usando modelos in vitro.
Porém, recentemente, trabalhos seminais finalmente visualizaram a formação destas redes in vivo.
Posto aqui os links e acredito que sejam de leitura obrigatória para quem se interessa por resposta imune inata. Ps: Um deles é da nossa colega Elvira Saraiva, da UFRJ

abraços!




quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Biologia de sistemas: Desenvolvendo a "tabela periódica das funções celulares".

Conceito de uma tabela periódica para redes biológicas de regulação. Paralelo entre os elementos químicos que compõem a tabela periódica, e os processos biológicos que compõem sistemas complexos.

Esse assunto de coisas pós- ômicas está elevando o nível da ambição do homem por entender os processos fisiológicos de uma maneira fascinante. Mas ao mesmo tempo está deixando ver que cada vez temos menos claro quais são os mecanismos que governam as funções básicas da célula (imagina então se falarmos em patogênese, em fisiologia de tecidos, sistemas, organismos, biotas, etc).

Vou comentar um artigo que encontrei um pouco filosófico na realidade, pelo fato de que não sou experto em biologia de sistemas. Porém, gostei do trabalho porque acredito que ajuda a desenvolver uma visão mais ampla das coisas. Aliás, tem três revisões sobre biologia de sistemas na Cell de 24 de Janeiro, que vale a pena olhar. Particularmente vou comentar o paper, de Lim, WA (University of California) e cols, na Cell.

O ponto central deste paper é propor a criação de uma “tabela periódica das redes (processos) de regulação das funções celulares” hipotética, de forma análoga à tabela periódica dos elementos. Os autores discorrem sobre a utilidade de tal classificação, bem como das possíveis abordagens para a descoberta das relações entre diferentes processos celulares e seus mecanismos reguladores. Finalmente propõem classificar as redes de regulação, com base na sua arquitetura e função. Uma proposta audaciosa.

Partindo do princípio de que os seres vivos acabam por desenvolver determinadas funções para resolver determinados problemas aos que se enfrentam, e que muitas vezes, as soluções para desenvolver tais funções biológicas coincidem entre diferentes espécies (desde o nível macro até o nível molecular), os autores discutem que a criação de uma espécie de “catálogo” de interações de redes de processos, seria pelo menos teoricamente factível. Ai que entra a era do “tudo em um”, que permite analisar, por exemplo, a relação entre fatores de transcrição e seus alvos downstream.

Vários modelos matemáticos, baseados em algoritmos genéticos e outros mais complexos, têm sido usados principalmente em microrganismos, para descoberta de redes reguladoras de fatores de transcrição, por exemplo. Partindo do conceito de um “conjunto de ferramentas (processos) básicas” que satisfaze os requerimentos elementares do organismo (respiração, metabolismo, resposta imune, etc.), seria possível ir decifrando essas redes de interação, baseando-se na descoberta de como cada processo é regulado, e como eles interagem. Da mesma forma em que no passado, trás inúmeras observações e postulados teóricos e discussões desde a física e a química, chegou-se à criação do catálogo de elementos que compõem a natureza, numa tabela que descreve suas propriedades mais relevantes. Simplista? Complicado? Esotérico?

Se ainda continua lendo, falei que o artigo era um pouco abstrato. Com tanta plasticidade, regulação, subtipos de células, e receptores com funções redundantes que vemos no sistema imunitário, o panorama é desafiante. De qualquer forma a imunologia está assistindo à descrição de processos reguladores que poderiam encaixar como elementos nessa tabela periódica hipotética  1,2,3

Veja um post relacionadocomentando uma aplicação da imunologia de sistemas em malária.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Metabolismo, Imunidade e Inflamação nas montanhas do Colorado




De 21 a 26 de Janeiro estive em um Keystone sobre Metabolic Control of Inflammation and Immunity. O congresso foi em Breckenridge, CO, uma bela cidade do faroeste americano fundada na época da corrida pelo ouro e da “conquista” do oeste americano.

            O evento foi organizado cientificamente por Vishva Dixit, Maya Saleh e Doug Green e foi muito bom (depoimento do Dixit pré-evento aqui). Eu (e alguns colegas) achei que faltaram patógenos e sobrou obesidade e “high fat diet”.  De qualquer forma, o tema está em evidência e as palestras, de maneira geral, reforçaram a importância do metabolismo na imunidade e no desenvolvimento de processos inflamatórios, um tema de grande relevância visto a importância clinica de doenças como diabetes tipo II, arteriosclerose, obesidade, entre outras. Outro tema que também esteve muito em evidência durante o congresso foi a importância da microbiota para o metabolismo, ai fecha-se o ciclo: Microbiota è Metabolismo è Ativação de plataformas moleculares que levam a inflamação e imunidade, que por sua vez vai regular a microbiota.

            Entre os palestrantes estavam: Richard Flavell, Thiru Kanneganti, Jenny Ting, Eicke Latz, Luke O’Neill, Tiffany Horng, Kate Fitzgerald, Stephen Giardin, Skip Virgin, Gabriel Nunes, Janelle Ayres, Michael Karin, e claro, os organizadores científicos. O Flavell, a Kanneganti, e o Doug Green (que foram palestrantes no ultimo congresso da SBI) apresentaram palestras semelhantes às apresentadas aqui no Brasil. Eu particularmente gostei muito da palestra do Skip (Herbert) Virgin, que falou da microbiota viral (um assunto que não compreendemos quase nada) e enfatizou outros temas, entre eles um extremamente importante: “Quando se está interpretando a função de um gene, não se pode inferir sobre o genótipo sem levar em consideração e a metagenômica dos organismos que fazem parte da microbiota...” Isso é particularmente muito importante na pesquisa utilizando animais transgênicos.  

            Outra palestra muito boa -como de costume- foi a do Vishva Dixit, que enfatizou os achados recentemente publicados no artigo da Nature (aqui) que reportam que o receptor Nod-like NLRC4 (antigo Ipaf) é ativado por uma proteína kinase delta, que fosforila um resíduo S533 permitindo a ativação do receptor. Foram apresentados dados recentes que não faziam parte do artigo, entre eles dador importantes nos quais ele mobiliza o inflamassoma composto por NLRC4 e "pull-donw" a proteína kinase delta. Ou seja, no modelo Sensor-Adaptor-Effector tem outros parceiros que promovem modificações pós-translacionais que facilitam a montagem dessas respostas.  Entre os colegas Brasileiros estavam Marcelo Bozza, da UFRJ e Jaqueline Costa da Fiocruz-BA, sem dúvida foi divertido e cientificamente muito rico.

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