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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Aloizio Mercadante avalia cenários e traça planos para CT&I no governo Dilma Rousseff


Texto original do Jornal da Ciência, 17 de Dezembro de 2010



Futuro ministro da C&T afirmou, em entrevista ao "Portal da Unicamp", que a formação de recursos humanos para a área de C&T será a "prioridade das prioridades"

Na primeira entrevista após sua indicação para ocupar o cargo de ministro de Ciência e Tecnologia no governo da presidente eleita Dilma Rousseff, o senador Aloizio Mercadante disse que pretende dar continuidade aos avanços alcançados com o Plano de Ação para a Ciência, Tecnologia e Inovação (PAC da Ciência), destacou a importância de se consolidar uma cultura de inovação tecnológica e afirmou que a formação de recursos humanos para a área de C&T será a "prioridade das prioridades".

Mercadante falou com exclusividade ao Portal da Unicamp nesta sexta-feira (17/12), pouco antes de apresentar a defesa de sua tese de doutorado no Instituto de Economia (IE), onde concluiu o mestrado em 1989, passando a integrar o corpo de docentes do Departamento de Teoria Econômica, função da qual está licenciado em razão de suas atividades parlamentares.

Intitulada "As Bases do Novo Desenvolvimentismo: Análise do Governo Lula", a tese de doutorado teve como orientador o diretor do IE, Mariano Laplane, e foi submetida a uma banca composta pelos economistas Antônio Delfim Neto, Luiz Carlos Bresser Pereira, João Manuel Cardoso de Mello e Ricardo Abramovay.

O nome de Mercadante para ministro de C&T foi indicado na última quarta-feira (15/12) pela presidente eleita. O senador deverá reunir-se na próxima segunda-feira (20) com o atual titular da pasta, Sergio Rezende, para dar início ao processo de transição.

Leia a entrevista:

- A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e Academia Brasileira de Ciências (ABC) divulgaram nota no dia 2 de dezembro manifestando a expectativa quanto à manutenção, pelo novo governo, das condições para que o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) conduza uma efetiva política de Estado. Como novo ministro indicado para a pasta, que resposta o senhor daria às duas principais entidades representativas da comunidade científica brasileira?

Nós tivemos uma política extremamente exitosa e eficiente, tanto do ponto de vista do avanço na educação pública, com a expansão das universidades federais e programas que expandiram a estrutura de ensino e pesquisa, quanto no Ministério de Ciência e Tecnologia, com o sistema de pós-graduação, investimentos na excelência, descontingenciamento dos Fundos Setoriais, um adensamento da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), que não teve o mesmo crescimento da receita da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), mas foi fortalecido inclusive através dos Fundos Setoriais, e a definição de estratégias, sobretudo o desafio da inovação, juntar pesquisa e desenvolvimento no processo produtivo. Então há, de fato, um reconhecimento dessa política e nós vamos evidentemente dar continuidade e fazer os ajustes necessários. Tive uma reunião essa semana com integrantes da SBPC e da ABC, exatamente discutindo os temas mais sensíveis e os desafios que temos pela frente. Aqui mesmo, na Unicamp, hoje, colhi uma série de demandas muito concretas, como problemas como acesso a importação de produtos, que é muito lento em razão da burocracia. Para pesquisa esse tempo é absolutamente precioso e você dificulta muito. São questões pontuais, que vão desde a compra de periódicos, até às grandes diretrizes, que precisamos aperfeiçoar no Plano Nacional de Ciência e Tecnologia (PAC da Ciência), para darmos conta desse imenso desafio que é a inovação tecnológica no Brasil.

- O PAC da Ciência, lançado em 2007 na gestão do ministro Sergio Rezende propiciou um aumento dos recursos financeiros federais para CT&I e ampliou políticas e programas para o desenvolvimento científico e tecnológico do país. Essa política será mantida?

Nós fizemos um programa de 2007 a 2010, de R$ 41,5 bilhões, que foi integralmente cumprido. Estamos agora elaborando o Plano 2, que vai restabelecer metas, definir novos focos, fortalecer instrumentos. Pretendemos ampliar. A própria presidente eleita (Dilma Rousseff) sinalizou com a perspectiva de ampliarmos a participação da C&T no PIB brasileiro.

- Desde a criação do MCT, em 1985, os diversos governos têm prometido elevar os investimentos em C&T para 2% do PIB, mas até agora essa expectativa não se confirmou. Essa meta finalmente será alcançada na sua gestão?

Vamos aguardar a posse. Vamos ter metas e vamos lutar para poder aumentar a participação. Esse é um grande desafio, é algo necessário. Evidente que há demandas da saúde, da educação, demandas dos investimentos públicos de uma forma geral. O Brasil ficou muito tempo com sua capacidade fiscal comprometida pelo baixo crescimento, pela dívida pública e pelos juros. O atual ambiente macroeconômico de um crescimento acelerado e sustentável melhorou a capacidade de investimento, mas ela ainda é muito baixa. As estatais, por exemplo, representam 64% do investimento público federal. Então, nós temos ainda um problema macroeconômico a ser equacionado. Ao mesmo tempo, a C&T é decisiva para que possamos crescer com qualidade, com inovação, gerar mais valor agregado, melhorando as contas externas do país. Portanto, é um investimento estratégico para o Brasil. Por isso acho que temos condições de melhorar a posição do Ministério. Já é (o MCT) o sétimo ministério na Esplanada em termos de orçamento, cresceu muito nesse governo e nós precisamos continuar avançando para atender aos desafios da sociedade do conhecimento, que é o desafio do futuro e o principal desafio do Brasil.

- Relatório da Unesco divulgado recentemente aponta uma participação maior dos países emergentes, entre eles o Brasil, no mapa da P&D mundial. Mesmo assim, a distância em relação aos países desenvolvidos ainda é grande. Em sua opinião, no caso brasileiro, quais os principais gargalos?

Somos hoje o 13º país no ranking internacional de publicações científicas indexadas, o que é um resultado espetacular. Se você olhar algumas disciplinas, como matemática, física e engenharias, nós estamos acima dos Brics (Brasil, Rússia, China e India) em qualidade das publicações. Não em volume, onde estamos bem abaixo da China e Índia, mas na qualidade das citações estamos acima da média. Agora, quando vamos para a inovação, por exemplo patentes, o Brasil está muito abaixo do seu potencial. Em algumas áreas, como biomédicas, muito abaixo dos nossos desafios. Então precisamos ter um foco muito especial para essas áreas e sair de uma visão ofertista, que é a visão do passado, quando você tinha o sistema de pós-graduação e de pesquisa e as empresas faziam demandas pontuais. Isso não funciona, não é mais assim no mundo. Temos de ter uma política de compras. Aprovamos a Medida Provisória 495, que dá poderes ao Estado para comprar, inclusive produtos nacionais, com até 25% acima do preço, desde que tenha impacto na inovação. Nós precisamos criar uma interação entre todos os agentes da cadeia produtiva. Universidades, governo, empresários. Criar uma cultura de inovação empresarial. Temos um grande desafio e para a superação desse desafio nós temos algumas experiências no Brasil muito exitosas. Chamo atenção para o caso da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Somos hoje o segundo país produtor de alimentos no mundo, aumentamos em 51% a produção agrícola no governo Lula, e a Embrapa teve um papel absolutamente decisivo. Temos os exemplos do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e do CTA (Centro Técnico Aeroespacial) na relação com a Embraer, que é a única empresa de aviação líder no seu segmento entre os países abaixo do Equador. E temos o exemplo do Cenpes (Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello) da Petrobrás, com toda a inovação na cadeia de gás e petróleo. Então, o Brasil tem capacidade e experiências exitosas para implantar uma visão sistêmica da inovação, que é o que nós vamos buscar aprofundar nesse próximo período.

- A Lei de Inovação e a Lei do Bem, que representaram dispositivos importantes, não foram suficientes para criar essa cultura de inovação no Brasil?

Ajudaram muito. A Lei de Inovação e a Lei do Bem deram incentivos fiscais, subsídios, aumentamos extraordinariamente os recursos para esses segmentos, estamos tendo grandes empresas internacionais que estão vindo investir em C&T no Brasil. A GE (General Eletric), por exemplo, está fazendo um centro estratégico, a Vale fez um grande projeto no Pólo Tecnológico de São José dos Campos. Então nós estamos conseguindo atrair investimentos e estamos expandindo. Mas é um desafio fundamental porque isso é absolutamente decisivo para a economia do futuro, que vai ser uma economia da Ciência e da Tecnologia, uma economia da informação, uma economia do conhecimento.

- Outro dado apontado pela Unesco é a estagnação na formação de novos doutores no Brasil, que caiu nos últimos cinco anos de 15% para 5% ao ano. Como reverter essa tendência? O novo governo pretende, por exemplo, rever a política de bolsas do CNPq?

Nós tivemos esse ano 155 mil bolsas CNPq e Capes. É um esforço muito grande. A Capes triplicou o seu orçamento, o CNPq não. Então tem de ter uma política especial para o CNPq e já apresentei a minha preocupação ao governo. Nós precisamos também que a Finep se transforme numa instituição financeira, porque ela vai ter muito mais atividades para o financiamento e sai das restrições orçamentárias, a exemplo do que é o BNDES na área da indústria. Nós precisamos mexer na política de financiamento à pesquisa. Agora, com a criação de novas universidades federais está havendo uma descentralização importante na formação de mestres e doutores, criando-se novos pólos regionalizados, e isso vai ter um papel muito importante para voltarmos a acelerar. E recursos humanos é a prioridade das prioridades. Porque só produzindo gente competente, que pesquisa e produz, nós vamos poder avançar na inovação, na ciência e tecnologia no Brasil.

(Clayton Levy, do Portal da Unicamp, 17/12)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Referees' quotes – 2010 - Environmental Microbiology

Vale a pena acessar para um final de tarde.

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1462-2920.2010.02394.x/full

"Our referees, the Editorial Board Members and ad hoc reviewers, are busy, serious individuals who give selflessly of their precious time to improve manuscripts submitted to Environmental Microbiology. But, once in a while, their humour (or admiration) gets the better of them. Here are some quotes from reviews made over the past year, just in time for the Season of Goodwill and Merriment."


Algumas pérolas:

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Very much enjoyed reading this one, and do not have any significant comments. Wish I had thought of this one.
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It is sad to see so much enthusiasm and effort go into analyzing a dataset that is just not big enough.
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You call the sample fresh water, this is confusing as it is saline water.
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The biggest problem with this manuscript, which has nearly sucked the will to live out of me, is the terrible writing style.
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The abstract and results read much like a laundry list.
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The information in the tree figs. is pretty inscrutable.
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There was little I could think of to improve this nice paper.
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The statement that glycolipids and phospholipids ‘may play an important role in stabilising the outer membrane’ is odd because this they definitely do in all Eubacteria.
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Merry X-mas! First, my recommendation was reject with new submission, because it is necessary to investigate further, but reading a well written manuscript before X-mas makes me feel like Santa Claus.


Abraços,

André

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O que fazem mesmo os anticorpos?

Post de Mauro Fantini


(Professor) – Pessoal, para revisar: qual é a função de um anticorpo?

(Boa turma, em uníssono) – Neutralizaçããão, opsonizaçããão, ativação do complemeeento... ADCC...

Provavelmente quem se dá ao trabalho de entrar regularmente no blog da Sociedade Brasileira de Imunologia já passou pela situação acima alguma vez na vida, seja como aluno, ou professor, ou ambos.

Na fictícia aula acima, a turma sabe de cor e salteado que os anticorpos têm múltiplas funções no meio extracelular. Já quando tratamos de patógenos intracelulares, a imunidade humoral tem pouco a contribuir.

Em Novembro de 2010, o PNAS publicou um artigo que fará com que o professor cogite adicionar mais alguns slides em sua aula sobre anticorpos. Os autores do trabalho –cientistas ingleses – realizam infecções experimentais de células HeLa com adenovírus pré-incubados com anticorpos para mostrar um mecanismo efetor dos anticorpos no meio intracelular.

No modelo proposto pelos autores, os virions são internalizados pela célula levando consigo os anticorpos que se ligaram a eles no meio extracelular. Dentro da célula, os anticorpos IgG, ligados ao virion, se ligam a receptores intracelulares (!) para porção Fc, chamados de TRIM21. Os TRIM21, por sua vez, sofrem ubiquitinação e todo o conjunto virion-anticorpo-TRIM21-ubiquitina é degradado pelo proteassoma.

Abaixo segue um vídeo que ilustra o modelo proposto pelos autores.

http://www.guardian.co.uk/science/video/2010/nov/01/immune-system-viruses-cells

Este processo parece depender mesmo do tal receptor TRIM21, já que células knockdown para TRIM21, criadas por meio de siRNA, não eliminam o adenovírus de maneira eficiente. Também, este processo parece não depender do vírus em si, já que simples beads recobertas por anticorpos são capazes de recrutar TRIM21 intracelular, que será então ubiquitinado.

Como a relevância in vivo deste novo mecanismo ainda não foi descrita, certamente veremos novos capítulos em breve.

As aulas de ontem não são as mesmas de hoje. Ainda bem.

Artigo tema deste post: Antibodies mediate intracellular immunity through tripartite motif-containing 21 (TRIM21). PMID: 21045130

Artigo de 2008 que descreve o receptor de IgG intracelular: TRIM21 is an IgG receptor that is structurally, thermodynamically, and kinetically conserved. PMID: 18420815


Mauro Fantini é Doutor pelo programa de Pós-Graduação em Microbiologia e Imunologia do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UNIFESP, Professor de Imunologia do Centro Universitário São Camilo e, como gosta de se apresentar, palhaço (mesmo) nas horas vagas.


A imunologia brasileira em 2010

Sempre aparecem as avaliações de final de ano, em todos os campos. Para não fugir à regra, vamos mostrar uma pequena avaliação da imunologia brasileira em 2010.
Fizemos uma busca do Web of Science usando na busca os artigos que possuam pelo menos um endereço no Brasil. Nesta listagem solicitamos a classificação por área.
Como estamos? Em 2010 (registrados até 12 de dezembro), foram publicados 28.198 artigos com endereço do Brasil, dos quais 492 na área de imunologia (ver quadro abaixo).


Dos 29.116 artigos com endereço no Brasil em 2009, 429 estavam na área de imunologia. De 2009 para 2010, saímos do 30o para o 24o posto. Em 2008, com 433 dos 27.543 artigos do Brasil ficamos em 32o lugar.
Ou seja, avançamos em comparação com outras áreas, mas o número de artigos apresenta crescimento lento. Não tenho informações sobre os fatores de impacto das revistas nas quais a imunologia brasileira tem publicado.


O UNESCO Science Report 2010 mostra que a área biomédica no Brasil tem um desempenho acima da média mundial. O que não é pouco, considerando que a distribuição de produção científica não tem uma distribuição normal. Por ser concentrada em poucos países, a maioria dos países está abaixo da média.

Se o Brasil tem sido classificado em 13o ou 14o lugar em produção científica em todas as áreas, como interpretar estas posições da imunologia? Não sei fazer análise comparativa de áreas de conhecimento comparativamente entre diferentes países na Web of Sciences, mas é fácil de fazer na Scimago. Em 2008, ocupavamos o 13posto mundial entre as produções de imunologia, com 737 documentos (notem que a busca no WoS foi feita somente para artigos).

É de observar que as nossas citações, e Fator H, são baixos. Temos muito que trabalhar para representar uma força científica.

Além dos esforço de cada um, será necessário resolver algumas questões limitantes para a ciência no Brasil, às quais têm sido bastante tratadas neste blog:
  • Dificuldade de importação (posts recentes aqui, aqui, aqui e aqui);
  • Falta de biotérios adequados (aqui e aqui);
  • Limitações na contratação de pessoal (aqui);
  • e financiamento em nível baixo.
Este último aspecto foi destacado no UNESCO Science Report 2010:

Ou seja, em 2011 mãos à obra e torcer para que o novo governo inicie a cumprir a promessa de chegar a investir 1,8% do PIB em ciência e tecnologia até 2014 (aqui).

Nós somos o que comemos (e bebemos)

A expressão popular você é o que você come é geralmente encontrada em propagandas contra obesidade ou em guias de alimentação adequada para uma vida saudável.
Igualmente dependente da nossa dieta é a microbiota intestinal, composta por inúmeros tipos de bactérias comensais. A presença dessas bactérias no nosso intestino é essencial para o equilíbrio do sistema imune de mucosa. Ou seja, o bom funcionamento do nosso sistema imune de mucosa também depende da nossa dieta. O que não se sabia é que a falta de determinadas formas de açúcares, normalmente abundantes no leite materno, pode afetar diretamente a microbiota intestinal da prole e a suscetibilidade à inflamação intestinal. Esse foi o tema do artigo publicado recentemente no Journal of Experimental Medicine (Fuhrer et al 2010).

Oligossacarídeos sialilados são um dos principais componentes do leite materno. A idéia de que esses oligossacarídeos influenciam o desenvolvimento da microflora intestinal já vem de algum tempo (Gibson and Roberfroid, 1995; Harmsen et al., 2000). Esses açucares podem servir não só como fonte de alimento para as bactérias comensais mas também como receptores solúveis para bactérias patogênicas, impedindo a aderência dessas ao epitélio intestinal. Além disso, a ingestão de alguns oligossacarídeos está associada a menor suscetibilidade à alergias em crianças (Moro et al., 2006; von Hoffen et al., 2009).

Fuhrer e colaboradores mostraram agora que, em camundongos, a ausência de sialyl(α2,3)lactose mas não de sialyl(α2,6)lactose no leite materno diminuiu a sensibilidade da prole à colite aguda induzida várias semanas após o desmame. Em seguida, os autores investigaram alterações de microbiota intestinal nos animais amamentados com leite proveniente de mães deficientes da enzima sialiltransferase α2,3 que cataliza a adição de ácido siálico a lactose. Os animais amamentados com leite deficiente em sialyl(α2,3)lactose apresentaram diminuição significativa de bactérias Ruminococcus, comumente presentes em animais amamentados com leite de mães wild-type. Os autores mostraram também que a recolonização de animais germ-free com a microbiota de animais alimentados com leite deficiente de sialyl(α2,3)lactose foi capaz de conferir maior resistência à colite quando comparado aos animais alimentados com leite que continha sialyl(α2,3)lactose. Esses resultados sugerem que diferenças na colonização bacteriana durante a amamentação pode afetar diretamente a suscetibilidade à inflamação no intestino. Entretanto, vale ressaltar que o leite materno é naturalmente rico em todos esses açúcares, seja o sialyl(α2,3)lactose ou o sialyl(α2,6)lactose, mas alguns dias após o parto, os níveis de sialyl(α2,3)lactose dimimuem drasticamente, o que ajudaria a prevenir a ação pró-inflamatória de sialyl(α2,3)lactose. Agora fica o desafio de estudar como outros componentes do leite são regulados e acabam por afetar a resposta imune após a amamentação.

Referências:

Gibson, G.R., M.B. Roberfroid. 1995. Dietary modulation of the human colonic microbiota: introducing the concept of prebiotics. J. Nutr. 125:1401–1412

Harmsen, H.J.M., A.C.M. Wildeboer-Veloo, G.C. Raangs, A.A. Wagendorp, N. Klijn, J.G. Bindels, G.W. Welling. 2000. Analysis of intestinal flora development in breast-fed and formula-fed infants by using molecular identification and detection methods. J. Pediatr. Gastroenterol. Nutr. 30:61–67

Moro, G., S. Arslanoglu, B. Stahl, J. Jelinek, U. Wahn, G. Boehm. 2006. A mixture of prebiotic oligosaccharides reduces the incidence of atopic dermatitis during the first six months of age. Arch. Dis. Child. 91:814–819.

van Hoffen, E., B. Ruiter, J. Faber, L. M’Rabet, E.F. Knol, B. Stahl, S. Arslanoglu, G. Moro, G. Boehm, J. Garssen. 2009. A specific mixture of short-chain galacto-oligosaccharides and long-chain fructo-oligosaccharides induces a beneficial immunoglobulin profile in infants at high risk for allergy. Allergy. 64:484–487.

Fuhrer A, Sprenger N, Kurakevich E, Borsig L, Chassard C, Hennet T. 2010. Milk
sialyllactose influences colitis in mice through selective intestinal bacterial
colonization. J Exp Med. Nov 22. [Epub ahead of print]

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Outras Questões para a Nova Ciência Brasileira

Post de Fernando Spiller,
Professor recém-contratado - UFSC

O panorama da Ciência Brasileira realmente mudou muito nos últimos anos como postado aqui no blog pela Profa. Patricia Bozza em 7 de dezembro (Ciência Brasileira em Foco na Science).

Além das dificuldades e desafios apontados pelo texto publicado na Science (http://www.sciencemag.org/content/330/6009/1306.full) outro problema que a sociedade e a ciência brasileira devem enfrentar é o que fazer com os novos doutores formados no Brasil? É notável que as Instituições de Ensino Superior (IES) no nosso país não têm capacidade de absorver toda essa mão de obra qualificada que está sendo produzida anualmente. Esse assunto já vem sendo discutido pela sociedade e governo, mas precisamos discutir (e realizar) ações mais concretas.

A maioria dos empregos no Brasil são oferecidos por pequenas empresas, e por que não fazer o mesmo no meio científico - acadêmico? Uma das soluções talvez fosse ampliar o número de incubadoras ou criar parques tecnológicos nas IES.

Esse problema deve ser tema constante de debate nas pós-graduações, afinal são elas as responsáveis pela formação dessa mão de obra-qualificada. A falta de emprego para os novos doutores deve ser apresentado para os pós-graduandos, assim como as soluções e desafios (ações concretas) para a absorção dessa mão de obra formada principalmente pela própria instituição. Na área das ciências biológicas, a visão de empreendedorismo carece em nossos cientistas e também em nossos programas de pós-graduação.
Esse é só mais um desafio para a nova ciência brasileira. Qual a solução? Pequenas empresas com bases tecnológicas?

domingo, 12 de dezembro de 2010

Os imunologistas pensam como em 1968?

Post de Nelson Vaz


“Mostre-me uma área da ciência onde alguém que escreveu algo
 em 1968 acredita exatamente na mesma coisa 40 anos depois, 
e eu lhe mostrarei uma área da ciência que está morta.” 
Paul Ehrlich, The Scientist 24(12)26, 2010.
Eu não diria que há imunologistas que pensam o mesmo que pensavam em 1968. A maioria dos imunologistas, principalmente os brasileiros, não era sequer nascida em 1968. Mas creio que há velhos imunologistas que, exceto por uma riqueza maior de detalhes (genéticos/moleculares/celulares)  ainda pensam a mesma coisa que pensavam 40-50 anos antes. Afinal, a teoria de Seleção Clonal é de 1957, expandida em 1959 (Burnet, 1957; 1959) e ainda recebe aplausos efusivos (Hodgkin, Heath and Baxter, 2007; Hodgkins, 2008), não apenas australianos. A Imunologia está longe de ser uma área morta da ciência, mas me parece evidente que ela está se transformando em outras coisas. Exatamente há um ano, comentei com Cristina Caldas que o progresso atual sobre a “imunidade inata” está novamente transformando a imunologia em imunoquímica, como na primeira metade do século XX - exatamente a tendência que foi rompida pelos experimentos de Medawar e colaboradores sobre linfócitos e alotransplantes, e pela emergência das teorias ditas “seletivas” (Jerne, 1955; Burnet, 1957; Talmage, 1957). Continua difícil inserir a imunologia no organismo e mostrar sua relevância no crescimento, na morfogênese, na alimentação, no envelhecimento, enfim, a imunologia continua sem fisiologia, sem descrever estabilidades dinâmicas; sobrevive como um ramo da patologia. Vou fazer um comentário e uma pergunta.
Um comentário: O que a atividade imunológica (a ativação/diferenciação linfocitárias) faz no organismo deve ser algo delicado e sutil, caso contrário notaríamos irregularidaes graves na vida e  na reprodução de camudongos Rag-/-, que nunca chegam a formar linfócitos. Pensava que estes animais precisariam ser mantidos em ambientes estéreis, como os germfree; mas não, eles crescem e se reproduzem em ambientes SPF, que estão repletos de microorganismos - aqueles  que apelidamos de “comensais”, isto é, que não nos agridem. Pode-se pensar que, sem linfócitos, qualquer infecção se tornaria patogênica: ledo engano. Isto cria perguntas interessantes sobre a natureza das doenças infecciosas. Alguém já pensou que a chamada imunidade anti-infecciosa, não é realmente anti-infecciosa (não evita infeccões), mas sim protege contra doenças infecciosas?
Uma pergunta: Por que a teoria de Seleção Clonal, que omitiu tantos desenvolvimentos importantes na imunologia, e pode ser refutada de muitas maneiras, permanece como eixo central do pensamento imunológico? Em outras palavras: por que o pensamento em imunolgia ainda é clonal,  em vez de sistêmico; episódico, em vez de processual? Por que há tanta dificuldade em definir uma organização para o sistema imune? Sugiro que  Thomas Kuhn estava certo ao dizer que teorias não são destruídas por experimentos que ela é incapaz de explicar: eles são tratados como exceções a serem reslvidas depois. As teorias científicas são deslocadas por uma teoria rival já articulada, com suas novas perguntas e seus novos paradoxos. E a teoria que substituirá a simplicidade da Seleção Clonal é muito mais complicada: não poderá deixar de fora temas da teoria evolutiva, da biologia do desenvolvimento e seu entrelaço com a ecologia. E, acima de tudo, deixará de tratar a atividade imunologica como “cognitiva” (como um reconhecimento, que implica uma memória). Quando vemos a imunidade como “cognitiva”, fazemos perguntas derivadas daquilo que entendemos como “cognição” e isto complica, em vez de simplificar o problema. Assim sendo, a tarefa de sugerir uma nova teoria imunológica é amedrontadora. E no entanto ela se move...
Burnet, F.M. (1957) A modification of Jerne's theory of antibody production using the concept of clonal selection. Austr.J.Sci. 20, 67-69.   
Burnet, F.M. (1959) The Clonal selection theory of acquired immunity. 
University Press, Cambridge.
Hodgkin, P. (2008) The golden anniversary of Burnet's clonal selection theory. 
Immunol Cell Biol 86, 15.   
Hodgkin, P.D., Heath, W.R. and Baxter, I.G. (2007) The clonal selection theory: 50 years since the revolution. Nature Immunology 8, 1019-1027. 
Jerne, N.K. (1955) The natural selection theory of antibody formation. 
Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A. 41, 849-857.  
Talmage, D.W. (1957) Allergy and immunology. 
An.Rev.Med. 8, 239-256.   

sábado, 11 de dezembro de 2010

Oportunidades


Oportunidades Vigentes

Edital para Seleção de Candidatos a Bolsa PNDP-Capes para o Programa de Pós-Graduação em Biologia da Relação Patógeno-Hospedeiro da Universidade de São Paulo (USP)
 A Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Biologia da Relação Patógeno-Hospedeiro da Universidade de São Paulo (USP) informa que estão abertas as inscrições para o preenchimento de duas bolsas do Programa Nacional de Pós-Doutorado (PNPD) da Capes.
Cada um dos candidatos selecionados será responsável pela execução de um subprojeto do projeto principal intitulado Utilizando o Conhecimento Gerado pelo Estudo dos Mecanismos Imunopatológicos na Malária Gestacional para o Desenvolvimento de Vacinas que Direcionam Antígenos para Células Dendríticas. O projeto principal está dividido em três subprojetos:

Subprojeto I: Estudo dos Mecanismos Imunopatológicos Envolvidos na Malária Associada à Gravidez, sob a coordenação direta do Prof. Dr. Claudio R. F. Marinho;

Subprojeto II: Direcionamento de Antígenos Recombinantes para Células Dendríticas in vivo: Uma Nova Estratégia para o Desenvolvimento de Vacinas, sob a coordenação direta da Profa. Dra. Silvia B. Boscardin;

Subprojeto III: Desenvolvimento de Vacina para Malária Gestacional através do Direcionamento de Antígenos para Células Dendríticas, sob a coordenação direta dos Profs. Dr. Claudio R. F. Marinho e Dra. Silvia B. Boscardin.
Os candidatos serão selecionados para a execução dos Subprojetos I ou II e posteriormente trabalharão em conjunto no desenvolvimento do Subprojeto III.
Data Limite: 18 de dezembro de 2010.

Edital DRI/CGBE nº 12/2009 - Programa de Apoio à Participação em Eventos no Exterior (Paex) - Processos Seletivos em 2010
 A Capes financia a apresentação de trabalhos científicos de professores e pesquisadores, em eventos no exterior, com vistas a incrementar a visibilidade internacional da produção científica, tecnológica e cultural geradas no país. 
O apoio consiste em auxílio-deslocamento, que se destina às despesas com passagem para a participação em evento científico no exterior, indicado na inscrição e aprovado pela Capes. O apoio da Capes obedece interstício de dois anos entre financiamentos dessa natureza.  As normas do Edital DRI/CGBE nº 12/2009 serão aplicáveis aos processos seletivos do exercício de 2010.
Data Limite: O candidato deve inscrever-se e enviar toda a documentação complementar, exclusivamente via internet, até as 20h do último dia para inscrição, horário de Brasília. O pedido seguirá o calendário abaixo:

Inscrição
Período do evento
Resultado
1º a 31 de dezembro
1º a 30 de abril
28 de fevereiro



Nota: os processos seletivos são independentes entre si, sendo vedado o remanejamento de candidatura de um período para outro, sob qualquer pretexto.

International Travel Grants Program - 2011 NFID Annual Conference
 The National Foundation for Infectious Diseases (NFID) is a non-profit organization founded in 1973 and dedicated to educating the public and healthcare professionals about the causes, treatment and prevention of infectious diseases.

NFID support a Travel Grant Program for the Annual Conference on Vaccine Research (ACVR). This Conference provides high-quality and current reports of scientific progress featured in both invited presentations and submitted abstracts. The variety of topics covered in both human and veterinary vaccinology encourage valuable cross-fertilization of ideas and approaches among researchers otherwise focused on specific diseases or methods.

Applications are currently being accepted for the 
2011 Fourteenth Annual Conference on Vaccine Research Travel Grants Program. This initiative is designed to help vaccine and infectious disease researchers in countries with limited resources attend the conference, to be held May 16-18, 2011 at the Baltimore Marriott Waterfront Hotel in BaltimoreMaryland-USA.
Data Limite: All required documents must be received no later than December 27, 2010Home Page: http://www.nfid.org/conferences/vaccine11/

Tri-Institutional PhDTrainning Program in Chemical Biology
 The Tri-Institutional Training Program in Chemical Biology (TPCB) is a new generation of interdisciplinary study that seeks to recruit highly qualified students for a unique opportunity in graduate educational training. 

The TPCB is a joint collaboration among 
Cornell University in Ithaca, The Rockefeller University, Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, and the Weill Medical College of Cornell, all in New York City. This graduate program in chemical biology blends educational and research experience on all four campuses and provides a unique training environment at the forefront of chemistry and biomedical research. 

TPCB students are actively engaged in cutting edge research, as evidenced by the impressive list of publications describing their work. The program structure and the depth and breadth of participating faculty ensure that students have significant opportunities both for publications and for presentations at national and international conferences appropriate to their training. Please see the 
Student Affairs page for further information.
Data Limite: Deadline for receipt of applications is January 1, 2011Home Page: http://www.triiprograms.org/tpcb/

IRCSET Empower Postdoctoral Fellowship Scheme 2011
 The objective of the IRCSET Empower Scheme is to provide top-quality young researchers with the opportunity to avail of a period of research at an Irish Host Instititution. The scheme is designed to encourage excellence in research by funding those at an early stage of their postdoctoral career to associate with established research teams who have achieved international recognition for their work.

The eight general subject areas that will be funded under the IRCSET Empower Scheme are: Biological Sciences, Chemistry, Computer Science, Earth/Environmental Science, Engineering, Mathematics and Physics. Applicants are advised to consult the list of 
IRCSET’s Postdoctoral Research Disciplines. The successful applicant will hold a Government of Ireland Postdoctoral Fellowship in Science, Engineering and Technology.
Data Limite: The closing date for completion of applications is 5pm GMT/UTC 8th December 2010Home Page: http://www.ircset.ie/Default.aspx?tabid=78

Institute for Protein Research's International Collaborative Research
 The Institute for Protein Research (IPR) was thus founded formally on 1958 as a part of Osaka University. Since then, IPR has developed significantly in terms of its scientific activity and infrastructures. Now, the IPR comprises four divisions with twelve laboratories and an attached research center with six laboratories, serving as a joint-use facility for the scientists working in the fields of protein and related sciences. 

The Institute invites applications for international collaborative research. The research should be conducted in the form of a collaboration including at least one of the Principal Investigators (PIs) at IPR, or it should use particular experimental facilities of IPR, including solution- and solid-state-NMR spectrometers with ultra-high magnetic fields, and a synchrotron beam line for biological macromolecular assemblies at SPring-8.
Data Limite: The deadline for submission for the 2011 fiscal year is January 7th, 2011Home Page: http://www.protein.osaka-u.ac.jp/eng/applications/applications/

Molecular Evolution Fellowship Program
 The Smithsonian Postdoctoral Fellowship in Molecular Evolution is offered to support research at the Smithsonian Institution. The Smithsonian's molecular research facilities are located at National Museum of Natural History (NMNH), National Zoological Park (NZP), in the Washington, D.C. area, and at the Smithsonian Tropical Research Institute (STRI), in the Republic of Panama, but collaboration with other facilities (Smithsonian Environmental Research Center [SERC], Museum Conservation Institute [MCI], etc.) is encouraged. 

Included in the proposal evaluation will be it's relevance in terms of the 
Smithsonian’s Strategic Plan and how the research reflects one or more of theFour Grand Challenges outlined in the plan.
Data Limite: All applications must be postmarked by January 15, annually. Home Page: http://www.si.edu/ofg/Applications/MEFELL/MEFELLapp.htm

Tupper 3-Year Postdoctoral Fellowships in Tropical Biology
 The Smithsonian Tropical Research Institute (STRI) located in the Republic of Panama is a division of the Smithsonian Institution in Washington DC and maintains research facilities in different marine and terrestrial locations on the Isthmus of Panama. STRI invites applications for the Earl S. Tupper three-year postdoctoral fellowship in the areas represented by its scientific staff. 

Disciplines include ecology, anthropology, paleontology, paleoecology, evolutionary biology, molecular phylogenetics, biogeography, animal behavior, neurobiology, soils sciences, and physiology of tropical plants and animals. Research should be based at one of the STRI facilities; proposals that include comparative research in other tropical countries will be considered. One fellowship is awarded annually.
Data Limite: This program is made on a annual basis. Application deadline is January 15 each year. Home Page: http://www.stri.si.edu/english/education_fellowships/fellowships/tupper.php


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