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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Publicar artigos científicos requer dedicação e resiliência

Os desafios de escrever um bom artigo científico é um assunto que, a meu ver, nunca se esgota. Verônica Coelho já falou sobre o tema aqui no blog (aqui).


Write, por the Trial.

Mais recomendações para tornar o processo de publicação menos penoso, e mais eficiente, foram publicadas no último dia 13 pela revista Nature. Para facilitar, aí vai um breve resumo das sugestões:

- Ainda na fase de desenho do projeto de pesquisa, pense no projeto como um possível título para o artigo;

- Antes de começar a escrita, escolha com cuidado o periódico científico onde o trabalho será submetido: que público gostaria de ouvir a sua história?;

- Tente publicar um ou dois trabalhos sólidos, ao invés de vários pequenos fragmentados;

- Jovens cientistas devem pensar no artigo que orgulhosamente colocariam no topo de seus currículos;

- Comece a escrita o quanto antes: estudantes devem escrever um pouco todos os dias;
Keeping a folder of pertinent literature and beginning with a simple outline of relevant points gleaned from that literature can provide the essential elements of a paper's introduction;

- Escolha um artigo como modelo: pode ser um previamente publicado pelo laboratório ou no mesmo periódico que você pretende submeter;

- Mantenha uma lista atualizada de tarefas e, em caso de bloqueio de escrita, faça algo fácil da lista, como telefonar para um colaborador ou checar uma referência;

- Tenha um mentor ao seu lado;

- Descubra em qual horário do dia a escrita é mais produtiva para você;

- Escreva de forma clara e concisa. Use linguagem simples sempre que possível;
Editors stress the importance of clarity above all else, to help convey arguments and logic to them and to readers. They say that most writers make the mistake of assuming too much knowledge on the part of their audience. In reality, even at the most specialized journals, only a handful of readers will be such close colleagues that they don't need any contextual set-up.

- Para identificar falhas vulneráveis aos revisores, imagine que leitores céticos estão avaliando o seu artigo. Isso antecipa críticas e já oferece resposta a elas;

- Nunca se esqueça de quão importante é o Abstract;
Authors should avoid an abstract structure that says: we did X, which told us Y, and has implications for Z. Instead, he says, start with why a reader should care about learning more about Z and then explain how this work furthers that goal.

- Escreva uma introdução persuasiva;
The introduction should persuade readers “that you know what you are talking about and have something new to teach them”.

- Menos é mais;
The introduction need not cite every background article gathered, the results section should not archive every piece of data ever collected, and the discussion is not a treatise on the paper's subject. The writer must be selective, choosing only the references, data points and arguments that bolster the particular question at hand.

- Tenha dados concretos para apoiar suas conclusões;

- Edição é crucial: fuja do sentimento de que o seu parágrafo é intocável. Revise, revise e revise. Mesmo autores experientes acumulam de 10-12 versões do artigo (às vezes até 30);

- Recrute não só o seu chefe para ler o artigo, mas também todos os co-autores e colegas, pós-docs. Estabeleça com tais pessoas um deadline de dez dias para sugestão de mudanças;

- Quando o trabalho estiver pronto para ser submetido, escreva uma carta de apresentação incluindo um breve resumo do artigo, sugestões de revisores (e de nomes a serem excluídos). Não sugira amigos pessoais nem tampouco colegas institucionais como revisores;

- Responda educadamente a todas as críticas e comentários dos revisores.

Link para o texto completo (aqui).

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Visualizando a relação entre a fagocitose, caspase-1 e IL-1 beta


Indicação rápida: A edição deste mês do Journal of Leukocyte Biology mostra um artigo que descreve uma nova metodologia para a visualização e quantificação de lesões do fogolisossomo.

O fagolisossomo possui papel fundamental para o metabolismo celular. Entre outras coisas, participa de maneira fundamental na digestão de partículas, destruição de micróbios e apresentação de antígenos. Além disso, o dano do lisossomo pode desencadear morte celular e liberação de IL-1 beta. Neste contexto, Michael Davis e Joel Swanson, ambos da University of Michigan Medical School, desenvolveram um projeto para descrever detalhadamente a relação entre a endocitose, o dano ao lisossomo e os eventos subseqüentes.

Os pesquisadores desenvolveram um método de mensuração da destruição de lisossomos no interior de células vivas. Esta técnica simplesmente conta a quantidade de Fdx (fluorescein-dextran) liberada dos lisossomos. Os autores testam uma série de estímulos e verificam que a intensidade de Fdx liberada é proporcional à ativação da caspase-1 e liberação de IL-1 beta. Os resultados são óbvios. O que me fez indicar este artigo é a divulgação de uma técnica interessante para visualizar como diferentes condições patológicas poderiam influenciar este sistema.

Referência: Michael J. Davis and Joel A. Swanson. Technical Advance: caspase-1 activation and IL-1β release correlate with the degree of lysosome damage, as illustrated by a novel imaging method to quantify phagolysosome damage. J Leukoc Biol 2010 88: 813–822.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Novo sabor de Tregs: iTr35

Os mecanismos pelos quais uma resposta imune é capaz de regular seu próprio curso e com isso evitar sérios danos teciduais são sempre alvo de grandes discussões e normalmente despertam enorme interesse entre os imunologistas (vide ser tema frequente no SBlogI). Nesse contexto, as células T reguladoras, atualmente, estão no centro do palco, em grande evidência. As células T reguladoras melhor caracterizadas são aquelas que expressam foxp3, oriundas ou não do timo. No entanto, várias outras já foram descritas. Há algum tempo Ethan Shevach escreveu um artigo sobre as várias células T reguladoras descritas e fez uma analogia entre elas e diferentes sabores de sorvete. Daí retirei a figura abaixo.

O post de hoje trata de um novo sabor, as iTreg35. O grupo liderado por Dario Vignali já havia publicado um artigo em que eles relacionavam a IL-35 com as células T reguladoras foxp3+. A IL-35 é um heterodímero formado por EBI3 (que também faz parte da IL-27) e p35 (que é uma das cadeias da IL-12). Neste primeiro artigo, publicado em 2007 na Nature, eles identificaram Tregs foxp3+ como a principal fonte de IL-35 e argumentaram que esta citocina é parte importante do modo pelo qual as Tregs exercem supressão. Agora, em um novo artigo disponível online a partir do dia 17 deste mês na Nature Immunology, o grupo de Dario Vignali vai além. Os autores verificaram que células T naive CD4+ de humanos e também de camundongos quando ativadas in vitro na presença de IL-35 dão origem a células que produzem IL-35 mas não produzem IL-10 e TGF-beta. Frente a um segundo estímulo, as células pouco proliferam, ou seja, são hiporresponsivas. Além disso, as células geradas na presença de IL-35 são capazes de suprimir, in vitro, a resposta de células T CD4+ convencionais. Esta atividade supressora não foi dependente de contato, de IL-10 ou de TGF-beta, mas sim de IL-35. Os autores também verificaram, no caso dos camundongos, a capacidades dessas células exercerem supressão in vivo. A transferência das ditas iTr35 para animais scurfy (foxp3 -/-) foi tão eficiente quanto a transferência de nTregs em impedir o desenvolvimento da síndrome autoimune que caracteriza a linhagem. As iTr35 também foram capazes de bloquear o desenvolvimento da encefalomielite autoimune experimental. Os pesquisadores buscaram identificar a expressão de genes que pudessem definir um programa transcricional específico das iTr35 mas nada foi encontrado. No entanto, observaram que as células geradas na presença de IL-35 não expressam foxp3 e parecem ser estáveis após serem transferidas. Por fim, os autores descrevem que a IL-35 oriunda das células T reguladoras foxp3+ leva à geração de iTr35. Esta observação fez com que sugerissem que as iTr35 constituem uma importante engrenagem no mecanismo de tolerância infecciosa. E então? Temos de fato um novo sabor, ou uma nova célula T reguladora? Para os interessados, aí vão as referências dos originais, cuja leitura certamente agregará bastante.

Shevach EM. From vanilla to 28 flavors: multiple varieties of
T regulatory cells. Immunity. 2006 Aug;25(2):195-201

Collison LW, Workman CJ, Kuo TT, Boyd K, Wang Y, Vignali
KM, Cross R, Sehy D, Blumberg RS, Vignali DA. The inhibitory
cytokine IL-35 contributes to regulatory T-cell function.
Nature. 2007 Nov 22;450(7169):566-9
Collison LW, Chaturvedi V, Henderson AL, Giacomin PR, Guy C,
Bankoti J, Finkelstein D, Forbes K, Workman CJ, Brown SA,
Rehg JE, Jones ML, Ni HT, Artis D, Turk MJ, Vignali DA.
IL-35-mediated induction of a potent regulatory T cell
population. Nat Immunol. 2010 Oct 17.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Progressos na vacina contra tuberculose


Post de Theolis Barbosa Bessa
A tuberculose está entre as doenças infecciosas prioritárias para o desenvolvimento de vacinas, pela quantidade de pessoas infectadas com o bacilo, que podem evoluir para a doença ativa, pelo longo tratamento com drogas tóxicas, pela gravidade dos casos de co-infecção com o vírus da imunodeficiência humana adquirida (HIV), e pelo preocupante aumento do número de casos resistentes ao tratamento (levando à necessidade de esquemas alternativos ainda mais prolongados e de mais elevada toxicidade). 
O estudo de proteínas abundantemente secretadas em filtrados de cultura do agente etiológico da tuberculose, o Mycobacterium tuberculosis, levou à identificação do complexo proteico antígeno 85 e de proteínas de baixo peso molecular que se demonstrou serem capazes de elicitar intensa resposta proliferativa e de produção de IFN-gama em culturas de células humanas do sangue periférico provenientes de pacientes com tuberculose ativa ou latente [1,2]. Dentre estas proteínas estão antígenos que atualmente fazem parte de promissores candidatos vacinais, os quais têm avançado do estágio de desenvolvimento pré-clínico para os ensaios clínicos, a exemplo de vacinas de vírus recombinantes como MVA85A (vacina com o vírus vaccinia Ankara modificado expressando o antígeno micobacteriano Ag85A) [3] e AERAS-402 (vacina com o adenovírus 35 expressando os antígenos micobacterianos Ag85A, Ag85B e TB10.4) [4], e a vacina de antígeno protéico recombinante Ag85B-ESAT-6 (composta por proteína recombinante de fusão destes antígenos, denominada H1, adjuvantada com IC31®) [5]. 
O estudo de Betholet e colaboradores [6] apresenta dados de avaliação pré-clínica de uma proteína de fusão composta por quatro antígenos de M. tuberculosis. De forma não muito diferente do exposto em relação aos estudos acima, a seleção dos antígenos vacinais foi realizada por escrutínio de antígenos secretados (ou com sinal para secreção) em culturas do bacilo, porém adicionalmente expressos por M. tuberculosis crescendo em macrófagos e/ou modulados em culturas do bacilo sob condições de hipóxia, ou ainda associados às classes imunogênicas EsX e PE/PPE [7]. Quatro antígenos capazes de induzir produção de IFN-gama em culturas de células periféricas de indivíduos saudáveis infectados com a forma latente da tuberculose, mas não em indivíduos não infectados, e capazes de induzir redução significativa da carga bacteriana ao serem administrados profilaticamente a camundongos posteriormente infectados com M. tuberculosis virulento, foram combinados em uma vacina de proteína recombinante de fusão (ID93) adjuvantada com uma nanoemulsão de monofosforil lipídeo A (MPL) sintético [6]. 
A grande novidade do estudo está na abordagem da avaliação do potencial promissor dos mesmos, que justifica a sua publicação em uma revista de medicina translacional. Além da clássica abordagem experimental de infecção de camundongos, porquinhos da índia e macacos cinomólogos com o bacilo virulento laboratorial M. tuberculosis H37Rv, os autores avaliam a eficácia vacinal contra uma cepa proveniente de um isolado clínico de M. tuberculosis multidroga-resistente não-W Beijing, em uma abordagem de prime-boost heterólogo que utiliza o Bacilo de Calmette-Guérin (BCG) como vacinação inicial (o que se aproxima da situação que provavelmente será encontrada nos países de alta endemicidade da doença, onde as crianças recebem a BCG nos primeiros anos de vida). 
A vacina foi demonstrada como imunogênica para células do sangue periférico de humanos saudáveis infectados com a forma latente de tuberculose, e nos três modelos animais estudados. Ela também mostrou capacidade de induzir o aumento da proporção de clones de células T CD4+ multifuncionais produtores simultaneamente de IFN-gama e TNF, o qual estava associado a uma diminuição da carga bacilar em camundongos infectados quer com a cepa laboratorial, quer com o isolado clínico. A vacina também foi capaz de conferir proteção de longo prazo a porquinhos da índia vacinados e infectados 4 meses depois, em termos de mortalidade, perda de peso e escore histopatológico das lesões pulmonares e no fígado. 
Com os primeiros ensaios clínicos já com resultados preliminares publicados, acirra-se a corrida pela validação de uma nova vacina contra a tuberculose, segura e que demonstre eficácia mais uniforme em diferentes populações humanas, em especial populações de áreas onde a doença é endêmica e altamente prevalente. Um exemplo do que o grande esforço de financiamento de pesquisas básicas e aplicadas pode fazer em benefício da saúde humana, contra um flagelo que persegue a humanidade desde os primórdios da sua existência.
[1] A.S. Mustafa, Development of new vaccines and diagnostic reagents against tuberculosis, Mol. Immunol. 39 (2002) 113-119.
[2] R.L. Skjøt, T. Oettinger, I. Rosenkrands, P. Ravn, I. Brock, S. Jacobsen, et al., Comparative evaluation of low-molecular-mass proteins from Mycobacterium tuberculosis identifies members of the ESAT-6 family as immunodominant T-cell antigens, Infect. Immun. 68 (2000) 214-220.
[3] T.J. Scriba, M. Tameris, N. Mansoor, E. Smit, L. van der Merwe, F. Isaacs, et al., Modified vaccinia Ankara-expressing Ag85A, a novel tuberculosis vaccine, is safe in adolescents and children, and induces polyfunctional CD4+ T cells, Eur. J. Immunol. 40 (2010) 279-290.
[4] B. Abel, M. Tameris, N. Mansoor, S. Gelderbloem, J. Hughes, D. Abrahams, et al., The novel tuberculosis vaccine, AERAS-402, induces robust and polyfunctional CD4+ and CD8+ T cells in adults, Am. J. Respir. Crit. Care Med. 181 (2010) 1407-1417.
[5] J.T. van Dissel, S.M. Arend, C. Prins, P. Bang, P.N. Tingskov, K. Lingnau, et al., Ag85B-ESAT-6 adjuvanted with IC31 promotes strong and long-lived Mycobacterium tuberculosis specific T cell responses in naïve human volunteers, Vaccine. 28 (2010) 3571-3581.
[6] S. Bertholet, G.C. Ireton, D.J. Ordway, H.P. Windish, S.O. Pine, M. Kahn, et al., A Defined Tuberculosis Vaccine Candidate Boosts BCG and Protects Against Multidrug-Resistant Mycobacterium tuberculosis, Sci Transl Med. 2 (2010) 53ra74.
[7] S. Bertholet, G.C. Ireton, M. Kahn, J. Guderian, R. Mohamath, N. Stride, et al., Identification of Human T Cell Antigens for the Development of Vaccines against Mycobacterium tuberculosis, J Immunol. 181 (2008) 7948-7957.

Ilustração. Fig. 3 do trabalho 6 comentado no post.

Novos rumos para vacina contra o HIV




Post de Ricardo Khouri
A entrada de agentes microbiológicos nocivos ao nosso organismo desperta um complexo sistema de defesa imunológica que será estabelecida afim de delimitar e eliminar o invasor. O desenvolvimento de uma resposta imune eficiente e duradoura contra estes agentes microbianos depende principalmente de três personagens centrais: antígenos, células apresentadoras de antígenos (ex. células dendríticas plasmacitóides e mielóides) e linfócitos (ex. células T CD4+ e T CD8+). 
As células dendríticas são as responsáveis por capturarem e processarem os antígenos invasores, apresentando-os em sua superfície como complexos MHC-peptídeo. Assim, os linfócitos podem reconhecer os peptídeos estranhos e se tornarem ativados desempenhando o seu papel efetor. Contudo, uma apresentação bem sucedida depende também de uma ativação das células dendríticas. Além de apresentarem os antígenos em sua superfície, as células dendríticas precisam secretar citocinas (IL-12 e IFN-alfa/beta) e expressarem moléculas co-estimulatórias (ex. CD80 e CD86) em sua superfície. A ativação das células dendríticas depende do reconhecimento de padrões moleculares associados aos patógenos (PAMPs-pathogen-associated molecular patterns) por receptores especializados (PRRs-pattern recognition receptors). Existem três classes bem estudadas de PRRs: os secretados (ex. Colectinas e ficolinas), os transmembranares (ex. TLRs/MyD88) e os citosólicos (ex. NLRs). 
Na infecção por HIV, os mecanismos que estimulam a resposta imune inata e levam ao desenvolvimento de uma resposta imune adaptativa ainda abrigam novas descobertas. O reconhecimento imune inato pode ser celular intrínseco ou celular extrínseco, necessitando ou não do estabelecimento da infecção para desencadear a resposta, respectivamente. Os mecanismos extrínsecos já foram descritos in vitro e in vivo nas infecções por HIV. In vitro, o HIV-1 pode ativar células dendríticas plasmacitóides através de TLR7 e TLR9 e induzir a produção de IFN-alfa. Porém, no modelo in vivo murino, a resposta imune protetora contra a infecção por Friend murine leukemia vírus foi parcialmente dependente de MyD88 para resposta imune adaptativa celular, sugerindo um outro mecanismo de reconhecimento diferente de TLR ainda não descrito para os retrovírus. As células dendríticas mielóides parecem não expressar TLR9 e são portanto dificilmente estimuladas pelo HIV-1 extrinsicamente. Estas células, por sua vez, são altamente resistentes a infecção por HIV-1, encombrindo a descoberta de mecanismos de reconhecimento inato intrínseco.
Devido a ausência de Vpx no HIV-1, e presente no SIV e HIV-2, o grupo liderado por Dan R. Littman utilizou coinfecções HIV-1/SIV para promover a infecção de células dendríticas mielóides humanas pelo HIV-1. A infecção das células dendríticas mielóides induziu a ativação das células dendríticas com expressão de CD86 após 48 horas. Foi observado que as células dendríticas mielóides infectadas apresentavam um perfil de expressão gênica típico de indução por IFN do tipo I (IFN-alfa/beta), porém tardia quando comparada aos ligantes de Toll clássicos (LPS e Poli I:C). A fosforilação de STAT1 foi descrita apenas 22 horas após a infecção, enquanto LPS e Poli I:C induziram fosforilação de STAT1 nas primeiras duas horas. O uso de anticorpos bloqueadores contras os diferentes tipos de IFNs demonstrou o papel principal do IFN-beta na ativaçào das células dendríticas mielóides e na expressão das moléculas coestimulatórias. 
Com o intuito de se compreender em qual fase do ciclo de replicação viral acontece a ativação das células dendríticas mielóides, os autores utilizaram inibidores para transcriptase reversa (AZT-zidovudine) e integrase (raltegravir) nas primeiras 24 horas. O uso dos inibidores garantiram o bloqueio da transdução protéica viral e a não ativação das células dendríticas mielóides, indicando que a ativação celular acontece apenas após a integração viral. 
O próximo passo foi induzir mutações em diferentes regiões virais. A mutação da região Rev, responsável pela inibição da expressão de Gag preveniu a ativação das células dendríticas mielóides. Não obstante, a tentativa de mimetizar o efeito da expressão de Gag tratando as células com partículas do capsídeo do HIV-1 falhou quanto a indução das células. Estes resultados indicaram a necessidade da nova síntese de Gag para ativação das células dendríticas explicando o atraso na fosforilação de STAT1. 
A seguir foram realizadas mutações nas proteínas do capsídeo viral. O mutante G89V, que apresenta um comprometimento na associação do capsídeo viral com CYPA, proteína fundamental no estabelecimento da infecção após a entrada do vírus, resultou numa redução na expressão de CD86. Em adição, o uso de inibidores químicos (ciclosporina A) e moleculares (RNAi) de CYPA apresentaram o mesmo efeito inibidor na expressão de CD86. 
Dessa maneira, descreve-se um papel conflitante da associação do CYPA com o vírus entre favorecer a infectividade viral ou a resposta imune do hospedeiro. Os resultados indicam, portanto, uma evolução da conformação do capsídeo que se opõe a pressões seletivas favoráveis a infectividade priorizando a furtividade do vírus. Sabe-se que a resposta aos IFN-alfa/beta dependem de fosforilação, dimerização e translocação para o núcleo do IRF3. Após a infecção de células dendríticas mielóides observou-se um acúmulo de IRF3 fosforilado no núcleo celular. A depleção do IRF3 inibiu a indução de CD86 nas células infectadas. 
Assim, a ativação de células dendríticas mielóides por HIV-1 depende da entrada do vírus e do estabelecimento da infecção com produção de novas proteínas virais do capsídeo que são reconhecidas pela ciclofilina A, CYPA. Este reconhecimento induz a produção de IFN-beta e consequentemente a fosforilação de IRF3, induzindo a expressão de moléculas coestimulatórias como o CD86. 
Por fim, o estudo do grupo de Littman et al, 2010, abordou os impactos do reconhecimento inato intrínseco na resposta imune adaptativa e no bloqueio do processo de infecção de células T CD4+ pelas células dendríticas que são capazes de circular no organismo carreando os vírus na sua superficie, processo descrito como “trans-enhancement”. O reconhecimento inato intrínseco foi capaz de induzir clones de células T CD4+ e T CD8+ produtoras de IFN-gama com atividade efetora especifica contra Gag estabelecendo portanto, uma resposta imune adptativa. Além do mais, foi capaz de bloquear o processo de “trans-enhancement” in vitro inibindo a infecção de novas células CD4+.
Assim, a incapacidade do HIV-1 frente ao HIV-2 de infectar células dendríticas favorece portanto a sua virulência e sinaliza novos mecanismos de manipulação para gerar novas vacinas contra o HIV-1.
Artigo 
Manel N, Hogstad B, Wang Y, Levy DE, Unutmaz D, Littman DR. A cryptic sensor for HIV-1 activates antiviral innate immunity in dendritic cells. Nature. 2010 Sep 9;467(7312):214-7.) DOI 10.1038/nature09337
Outras Referências:
Banchereau J, Steinman RM. Dendritic cells and the control of immunity. Nature. 1998 Mar 19;392(6673):245-52. 
Goujon C, Jarrosson-Wuillème L, Bernaud J, Rigal D, Darlix JL, Cimarelli. A  With a little help from a friend: increasing HIV transduction of monocyte-derived dendritic cells with virion-like particles of SIV(MAC). Gene Ther. 2006 Jun;13(12):991-4. 
Iwasaki A, Medzhitov R. Regulation of adaptive immunity by the innate immune system. Science. 2010 Jan 15;327(5963):291-5. Review.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Por que a Imunologia está de jejum de Nobel desde 1996?

No início desse mês, foram anunciados os laureados do mais importante prêmio da ciência, o Nobel (http://nobelprize.org/nobel_prizes/). Desde a criação do prêmio Nobel em 1901 até hoje, 195 cientistas já foram agraciados com o Nobel de Fisiologia ou Medicina. Desses, 23 receberam o prêmio por trabalhos relacionados direta- ou indiretamente à Imunologia (1). Na década de 80, a Imunologia parecia estar em alta. A descoberta do MHC por Deusset, Snell e Benacerraf lhes garantiu o Nobel em 1980. Em 1984 foi a vez de Jerne, Milstein e Kohler pelos anticorpos monoclonais, e em 1987 Tonegawa foi laureado pela organização dos genes das imunoglobulinas. Entretanto, desde 1996 a Imunologia vem sofrendo um “jejum nobelico”. O último prêmio Nobel para Imunologia em 1996 foi para Rolf Zinkernagel e Peter Doherty pela descoberta e importância da restrição pelo MHC. Desde então, a Imunologia não foi mais contemplada com o Nobel. Por quê? Será que chegamos ao fim? Tudo de fundamental que tinha para ser descoberto já está resolvido?

Em 2001, Arthur Silverstein, autor do livro “A History of Immunology” publicou um comentário na Nature Immunology entitulado “The end of Immunology?”(2) onde ele discute o assunto e sugere que ainda temos muitos desafios pela frente para serem resolvidos. Mais recentemente, o Prof. Barral organizou uma série de posts em nosso blog com as principais perguntas da Imunologia que continuam sem respostas (http://blogdasbi.blogspot.com/2010/08/as-grandes-perguntas-da-imunologia-hoje.html). Portanto, mãos à obra porque a Imunologia ainda tem muito a contribuir para o avanço da ciência. Mas confesso que esse ano fiquei com a esperança que a Imunologia iria novamente ser agraciada com o Nobel de Fisiologia ou Medicina pelos avanços no entendimento da resposta imune inata e seus receptores, proporcionados inicialmente por Charles Janeway e tendo como um dos seus sucessores Ruslan Medzhitov entre outros grandes cientistas (3, 4). Quem sabe em 2011 não será a nossa vez?

Para os interessados, vale a pena conferir o site oficial do prêmio Nobel http://nobelprize.org/, lá você pode ler mais sobre esse importante prêmio, assistir as palestras dos laureados, e ler suas biografias.

Referências

1. Doherty PC. The glittering prizes. Nat Immunol. 2010 Oct;11(10):875-8.
2. Silverstein AM. The end of immunology? Nat Immunol. 2001 Oct;2(10):893-5.
3. Janeway CA Jr. Approaching the asymptote? Evolution and revolution in
immunology. Cold Spring Harb Symp Quant Biol. 1989;54 Pt 1:1-13.
4. Medzhitov R. Approaching the asymptote: 20 years later. Immunity. 2009 Jun
19;30(6):766-75.

sábado, 16 de outubro de 2010

Novas oportunidades de fomento à pesquisa


Oportunidades Vigentes

Edital MS-SCTIE-Decit/CNPq nº 69/2010
Edital MS-SCTIE-Decit/CNPq nº 69/2010 tem por objetivo financiar projetos de pesquisa no campo do desenvolvimento e inovação que venham a suprir lacunas do conhecimento sobre a temática relacionada à Avaliação de Tecnologias em Saúde, de forma a permitir avanços no conhecimento, fornecer subsídios para a tomada de decisões para as políticas de saúde adotadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e proporcionar, direta ou indiretamente, melhorias na qualidade de vida da população.

Temas de pesquisa:
1.        Condições reumatológicas;
2.        Leishmaniose Tegumentar Americana;
3.        Hanseníase;
4.        Hipertensão Arterial Sistêmica;
5.        Parâmetros para programação de ações de saúde em redes integradas orientadas pela equipe de saúde da família;
6.        Condições oncológicas;
7.        Transtornos de humor;
8.        HIV ou aids.
Data Limite: 22 de novembro de 2010

Ciência Importa Fácil - Credenciamento de Pesquisadores para Importação
Ciência Importa Fácil é um serviço de credenciamento pelo CNPq, de pesquisadores de todo o país, para facilitar e agilizar a importação de bens destinados às pesquisas científicas e tecnológicas por eles coordenadas.

O credenciamento, regulamentado no CNPq por intermédio da Resolução Normativa RN-036/2006, estende para os pesquisadores, como pessoa física, os benefícios tributários e administrativos para importação de equipamentos e insumos. Até então, apenas instituições de pesquisa, sem fins lucrativos, podiam usufruir desses benefícios.

A legislação ampara a importação de máquinas, equipamentos, aparelhos e instrumentos, bem como suas partes e peças de reposição, acessórios, matérias-primas e produtos intermediários necessários à execução de projetos de pesquisa científica e/ou tecnológica.

Ao contrário do procedimento adotado para as entidades credenciadas (pessoa jurídica), e considerando aspectos operacionais, o CNPq optou por não destinar cotas individuais aos pesquisadores (pessoa física), devendo os valores de suas importações serem deduzidos diretamente da cota global anual fixada pelo Ministério da Fazenda (US$500 milhões/ano).
Data Limite: Fluxo Contínuo.

Global Health Program Grant
The Bill and Melinda Gates Foundation's Global Health Program is focused on reducing global health inequities by accelerating the development, deployment and sustainability of health interventions that will save lives and dramatically reduce the disease burden in developing countries. 

The Foundation has three cross-cutting programs. These include:
1.                 Discovery: closing gaps in knowledge and science and creating critical platform technologies in areas where current tools are lacking;
2.                 Delivery: implementing and scaling up proven approaches by identifying and proactively addressing the obstacles that typically lie in the path of adoption and uptake;
3.                 Policy & Advocacy: promoting more and better resources, effective policies, and greater visibility of global health so that we may effectively address the foundation’s priority health targets
Data Limite: Letters of inquiry are reviewed on an ongoing basis throughout the year. Home Page: http://www.gatesfoundation.org/global-health/Pages/overview.aspx

Immune Tolerance Network Funding & Support
The Immune Tolerance Network (ITN) is an international research collaboration that aims to accelerate the clinical development of tolerance therapies through novel clinical trials and parallel mechanistic studies. The ITN accepts applications for novel clinical trials from all interested scientists from academia, industry and government, in the areas of:
1. Islet Transplantation; 
2. Kidney & Liver Transplantation; 
3. 
Autoimmune Diseases; 
4. Allergy & Asthma.
In addition, the ITN accepts applications for the development of novel tolerance assay or mechanistic studies, for the purposes of establishing new surrogate markers of immune tolerance and investigating the mechanisms of clinical tolerance. For example, the ITN will consider proposals that seek to better understand clinical tolerance by utilizing ITN tolerance assay resources in existing or planned clinical trials that are funded through other sources.
Data Limite: There is no deadline for submission of Concept Proposals - they are accepted throughout the year, with review cycles taking place several times per year. Home Page: http://www.immunetolerance.org/professionals/proposals/guidelines

Wood-Whelan Research Fellowships
The International Union of Biochemistry and Molecular Biology, IUMBM, unites biochemists and molecular biologists in 77 countries that belong to the Union as an Adhering Body or Associate Adhering Body which is represented as a biochemical society, a national research council or an academy of sciences. The Union is devoted to promoting research and education in biochemistry and molecular biology throughout the world and gives particular attention to areas where the subject is still in its early development. The Wood-Whelan Research Fellowships are designed to support young biochemists and molecular biologists, from countries that are full or associate members of IUBMB who need to travel to other laboratories in the IUBMB region for the purpose of carrying out experiments that require special techniques or for other forms of scientific collaboration or advanced training.
Data Limite: Applications can be submitted at any time but they should reach the Committee Chairman at least two months before the intended visit to the host laboratory. 

EMBO Short-Term Fellowships
The European Molecular Biology Organization (EMBO) promotes bioscience in Europe through targeted programmes and activities. Established in 1964, the founders of EMBO showed an incredible vision when they established the organisation. The organisation nurtures training and careers at all stages of the scientific career path through courses, workshops conferences and fellowships. 

Established in 1966, the Fellowships Programme has gained an excellent reputation due to its rigorous selection process. The success of the programme is due the excellent involvement from the Fellowship Committee, EMBO members and young investigators who volunteer each year to assess candidates and proposals. On completion of their fellowship the majority of EMBO post-doctoral fellows return to their home countries transfering new skills and contacts to their respective member states. 

The EMBO Short-term fellowships are established to advance molecular biology research by helping scientists to visit another laboratory with a view to applying a technique not available in the home laboratory. The EMBO offers also the 
Long-Term fellowships.
Data Limite: There is no deadline for applications, but they should ideally be made about three months before the proposed starting date. Home Page: http://www.embo.org/fellowships/short_term.html


Elaborado pela área de Fomento e Infraestrutura em P&D
Coordenação de Pesquisas -Vice-Diretoria de Pesquisas e Desenvolvimento Tecnológico
Fiocruz Bahia

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Um pouco sobre evolução do sistema imunológico




Post do Prof. Anderson Sá–Nunes/USP

O tema “Evolução do Sistema Imune” me fascina desde os tempos de pós-graduação. A possibilidade de avaliar e analisar as adaptações de cada organismo ao seu ambiente do ponto de vista imunológico é realmente sedutor em minha opinião. Infelizmente, essa área não recebe a atenção que merece, seja porque envolva proporcionalmente mais elucubração e menos experimentação do que outras áreas da imunologia, seja pela necessidade de um conhecimento mais aprofundado de genética, bioquímica, biologia celular e, é claro, dos mecanismos de evolução biológica. Mas é justamente essa interdisciplinaridade nos permite hoje afirmar que muitos dos mecanismos efetores da imunidade na realidade surgiram à partir de adaptações de processos biológicos pré-existentes e não de “criações” propriamente ditas como muitos afirmam.

A escassez de literatura básica sobre o assunto também contribui com a falta de discussões do tema. Atualmente, poucos livros didáticos abordam essa questão. Duas exceções são “Imunologia Veterinária” editado por Ian R. Tizard e “Fundamental Immunology” editado por William E. Paul. O primeiro tem o mérito de introduzir o assunto aos estudantes de graduação usando uma linguagem simples, porém traz mais informações sobre imunologia comparada do que evolução na essência, além de escorregar em algumas terminologias da área. O segundo possui um excelente capítulo dedicado à Evolução do Sistema Imune, escrito por dois dos mais reconhecidos imunologistas evolutivos da atualidade, Martin F. Flajnik e Louis Du Pasquier. Entretanto, por ser mais extenso e mais aprofundado, esse livro não é adotado pela maioria dos professores de graduação e mesmo na pós-graduação, são poucos aqueles que se dedicam a uma leitura mais detalhada desse texto.

São diversos os estudos comparativos cujos frutos tornaram-se fundamentos sólidos da imunologia contemporânea. Muito do que se sabe hoje a respeito da imunologia de mamíferos (especialmente de humanos) originou-se de informações provenientes de organismos procariotos ou eucariotos invertebrados. Enquadram-se aí a descoberta das proteínas de choque térmico (heat shock proteins- HSPs) em 1962 por Ferrucio Ritossa, em glândulas salivares de Drosophila, a mosca das frutas. Dessa mesma espécie se iniciou o conhecimento a respeito do papel de receptores semelhantes a Toll (Toll-like receptors – TLRs) na imunidade, descrito pelo grupo de Jules A. Hoffmann em 1996. A compreensão da cascata que leva uma célula à morte celular programada, ou apoptose, foi descrita em detalhes no nematódeo Caenorhabditis elegans nas décadas de 1980 e 1990, conhecimento este que laureou Sydney Brenner, H. Robert Horvitz e John E. Sulston com o Prêmio Nobel em Fisiologia ou Medicina em 2002. Todos esses exemplos ilustram descobertas inicialmente restritas às espécies em que ocorreram, mas que posteriormente foram generalizadas, senão para todos, pelo menos para boa parte dos organismos vivos, com ênfase aos vertebrados.

Não é surpresa, portanto, que genes descritos originalmente em táxons inferiores possuam ortólogos em táxons superiores, ainda mais se os produtos desses genes são responsáveis por funções tão importantes quanto a manutenção do sistema imunológico. Eventuais mutações ou outras alterações estruturais desses genes provavelmente levaram seus portadores à extinção. A verdadeira discussão inicia-se justamente na análise de características que não possuem correspondência entre esses grupos. Nesse sentido, um dos grandes mistérios da imunologia atual é “como a imunidade adaptativa convencional surgiu?”. A ausência dos elementos que caracterizam esse tipo de imunidade (moléculas do complexo principal de histocompatibilidade (MHC), receptor de células T (TCR) e receptor de células B (BCR)) em todas as classes de invertebrados e em vertebrados sem mandíbulas (ex.: lampréias) sempre foi cercada de um grande mistério. Afinal, como um sistema tão complexo e tão bem integrado pode ter evoluído todo de uma só vez, sem deixar vestígios de formas intermediárias em seu processo? De fato, com raras exceções (e muitas adaptações), os mecanismos de processamento e apresentação de antígeno, assim como a maquinaria de recombinação somática que produzem o repertório antigênico de todos os vertebrados mandibulados é essencialmente o mesmo. Até hoje, alguns grupos acreditam que a resposta para essa questão estaria em um grupo de peixes conhecidos como placodermos, extintos há mais de 350 milhões de anos, que seria o elo perdido entre os mandibulados e os não mandibulados atuais apesar dessa relação ser ainda incerta.

Na ausência de representantes modernos desse provável ancestral, os estudos de imunogenética comparativa vêm preenchendo diversas lacunas da história evolutiva do sistema imunológico dos organismos vivos. Além disso, os genomas de diversas espécies estão sendo sequenciados e com isso, cada vez mais peças desse gigantesco quebra cabeça foram encontradas na última década. Os pormenores desses novos achados ficarão para blogs futuros, mas desde já gostaria de indicar leituras interessantes sobre o tema, além dos capítulos de livro citados no início desse texto. A primeira dessas leituras já foi sugerida pelo Bruno Bezerril em blog postado no dia 30 de julho desse ano, já as outras são complementares ao tema. Divirtam-se!!!

Nature Reviews Immunology 10, 543-553 (August 2010) | doi:10.1038/nri2807
Nature Reviews Genetics 11, 47-59 (January 2010) | doi:10.1038/nrg2703
Current Opinion in Immunology 19, 522-525 (October 2007) | doi:10.1016/j.coi.2007.07.013
Immunological Reviews 210, 8-26 (April 2006) | doi: 10.1111/j.0105-2896.2006.00366.x
Immunology Letters 104, 2-17 (April 2006) | doi:10.1016/j.imlet.2005.11.022

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Sugestão de leitura

Fonte: Folha de São Paulo, Caderno Ciência.

Pergunta aos blogueiros: como a opinião abaixo afeta a nossa pesquisa, direta e indiretamente?


Índice | Comunicar Erros

Fomos ingênuos, diz líder em genômica

Para chefe de pesquisa com genoma humano nos EUA, erro da sua área foi prometer avanços médicos rápidos

Dez anos após leitura do genoma humano, mostrar como genes e doenças se relacionam se mostrou complexo

Maggie Bartlett/NHGRI

O cientista Eric Green, especialista em genoma humano

RICARDO MIOTO
DE SÃO PAULO
Um dos grandes líderes da pesquisa com genoma humano no mundo, Eric Green, diretor do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano (EUA), fez, em visita ao Brasil, um mea-culpa pelas promessas não cumpridas do genoma humano.
Dez anos após o sequenciamento ser apresentado, ele reconhece que analisar os dados levantados e relacionar determinados genes a determinadas doenças se mostrou algo difícil de fazer.
"Muitos de nós pensamos que rapidamente entenderíamos como o genoma se relacionava com as doenças, e que muito rapidamente isso mudaria toda a medicina", disse ele à Folha.
"Agora percebemos que há muito mais passos no caminho e que eles vão exigir muito trabalho. O que nós fizemos de maneira ingênua foi talvez prometer que avanços médicos viriam rápido."
É necessário, diz ele, rever a fala do seu colega Francis Collins, na apresentação da sequência do genoma humano, em 2000. Na época, Collins dizia que, em dez anos, testes genéticos diagnosticariam câncer, Alzheimer e diabetes. Não aconteceu.
"Nós realmente acreditávamos nisso. Mas não ter acontecido não significa que exista algo errado com o nosso campo", diz Green, que esteve no Brasil para o Simpósio Avanços em Pesquisas Médicas, da USP.
"Se você olhar para os avanços médicos na história, dificilmente você vai encontrar algo que deixou de ser uma descoberta científica básica e realmente mudou a prática da medicina em uma década", diz o cientista.
"São sempre 20, 30, 40 anos antes de você conseguir isso. Se tivéssemos sido lembrados disso há 10 anos, provavelmente teríamos visto tudo de maneira diferente."
Além das interações entre genoma e doenças terem se mostrado complexas, Green lembra que há uma limitação de recursos humanos.
"Não há gente jovem suficiente treinada tanto em computação quanto em biologia, e precisamos de gente boa nas duas áreas."
Somente gente com essa formação cruzada pode desenvolver maneiras de analisar a imensidade de dados sobre o genoma que já existe.
Essa quantidade de informação tremenda surgiu porque se tornou barato sequenciar trechos do genoma humano -os cientistas ainda estão longe de conseguir transformar tudo isso em algo útil aos hospitais, porém.
O preço baixo fez com que empresas vendessem análises individuais do genoma de quem quiser pagar umas poucas centenas de dólares. Green, porém, acha que pode ser jogar dinheiro fora.
"Algumas pessoas fazem porque são muito paranoicas com a saúde, outras porque têm casos de doença na família, outras porque as análises têm um valor de entretenimento. Pode ser divertido, mas também pode causar confusão. Porque o que você faz com a informação, digamos, de que você tem 3% a mais de chance do que a média de ter hipertensão?"

Projeto “Imunologia nas Escolas”: um caminho pensar ciência nas escolas.

A Imunologia pode ser desafiadora e instigante de muitos jeitos. Não apenas para nós, cientistas e imunologistas. Também pode despertar curiosidade de muitos de fora do mundo da ciência. Lembro-me bem como, Paulo Freire, em pleno exercício exploratório de sua curiosidade, tinha imenso prazer em conversar comigo sobre imunologia. Perguntava sobre como os linfócitos aprendiam, como conversavam com outras células e como tinham memória.
Lembro-me bem do brilho de curiosidade nos seus olhos. Quem sabe podemos despertar novos brilhos na juventude do Brasil?

É um pouco disso que quero falar hoje. Quero falar do projeto educacional que estamos desenvolvendo, em São Paulo, chamado “Imunologia nas Escolas”. Ainda é um projeto piloto, mas já está motivando muita gente. Não só professores e alunos da escola, mas também nossos alunos de pós-graduação e nossos professores. Por isso, acho importante compartilhar com vocês esta desafiadora experiência. Quem sabe, despertamos novas experiências desta natureza e abrimos aqui um espaço para, também, pensarmos e discutirmos como a Imunologia pode ser um caminho para despertar curiosidade pela ciência em nossos jovens.

O “Imunologia nas Escolas” é uma proposta do Instituto de Investigação em Imunologia - Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia - iii-INCT, dentro da Plataforma de Ensino e Interação com a Sociedade. Para quem não sabe, foi uma das exigências do edital para os INCTs, desenvolver propostas de interação com a sociedade. É uma convocação para a ciência abrir as portas à sociedade. Este projeto faz parte de nossas ações no iii.

Começamos, em março deste ano, este projeto piloto, com a Escola Estadual Romeu de Moraes, no bairro da Lapa, em São Paulo. A escola escolheu uma turma de alunos do segundo ano do ensino médio, em geral de 15 a 16 anos. Desde a nossa primeira visita à Escola, a receptividade ao projeto foi muito grande. É uma escola com professores muito motivados e receptivos a novas experiências educacionais. Formamos um grupo de trabalho com integrantes e colaboradores do iii, e professores da escola para, juntos, construirmos as propostas de atividades, avaliando-as e reestruturando-as a cada passo.

Os alunos visitaram o nosso Laboratório de Imunologia no InCor, onde conversamos sobre o que é fazer ciência, fazer ciência no Brasil e sobre imunologia. Também participaram de algumas demonstrações de experimentos simples, conheceram linfócitos e células tronco, em placas de cultura, e conversamos sobre as pesquisas que fazemos e sobre as estratégias para o desenvolvimento de vacinas. Todo o laboratório participou desta atividade.





Desde então, temos desenvolvido atividades mensais, na própria escola, discutindo temas de imunologia de interesse dos alunos, inclusive com aulas práticas no laboratório da escola. Temos também desenvolvido atividades em pequenos grupos, com discussão sobre conceitos estruturantes do tema em questão, e teremos, ainda este ano, um debate sobre AIDS envolvendo toda a escola e familiares. A cada atividade saímos mais motivados com o interesse dos alunos e com o despertar de curiosidades. Imaginem que, a professora de biologia da escola, deu um depoimento que os alunos mudaram de atitude em todas as aulas, desde a primeira visita ao laboratório do InCor. Mais interesse. Mais motivação.

Todo o processo está sendo muito rico para todos nós.
Aprendemos o tempo todo.
Com base nesta experiência piloto, pretendemos ampliar o projeto para outras escolas e envolver mais alunos de pós-graduação e pós-docs da nossa comunidade científica. Se você tem interesse, procure-nos!

É o tipo de projeto que merece ser multiplicado e reinventado criativamente. A bela experiência da Escola do Instituto Internacional de Neurociências de Natal, coordenado pelos cientistas Miguel Nicolelis e Sidarta Ribeiro, é forte testemunha de que a ciência pode despertar curiosidades na juventude, e ser também um instrumento de inclusão social. Nossa modesta experiência também soma forças nesta construção.

Vejam:
1) Blog do Projeto “Imunologia nas Escolas”, criado por aluna de mestrado do iii, integrante do projeto.
http://imunoescolas.blogspot.com/
2) site do iii:
http://www.iii.org.br/
3) Instituto Internacional de Neurociências de Natal:
http://www.natalneuro.org.br/
a escola do instituto:
http://www.natalneuro.org.br/projetos/escola_alfredo.asp

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